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Rizoma. A comunicação comunitária floresce entre as décadas de 1960 e 1980 em países latino-americanos, especialmente no Brasil, como uma resposta política dos atores sociais devido a retirada de direitos, repressão e a censura à liberdade de expressão das minorias etc. Essa resposta parte de demandas específicas, cujas particularidades existentes à época decorrem do golpe de 1964, paradoxalmente, evidencia-se a concentração de informação pelos grandes conglomerados de comunicação no país. Essas demandas possibilitaram interpretá-la como ato político de uma específica parcela da população à sua realidade marcada por injustiças e desigualdades sociais, especialmente no que tange ao acesso à comunicação (SILVA, 2013, p.75).

Floresce no bojo das classes populares iniciativas relacionadas à comunicação comunitária provenientes dos movimentos estudantis, movimentos sociais e do Movimento Eclesial de Base da Igreja Católica (CEB). Estas iniciativas são adotadas com vistas à transformação social e ampliação dos direitos de cidadania e para contribuir com a mobilização dos atores sociais que não tinham o direito de se expressar garantido devido à concentração midiática e como resposta ao silenciamento provocado pela Ditadura Militar.

Christa Berger (2010) ao fazer um levantamento sobre a pesquisa em Comunicação na América Latina afirma que a comunicação popular ao ser pensada sempre teve um posicionamento político.

A introdução do estudo da comunicação popular alterou a pauta da teoria da comunicação: solicitou outras referências teóricas e metodológicas; propiciou um deslocamento do espaço universitário (precisou ir aos bairros populares para pesquisar); deixou de lado a exclusividade de tratar da cultura. A incorporação do popular à teoria da comunicação propiciou rever a

24 Hegemonia, do grego "hegemon", significa líder. Para Antonio Gramsci (1891-1937) o termo serve designar um

tipo particular de dominação. Contra-hegemonia, é um termo originado da teoria gramsciana, mas não por ele criado. Basicamente, contra-hegemonia significa que a luta é contra uma hegemonia estabelecida buscando uma transformação social. E a utilização da expressão comunicação contra-hegemônica segue essa mesma linha de pensamento.

comunicação de massa, estudada em si, para pô-la em perspectiva, em relação (BERGER, 2010, p.264).

Se num primeiro momento Berger (2010) afirma que a comunicação latino-americana foi embasada por um viés político, hoje a partir das reflexões de Foucault, retomadas por Paolo Virno, Hardt e Negri podemos atrelar esse viés político a uma categoria mais ampla de análise do ponto de vista comunicacional, que é a própria noção de biopolítica, cujas explanações serão desenvolvidas no capítulo em que tratamos sobre os movimentos sociais. Outro fator interessante é fazer uma conexão com o bios virtual ou midiático aventado por Sodré (2006).

Os meios alternativos de comunicação na época já amplamente utilizados, após o golpe da Ditadura Militar passam a incorporar as demandas das classes subalternas, convergindo então para a comunicação popular.

Numa conjuntura em que vinha à tona a insatisfação decorrente das precárias condições de existência de uma grande maioria e das restrições à liberdade de expressão pelos meios massivos, criaram-se instrumentos “alternativos” dos sujeitos populares, não sujeitos ao controle governamental ou empresarial direto. Era uma comunicação vinculada à prática de movimentos coletivos, retratando momentos de um processo democrático inerente aos tipos, às formas e aos conteúdos dos veículos, diferentes daqueles da estrutura então dominante, da chamada “grande imprensa”. Nesse patamar, a “nova” comunicação representou um grito, antes sufocado, de denúncia e reinvindicação por transformações, exteriorizado sobretudo em pequenos jornais, boletins, alto-falantes, teatro, folhetos, volantes, vídeos, audiovisuais, faixas, cartazes, pôsteres, cartilhas etc (PERUZZO, 2004, p. 114-115).

Neste contexto, os meios de comunicação comunitários surgem como alternativa a produção de novos sentidos, dando possibilidade àqueles indivíduos historicamente excluídos dos processos comunicacionais em participar por meio de suas próprias falas e reivindicações. Os atores sociais alijados das benesses promovidas pelo desenvolvimento econômico e social encontram-se à margem de tantos recursos indispensáveis para a manutenção da vida, como o direito à moradia, saneamento básico, trabalho digno, educação de qualidade etc. De certo modo, não seria diferente em relação ao direito ao acesso à informação e comunicação. Nessa conjuntura, os meios de comunicação social, especialmente os da grande mídia, são mediadores das relações sociais e produtores de sentidos e aqueles atores sociais que têm garantido o seu lugar de fala nos espaços midiáticos tem mais probabilidade de que suas reivindicações e demandas sejam atendidas pelo poder público.

2.5.3 (Des)apropriações

A comunicação comunitária potencializa a participação em vários níveis, de grupos subalternizados e minorias sociais no desenvolvimento de ações no âmbito local. Conforme já afirmamos em outro momento, ela é feita pela, para e com a comunidade com o objetivo precípuo: o por em comum, de se fazer comunicar num espaço polifônico (SILVA, 2013, p.74). Em outras palavras, ela visa o favorecimento da própria comunidade onde é realizada, em termos de desenvolvimento local, econômico, cultural etc. Prioritariamente, a comunicação comunitária é um instrumento de participação e mobilização, tendo em vista a democratização da comunicação e a transformação social.

É importante contextualizar nosso lugar de fala quando nos referimos a determinados conceitos e apropriações que são feitos deles na prática cotidiana. Partimos do princípio que conceitos são expressões da experiência concreta, ou seja, do ponto de vista das práticas. Então, para balizarmos nossa compreensão acerca deste tema premente para a composição do arcabouço teórico e prático sobre os processos comunicacionais dos movimentos sociais cabe- nos recorrer aos trabalhos que com maestria foram e estão sendo realizados na área. Esses trabalhos, por um lado, dizem respeito a prática concreta da comunicação popular no âmbito dos movimentos sociais e por outro, teorizam sobre a comunicação que ousamos chamar aqui de comunitária, a partir do conceito de comunidade.

À luz das contribuições importantes à temática comunitária, autores como Cicilia Peruzzo, Raquel Paiva e Muniz Sodré ofertam um arcabouço teórico que facilitará o nosso percurso. A ideia que permeia “O Espírito Comum” de Raquel Paiva é a experiência comum que unifica na produção do social a diversidade das relações de sentido a partir das categorias apresentadas por Tönnies. A comunidade debatida por Paiva (2007, p.147) é uma metáfora para a construção de uma nova forma para o laço social, ao qual a autora denomina de comunidade gerativa. O foco, segundo a autora, não é tratar da dicotomia entre comunidade e sociedade como muitos fazem, mas sim buscar um caminho de redescrição das tentativas de produzir comunicação a partir de uma experiência comum, fora dos circuitos do capital. E, a nosso ver, se não há uma forma de escapar desse circuito e estando dentro dele, mas não com ele, pode-se produzir comunicação a partir das armas forjadas no interior das lutas sociais.

A proposta da comunicação comunitária passa necessariamente pela revisão do conceito de comunidade, bem como pela análise da possibilidade de inserção dessa estrutura na atualidade. Cidadania e solidariedade transformaram-se em paradigmas que permitem imaginar uma ordem com

objetivos diferentes da premissa econômica universalizante, esta mesma que pretende instaurar de maneira genérica a globalização. A proposta comunitária surge como uma nova possibilidade de sociabilização, com o propósito de fazer frente ao modelo econômico em que o número dos excluídos parece cada vez mais ampliado (PAIVA, 2003, p. 26).

Jorge Miklos (2014, p.110-11) baseia-se na perspectiva de Paiva (2007) e Peruzzo (2004) para qualificar a sua percepção sobre a comunicação comunitária, popular e alternativa. Miklos (2014) recorre a Peruzzo (2004) quando ela afirma que esse tipo de comunicação expressa as “lutas populares por melhores condições de vida que ocorrem a partir dos movimentos populares e organizações civis comunitárias, e representam um espaço para a participação democrática”. Miklos (2014) também cita a perspectiva comunitária apresentada por Paiva (2007, 137-145) a partir de oito pilares e que também podem ser identificados nas pesquisas de Peruzzo (2004). São eles:

1) A comunicação comunitária constitui uma força contra-hegemônica no campo comunicacional.

2) A comunicação comunitária atua na direção de uma estrutura polifônica. 3) A comunicação comunitária produz novas formas de linguagem.

4) A comunicação comunitária capacita-se para interferir no sistema produtivo.

5) A comunicação comunitária gera uma estrutura mais integrada entre consumidores e produtores de mensagens.

6) A comunicação comunitária atua com o propósito primeiro da educação. 7) A comunicação comunitária pode engendrar novas pesquisas tecnológicas.

8) A comunicação comunitária como lugar propiciador de novas formas de reflexão sobre a comunicação.

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