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Dans le document ActionScript 3.0 Design Patterns (Page 72-77)

CONCEITO DE VIRTUALIDADE

O processo de extensão humana torna-se a cada dia mais eficaz: pode-se estar onde não se está, ver e tocar o que não existe. (Silva, 2004, p.12)

O Virtual (imagem, realidade) é inicialmente um conceito filosófico, apropriado, nos dias de hoje pelo senso comum, no sentido de irreal, ilusório, possível, falso. (Lévy, 1999b)

Ele vem do latim clássico virtus, com o sentido de potência. Pelo latim medieval

virtualis, designa, na filosofia escolástica, o que existe como atributo futuro, como

possibilidade intrínseca do vir-a-ser e não em ato presente. Com este significado, indica uma "existência latente", ainda não atualizada ou concretizada.

A "realidade virtual" tem sido tema de discussão a partir do desenvolvimento das tecnologias eletrônicas, informacionais ou computacionais, que simulam e substituem a realidade corpórea de um ser presente, atual ou concreto, em comunicação e conhecimento a seu respeito.

Dessa maneira, segundo Lévy (1996, ps. 18 e 19),

(...) a virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização (...). Não é uma desrealização (a transformação de uma realidade num conjunto de possibilidades), mas uma mutação de identidade, um deslocamento de gravidade ontológico do objeto considerado: em vez de se definir (...) por sua atualidade (presença aqui e agora), a entidade passa a encontrar sua consistência num campo problemático.

É algo que já se manifesta como realidade nômade, imponderável, ubíqua, ao mesmo tempo determinada e transitória. Está e não está presente, na dependência do acesso que a ele se tenha.

De outro ponto de vista, distingue-se o virtual pela diferença de uso ou apropriação. O consumo de um bem "real" é único, inequívoco ou exclusivo. Nos fenômenos

virtuais, informativos ou comunicativos, o que acontece é a abertura de possibilidades múltiplas e simultâneas que se atualizam em uma rede de seqüências, em outros lugares ou territórios.

Os operadores mais desterritorializados, mais desatrelados de um enraizamento espacio-temporal preciso, os coletivos mais virtualizados e virtualizantes do mundo contemporâneo são os da tecnociência, das finanças e dos meios de comunicação. São também os que estruturam a realidade social com mais força, e até com mais violência. (Lévy, 1996, p.21)

Ao lado do real, do potencial e do atual, o conceito de “virtual” forma o “quadrívio ontológico”, onde todo o ser engendra estes quatros estados. O real é como o ser se apresenta, o potencial é formado pelo o que vir a ser. Já o atual é como o ser está no momento e o virtual, o nó de tendências ontológicas não definidas. (Lévy, 1996)

Para Pierre Lévy, o virtual assume vários sentidos (Lévy, 1999b, p.74):

• No senso comum é falso, ilusório, irreal e imaginário;

• No sentido filosófico é um estado do ente que existe em potência e não

em ato, como por exemplo, a árvore que há numa semente, e se opõe à atualidade e não à realidade. O oposto da realidade, por sua vez, é o possível, estado finito e determinado do vir a ser;

• No sentido da possibilidade de cálculo computacional, o virtual é um

universo de possíveis calculáveis a partir de um modelo digital e de entradas fornecidas por um usuário. Observa-se que o virtual do cálculo computacional equivale ao possível do sentido filosófico. Sistemas de hipertexto, bancos de dados e simulações interativas são virtuais nesse sentido;

• No sentido dispositivo informacional, o virtual é determinado a partir da

mensagem, que é um espaço de interação por proximidade dentro do qual o explorador pode controlar diretamente um representante de si mesmo. Pode ser exemplificado através dos videogames, dos simuladores de vôo, etc.;

• Uma última categoria relativa ao “virtual” é a definição da realidade

interação sensório-motora com um modelo computacional, através de datagloves e datasuits34.Esta virtualidade tecnológica, segundo Lévy

(1996), é também a que possibilita a constituição de coletivos inteligentes.

Jean Baudrillard, opostamente ao pensamento otimista de Pierre Lévy, acredita, que,

(...) a virtualidade aproxima-se da felicidade somente por eliminar sub- repticiamente a referência das coisas. Dá tudo, mas sutilmente. Ao mesmo tempo, tudo esconde. O sujeito realiza-se perfeitamente aí, mas quando está perfeitamente realizado, torna-se de modo automático, objeto; instala-se o pânico. (Baudrillard, 1997, p. 149)

Pierre Lévy (1996, ps. 15 e 16) possui uma outra visão sobre a virtualidade e rejeita a polarização do que é virtual e do que é real, trabalhando com a diferenciação entre o real e o possível e entre o atual e o virtual:

(...) Aqui, cabe introduzir uma distinção capital entre possível e virtual que Gilles Deleuze trouxe à luz em Differénce et repetition. O possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. O possível se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em sua natureza. É um real fantasmático, latente. O possível é exatamente como o real: só lhe falta a existência. A realização de um possível não é uma criação, no sentido pleno do termo, pois a criação implica também a produção inovadora de uma idéia ou de uma forma. A diferença entre possível e real é, portanto, puramente lógica.

Lévy (1996, p.16) considera que o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual, conforme trecho extraído de sua obra:

(...) Contrariamente ao possível, estático e já constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: (...) A atualização aparece então como a solução de um problema, uma solução que não estava contida previamente no enunciado. A atualização é criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e de finalidades.

34 DataGlove é uma luva que incorpora sensores de movimentação dos dedos e de posicionamento absoluto

da mão no espaço e DataSuits são roupas interativas, para todo o corpo, ambas são utilizadas em programas de realidade virtual, com o intuito de permitir maior sensibilidade por parte do usuário

Lévy não pensa o virtual como um confronto direto com o real: estabelece relações entre o virtual e o atual. O virtual é a concretização da capacidade criativa presente no atual. O real é a concretização do que já é possível.

Segundo Baudrillard (1997, ps. 71 e 72):

Não podemos nem imaginar o quanto o virtual já transformou, como que por antecipação, todas as representações que temos do mundo. Não podemos imaginá-lo, pois o virtual caracteriza-se por não somente eliminar a realidade, mas também a imaginação do real, do político, do social – não somente a realidade do tempo, mas a imaginação do passado e do futuro (a isso chamamos, em função de uma espécie de humor negro, de” tempo real “). Estamos, assim, muito longe de ter compreendido a ocorrência do fim do desenrolar da história com a entrada em cena da informação, do fim do pensamento com a entrada em cena da inteligência artificial, etc. (...) O negacionismo é portanto absurdo na sua própria lógica, mas esclarece pelo próprio absurdo a irrupção de outra dimensão –paradoxalmente chamada tempo real, mas onde precisamente a realidade objetiva desaparece, não somente a do acontecimento presente, mas também a do acontecimento passado e futuro. (...) O tempo real é um gênero de buraco negro onde nada penetra sem ser esvaziado de sua substância (...).

Pierre Lévy (1996) interpreta, ainda, o virtual como o exercício da criatividade e a garantia da permanência dos processos comunicacionais. Para ele é a criação de novos sentidos - a virtualização seria uma característica da própria comunicação (da linguagem), estando presente desde o momento em que a humanidade passou a produzir textos.

Em sua obra, Tecnologias da Inteligência (1993), Lévy inicia seu texto discutindo o próprio conceito de comunicação. Utilizando explicitamente a metáfora do hipertexto. Critica as teorias semióticas e cibernéticas da comunicação como concepções lingüísticas e comunicacionais que dissociam o discurso da ação. Defende a idéia de que a comunicação e ação são indissociáveis. A comunicação, em última instância, visa construir um sentido à ação.

O autor aborda o processo comunicacional como uma metáfora do hipertexto. O sentido da ação está permanentemente em disputa, de forma fragmentada: "Os atores da comunicação - diz ele - produzem, portanto, continuamente o universo de sentido que os une ou que os separa". (Lévy, 1993, p.23)

Lévy (1993) desenvolve a tese de que as formas de relações comunicacionais têm na informática uma nova base. Esta "tecnologia da inteligência", segundo ele, nega e integra

as características da oralidade, da escrita, da impressão. A informática, por isso, constrói uma nova "ecologia cognitiva"35.

Pierre Lévy desenvolve a hipótese de que o formato dos meios midiáticos, as tecnologias intelectuais, os tipos de linguagens e mesmo os métodos adotados de trabalho em uma época específica, tendem a condicionar a maneira de pensar, agir e funcionar de um grupo.

Segundo sua hipótese, a inserção no “processo sociotécnico" se constitui num espaço privilegiado de construção da realidade social, especialmente na medida em que nele se definem os ambientes cognitivos e comunicacionais, estabelecendo uma correlação entre tecnologias intelectuais e formas de estruturação comunicacional e do conhecimento. O autor se refere, basicamente, à oralidade (primária), à escrita e à informática.

Estas tecnologias intelectuais condicionam as figuras da temporalidade, as relações entre o tempo e a ação, os efeitos práticos da comunicação, a relação indivíduo- memória social, as formas de saber e os critérios de avaliação social.

É importante ressaltar que cada uma das tais tecnologias (oral, escrita e informática) constitui pólos de importância em épocas determinadas. Segundo Lévy, a existência de uma nova tecnologia não elimina a outra. "A cada instante e a cada lugar os três pólos estão sempre presentes, mas com intensidade variável", diz o autor (1993, p. 126)

Na fase da oralidade, os atores sociais compartilham do mesmo contexto, o que se constitui na base de uma construção hipertextual individual mergulhada nas circunstâncias específicas. Fora das pessoas, não há memória social. Por isso, a narrativa e o mito são formas de saber. A conservação é um critério social dominante.

A escrita, que Lévy associa às necessidades de controle do estado e da política - separa o sujeito do meio de comunicação. A atribuição de sentido também se autonomiza

35 A ecologia cognitiva constitui um espaço de agenciamentos, de pautas interativas, de relações

constitutivas, no qual se definem e redefinem as possibilidades cognitivas individuais, institucionais e técnicas. É nesse espaço de agenciamentos que são conservadas ou geradas modalidades de conhecer, de formas de pensar, de tecnologias e de modos institucionais de conhecimento. A geração de um novo instrumento de conhecimento, que pode ser definido como uma tecnologia intelectual, possibilita, como diz Piaget (1982), do ponto de vista instrumental, construir relações e correspondências novas. São

frente à interpretação imediata do sujeito. Com a escrita surge a possibilidade de constituição dos sistemas teóricos e, ao mesmo tempo, de ampliação da memória social. Neste sentido, a racionalidade moderna é indissociável do surgimento da escrita como tecnologia de inteligência. A memória social está semi-objetivada no escrito.

A informática passa a ser compreendida também como uma nova tecnologia da inteligência. É um meio de massa para a criação, comunicação e simulação do conhecimento. Para Lévy isto não implica que haja uma essência imutável dos computadores. Pelo contrário, são produtos de uma conexão impensados, imprevisíveis, criadores de novas interfaces entre artefatos preexistentes e refundidos em nova estética tecnológica.

A nova escrita hipertextual ou multimídia estará mais próxima da montagem de um espetáculo do que da redação clássica, na qual o autor apenas se preocupava com a coerência de um texto linear e estático. (Lévy, 1993, p.146)

A perspectiva é de que tais meios de informação venham, segundo Lévy (1993), a unificar o campo da comunicação. Televisão, cinema, imprensa escrita, informática e telecomunicações.

(...) veriam suas fronteiras se dissolverem quase que totalmente, em proveito da circulação, da mestiçagem e da metamorfose das interfaces em um mesmo território cosmopolita. (Lévy, 1993, p.113)

Para Lévy (1996, p.11), a comunicação virtual é um elemento de um processo que abrange toda a vida social:

Um movimento geral de virtualização afeta hoje não apenas a informação e a comunicação, mas também os corpos, o funcionamento econômico, os quadros coletivos da sensibilidade ou o exercício da inteligência. A virtualização atinge mesmo as modalidades do estar junto, a constituição do “nós”: comunidades virtuais, empresas virtuais, democracia virtual... Embora a digitalização das mensagens e a extensão do ciberespaço desempenhem um papel capital na mutação em curso, trata-se de uma onda de fundo que ultrapassa amplamente a informatização.

propriamente estas relações que, ao transformar os objetos e os sujeitos do conhecimento, reconfiguram as bases da ecologia cognitiva.

Baudrillard (1997, ps. 24 e 25) interpreta a expansão da comunicação virtual como um elemento da implosão do social:

(...) A extensão incondicional do virtual (que não inclui somente as novas imagens ou a simulação da distância, mas todo o cyberespaço da geofinança (Ignacio Ramonet) e o da multimídia e das auto-estradas da informação) determina a desertificação sem precedentes do espaço real e de tudo o que nos cerca (...) Anulação da paisagem, desertificação do território, abolição das distinções reais.. (...) Podemos nos perguntar de resto se já não ultrapassamos esse limiar (do fenômeno da massa crítica) e se a catástrofe da informação já não ocorreu, na medida em que a profusão multimidiática de dados se auto-anula e que o balanço em termos de substância objetiva da informação já é negativo. Há um precedente com o social: o patamar da massa social crítica já está amplamente ultrapassado com a expansão populacional, das redes de controle, de socialização, de comunicação, de interatividade, com a extrapolação do social-total – provocando desde agora a implosão da esfera real do social e de seu conceito. Quando tudo é social, súbito nada mais o é.

A comunicação virtual, ao potencializar a produção e circulação de mensagens (informação), anularia o próprio processo comunicacional, entendido como transmissão e absorção de conteúdos. A comunicação é um elemento decisivo do projeto da modernidade de instauração do social (controle racional dos comportamentos sociais):

Em toda parte é suposto que a informação produz uma circulação acelerada do sentido, uma mais-valia de sentido homólogo à mais-valia econômica que provém da rotação acelerada do capital. A informação é dada como criadora de comunicação (...) Somos todos cúmplices deste mito. É o alfa e o ômega da nossa modernidade, sem o qual a credibilidade da nossa organização social se afundaria. Ora o fato é que ela se afunda, e por este mesmo motivo. Pois onde pensamos que a informação produz sentido, é o oposto que se verifica.(...) Assim a informação dissolve o sentido e dissolve o social numa espécie de nebulosa voltada, não de todo a um aumento de inovação mas, muito pelo contrário, à entropia total. Assim, os media são produtores não da socialização mas do seu contrário, da implosão do social nas massas. (Baudrillard, 1991, p. 104, 106)

Na concepção de Baudrillard, acontece uma ruptura do processo comunicacional, pois leva às últimas conseqüências o seu caráter autodestrutivo. O virtual potencializou a natureza artificial, simulacional, hiper-real (mais “real do que o real”), do processo comunicacional.

Segundo Baudrillard (1997, p.149), a “(...) atração das máquinas virtuais origina- se, sem dúvida, menos na sede de informação, do que no desejo de desaparecimento e na possibilidade da dissolução numa convivalidade fantasma”.

O questionamento crítico da interpretação da comunicação virtual desenvolvida por Baudrillard pode contribuir para uma melhor compreensão dos processos comunicacionais. As diferenças sociais reais (de idade, de gênero, de etnia, de classe social, etc) continuam a existir e não correspondem à imagem destas diferenças transmitidas pelos vários meios de comunicação, por mais sofisticados que sejam os recursos tecnológicos.

A atual comunicação informatizada significa uma mutação no processo de criação de novos sentidos, pois esta capacidade humana expandiu-se enormemente, modificando-se também qualitativamente, se pensarmos pelo lado da interatividade. Nicholas Negroponte (1995, p.22), em sua obra “A Vida Digital”, destaca ainda, que o processo de comunicação utilizando mídias e multimídias digitais, passa a ter componentes que auxiliam na diminuição de ruídos, proporcionando uma melhoria da qualidade do sinal e conseqüentemente do processo comunicacional:

Ser digital significa a possibilidade de emitir um sinal contendo informação adicional para a correção de erros como a estática do telefone, o chiado do rádio ou o chuvisco da televisão. Tais inconvenientes podem ser removidos do sinal digital com o auxílio de uns poucos bits extras colaboradores em técnicas cada vez mais sofisticadas de correção de erros, técnicas estas aplicadas a uma ou outra forma de ruído, neste ou naquele veículo. No seu CD, um terço dos bits são utilizados para correção de erros. Técnicas semelhantes podem ser empregadas na televisão atual, de modo que cada casa receba uma transmissão com qualidade de estúdio.

Negroponte (1995) caracteriza a hipermídia como uma coletânea de mensagens elásticas que podem ser esticadas ou encolhidas de acordo com as ações do leitor, que inclusive pode abrir e analisar as idéias com múltiplos níveis de detalhamento.

Lévy (1996, p.39) complementa em sua obra “O que é Virtual” que:

O texto contemporâneo, alimentando correspondências online e conferências eletrônicas, correndo em redes, fluido, desterritorializado, mergulhado no meio oceânico do ciberespaço, esse texto dinâmico reconstitui, mas de outro modo e numa escala infinitamente superior, a co-presença da mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral. De novo os critérios mudam. Reaproximam-se daqueles do diálogo ou da conversação: pertinência em função do momento, dos leitores e dos lugares virtuais; brevidade, graças à possibilidade de apontar imediatamente as referências; eficiência, pois prestar serviço ao leitor (e em particular ajudá-lo a navegar) é o melhor meio de ser reconhecido sob o dilúvio informacional.

O autor interpreta a produção e circulação de mensagens no interior das redes de computadores como um elemento–chave de uma sociedade em mutação. A virtualização passa a ser um processo articulador de toda a vida social, marcada cada vez mais pela ruptura dos limites espaço-temporais. A desterritorialização é o aspecto central da contemporaneidade.

Pierre Lévy (1996) caracteriza a contemporaneidade como um momento de mutação do processo de hominização (autocriação da espécie humana), sendo o desenvolvimento da linguagem um aspecto essencial deste processo. Baudrillard (1991) defende o ponto de vista de que vivemos o fim da era moderna e do projeto de uma comunicação racional (predomínio da absorção dos conteúdos sobre a valorização das formas):

A economia contemporânea é uma economia da desterritorialização ou da virtualização. (...) O comércio e a distribuição, por sua vez, fazem viajar signos e coisas. Os meios de comunicação eletrônicos e digitais não substituíram o transporte físico, muito pelo contrário: comunicação e transporte fazem parte da mesma onda de virtualização geral. (Lévy, 1996, p. 51)

De acordo com Lévy (1996), a desterritorialização está vinculada a financeirização da economia e à transformação da informação e do conhecimento nas principais fontes de produção de riqueza:

O setor financeiro, coração pulsante da economia mundial, é sem dúvida uma das atividades mais características da escalada da virtualização. A moeda, que é à base das finanças, dessincronizou e deslocalizou em grande escala o trabalho, a transação comercial e o consumo, que por muito tempo intervieram nas mesmas unidades de tempo e lugar. (...) As finanças internacionais desenvolvem-se em estreita simbiose com as redes e as tecnologias de suporte digital. Elas tendem a uma espécie de inteligência coletiva distribuída para a qual o dinheiro e a informação progressivamente se equivalem.(...) A informação e o conhecimento, de fato, são doravante as principais fontes de riqueza. (Lévy, 1996, ps. 52, 53, 54)

Enquanto Baudrillard (1991) contrapõe a imagem de um universo que se contrai, um universo que implodiu, Lévy (1996), caracteriza a articulação entre a circulação de bens materiais e a circulação de mensagens como o motor da expansão do universo social contemporâneo, Baudrillard (1997) entende que esta articulação gerou um esvaziamento da realidade, pois não somos mais capazes de distinguir o real do imaginário. A comunicação

virtual, segundo ele, fragmenta o espaço urbano ao desintegrar as funções sociais; sendo responsável, também, pela compressão absoluta do tempo. Para Baudrillard (1997), o virtual é o reino da indiferença, isto é, do esvaziamento da capacidade de se estabelecer diferenças. A circulação de mensagens em tempo real não significaria, como interpreta Lévy, o crescimento da produção de informação e conhecimento, mas a inviabilização da possibilidade desta produção. Como avaliar se uma mensagem é um acréscimo ao conhecimento/informação existentes, se com o tempo real a temporalidade (a diferença entre passado, presente e futuro) deixa de fazer sentido?

No pensamento de Lévy (1996) existe a possibilidade real da produção de informação/conhecimento, ao contrário do que afirma Baudrillard. O autor afirma ainda, que o crescimento trazido pela comunicação virtual através da quantidade de mensagens que circulam socialmente, é responsável pela existência da era da abundância (inclusive econômica). A virtualização da sociedade significaria a plena utilização da criatividade humana: não se trata, assim, nem do fim da história, nem do fim da comunicação e nem do fim do pensamento.

Como reconhece Lévy (1996), a produção e circulação do conhecimento/informação é um processo social. Mas as relações sociais não são homogêneas, são marcadas pela existência de relações de poder. Os sujeitos sociais não participam em igualdade de condições: há os que possuem o poder de definir socialmente o que deve ser

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