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Por teologia ecumênica das religiões, entende-se ser algo que não inclui apenas, ou tão somente, a união das igrejas cristãs, “que é elemento importantíssimo, motivador e determinante do princípio ecumênico, mas também todos os esforços de promoção da vida e da justiça e as aproximações de diferentes pessoas e grupos de religiões distintas” (RIBEIRO; CUNHA, 2013, p. 34). Com isso, o foco da teologia ecumênica das religiões está dado, ou seja, uma ecumenicidade teológica que abarca expressões religiosas na sua condição de religião, portanto, dotadas de qualidades e desafios, assim como no cristianismo. Para uma teologia ecumênica das religiões ser possível, pressupõe, necessariamente, o diálogo inter-religioso, corolário desta. Por essa razão, o “grande desafio para a prática ecumênica é o fortalecimento de uma teologia das religiões” o que, por sua vez, “depende diretamente do diálogo inter-religioso” (RIBEIRO; CUNHA, 2013, p. 46). Essa percepção, teologia das religiões e diálogo inter-religioso, se encontra na pauta do cristianismo latino-americano e, de modo particular, no protestantismo ecumênico-progressista. Principalmente quando tomamos conhecimento que, quando o

cristianismo chegou na América Latina, não houve “diálogo entre religiões, mas ‘colonização de almas’, com a conseguinte degradação ou, pior ainda, demonização dos sistemas religiosos autóctones” (FORNET-BETANCOURT, 2007, p. 22). Por essas razões, uma teologia ecumênica das religiões precisa olhar o contexto religioso-cultural a fim de propor uma concepção teológica que procure acolher as expressões religiosas e, com isso, favorecer o diálogo, a partir do momento em que se entende como participante desse universo religioso plural. Quando isso acontece, os desafios são enormes, exigindo o máximo de empenho, reflexão e práxis. O momento atual passa por significativas transformações, e as religiões não estão isentas de uma participação efetiva nesses processos. O absenteísmo não se coaduna com a conduta cristã que traz na sua gênese a dimensão profética. O cenário é de extrema urgência com as mudanças que o continente vem enfrentando, decorrentes do atual momento mundial: “A globalização da economia, acompanhada da exclusão de enormes contingentes do processo produtivo; a degradação do meio ambiente; o crescimento da violência” (RIBEIRO; CUNHA, 2013, p. 55). Além dessas demandas estruturais que provocam uma reflexão e uma resposta (o que fazer?), pesa ainda as diferentes respostas religiosas no continente, incluindo “o fortalecimento de propostas religiosas de caráter individualista, intimista, verticalista ou sectário” (RIBEIRO; CUNHA, 2013, p. 55). O contexto fica mais complicador ainda, quando é patente “uma série de obstáculos para o exercício da cidadania. Além da realidade política e econômica de exclusão, não obstante aos avanços sociais, está o desenvolvimento de uma cultura da violência” (RIBEIRO; CUNHA, 2013, p. 55). É a partir desse cenário, um tanto desolador, mas, ao mesmo tempo desafiador, que uma reflexão teológica que tenha as religiões como fio condutor se faz necessária. O ponto é atentar para essas questões com perspectivas de abertura a fim de encontrar convergências na pluralidade religiosa com suas devidas linguagens. Não se espera, de maneira ufanista ou ingênua, que as religiões, com suas idiossincrasias e desafios internos, quando em diálogo e perspectiva teológica propositiva, resolva os problemas da sociedade. Antes, as religiões são palco de interações e, por terem uma matriz comum em relação ao sagrado, agregam pessoas com diferentes perspectivas diante de problemas comuns.

Para Claudio de Oliveira Ribeiro (2014, p. 15), uma teologia ecumênica das religiões tem “como eixo articulador a preocupação pela paz, pela justiça e pela integridade da criação”, ou seja, o autor está apontando o real objetivo de uma reflexão teológica que leve em consideração as demais religiões. A sua perspectiva está centrada

no aspecto pluralista, do qual ele trata como um princípio (uma referência à Paul Tillich, quando este desenvolveu o princípio protestante).66 Por “princípio pluralista”, o autor

entende que há uma maneira de observar a sociedade na sua pluralidade, não sendo possível enxergar a dinâmica religiosa, política, cultural e social de maneira compartimentada, mas dentro de um processo sinérgico, com as devidas proporcionalidades. O princípio pluralista, nesse sentido, supera alguns interditos, sejam eles doutrinários ou institucionais, porque se configura como um fator pertinente de observação de uma determinada dimensão religiosa. Para Ribeiro (2017, p. 13), “o

princípio pluralista, contempla tal perspectiva ecumênica, valorativa do diálogo e das

aproximações inter-religiosas, mas é mais amplo, uma vez que também se constitui em instrumento de avaliação da realidade social e cultural, sobretudo para melhor compreensão das diferenças, religiosas ou não”. É neste sentido que é possível haver recepção da dimensão plural da religião, uma vez que os elementos para uma visão pluralista estão dados, quais sejam: “Alteridade, respeito à diferença e o diálogo e a cooperação prática e ética em torno da busca da justiça e do bem comum” (RIBEIRO, 2014, p. 16).

É dentro dessas considerações, que é possível pensar uma teologia das religiões,67

focando na perspectiva ecumênica protestante latino-americana, trilhando, portanto, um caminho que já foi aberto com o movimento ecumênico. Conscientes das dificuldades teológicas inerentes ao cristianismo protestante que, por parte de alguns autores, não atentou, com a devida consideração, para a realidade plural das religiões,68 antes houve

quem considerasse “o cristianismo como a melhor religião (Schleiermacher) ou como a fé verdadeira para além da religião (Barth)” (ROUNER, 1986, p. 117). Posturas como essas não se sustentam mais dentro de uma realidade de pluralismo religioso, o que não

      

66 “O protestantismo tem um princípio situado além de suas realizações. É a força crítica e dinâmica presente em todos os feitos protestantes, sem se identificar com nenhum deles. Não se encerra numa definição. Não se esgota em nenhuma relação histórica; não se identifica com a estrutura da Reforma, nem do cristianismo primitivo, nem mesmo com formas religiosas” (TILLICH, 1992, p. 183).

67 “As conferências de diálogo entre religiões são proveitosas do ponto de vista social e cultural, mas ainda não fecundas do ponto de vista teológico. Mais interessante é o esforço de alguns pensadores protestantes, individualmente, no sentido de forjar uma teologia das religiões” (ROUNER, 1986, p. 117).

68 “Karl Barth (1886-1968), com base nas devastadoras experiências feitas no nazismo na Alemanha e seu caráter quase-religioso, chegou a ver a religião como nada mais do que uma fútil procura humana que não pode chegar a Deus, pois seria nada mais do que a construção autônoma de uma imagem de Deus diante da qual o ser humano tentar-se-ia justificar e santificar a si mesmo [...]. Desta forma, Barth conseguiu bloquear a discussão sobre religião nos meios protestantes ocidentais por várias décadas” (SINNER, 2007, p. 120).

significa, também, aceitar um certo relativismo religioso pela via cultural, eximindo as religiões, com isso, de críticas.

Uma vez que o movimento ecumênico protestante de vertente ecumênico- progressista na América Latina, sinalizou a necessidade de haver a continuidade de uma reflexão teológica que levasse em consideração as demais religiões, em suas características e potencialidades, é notória a lacuna de tais reflexões. Ainda há um longo caminho a ser percorrido. O legado do movimento ecumênico precisa ser valorizado, mas também precisa ser ampliado. Dentro dessa preocupação em valorizar o caminho aberto pelo movimento ecumênico, que Claudio de Oliveira Ribeiro vem propondo uma reflexão teológica que soma ecumenismo com teologia das religiões. O seu esforço se dá em articular autores de diferentes tradições, mas principalmente católicos e protestantes, como também religiões indígenas e de matriz africana. Ainda assim, é escassa a produção dentro dessa proposta, havendo a necessidade de articular com outras vozes que compartilham do espírito ecumênico que alimentou a reflexão teológica e a práxis latino- americana e, além disso, acolha as experiências religiosas dentro das suas verdades e compromisso com a vida.

O contexto latino-americano é plural em termos de religiões. Há expressões variadas de experiências religiosas que envolvem religiões de matriz africana, bem como indígenas, dentre outros movimentos religiosos autóctones. Portanto, é preciso destacar posturas teológicas que leve em consideração temas como a paz, a dignidade da vida, a justiça social e a ecologia. Uma teologia protestante ecumênica das religiões tem condições de perseguir essa agenda. Uma proposta teológica que não tenha como ponto de partida temas comuns à vida, não tem o que dizer em um contexto plural, em que a diversidade é marca indelével. Esse mesmo contexto plural e diverso, favorece, também, integrismo e fundamentalismo. Por isso, é necessário um discurso e uma práxis que tenha no seu horizonte leituras que contemplem a complexidade da vida e suas demandas. Uma teologia protestante ecumênica das religiões tem como foco “o valor do humano e da ética social para o diálogo inter-religioso; as possibilidades de uma unidade aberta, convidativa e integradora no âmbito das religiões” (RIBEIRO, 2014, p. 15). São essas características que precisam estar presentes quando uma proposta de teologia protestante ecumênica das religiões estiver em curso. No nosso entendimento, não cabem mais posturas intolerantes e fechadas em torno de temas e ações que não contribuem para um “outro mundo possível”. Serão bem-vindas teologias que pensem a partir da alteridade, do respeito ao

diferente, onde o diálogo e a cooperação tenha como ponte (problema) comum a “busca da justiça e do bem comum” (RIBEIRO, 2014, p. 16). Se aceitarmos o fato de que “as grandes questões que afetam a humanidade e toda a criação requerem, por suposto, indicações teológicas consistentes”, uma vez que são grandes e desafiadores os temas como a paz e a justiça, “são necessários eixos norteadores para que a reflexão teológica possua uma abrangência capaz de ser relevante diante dos desafios que a sociedade apresenta” (RIBEIRO, 2014, p. 57). Uma reflexão teológica engajada nesse contexto, tem a possibilidade de contribuir para caminhos de paz e justiça. Uma teologia protestante ecumênica das religiões precisa articular essas preocupações com o que ela tem à oferecer em termos de aportes teológicos.

Diferente do catolicismo, o protestantismo não tem nos concílios e documentos oficiais diretrizes para uma teologia das religiões e parâmetros para o diálogo inter- religioso. A pluralidade é uma marca do protestantismo desde a sua gênese, embora sempre houve tentativas de cercear a liberdade e tutelar a interpretação. Não tendo, a rigor, um canal específico e definitivo de indicações, o protestantismo tem possibilidades de construções teológicas por não ser “refém” de uma ortodoxia enrijecida pela tradição, em tese.

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