2.4 Scheduling in Multi-Job Systems
2.4.1 User and System State
O processo de urbanização do continente europeu experimentou um vertiginoso crescimento estimulado pelo triunfo da economia capitalista industrial, no século XIX, que pode ser expresso pela demografia do período. Por volta de 1851, Paris contava com, aproximadamente, um milhão de habitantes e Londres dois milhões e meio, trinta anos depois as respectivas cidades alcançariam dois e quatro milhões. Berlim, a capital alemã, no ano de 1849, tinha uma população de trezentos e setenta e oito mil habitantes, passando a quase um milhão em 1875. Em Viena eram quatrocentos mil habitantes no ano de 1846, totalizando setecentos mil em 1880. Nos primeiros trinta anos do século XIX, Manchester viu a sua população ser multiplicada por três (PECHMAN; FRITSCH, 1985).
O crescimento acelerado das cidades mais importantes da Europa teve como conseqüência um fenômeno que se tornou praticamente universal naquele continente: o adensamento urbano caracterizado pela alta concentração populacional dos bairros mais antigos e das vilas operárias surgidas ao derredor das fábricas, em espaços periféricos aos centros urbanos. O
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vertiginoso crescimento urbano foi acompanhado de um quadro de degradação do ambiente que levou Friedrich Engels, em 1845, denunciar as péssimas condições de vida e trabalho da classe operária inglesa a partir da observação da cidade de Manchester, espelho da precariedade urbana, em meados do século XIX na Europa.
É difícil imaginar a mistura desordenada das casas, escarnecendo de qualquer urbanística racional, o seu apinhamento, de tal ordem que se encontram literalmente em cima umas das outras. E a culpa não é somente imputável aos edifícios sobreviventes dos velhos tempos de Manchester: em tempos mais recentes a confusão foi levada ao máximo, pois onde quer que houvesse um bocadinho de espaço entre as construções da época precedente continuou a construir e a remendar, até arrebatar entre as casas a última unha de terreno livre susceptível de ser utilizado [...].
[...] Ao longo do rio estão ainda intercaladas fábricas: também aqui as construções são, portanto, apertadas e desordenadas, tal como na parte inferior de Long Millgate. À direita e à esquerda, uma quantidade de passagens cobertas conduz da rua principal aos numerosos pátios, nos quais se depara com uma revoltante imundície que não tem igual, particularmente nos pátios virados ao Irk, que contêm as mais horrendas habitações que eu alguma vez vira [...].
O primeiro pátio [...] durante a cólera encontrava-se em condições tais que a polícia sanitária teve de o desimpedir, limpar e desinfetar com cloro (ENGELS apud BENEVOLO, 1994:37-40).
A insalubridade dos espaços urbanos tornou-se uma das questões mais prementes em meados do século XIX, demandando ao poder público, dos diversos países europeus, enfrentamento e solução. Como demonstra os dados para algumas cidades inglesas, em Birmingham, de cada mil habitantes o coeficiente de mortalidade se eleva de 14,6 para 17,2; em Bristol, de 16,9 para 31; em Liverpool, de 21 para 34,8; e em Manchester, de 30,2 para 33,8 (PECHMAN; FRITSCH, 1985).
As várias epidemias vivenciadas pelas cidades européias, além de colocar em risco real as economias e o desenvolvimento dos mais importantes centros urbanos do mundo, punham em cheque os cultuados paradigmas burgueses, que davam suporte ao capitalismo industrial: a ciência e o progresso. Portanto, de um real e concreto problema a ser enfrentado, a higienização passa a se constituir em um dos principais instrumentos ideológicos que viria, não somente justificar o radical processo de modernização urbana, mas também validar e legitimar as ações mais torpes praticadas contra uma imensa população desprovida de todo e qualquer amparo.
Visualizar a estreita correlação entre o espaço construído e a precariedade das condições sanitárias foi apenas uma questão de tempo. Em decorrência dessa lógica, a legislação urbanística passou a incorporar não somente as preocupações do momento, mas gerar alternativas às questões de higienização das cidades, como também açambarcar os demais
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desejos e necessidades da época que se definia pela trilogia: higiene, embelezamento e racionalização do espaço.
A descoberta de que a insalubridade estava por detrás da crise que se desenhava nas cidades em franco processo de crescimento iria levar à fundação da urbanística moderna. A higienização das cidades demandava a adoção de medidas tão amplas em seu tecido urbanístico que, no fim e ao cabo, saneá-las acabava por significar reformá-las em toda a sua amplitude. Livrar as cidades do fantasma das doenças era empresa que transcendia a competência do médico sanitarista. Tratava-se, em verdade, de replanejar as cidades, de escorá-las em novos fundamentos, de submetê- las a novas formas de organização (PECHMAN; FRITSCH, 1985:142).
Como exposto, podemos então dizer que eram três os principais ideais que se faziam manifestos no processo de remodelação urbana das cidades européias, em especial de Paris: higienização, embelezamento e racionalização (BENJAMIN, 1985). Desta maneira, a capital francesa, com a adoção de uma concepção urbanística nunca antes experimentada, se transformou no símbolo do ideal urbano.
Poderíamos, contudo, contra-argumentar que Londres era também metrópole, tal como Paris do século XIX, ou ainda, que tais contrastes e transformações do espaço e das socialidades urbanas estavam também ocorrendo em outras cidades européias de porte. Entendemos, todavia, que se Paris se constituiu no paradigma da cidade moderna, metonímia da modernidade urbana, isso se deve, em grande parte, à força das representações construídas sobre a cidade, seja sob a forma de uma vasta produção literária, seja pela projeção urbanística dos seus projetos, personificados no que se chamaria o haussmanismo (PESAVENTO, 2002:31).
Os ideais que se constituíam nos novos atributos da metrópole moderna deveriam torná-la: limpa e saneada, para livre se fazer das pestes e epidemias comprometedoras do desenvolvimento; bela e deslumbrante, para se constituir num jogo de espelhos a refletir tanto a realidade concreta quanto os símbolos e valores do ideário de modernidade; e, por fim, lógica e racional, de forma a criar uma estrutura retificadora do traçado das vias no intuito de promover a circulação do que se valorizava – o ar e a água, bens e capitais, homens e mercadorias –, bem como, descartar o que tanto se temia e desprezava. Conforme preconiza Hobsbawm (1996), para os planejadores de cidades, os pobres representavam uma ameaça pública, suas concentrações potencialmente capazes de se desenvolver em distúrbios deveriam ser cortadas por avenidas e bulevares, que levariam os pobres dos bairros populosos a procurar habitações em lugares não especificados, mas presumidamente mais sanitarizados e certamente menos perigosos.
Do simplismo datado e redutor que via na abertura dos Boulevards apenas um ato deliberado para facilitar a marcha dos canhões sobre o povo e acabar com as barricadas, passou-se a estudar as respostas que a remodelação geral da cidade dava a representações anteriores e a problemas urbanos prementes de salubridade e circulação, o que significava equipá-la com ruas pavimentadas, praças arborizadas,
53 parques, jardins, escolas, teatros, estações, esgotos, transportes, imóveis padronizados com fachadas em pedra e providos de água, luz e gás, medidas que, independentemente de qualquer ideologia e da especulação inerente a esse processo, trariam novas condições cotidianas de vida. Havia na Paris do Segundo Império, um sentimento geral de que era preciso fazer alguma coisa para resolver os conflitos sociais, os problemas decorrentes da falta de saneamento e de mobilidade na cidade capital, cada vez mais cosmopolita (SALGUEIRO, 2001:23-24).
Os argumentos sobre a remodelação urbana de Paris, com seus suntuosos Boulevards, são das mais variadas ordens: vão da fé na racionalidade técnica em busca de um maior controle social, passa pelos argumentos favoráveis às motivações estéticas, chegando às reflexões de caráter filosófico, que acusam esse movimento de realizar uma ruptura com a tradição. Assim, o tipo de urbanização que surgiu da modernidade na Europa pode ser vista como a expressão de um cenário complexo envolvendo uma série de variáveis que, conjugadas simultaneamente, resultaram em um modelo que conseguiu capturar a essência de uma época e se fazer universal. No entanto, sem desconsiderar o seu caráter multifacetado, torna-se fundamental pensar no que estava ocorrendo com o capital neste período.
1848 foi um ano de crise. Tinha demasiado capital sem lugares onde investir, o problema era o que fazer com o excedente de capital. Isso gerou uma crise de dimensões nesse momento, enquanto ocorriam revoluções em toda a Europa. Surgiu um projeto, baseado nas idéias utópicas de Saint Simon, que visava estabilizar a situação econômica. Começou um plano de obras públicas em toda a França, utilizou- se capital e mão-de-obra para reconstruir Paris. No nível internacional se chegou, inclusive, a construir o canal de Suez. Esta resposta foi crucial para a constituição de uma ordem capitalista. Uma série de instituições foi gerada para levar isto a cabo (HARVEY, 1989:20).
Conforme menção de David Harvey (1989), já no século XVIII, Paris manifestava traços que indicariam sua futura condição de protagonismo, convertendo-se, no século seguinte, como a segunda maior cidade da Europa. Há bastante tempo a capital francesa crescia envolta por uma onda de especulação financeira, em boa parte proveniente dos investimentos em infra- estrutura urbana. A forte presença do capital imobiliário renovando os edifícios privados, juntamente com o Estado francês intervindo nos espaços e prédios públicos, com recursos provenientes das colônias, possibilitou a organização espacial adaptada ao processo de acumulação do capital.
O processo de reformulação de Paris se deu em uma enorme escala de grandeza, projeto que além de encerrar a recuperação do poder imperial tinha intrínseco um conteúdo de ordem classista. Haussmann e sua equipe conseguiram captar intenções latentes e manifestas nesse processo percebendo que a transformação de Paris tinha que dar conta de um problema de escala da cidade. O primeiro projeto ao prefeito apresentado foi recriminado e descartado, por
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serem as avenidas projetadas demasiadamente estreitas, o desejo era que essa largura fosse triplicada, e assim foi feito. Essa ambição não era apenas para atender as motivações manifestas como a racionalidade técnica, o controle social, os novos padrões estéticos ou as intenções de ruptura com a tradição, antes de tudo, Haussmann conseguiu entender, que para alocar o capital excedente teria que edificar uma cidade nunca vista e jamais imaginada. Mais que remodelar a cidade, tornando-a salubre aos cidadãos, Haussmann empreendeu suas obras para serem vistas e apreciadas, fazendo aguçar o desejo de governantes de várias nações em seguir a perspectiva urbanística adotada em Paris.
A dimensão monumental e teatral dos trabalhos de Haussmann na Paris do Segundo Império se teria encarregado de obscurecer o trabalho subterrâneo da instalação da infra-estrutura urbana. Em Paris, os resíduos barrocos da perspectiva finalizada em monumentos encobririam o caráter moderno e funcional dos equipamentos coletivos urbanos, equipamentos situados no subsolo das cidades e mantidos apartados da vista do citadino. Seria exatamente essa dimensão espetacular das reformas do prefeito de Luis Napoleão Bonaparte o que teria levado os contemporâneos a ser incapazes de reconhecer o teor moderno das obras sanitárias realizadas na Inglaterra sem o recurso à produção de efeitos visuais, ou seja, desdenhando o apelo a elementos materiais inerentes à estrutura arquitetônica e urbanística sobre o solo. Os contemporâneos, em sua maior parte, seriam pouco sensíveis à concepção moderna, menos propensa a fazer concessões à teatralidade arquitetônica (BRESCIANI, 2002:25-26).
Com origem nessa realidade complexa e dinâmica, Paris inscreve-se num modelo de cidade polifuncional com atribuições administrativas sediando os poderes jurídico, militar, político e a gestão econômica da monarquia francesa. Acrescenta-se a importância mercantil que colocou a “capital do século XIX” no âmago de um sistema urbano, não apenas da hinterlândia francesa, mas como referência de várias outras cidades e centros urbanos coloniais europeus. Concomitantemente às funções de governo, às funções fiscais e militares, às funções judiciárias ou dos recursos humanos e materiais, o conceito de cidade capital adquirido pela Paris da Belle Époque se apóia nas representações que se constroem neste período como sendo também centro radioso de cultura, consumo e entretenimento.
Paris, sabe-se, assumiu definitivamente seu “destino” e sua imagem de cidade capital nesse século de cosmopolitismo, sendo palco, após a Revolução, de políticas sucessivas de obras de novo urbanismo e nova arquitetura, que culminariam, sob Napoleão III, com a haussmannização, capaz de transformá-la no grande modelo ideal, cujo alcance se estendeu na longa duração (SALGUEIRO, 2001:23).
Como regra geral, poderíamos argumentar que a posição e a importância que cada uma dessas funções ou características, quando assumidas numa dada realidade urbana, se transformam de cidade para cidade guardadas as suas especificidades. No entanto, no caso da Paris do século XIX, o que podemos observar é a convergência de uma gama de dimensões assumidas pela
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cidade, cuja imagem-símbolo multifacetada tornou-se um modelo difuso, dando a interpretá- lo como um fenômeno universal resultante de um conjunto de circunstâncias singulares.