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A segunda oficina foi realizada no dia 10 de outubro do corrente ano e teve por objetivo refletir sobre a importância do trabalho dos pronomes pessoais retos em seus contextos de uso, para o conhecimento da realidade sociolinguística brasileira.

Dividimos a abordagem em quatro etapas: o conteúdo como é encontrado nas gramáticas normativas; como acontece nos usos; e como é tratado pelos linguistas. Além disso, analisamos LDP do 6º ano, os mesmos analisados nesta pesquisa, para que os professores observassem como os livros abordam os pronomes pessoais retos.

Apoiamo-nos nas gramáticas de Cegalla (2010), Bechara (2015) e Cunha e Cintra (2016) para debatermos sobre a perspectiva de ensino dos pronomes pessoais do caso reto abordada nas gramáticas normativas. Dessa forma, constatamos que mesmo as gramáticas mais atualizadas trazem uma concepção de língua imutável. Em seguida, contrastamos essas prescrições trazidas pelos gramáticos com o que realmente acontece nos usos. Para isso, utilizamos gêneros textuais diversos. Vejamos:

Quadro 11 – Pronomes pessoais em uso 1 TEXTO I: Velha Infância (Tribalistas)

Você é assim

Um sonho pra mim E quando eu não te vejo

Eu penso em você Desde o amanhecer Até quando eu me deito

Eu gosto de você

E gosto de ficar com você Meu riso é tão feliz contigo

O meu melhor amigo é o meu amor

E a gente canta E a gente dança E a gente não se cansa

De ser criança Da gente brincar

Da nossa velha infância

TEXTO II: O caderno (Toquinho)

Sou eu que vou seguir você Do primeiro rabisco até o bê-a-bá Em todos os desenhos

Coloridos vou estar

A casa, a montanha, duas nuvens no céu E um sol a sorrir no papel

Sou eu que vou ser seu colega Seus problemas ajudar a resolver

Te acompanhar nas provas bimestrais Você vai ver

Serei de você confidente fiel Se seu pranto molhar meu papel

Quadro 12 – Pronomes pessoais em uso 2

TEXTO III: campanha publicitária TEXTO IV: Cartaz publicitário

A partir dos usos, exploramos o que os linguistas afirmam sobre o ensino dos pronomes pessoais do caso reto, especialmente no que diz respeito aos usos da expressão ―a gente‖, dos pronomes ―você/tu‖ e ―vocês‖ em substituição ao ―vós‖, além da visão de ―mistura de tratamento‖ encontrada nos compêndios gramaticais e em quatro das cinco obras analisadas. Para isso, utilizamos os postulados de Castilho e Elias (2015), Ilari e Basso (2014), Bagno (2012), Neves (2011) e Bortoni-Ricardo (2005).

Após traçarmos esse paralelo entre o que nos dizem as gramáticas normativas, o que vemos nos usos e o que os linguistas nos dizem, analisamos a perspectiva adotada pelos LDP, elaborados para o 6º ano do Ensino Fundamental, ao sistematizar o conhecimento linguístico ―pronomes pessoais do caso reto‖. Analisamos apenas os capítulos direcionados ao ensino desse conteúdo.

Por último, analisamos coletivamente um material didático elaborado por nós (essa atividade será trabalhada no próximo tópico), em que o conteúdo em questão é abordado com o olhar da Sociolinguística. A partir dessas análises, tanto do LDP quanto das atividades elaboradas por nós, propusemos aos professores que organizassem um material didático para o ensino dos pronomes pessoais do caso reto, para turmas do 6º ano, sob a perspectiva da variação linguística (descreveremos as atividades no próximo tópico). Por último, os professores

deixaram registrado de que forma as oficinas realizadas contribuíram para que o olhar para o ensino aconteça através da ótica da Sociolinguística. Vejamos:

Quadro 13 – Excertos dos relatos finais

―Essa oficina possibilitou, como já disse, a reflexão mais linguística acerca dos usos dos pronomes e abriu um leque de possibilidades para o grupo desenvolver em sala um trabalho mais voltado para essa vertente e menos para a forma/nomenclatura/ou classificação entre o que está certo ou errado nos usos dos pronomes.‖ (Professor I, relato final, 10/10/16)

―As oficinas foram bastante enriquecedoras para nossa prática em sala de aula e também para nosso próprio conhecimento, pois aprendemos novos olhares, novas definições dos linguistas sobre os pronomes pessoais do caso reto.‖ (Professor II, relato final, 10/10/2016)

―Foram proveitosas em termos de reciclagem conteudística e de interação entre os professores presentes. A reflexão sobre a abordagem dos manuais didáticos em relação aos pronomes pessoais do caso reto me ajudou a relembrar o quanto é importante interligar esse conteúdo com as variações linguísticas.‖ (professor III, relato final, 10/10/2016)

―A temática discutida é de relevância para o ensino da língua portuguesa, pois retrata o uso real de determinados pronomes pessoais do caso reto. É interessante perceber, por exemplo, o uso de casos como ―você‖ e ―a gente‖, escolhidos de forma unânime (e praticamente intuitiva) pela maioria dos falantes. Tais usos não podem ser excluídos do ambiente escolar.‖ (Professor IV, relato final, 10/10/2016)

―E aí observamos a importância das pesquisas, ainda que seja sobre um conteúdo que pareça saturado, ou iremos continuar ensinando o que nos foi ensinado. O bom mesmo é que reforça a concepção que temos uma língua viva, que a dialética de desconstrução e reconstrução faz parte do aprendizado e que somos eternos estudantes.‖ (professor V, relato final, 10/10/2016)

Acreditamos que a escola é um espaço propício para o trabalho com a variação linguística, haja vista ser espaço de ensino-aprendizagem e de ações e relações sociais. Sabemos também que as oficinas realizadas trouxeram apenas um pequeno ponto em meio a uma infinidade de conteúdos a serem trabalhados em sala de aula. No entanto, acreditamos que quando

passamos a refletir sobre determinados temas, as perguntas surgem, então buscamos as respostas nas leituras e, enfim, mudamos o foco. Foi isso que buscamos com as oficinas: instaurar as inquietações, para que, ao se trabalhar com qualquer conhecimento linguístico, os professores se questionem e mudem o foco, trazendo para sala de aula uma pedagogia que reflita a nossa realidade linguística, como afirma Bagno (2010, p. 223), ―temos de partir da realidade dos usos atuais para depois, em comparação crítica, apresentar as regras normatizadas.‖