2.5 Discussion
3.2.1 Use of fillers in dental composites
Tabela 2 – Momentos mais relevantes da campanha de Dilma
Postagem Data
1 VT HGPE – sobre o impacto dos programas sociais 23ago
2 #VotoDilmais - depoimento de eleitora 23ago
3 Vídeo 30seg TV - Dilma critica projetos de Marina 10set 4 #VotoDilmais - criança cantando o jingle da candidata 09set
5 #VotoDilmais – depoimento de celebridade 12set
6 Dilma critica Marina no Bom Dia Brasil 22set
7 #VotoDilmais – depoimento de médico eleitor de Dilma 24set
8 Debate dia 28set – Record 28set
9 Dia das crianças – (Vídeo) Dilma relembra a visita do neto no Planalto 12out 10 Vídeo 30seg TV - Dilma fala da gestão de Aécio em Minas 14out
11 Debate SBT 16out
12 Pós-debate - Dilma fala sobre mal-estar que sofreu 16out 13 Sobre denúncia de nepotismo em debate (vídeo caseiro Pimentel/MG) 16out 14 Convite para postar conteúdo com a hashtag #FacedaDilma 18out
15 Dilma fala sobre formato de debate 18out
16 VT HGPE – Lula em apoio à Dilma 18out
17 Convite para vídeo coletivo 19out
18 #FacedaDilma – testemunhal 19out
19 #FacedaDilma – testemunhal 20out
20 Clipe com artistas 21out
21 Depoimento de médico de Minas 22out
22 #FacedaDilma – conteúdo artístico 24out
23 Debate na Globo 24out
24 VT HGPE – resposta à capa da Veja 24out
25 VT HGPE – Dilma se defende das acusações da Veja 25out
26 “TSE faz Veja falar a verdade” 25out
27 Dilma fala sobre ataques ocorridos à sede da Veja 25out
28 Sobre boato da morte do doleiro Youssef 26out
29 Postagem de reeleição 26out
Fonte: elaborado pela autora
A campanha de Dilma no Facebook é marcada por processos graduais e tentativos de uso e apropriação dos recursos do meio para interação e engajamento dos eleitores na disputa. Essa primeira postagem, que traz apenas a réplica de um vídeo produzido para a televisão e transmitido no HGPE, revela um pouco de como a presença online da candidata é pensada, no início, em termos de mídias massivas tradicionais. Os eleitores, por sua vez, desde o começo do pleito, já se esforçavam no sentido de contribuir com a campanha da candidata. O primeiro comentário publicado nessa postagem, em ordem de relevância, trazia o depoimento de um eleitor que testemunhava como havia conseguido chegar à universidade através do Programa Universidade para todos (ProUni), criado no Governo Lula.
A equipe da candidata, vendo o ímpeto dos eleitores em participarem da campanha, os incentivava a produzir conteúdo favorável à Dilma e enviá-lo por e-mail para que tais produções fossem expostas na página da presidenciável no Facebook. As postagens 2, 4, 5 e 7 são exemplificadoras dessa estratégia. Nelas, a equipe publicou vídeos amadores, em sua maioria gravados com celular, nos quais a presidente recebe apoio de celebridades e anônimos de todas as idades – até mesmo crianças. Esse tipo de postagem sempre era acompanhada da hashtag “VotoDilmais” e, algumas vezes, continha o apelo para que mais pessoas enviassem fotos ou vídeos demonstrando apoio à então presidente.
Figura 6 - #VotoDilmais – depoimento de celebridade
Fonte: Página de Dilma Rousseff no Facebook (Online).
O uso do e-mail para coletar as produções dos eleitores demonstra que a equipe, naquele momento, ainda não havia se apropriado plenamente dos recursos do meio (Facebook) e recorria, assim, a uma lógica mais tradicional de escuta dos receptores. Além disso, o fato de a equipe dessa candidata raramente responder aos comentários postados na página nos parece um indício de que o Facebook estava sendo utilizado por eles numa perspectiva verticalizada, em detrimento da horizontalidade que as redes sociais digitais tanto alardeiam.
Importa mencionar também que ao longo das semanas de setembro de 2014, as mensagens de ataque, lançadas pela campanha de Dilma, tinham como foco principal a
candidata Marina Silva, como foi possível observar nas postagens 3, 6 e 8. Os eleitores da petista, todavia, dividiam-se entre as críticas ao candidato Aécio e à Marina.
Na postagem 9, a equipe de campanha aposta na humanização da candidata, que desde o período pré-eleitoral de 2010 vinha passando por transformações na sua imagem de ministra “séria e sisuda” para candidata “amável e sorridente” (TRAMONTINI, 2013, p.17). No caso da campanha de 2014, essa humanização era reforçada, por exemplo, através de vídeo com imagens de Dilma junto a seu neto, mostrando, assim, que ela conseguia conciliar os papéis de chefe de Estado e mãe/avó dedicada à família.
Já nas semanas posteriores ao primeiro turno, a candidata aposta no ataque a Aécio Neves, tendo em vista que restavam apenas os dois na disputa pelo segundo turno. Os eleitores também iam nessa linha do ataque e sugeriam o que ela deveria dizer para “derrotar” o opositor (movimento que pudemos constatar nas postagens 10 a 13). A partir desse período, a equipe da candidata parece se apropriar de mais ferramentas do meio (como o recurso que permite ao usuário escolher, dentre uma lista, palavras e emoticons que expressam sentimentos e atividades que o mesmo esteja vivenciando naquele momento). Isso se intensifica mais ainda nas postagens seguintes em que a equipe passa a compartilhar conteúdos publicados por amadores naquele espaço, através do uso da hashtag “FacedaDilma”.
Com o lançamento dessa hashtag “FacedaDilma” (post 14), o vídeo de Lula pedindo que todos “sejam Dilma” (post 16), o convite para participação em um vídeo coletivo (post 17), o clipe com apoio de artistas (post 20) e o compartilhamento de postagens com os testemunhais (posts 18, 19, 21 e 22), a equipe da candidata demonstrava a busca e valorização do apoio dos eleitores, em suas variadas formas.
Os últimos posts coletados (24 a 27) ilustram o embate de Dilma com parte da imprensa, representada aqui pela Revista Veja e suas acusações que chacoalham a reta final da eleição. A editora Abril antecipou em dois dias a publicidade de sua revista semanal, apresentando uma capa com reportagem na qual o doleiro Alberto Youssef afirmava que Dilma e o ex-presidente Lula sabiam dos desvios na Petrobras82, tudo isso a menos de 72 horas da votação do segundo
turno das eleições. Na capa, Dilma e Lula são retratados com expressões carrancudas e seus rostos aparecem entrecortados por uma faixa escura, na qual há o destaque em negrito e vermelho (cor do Partido dos Trabalhadores) da sentença: “Eles sabiam de tudo”. Um dia após a publicação, militantes do PSDB imprimiram e distribuíram panfletos com a capa da Revista
82 DOCA, Geralda. TSE proíbe revista ‘Veja’ de fazer publicidade da edição do final de semana. O Globo, 25 out. 2014. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/tse-proibe-revista-veja-de-fazer-publicidade-da-edicao- do-final-de-semana-das-eleicoes-2-14357520#ixzz5NjNvdUSz>. Acesso em: 05 abr. 2018.
em algumas capitais do país83. Enquanto isso, apoiadores da petista fizeram circular no
Facebook, e em outras redes sociais, uma montagem desta e de outra capa de Veja “relacionando a denúncia de corrupção a uma fabricação da realidade comparável a um enredo novelesco”, para questionar, assim, a credibilidade da Revista em questão “pelo tratamento que ela dá à informação, associando-a a uma revista de superficialidades - como as revistas de fofoca e de programas de TV” (MENEGUELLI, 2015, p.693).
Figura 7 – Capas da Revista Veja
Fonte: MENEGUELLI, 2015, p.693
Diante disso, a coligação “Com a Força do Povo”, da então presidente e candidata à reeleição, entrou com uma liminar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o pedido de interrupção da propaganda dessa capa, em qualquer meio de comunicação, por conter, segundo advogados de Dilma, conteúdo ofensivo à candidata à reeleição. Os advogados dessa candidata,
Citam ainda que a revista teria postado no Facebook dela, com 5,4 milhões de seguidores, notícia com o título “Tudo o que você queria saber sobre o escândalo da Petrobras: Dilma e Lula sabiam”. Essa propaganda teria sido reproduzida na página oficial do PSDB, partido do adversário na disputa ao Palácio do Planalto, também na mesma rede social (BRITO, 2014, Estadão Online).
83 JUNGBLUT, Cristiane. Panfletos com capa de revista são distribuídos por cabos eleitorais de Aécio em MG. O Globo, 24 out. 2014. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/panfletos-com-capa-de-revista-sao- distribuidos-por-cabos-eleitorais-de-aecio-em-mg-14353283>. Acesso em: 01 mar. 2018.
Além de acatar tal liminar, o TSE concedeu direito de resposta à Dilma Rousseff (PT), contra a editora Abril, que teve de publicar o texto da candidata no seu site. Não obstante, na esteira das acusações apresentadas por Veja, acabaram circulando boatos nas redes sociais e WhatsApp de que o doleiro Youssef teria morrido, por envenenamento, o que teve de ser desmentido pela Polícia Federal84.
Figura 8 – Publicação em comemoração à reeleição
Fonte: Página de Dilma Rousseff no Facebook (Online).
A imagem inserida acima trata-se de uma postagem de reeleição, com atualização da foto de capa da página de Dilma no Facebook – feita horas após o anúncio de sua vitória no segundo turno – na qual a presidente aparece de braços abertos diante do povo com a palavra “reeleita” no topo da imagem. Tal post gerou intensa discussão entre seus eleitores, que comemoravam a vitória, e aqueles que votaram em Aécio Neves, que pareciam não aceitar a derrota. Essa última postagem coletada e seus respectivos comentários, ilustram bem a
84ARAÚJO, Thiago. Morto por envenenamento?! Boatos sobre morte de Alberto Youssef tomam conta das redes sociais e do WhatsApp. Huffpost, 26 out. 2014. Disponível em: <https://www.huffpostbrasil.com/2014/10/26/morto-por-envenenamento-boatos-sobre-morte-de-alberto-
polarização que se fez presente entre os eleitores durante a disputa e não se findou com o resultado da mesma, fortalecendo, assim, um clima de “terceiro turno”, conforme comentado nesta tese.
Para finalizar este panorama descritivo e processual do dispositivo “página de Dilma”, apresentamos abaixo uma imagem que representa a análise de frequência das cem palavras mais recorrentes no Facebook de Dilma (elaborado com o mesmo software e os mesmos critérios usados na construção da “nuvem” de palavras do Facebook de Marina):
Figura 9 – Nuvem das cem palavras mais recorrentes no Facebook de Dilma
Fonte: elaborado pela autora com o auxílio do Software NVIVO 12 Plus
Como se pode perceber, além da hashtag “dilma13”, uma das palavras de maior proeminência entre os comentários inseridos no Facebook de Dilma é o nome do principal candidato adversário da presidenciável: Aécio. O nome desse candidato era citado pelos eleitores de Dilma para lançar críticas a ele ou aos seus eleitores. Por outro lado, como essa é uma das páginas mais ocupadas por detratores, o nome desse candidato é muito citado também por apoiadores dele, que vão até a página de Dilma tanto para criticar a candidata quanto para provocar seus eleitores (escrevendo, para isso, comentários como: "Aécio 45", numa tentativa
de demarcação de território). Nesse mesmo sentido é que as palavras "escândalo" e "corrupção" acabam sendo algumas das mais citadas nessa página – já que eleitores contrários à Dilma utilizam o espaço dos comentários da página dela para apontar à exaustão as denúncias de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores. Em contrapartida, os eleitores de Dilma rechaçam a presença dos oponentes, chamando-os de mal-educados e mal-agradecidos por ocuparem um espaço que não lhes pertencia e por não reconhecerem os feitos do PT na gestão federal do país - por isso, e também pela discussão em torno do mal-estar que Dilma sofreu durante um dos debates, a palavra "mal", que aparece logo no topo da figura, acaba sendo uma das mais citadas pelo grupo.
Do lado direito da palavra "mal", vê-se a palavra "pobre". Na parte de baixo da imagem temos também "pobres" e ainda "povo" logo abaixo de "brasil", que são escritas em contexto de defesa dos Programas Sociais petistas e como argumento de que esse público seria o mais prejudicado num eventual governo de Aécio. Para os eleitores de Dilma, o governo do PT teria sido o único voltado aos mais pobres na história recente do país. O nome de Lula também é bastante citado nessa defesa do legado petista no governo federal. Já para os aecistas isso não passava de narrativa que causava divisão do povo brasileiro, quando na verdade, a pobreza seguia do mesmo modo, segundo os argumentos lançados por eles.
Já a palavra “verdade”, às vezes era empregada como expressão de concordância e às vezes era usada pelos dois grupos em disputas de sentido sobre análises da situação do país. A palavra “debate”, visível do lado direito da imagem, mostra como as aparições televisivas eram alvo de discussão não só na página de Marina como também na de Dilma. Já do lado esquerdo da imagem, vê-se a palavra “parabéns”, usada tanto para elogiar as contribuições dos pares quanto para ironizar as declarações dos detratores. Ressalta-se que também esses eleitores demonstram alguma religiosidade, como evidenciado pela recorrência da palavra “deus”. Enquanto a palavra “bolsa”, posicionada do lado esquerdo na parte de baixo da figura, refere- se à alta frequência de discussões em torno do Programa “Bolsa Família” – nesse sentido, “família” também aparece como termo recorrente na parte superior da imagem.
Há ainda o destaque para outras palavras como: “vida”, representando, entre outras discursividades, os relatos de si; “saúde” e “educação” representando as discussões em torno da situação do país; “cuba” representando as narrativas em torno de países vizinhos, etc. Mas, feita essa breve caracterização, encerramos por aqui essa análise das palavras mais recorrentes encontradas nessa página e retomaremos o exame das estratégias discursivas empreendidas por esse grupo ao longo do capítulo 6.