Temos assim uma primeira aceção metafórica da viagem como poder, o poder do conhecimento e da experiência que dão ao viajante um estatuto de conquistador e o envolvem numa aura de notoriedade. A possibilidade de viajar, sobretudo para fora do país, era na sociedade oitocentista, e, de certa forma, ainda continua a ser, um privilégio que investia o viajante de um poder advindo da experiência e da vivência diretas que ele tinha podido adquirir, traduzindo-se numa espécie de sentimento de apropriação desse espaço, face a outros cujas posses não lhes abriram essa oportunidade na vida.
Como já foi referido anteriormente, na segunda metade do século XIX, apesar dos avanços da técnica, que também atingiram os meios de transporte, as viagens constituíam um luxo, sobretudo se o destino fosse uma região longínqua que só alguns podiam subsidiar, adquirindo, por isso, um certo ascendente sobre os demais. No permanente diálogo com a realidade, a literatura apresenta também os seus testemunhos desta simbologia do poder, que encontramos, por exemplo, representada na ficção
40 queirosiana, que é a que aqui nos interessa, como podemos comprovar através dos seguintes exemplos.
N’O Crime do Padre Amaro, quando na Casa Havanesa são conhecidos os incidentes da Comuna em Paris e o incêndio das Tulherias, assistimos a uma manifestação de indignação, apregoada por aqueles que já lá tinham estado e que, por isso mesmo, se sentiam donos desse espaço:
Havia indivíduos tão furiosos com o incêndio das Tulherias como se fosse uma propriedade sua; os que tinham estado em Paris um ou dois meses, abriam-se em invectivas, arrogando-se uma participação de parisiense na riqueza da cidade, escandalizados por a insurreição não ter respeitado monumentos em que eles tinham posto os seus olhos. (Queirós, 2000: 1021)
Na confissão da condessa, em O Mistério da Estrada de Sintra, descobrimos nas suas palavras, a propósito da pacatez do marido, idêntico critério de valoração metafórica da viagem, como símbolo de prestígio que falta ao marido por, justamente, não ter viajado:
Não faz poemas românticos, porque eu sou o seu poema íntimo, a musa dos seus sacrifícios; não tem aventuras porque eu sou a sua esposa; não tem viagens gloriosas pelos desertos nem o prestígio das distâncias, porque o seu mundo não é maior do que o espaço que enche o som da minha voz. (Queirós, 2003: 250) Mais à frente, na descrição de Carlos Fradique Mendes, um dos atributos que o realça como “homem verdadeiramente original e superior” é, por oposição ao marido da condessa, ser um homem viajado:
Tocava admiravelmente violoncelo, era um terrível jogador de armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contara que fora corsário grego. (Queirós, 2003: 258)
É também este cosmopolitismo, conferido pelas viagens, que contribui para o fascínio que Basílio exerce sobre Luísa. Encontramos, de resto, um prenúncio desta sedução pelas viagens nas reflexões de Luísa sobre a amiga Leopoldina a propósito das paixões desta:
Depois desculpava-a: era tão infeliz com o marido! Ia atrás da paixão, coitada! (…) quase lhe parecia uma heroína; e olhava-a com espanto como se
41 consideram os que chegam de alguma viagem maravilhosa e difícil, de episódios excitantes. (Queirós, s.d.: 26)
Um dos grandes atrativos de Basílio para Luísa, que vivia numa monotonia pacata e entediante, era portanto o facto de ele ter viajado pelo mundo e conhecido muitos lugares que ela apenas conhecia através dos romances que lia e lhe despertavam esse desejo de fazer as malas e partir à descoberta:
«Que vida interessante a do primo Basílio!», pensava. O que ele tinha visto! Se ela pudesse também fazer as suas malas, partir, admirar aspetos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os países que conhecia dos romances – a Escócia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palácios trágicos; aportar às baías, onde um mar luminoso e faiscante morre na areia fulva; e das cabanas dos pescadores, de teto chato, onde vivem as Grazielas, ver azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris sobretudo! Mas qual! Nunca viajaria decerto; eram pobres; Jorge era caseiro, tão lisboeta! (Queirós, s.d.: 70)
Involuntariamente, porém, o primo Bazilio fazendo flutuar o seu bornous branco pelas planícies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando tranquilamente os seus cavalos inquietos – dava-lhe a ideia de uma outra existência mais poética, mais própria para os episódios do sentimento. (Queirós, s.d.: 71)18
Do mesmo deslumbramento, diante do halo do viajante regressado de terras distantes, é acometido o senhor Lino, n’ AR, com a resposta de Teodorico sobre a viagem a Jerusalém:
- E Vossa Senhoria, se não é curiosidade, vem das províncias do Norte? Passei vagarosamente a mão pelos cabelos:
- Não, senhor... Venho de Jerusalém!
De assombrado, o sr. Lino, perdeu a garfada de arroz. (AR, 252)
Vejamos, mais de perto, o caso de Teodorico. O estatuto de viajante peregrino proporcionou-lhe determinadas prerrogativas no seio da comunidade beata para onde volta, depois da sua excursão pela Terra Santa. Tratou-se de uma viagem, que ele fez
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Interessa-nos sobretudo destacar aqui o poder de sedução que a viagem confere ao viajante e não tanto a importância óbvia contida nestes excertos para a caracterização de Luísa (a típica burguesinha da Baixa lisboeta) no contexto doutrinário, temático e estratégico do Naturalismo, perfilhado neste romance.
42 com uma suposta intencionalidade devota, mandatado pela Dª Patrocínio, a lugares considerados sagrados e de grande significado religioso para a mentalidade de uma vasta camada social oitocentista, que caracterizava fortemente o núcleo doméstico de Teodorico em Lisboa. A este propósito, merece particular atenção a sua postura, no caminho de regresso a casa da tia, em Lisboa: com a bota estendida para o estribo, “resplandecia mais que um gordo César, coroado de folhagens de ouro, sobre o seu vasto carro, voltando de domar povos e deuses” (AR, 231).
Atitude esta que revela a consciência do poder e da ascendência que a viagem à Terra Santa lhe outorgou, reforçada pela relíquia que transportava consigo e que estava destinada à tia. Estamos assim na presença do fator mudança de que a viagem é portadora para a vida de quem a faz, não só pela soma de experiências e vivências que proporciona, mas também, e sobretudo neste caso, pelo significado desta viagem em particular, como já explicámos. Sublinhe-se, no entanto, que o poder adquirido, para se consagrar, deve ser reconhecido e ratificado por aqueles que formam o meio humano e social no lugar de retorno. Só com esse reconhecimento poderá Teodorico, recém- chegado a casa da titi, usufruir das atenções e dos privilégios conquistados no seu entorno doméstico, onde, justamente, durante algum tempo, se irá projetar uma série de alterações relativamente ao que era a sua vida antes de fazer a viagem, e exercer a autoridade da experiência que adquiriu junto dos seus amigos frequentadores da Sociedade de Geografia ou em casa da Benta Bexigosa:
Até aí, que fora eu em casa da senhora D. Patrocínio? O menino Teodorico que, apesar da sua carta de doutor e das suas barbas de «Raposão», não podia mandar selar a égua para ir espontar o cabelo à baixa, sem implorar licença à titi… E agora? O nosso dr. Teodorico, que ganhara, no contacto santo com os lugares do Evangelho, uma autoridade quase pontificial! Que fora eu até aí, no Chiado, entre os meus concidadãos? O Raposito, que tinha um cavalo. E agora? O grande Raposo, que peregrinara poeticamente na Terra Santa, como Chateaubriand, e que, pelas remotas estalagens em que pousara, pelas roliças circassianas que beijocara, podia parolar com superioridade na Sociedade de Geografia ou em Casa da Benta Bexigosa … (AR, 231-232)
Ele próprio expressa ter consciência disso, quando diz: “era sobretudo a certeza da gloriosa mudança que se fizera na minha fortuna doméstica e na minha influência social.” (AR, 231). Mesmo quando Teodorico afirma: “Ela [a tia Patrocínio], pela sua
43 devoção, considerava-se pessoa de Igreja. Eu, pela minha jornada, era quase pessoa do Céu.” (AR, 239), o atributo de “pessoa do Céu” é imputado pelo olhar da tia, como reconhecimento dessa ascendência conquistada após a viagem. Mais à frente, são os amigos da casa que expressam esse reconhecimento do poder do viajante: “Então os diletos amigos, com a torrada na mão, romperam em ardentes encómios: - Que instrutiva viagem! É como ter um curso!” (AR, 246).
Outro exemplo ainda surge quando, já deserdado e procurando ganhar a vida, Teodorico Raposo se serve do valor acrescido das relíquias que transaciona, valor que é, de resto, reconhecido pelos compradores, devido à mais-valia da sua procedência, conquistada com a viagem a Jerusalém:
Todas as minhas relíquias eram acolhidas com o mais forte fervor – porque provinham «do Raposo, fresquinho de Jerusalém». Os outros reliquistas não tinham essa esplêndida garantia de uma jornada à Terra Santa. Só eu, Raposo, percorrera esse vastíssimo depósito de santidade. (AR, 256)
A este propósito, não podemos descurar também o estatuto do narrador como reforço do poder, uma vez que se trata de um narrador autodiegético, que coincide com a personagem central. Teodoro e Teodorico configuram-se ambos como sujeitos da enunciação, narram as suas próprias histórias, onde destaca a viagem, a partir de uma situação de ulterioridade que lhes permite não só selecionar o que querem contar e como querem contar mas também, devido à distância que separa o eu da história do eu da narração, retirar ilações de natureza moral sobre as experiências vividas. Daí ser importante a presença do narratário que é diretamente interpelado no discurso dos dois narradores – só assim estes podem, com maior propriedade, fazer passar a sua lição de moral.