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Para Freire (2005), a educação crítica, problematizadora, comprometida com a libertação se faz na dialogicidade, como já mencionado anteriormente. Mas o que é o diálogo, na concepção de Freire?

[…] é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a

ser transformado e humanizado, não pode reduzir- se a um ato de depositar idéias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de idéias a serem consumidas pelos permutantes. Não é também discussão guerreira, polêmica, entre sujeitos que não aspiram a comprometer-se com a pronúncia do mundo nem a buscar a verdade, mas a impor a sua. Porque é encontro de homens que pronunciam o mundo, não deve ser doação do pronunciar de uns a outros. É um ato de criação. (FREIRE, 2005, p. 91).

Segundo Freire, o diálogo é um lugar de encontro. “Neste lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos: há homens que, em comunhão, buscam saber mais.” (FREIRE, 2005, p. 93).

O diálogo, portanto, consiste em uma relação horizontal e não vertical entre as pessoas implicadas, entre as pessoas em relação. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Trata-se de uma relação de A com B, e não de A para B. Para o autor, a relação homem-homem, homem-mulher, mulher-mulher e homem-mundo são indissociáveis. Como ele afirma: “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. (FREIRE, 2005, p. 78).

Dialogar tem a ver com o movimento da curiosidade ingênua em direção à curiosidade crítica. É por meio de um diálogo problematizador que os estudantes têm a oportunidade de refletir sobre questões que estão relacionadas com suas próprias vidas. Ao dialogar sobre temas do cotidiano, eles adquirem experiências auto reflexivas, que os ajudará a buscar significados e valores.

É no diálogo que se vivencia o momento da fala do outro, da decodificação inicial proposta por Freire, que precisa ser problematizada para que aflore a discussão e a reflexão em sala de aula. Para o autor, por ser a educação um objeto de libertação dos homens, qualquer procedimento que não privilegie o diálogo entre os atores é um ato de alienação embutido na própria educação. A educação problematizadora tem, no diálogo, “o selo do ato cognoscente, desvelador da realidade.” (FREIRE, 2005, p. 83).

Portanto, nessa concepção, a educação não pode ser concebida apenas como transmissão de conteúdos por parte do educador. Pelo contrário, trata-se de estabelecer um diálogo entre os envolvidos no processo e:

O que se pretende com o diálogo não é que o educando reconstitua todos os passos dados até hoje na elaboração do saber científico e técnico. Não é que o educando faça adivinhações ou que se entretenha num jogo puramente intelectualista de palavras vazias. O que se pretende com o diálogo, em qualquer hipótese (seja em torno de um conhecimento científico e técnico, seja de um conhecimento “experiencial”), é a problematização do próprio conhecimento em sua indiscutível relação com a realidade concreta na qual se gera e sobre a qual incide, para melhor compreendê-la, explicá-la, transformá-la. (FREIRE, 1983, p. 52).

Para Freire (1983, p. 53), o diálogo problematizador não depende do conteúdo que vai ser problematizado, mas da relação que se estabelece entre educador e educando. “O papel do educador não é o de „encher‟ o educando de „conhecimento‟, de ordem técnica ou não, mas sim o de proporcionar, através da relação dialógica educador-educando, educando-educador, a organização de um pensamento correto em ambos.”

Dessa forma, “o educador já não é aquele que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando, que ao ser educado, também educa.” (FREIRE, 2005, p. 79).

A seguir trazemos a perspectiva dialógica de Freire na visão de outros autores:

De acordo com Freire, para a educação ser dialógica (baseada no diálogo) bem como dialética (levando em consideração tensões e contradições), ela deve ser problematizada. Problematização é a colocação de problemas pelo professor com o propósito de promover o diálogo com os estudantes. Desta forma a problematização é uma forma muito peculiar de colocar problemas não se limitando a fazer perguntas. Envolve fazer perguntas, mas de tal forma que as perguntas permitam o debate para captar o momento ao invés de conduzir a um beco sem saída. Este processo não visa simplesmente satisfazer a curiosidade do professor nem é um mero jogo de adivinhação. Quando o professor dialógico

problematiza uma situação com seus alunos ele está buscando suscitar pensamentos, provocar questionamentos que não visam testar o nível de compreensão e conhecimento dos estudantes. Em vez de buscar por definições, desafia-os a fazer uso de sua compreensão e conhecimento para enfrentar questões essencialmente desafiadoras. Uma das dificuldades aí é evitar resvalar para o mero jogo de adivinhações. (VAZ, 1996, p. 75).

Sobre o processo dialógico na educação, Pernambuco (1994, p. 15) traz a seguinte contribuição: “Dialogar significa navegar pelo mar das semelhanças suficientes para que se possa estabelecer uma comunicação e das diferenças suficientes para não estarmos repetindo uns aos outros, em um diálogo que vira monólogo.”

Para Skovsmose (2001), o diálogo, assim como a relação estudante professor, tem um papel fundamental:

As idéias relativas ao diálogo e à relação estudante-professor são desenvolvidas do ponto de vista geral de que a educação deve fazer parte de um processo de democratização. Se queremos desenvolver uma atitude democrática por meio da educação, a educação como relação social não deve conter aspectos fundamentalmente não democráticos. É inaceitável que o professor (apenas) tenha um papel decisivo e prescritivo. Em vez disso, o processo educacional deve ser entendido como um diálogo. (SKOVSMOSE, 2001, p. 18).

Ole Skovsmose e Helle AlrØ têm por hipótese que “As qualidades da comunicação na sala de aula influenciam as qualidades da aprendizagem de Matemática” (ALRØ; SKOVSMOSE, 2010, p. 11). Esses autores escreveram um livro intitulado “Diálogo e Aprendizagem em Educação Matemática”, no qual relacionam a qualidade do diálogo em sala de aula com a aprendizagem. Para eles, o desenvolvimento de uma educação numa perspectiva crítica tem no diálogo seu pressuposto básico.

Em relação à postura do professor numa relação que pretende ser dialógica, os autores assim se posicionam:

sala de aula, ele não pode ter respostas prontas para problemas conhecidos; ter curiosidade a respeito do que os alunos fariam e estar disposto a reconsiderar seus entendimentos e pressupostos são requisitos para a participação do professor no diálogo. (ALRØ; SKOVSMOSE, 2010, p. 126). Stieg Mellin-Olsen, citada por Skovsmose, descreve um diálogo, com referência à aprendizagem em matemática, como “um método de confrontação e exploração de discordâncias […] em um ambiente amistoso e cooperativo.” (MELLIN-OLSEN, apud ALRØ; SKOVSMOSE, 2010, p. 132). O propósito do diálogo é o desenvolvimento epistêmico, não na forma de consenso, mas como uma “busca por um entendimento mais profundo, juntamente com os parceiros no diálogo.” (MELLIN-OLSEN, apud ALRØ; SKOVSMOSE, 2010, p. 132).).

3.5 A EDUCAÇÃO MATEMÁTICA CRÍTICA ASSOCIADA À

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