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A linguagem constitui a mediação social concreta através da qual se expressam e difundem os complexos ideológicos referentes às estratégias de hegemonia empreendidas pelas classes sociais. A linguagem consiste num traço ontológico do ser social

intrinsecamente vinculado com a práxis interativa. Segundo Marx (2007a): “A linguagem é tão antiga quanto a consciência – a linguagem é a consciência real, prática, que existe para os outros homens, e que, portanto, também existe para mim mesmo; e a linguagem nasce, tal como a consciência, do carecimento, da necessidade de intercâmbio com outros homens” (p. 35). Para Lukács (2010a, p. 86), a consciência mediadora que vincula generidade e indivíduo assume sua objetividade prática na linguagem social existente. Não é casual que a esfera do ser social é identificada, pelo mesmo, como a “generidade-não-mais-muda” resultante do salto mediado pelo trabalho e pela linguagem a partir da “generidade muda” (apenas biológica). Na linguagem, os homens encontram o veículo através do qual os pores teleológicos podem ser repassados e universalizados para o conjunto dos indivíduos sociais. O ato fundante é, evidentemente, o trabalho, como assinala Engels (1979):

[...] o aperfeiçoamento do trabalho, contribuía para aproximar, cada vez mais, os membros da sociedade; para multiplicar os casos de ajuda mútua, de ação em comum, criando, em cada um, a consciência da utilidade dessa colaboração. Em resumo: os homens em formação atingiram um ponto em que tinham alguma coisa a dizer uns aos outros (ENGELS, 1979, p. 217).

Com o desenvolvimento das sociedades de classe, a linguagem concreta existente passa a expressar e universalizar as ideologias dos sujeitos coletivos em luta pelo controle do metabolismo social. Desse modo, Gramsci (2011a) nos mostra que a linguagem não pode ser apreendida numa perspectiva formal-abstrata, como um ordenamento de palavras gramaticalmente neutro, mas como um conjunto de noções e conceitos determinados socialmente. Segundo o autor dos Cadernos do Cárcere, a linguagem se altera com a transformação da civilização, com o florescimento das diferentes classes e suas lutas:

[...] se é verdade que toda linguagem contém os elementos de uma concepção de mundo e de uma cultura, será igualmente verdade que, a partir da linguagem de cada um, é possível julgar a maior ou menor complexidade da sua concepção de mundo. [...] Seus interesses serão restritos, mais ou menos corporativistas ou economicistas, não universais (2011a, p. 95).

Destarte, é a orientação prática determinada pelo conflito social fundamental que define o tipo de racionalidade apropriada ao discurso ideológico (MÉSZÁROS, 2004). A enunciação que se apresenta no discurso ideológico governamental da “participação popular” na assistência social constitui o campo através do qual podemos apreender e analisar as ideologias mobilizadas para a construção e consolidação das relações de hegemonia.

Jameson (1996), em seu texto O pós-modernismo e o mercado, trata da relação dialética entre as formas ideológicas e a estrutura socioeconômica, abordando concretamente a ideologia do mercado no capitalismo tardio em crise. O autor apresenta uma determinação

teórico-metodológica fundamental – que incorporamos em nossa abordagem específica – através da qual podemos realizar o movimento de aproximação às ideologias no contexto da restauração das bases de domínio do capital em crise:

[...] a ideologia do mercado, infelizmente, não é um luxo ou um adorno ideativo ou representacional suplementar, que se possa retirar do problema econômico e, em seguida, mandar para algum necrotério cultural ou superestrutural, para ali ser dissecada por especialistas. De certo modo, ela é gerada pela coisa em si, como sua pós-imagem objetivamente necessária: de algum modo, as duas dimensões têm que ser registradas juntas, tanto em sua identidade quanto em sua diferença. Elas são, para usar uma linguagem contemporânea, mas já ultrapassada, semi-autônomas: o que significa, se é que pretende significar alguma coisa, que elas não são realmente autônomas ou independentes uma da outra, mas que tampouco estão realmente em perfeito acordo. [...] Será o discurso do mercado meramente uma retórica? Ele é e não é (para repetir a grande lógica formal da identidade entre a identidade e a não- identidade); e, para entendê-lo direito, é preciso falar dos mercados reais tanto quanto da metafísica, da psicologia, da propaganda, da cultura, das representações e dos aparelhos libidinais (p. 280-283).

A inteligibilidade do discurso ideológico não está assentada estritamente nos seus aspectos pragmáticos, portanto. No início do século XX, Bakthin (2006) criticava o

“subjetivismo idealista”, por um lado, e o “objetivismo abstrato”, por outro, no campo da

filosofia da linguagem, afirmando que a “enunciação é de natureza social” (p. 111) 26e não pode ser compreendida sem a determinação dos nexos concretos entre estrutura e superestrutura social. Nessa perspectiva, a linguagem, em cada período, apenas é passível de inteligibilidade quando a entendemos enquanto mediação social edificada por sujeitos históricos concretos buscando satisfazer suas necessidades de reprodução social nas formações sociais em que atuam. É imperativo apreender, portanto, a “linguagem em toda a

sua complexidade” (JAKOBSON, 2001, p. 16).

No campo da análise crítica do discurso, Fairclough (2001) apresenta indicações relevantes para a crítica da ideologia a partir do discurso, considerando as disputas pela hegemonia. Segundo o autor, o discurso não pode ser confundido com uma "atividade

26Bakthin (2006, p. 69) trata essas duas vertentes da filosofia da linguagem nos seguintes termos que seguem. O “subjetivismo idealista” está interessado no ato da fala, de criação individual, como fundamento da língua.

Nesse caso, o psiquismo individual constitui a fonte da língua. Nessa perspectiva, as leis da criação linguística – e a língua sendo considerada numa evolução ininterrupta, uma criação contínua – são as leis da psicologia individual, e são elas que devem ser estudadas pelo linguista e pelo filósofo da linguagem. Assim, esclarecer o fenômeno linguístico significa reduzi-lo a um ato significativo (por vezes mesmo racional) de criação individual. Por outro lado, segundo o “objetivismo abstrato”, o centro organizador de todos os fatos da língua situa-se, ao contrário, no sistema das formas fonéticas, gramaticais e lexicais da língua. Enquanto que, para o “subjetivismo

idealista”, a língua constitui um fluxo ininterrupto de atos de fala, onde nada permanece estável, nada conserva

sua identidade, para a segunda orientação a língua é um “arco-íris imóvel que domina este fluxo” (BAKTHIN, 2006, p. 77). Nessa perspectiva, cada enunciação, cada ato de criação individual é único e não reiterável, mas em cada enunciação encontram-se elementos idênticos aos de outras enunciações no seio de um determinado grupo de locutores; e seriam justamente estes traços idênticos, que são assim normativos para todas as enunciações – traços fonéticos, gramaticais e lexicais –, que garantem a unicidade de uma dada língua e sua compreensão por todos os locutores de uma mesma comunidade.

puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais" (p. 90), porquanto constitui uma prática social que, por sua vinculação orgânica e dialética com a estrutura social, permite "[...] investigar as práticas discursivas como formas materiais de ideologia" (p. 116). Trata-se, pois,

de analisar as ideologias do discurso governamental na assistência social enquanto “síntese de múltiplas determinações” (MARX, 2011, p. 54), buscando desvendar seus nexos com as

relações de hegemonia que estruturam ativamente (ou concorrem para a superação) do metabolismo burguês na contemporaneidade.

Barreto e Leher (2008) assinalam que escolhas lexicais alternativas podem implicar mudanças nas orientações ideológicas, seja pela assimilação de neologismos, seja pela apropriação de palavras e expressões conhecidas em diferentes discursos, contextos e matrizes teóricas. Assim, os aspectos sintáticos e pragmáticos não podem ser desconsiderados na

análise da “intertextualidade” 27 (FAIRCLOUGH, 2001). Para os autores, entretanto, a complexidade que envolve o discurso ideológico não se esgota no plano do vocabulário. Palavras e expressões podem assumir orientações ideológicas diferenciadas, dependendo dos sujeitos concretos que as enuncia, a quem são dirigidas, onde e em que circunstâncias políticas. Portanto, se, de uma parte, as palavras tomadas isoladamente são insuficientes para a apreensão das lutas hegemônicas em sua complexidade, de outra parte, é válido considerar a identificação de termos e expressões mais recorrentes no discurso ideológico como possibilidade de identificação e aproximação aos fundamentos teóricos e às estratégias de construção de hegemonia.

Os interesses socioeconômicos e políticos expressos no discurso ideológico não podem ser apreendidos enquanto proposições teóricas abstratas, mas como indicadores práticos fundamentados e estímulos efetivamente mobilizadores direcionados às ações socialmente demandadas pelos sujeitos coletivos reais, envolvidos nas disputas hegemônicas no contexto determinado das relações de força. As características estruturais fundamentais de uma ordem social constituída pelas disputas políticas das classes se afirmam em escala pertinente e circunscrevem os modos alternativos de conceituação de todos os problemas práticos mais importantes, inclusive aqueles concernentes às ideologias mobilizadas pelos discursos no interior do conflito social para o exercício ou a superação das relações de dominação (MÉSZÁROS, 2004).

27 Referenciando-se em Julia Kristeva, que se baseou em Bakhtin, Fairclough (2001) considera a intertextualidade como a propriedade que os textos possuem de serem “[...] cheios de fragmentos de outros textos, que podem ser delimitados explicitamente ou mesclados e que o texto pode assimilar, contradizer, ecoar ironicamente, e assim por diante” (p. 114).

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