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O estado desprovido de vontade permanece a condição de beleza, alegria e é caracterizado como não imposição sobre o mundo, desinteresse, necessário para responder moralmente ao mundo. Desta consideração, segue-se que, ainda que não representem a filosofia do pensamento único, dada a ocasião do desvio, os Aforismos fundam-se na base fundamental. Com isso, “a instrução para uma existência feliz [die Anweisung zu einem glücklichen Dasein]”669, aos olhos do leitor volitivo, parece conduzir ao destino do corpo, e uma vez que a totalidade da vontade agencia o sentido e o remete ao otimismo, “o estudo dessa arte poderia também ser denominado eudemonologia”670. Por isso, o propósito do pensamento, ocasionar o autoconhecimento, fica comprometido e o leitor é conduzido à doutrina falsa e perniciosa. Porém, se a realização do pessimismo não se reduz a seu caráter filosófico, então, a instrução, para não afastar do propósito, deve ser acompanhada de autojustificação na verdade da sua filosofia: “se a vida humana corresponde, ou simplesmente pode corresponder ao conceito de tal existência, é uma questão que, como se sabe, a minha filosofia nega”671. Ao mesmo tempo, tem de expor a coincidência da palavra na sua referencialidade ao otimismo – “ao contrário, a eudemonologia pressupõe a sua afirmação. Esta, na verdade, baseia-se no erro inato”672. Ainda que o termo esteja vinculado ao otimismo, a eudemonologia dos Aforismos não está fundamentada no erro inato. Este impõe sobre a realidade o destino à satisfação final do querer e, simultaneamente, assume o eu cognoscente como livre e como identidade, buscando na satisfação dele a realização do seu destino. Se o erro inato, dotado de fria ponderação, confronta-se com sua condição, “inevitabilidade da dor”673, resistência perpétua à morte e vanidade do existir, conclui que a não-existência é

669 SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a Sabedoria de Vida. Trad. Jair Barboza. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 1.

670 Idem, ibidem. p. 1. 671 Idem, ibidem. p. 1. 672 Idem, ibidem. p. 1.

673 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e como representação. 1º Tomo. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. 2ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2015, p.366. [§57].

preferível. Da resistência à morte no estado do erro, constata-se que o que mantém o organismo em “luta árdua não é tanto amor à vida, mas sim temor à morte, que, todavia, coloca-se inarredável no pano de fundo e a cada instante ameaça entrar em cena”674. A concepção de eudemonologia dos Aforismos, entretanto, pressupõe a existência “considerada de modo puramente objetivo ou, antes, pela ponderação fria e madura (pois aqui se trata de juízo subjetivo) como algo preferível à não–existência”675, como algo “que nos apegamos [hingegen] [...] por ela mesma, não meramente por medo da morte”676, não como meio para a satisfação final da vontade, e como algo que “gostaríamos de vê-la durar de modo indefinido”677. Fundada no otimismo, a existência humana não pode corresponder a tal existência; as pressuposições da eudemonologia, ao contrário, fundamentam-se no estado de autoconhecimento, negação da totalidade realizada no querer.

Na totalidade da realidade sentida, ao remeter ao vocabulário fundamental ‘agradável e desagradável’, o termo feliz condiciona a possibilidade da experiência. A tarefa da comunicação encontra-se atravessada pela natureza das palavras, “a voz dos animais serve unicamente para expressar a vontade, em suas excitações e movimentos, mas a voz humana também serve para expressar o conhecimento”678. Se a experiência da verdade deve ser comunicada, as individualidades precisam ser esquecidas, para que as palavras vinculem os envolvidos; porém, o conhecimento abstrato difere do sentido e os elos também distanciam. Para comunicar, deve-se “sempre que possível falar a linguagem das outras pessoas”679 para conduzi-las à ocasião da verdade; pervertendo o destino originário, “palavras ordinárias são usadas para dizer coisas extraordinárias”680. Entretanto, há temas que são incontornáveis e indissociáveis de palavras específicas. Com isso, o uso da palavra ‘eudemonologia’ vincula-se “ao ponto de vista comum, empírico,

674 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e como representação. 1º Tomo. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. 2ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2015, p.362. [§57]. 675 SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a Sabedoria de Vida. Trad. Jair Barboza. 2ª Ed. São Paulo:

Martins Fontes, 2006, p. 1. 676 Idem, ibidem. p. 1.

677 Idem, ibidem. p. 1.

678 SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 145.

679 Idem, ibidem. p. 90. 680 Idem, ibidem. p. 90.

cujo erro conserva”681, não dispondo de outra, o pensamento tem de empregá-la e sujeitar- se.

Diante da tarefa da comunicação e da incontornabilidade do termo, a compreensão da existência fundamenta-se enquanto pessimismo prevalecendo na autojustificação do pensamento; “a eudemonologia há de começar com o seguinte ensinamento: seu próprio nome é um eufemismo e, por ‘viver feliz’, deve-se entender ‘viver menos infeliz’, ou seja, de modo suportável. Decerto, a vida não está aí para ser gozada, mas para ser vencida e superada [erträglich leben. Allerdings ist das Leben nicht eigentlich da, um genossen, sondern um überstanden, abgetan zu werden]”682. Ainda que exponha a natureza da palavra e se distancie enunciando outra significação, a discussão por meio dela “permanece presa”683, baseada “numa acomodação”684. Para não induzir o leitor ao destino do corpo, a autojustificação da palavra faz-se necessária; na filosofia do pensamento o termo felicidade realiza um propósito diretamente oposto, logo, para poder abordar o tema, precisa desviar-se totalmente do ponto de vista superior, ético-metafísico, uma vez que se o abordasse na filosofia acabaria por afirmar a vontade ao reconduzir ao otimismo.

O destino do corpo consiste em direcionar-se para a felicidade, e esta tendência se expressa às custas da desestabilização do organismo estimulando na vontade. O estado volitivo se condiciona e reconduz a si a experiência. Do desequilíbrio pelo desejo, é imperativo retornar ao estado de satisfação por meio do esforço. Na consciência, o organismo determina o próprio empenho, o desejo direciona o esforço, ambos são o sofrimento se retroalimentando. Diferentemente, do conhecimento da verdade surge outro funcionamento, “a parte secundária (ou que conhece) da consciência fica totalmente separada da parte desejante, e passa por si mesma para a livre atividade; em outras palavras, inicia uma atividade não estimulada pela vontade[...] já não a serve”,685 pois objetos não são motivos. Se as grandes dores e felicidades que abalam o organismo “nascem não do prazer ou da dor imediatamente presentes, mas da perspectiva de um

681 SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a Sabedoria de Vida. Trad. Jair Barboza. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 2.

682 Idem, ibidem. p. 141. 683 Idem, ibidem. p. 2. 684 Idem, ibidem. p. 2.

685 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e representação. Tomo II. Complementos. Livros I-II. Vol. 1. Traduzido por Eduardo Ribeiro da Fonseca. Curitiba: Ed. UFPR, 2014, p. 314.

novo futuro ali antecipado”686, sem a serventia para inaugurar o encadeamento, exercita- se livremente. Esse modo de funcionamento do organismo, essencialmente volição, com o tempo oscila, as investidas da vontade impossibilitam a permanência em tal estado : “um pequeno esforço é exigido para permanecer no puro conhecimento [eine leise Aufforderung zum Verharren im reinen Erkenen], com desvio de todo querer”687.

Sustentados na base fundamental, os Aforismos não assumem a consciência enquanto identidade,

quando uma escolha se apresenta, ele não possui dado algum sobre como a vontade decidirá, pois o caráter inteligível, em virtude do qual diante de motivos dados só uma decisão é possível, a qual conseguintemente é necessária, não se apresenta acessível ao conhecimento do intelecto – tão somente o caráter empírico lhe é cognoscível, de forma sucessiva e por atos isolados. Daí aparecer à consciência que conhece (o intelecto) como se, num caso dado, fossem igualmente possíveis para a vontade duas decisões opostas.688

Se o organismo se reconhece afetado misteriosamente de fora e, do produto de suas funções, a consciência recebe a realidade, então, não há “ilusão de uma alma imaterial, simples, essencial e sempre pensante, portanto, infatigável, que se hospeda simplesmente no cérebro e não precisa de nada deste mundo”689, e disso resulta que a consciência, o eu cognoscente, não se presume livre, mas reconhecedora das determinações condicionantes do sentir e conhecer. Ainda que retirado do caminho volitivo, o organismo mantém a base fundamental.

A experiência aforística eudemonológica descrita na oposição ao otimismo fundamenta-se no pensamento conhecido in concreto. Sem a promessa do destino, conduzida em erro inato, o caráter eufemístico da felicidade se mostra inofensivo. Entrelaçada em sua natureza, a transparência do mundo encontra-se indissociável da vida do organismo, antes, nas condições volitivas, agora, preferível, indefinida e reconhecida por ela mesma. Assim, o pessimismo sustenta o organismo humano no sentimento do autoconhecimento, reconhecendo o mundo na consciência como função do corpo, não enquanto substância.

686SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e como representação. 1º Tomo. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. 2ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2015, p.366.

687 Idem, MVR I, 2015, p.235. [§39]. 688 Idem, MVR I, 2015, p.336.

689 SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a Sabedoria de Vida. Trad. Jair Barboza. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 198.

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