A escolha da entrevista como instrumento de coleta de dados se deu em virtude de a entrevista ser uma forma de interação social. A entrevista seguiu um roteiro (apêndice B) que trazia alguns questionamentos: o tempo que frequentavam o CAPS e as atividades que participavam, se já haviam sido internados, quais as definições que eles possuíam de si próprios e as formas com que as outras pessoas se relacionam com eles.
Nesse sentido, a entrevista ocorreu em pequenos grupos, conforme metodologia utilizada por Margareth Wetherell (1998), haja vista que a entrevista em pequenos grupos possibilita o diálogo entre os participantes, e não apenas entre entrevistador e entrevistado, o que torna a conversa mais dinâmica e natural, como pode ser visto no exemplo a seguir:
Guiomar: Sabe quem está internada? Helena: Quem?
Guiomar: A cartomante, a mãe dela disse que ela está toda amarrada. Helena: E ela estava tão melhor um tempo.
Guiomar: É porque ela não quer tomar a medicação. Helena: Ela tava tão melhorzinha.
Guiomar: Tava, que eu vi ela no posto e tudo. Jullyanne: A cartomante vem para cá, é? Helena: Vem.
Guiomar: Ela vem, mas é desobediente, não quer tomar a medicação, aí só vevi no Casa Verde internada, sofrendo naquele inferno, Deus me livre, Jesus.
Jullyanne: Como é lá?
Guiomar: Lá? O povo diz que existe inferno, mas não tem inferno pior que ali não. Eles amarra a pessoa, lá eles judeia, as doida de lá quer beliscar a pessoa.
Dona Evarista: Eu me vi doida lá, qualquer coisa eu pego uma determinação assim, aí elas corria atrás de mim para pisar no pé e eu fazia curativo.
Guiomar: Elas são ruim, judeia.
A interação entre as participantes na situação exemplificada ocorreu diversas vezes durante a realização dos grupos, pois os participantes “esqueciam” que estavam participando de uma entrevista para uma pesquisa e passavam a conversar sobre assuntos do cotidiano. E em outras situações, alguns dos participantes tomaram a posição de entrevistador, conforme visto no exemplo a seguir:
Brás Cubas: Os seus problemas não têm nenhum significado não? Bentinho: Tem.
Brás Cubas: Então diga um.
Bentinho: (Pausa). É que eu, é que já, eu quero dizer que, é que, é que já passou é, graças a Deus, é que já passou todos os problemas é, todos os problemas negativos do passado e todas as coisas...
Brás Cubas: Ruins?
Bentinho: Ruins que aconteceram também, infelizmente no meu passado.
Brás Cubas: Mas você pode identificar alguma coisa que aconteceu com você? Dizer só uma que não lhe fira?
Bentinho: Humrum.
Brás Cubas: Que dê condições para você falar, uma palavra que aconteceu na sua vida para você chegar até onde você tá hoje.
Bentinho: (Pausa). É que eu passei por uma situação é de saúde que eu tava com medo é de falecer, mais jovem.
Brás Cubas: E qual foi o problema?
Bentinho: Que a minha família tem problema no coração, pressão alta. Brás Cubas: Ritmia?
Bentinho: Quando de 2003 eu tava com 17 anos aconteceu uma vez comigo, mas só que não foi aguda não, forte não porque se fosse aguda é, eu não sei é, eu acho que não taria mais aqui, na terra.
Brás Cubas: Mas qual foi a situação?
Bentinho: É, aí teve uma pessoa que eu acho que falou uma coisa, acho que falou uma coisa aparentemente muito séria, aí, e muito pesada, que foi muito séria e muito pesada na minha vida aí.
Brás Cubas: Mas para você chegar nesse problema aí teve alguma coisa sobre a sua família, dependência de alguma coisa ou namorada. Bebida, droga, alguma coisa? Bentinho: Bebida alcoólica, fumo, droga, isso aí nunca aconteceu.
Brás Cubas: É só para você explicar, tá entendendo? Bentinho: Eu acho assim que eu não sei, eu não posso...
Brás Cubas: Olhe, eu não vou negar para si próprio porque eu não nego para Deus o que eu fiz no passado. Usuário de droga, maconha, pó, só não pedra. Bebida, cigarro... Bentinho: Eu sei, é porque o meu caso é diferente. Então é que assim...
Brás Cubas: Não pode dizer, é? Bentinho: Posso, vou explicar. Brás Cubas: Explique então.
Bentinho: É que eu não sei, eu não tenho certeza, eu acho que é como se fosse alguma coisa espiritual, alguma coisa espiritual.
Brás Cubas: Hum... Tem explicação.
Bentinho: Mas eu não tenho certeza, é, 100%.
Brás Cubas: Mas você pensa que foi candomblé, foi? Espiritual, né? Bentinho: Espiritual, deixa eu explicar que...
Brás Cubas: Alguém botou alguma coisa ruim para você?
Bentinho: Infelizmente na minha infância, assim, é porque eu não quero falar o nome é do inimigo que está escrito na bíblia, porque eu acho que é do inimigo e a armadilha é perigosa, do mal, infelizmente.
Brás Cubas: Não é preciso dizer. Bentinho: Oi?
Desse modo, percebe-se a potência das entrevistas em pequenos grupos. Além das riquezas advindas das entrevistas em grupos, o fato de as entrevistas ocorrerem após a construção da produção das máscaras também apresentou contribuições riquíssimas aos objetivos da pesquisa, pois a oficina possibilitou que os participantes, de forma mais espontânea e natural, relatassem como se reconhecem enquanto sujeitos.
Importante ressaltar que o procedimento da coleta de dados durante as entrevistas levou em consideração não tão somente a consistência das falas, mas a sua variação, pois esta revela as construções dos sentidos e dos significados que os participantes possuem acerca da sua identidade, bem como incluiu as falas da pesquisadora, haja vista que ela é considerada uma participante ativa nesse processo (Potter & Wetherell, 1987).
As entrevistas em pequenos grupos foram gravadas, conforme a autorização dos participantes, em um aparelho gravador, e posteriormente foram transcritas, em sua totalidade, pela pesquisadora.