PARTIE 1 L HABITAT INTELLIG ENT (POINT DE VUE TECHNIQUE)
5.2 Intégration des différentes technologies
5.2.5 UPnP (Universal Plug and Play)
A organização e o controle do tempo do relógio, oriunda da era industrial, a partir do século XVIII, mescla-se com as novas funções provenientes da cultura virtual e modifica a linearidade do tempo. O tempo do trabalho, por vezes, é interrompido pelo fácil e imediato acesso às redes sociais, que atraem o interesse particular dos usuários, “o ser humano experimenta o tempo de diferentes maneiras, dependendo da maneira como as suas vidas estão estruturadas e praticadas” (Castells, 2011: LXVI). O acesso às redes é muitas vezes bloqueado em fábricas, empresas e outras organizações para que não se ameace o tempo regulamentado e o foco de dedicação do trabalhador.
130 Castells (2013:97) afirma que “comunicar é distribuir significados mediante o intercâmbio de informação”. Tais significados, segundo o autor, só são possíveis de entender no cerne das relações sociais em que estes se processam: “o processo de comunicação define-se pela tecnologia de comunicação, as características dos emissores e os receptores da informação, os seus códigos culturais de referência, os seus protocolos de comunicação e o âmbito do processo”. Com a Internet, a comunicação passa a ser, predominantemente, “interactiva”, com alto poder de difusão. Castells (2013:98) enfatiza que a interação na cultura digital “mistura e recombina na sua diversidade uma ampla variedade de expressões culturais produzidas pela interacção humana”. Toda esta diversidade a qual se refere Castells se dá, de forma mais intensa, a partir dos anos 80, com base na “transformação tecnológica” advinda da Internet, maior capacidade de transmissão e difusão dos canais de televisão e de outros meios multimídia, com tecnologias digitais avançadas. A partir dos anos 90, as redes sem fio e os telefones móveis multiplicaram-se rapidamente, tanto em países desenvolvidos como nos em desenvolvimento. Castells (2013:109) adverte que a “Internet, nas suas distintas aplicações, é o elo da comunicação das nossas vidas: para o trabalho, os contactos pessoais, a informação, o entretenimento, os serviços públicos, a política e a religião”.
Mecanismos de difusão da informação digitais, além dos tradicionais, como a televisão, a rádio e os jornais mudaram as relações dos usuários com os meios e suas formas de interação, produção e recepção da informação. Castells (2013:108) ressalta que, em termos de audiência, faz sentido comparar a Internet com a televisão, já que os documentos trocados por meio da rede “podem ser textos, sons, vídeos, programas de software, literalmente qualquer coisa que se possa digitalizar”. O autor denuncia que, em 2008, foram contabilizados 112,8 milhões de blogs:
“A chamada “blogosfera” é um espaço de comunicação internacional e multilíngüe. Embora o inglês dominasse nas primeiras fases do desenvolvimento dos blogues, em Abril de 2007 só 36% das entradas dos blogues eram em inglês, enquanto 37% eram em japonês e 8% em chinês. A maioria de entradas de outros blogues repartiam-se entre espanhol (3%), italiano (3%), russo (2%), francês (2%), português (2%), alemão (1%) e persa (1%)” (Castells, 2013:111).
O autor revela que a maioria dos blogs no mundo é de “natureza pessoal”. Isto pode indicar que, apesar de toda a impessoalidade que o mundo nos reserva nas relações interpessoais, há uma busca incessante por ser pessoal e próximo e por fugir da solidão.
131 As intenções dos autores quanto aos blogs podem ser de natureza diversa, alguns os utilizam como um diário pessoal, sem ter o objetivo primordial de serem lidos, mas sabem que podem sê-los, pelas características que os configuram. Uma vez na rede, encontram-se num território público, de livre acesso a quem tiver interesse. Outros querem atingir, de imediato, o olhar do outro. Como denuncia Castells (2013:111), “qualquer coisa que se coloque na Internet, independentemente da intenção do autor, converte-se numa garrafa lançada ao oceano da comunicação global, uma mensagem susceptível de ser recebida e processada de formas imprevistas”. Nesta mesma direção, Sturken e Cartwright (2009:26) sublinham que a forma com que as imagens circulam hoje na internet configura um contexto muito mais complexto que aquele que tivemos na metade do século XX: “qualquer imagem ou clipe de vídeo pode ser exibido em um curto período de tempo em contextos muito diferentes, cada um dos quais podendo dar ao observador diferentes inflexões e significados”175. As autoras denunciam que as imagens publicadas carregam convenções “sociais” e “estéticas”, além de “pistas”, que nos levam a decodificá-las. Estas “pistas” “podem ser elementos formais, como cor, tons de preto e branco, tom, contraste, composição, profundidade, perspectiva e estilo de sinalizar para o espectador”176 (Sturken e Cartwright, 2009:26 27).
Assim, este tipo de comunicação pode caracterizar-se como “comunicação de massa”, por sua capacidade de difusão. Na visão de Castells, vivemos numa sociedade de ilimitados “fluxos” comunicativos. Castells (2011:605) sublinha que as redes deram uma nova “morfologia” às sociedades, modificando as “operações e os resultados dos processos de produção, experiência, poder e cultura”. O autor enfatiza que fundamentos da sociedade como o espaço e o tempo sofrem transformações na era digital, “organizando-se em torno do espaço de fluxos e do tempo atemporal”, o que “representa uma transformação qualitativa da experiência humana” (Castells, 2011: 614). Castells (2011:LXVII, LXVIII) conceituou o tempo da “sociedade em rede” de “tempo atemporal”, “o tipo de tempo que ocorre quando, num dado contexto, como na sociedade em rede, existe uma perturbação sistemática na ordem sequencial das práticas sociais que decorrem neste contexto”. Há uma forte tendência à aceleração frenética do
175 “any given image or video clip might be displayed in a short period of time in many very different
contexts, each of which might give it different inflections and meanings” (Sturken and Cartwright, 2009:26).
176 “these clues may be formal elements such as color, shades of black and white, tone, contrast,
composition, depth, perspective, and style of address to the viewer” (Sturken and Cartwright, 2009:26,27).
132 tempo e à onipresença, à ubiquidade, por meio da tecnologia. Cria-se a necessidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo e a resolver tarefas simultâneas que, sem a utilização das novas tecnologias, não seria possível. Os seres humanos são, assim, postos diante de circunstâncias diárias e encorajados a vencer, superar e suportar múltiplas tarefas profissionais e domésticas.
A busca do ser humano não se resume apenas ao tempo ocioso para fazer as coisas pelas quais mais se interessa e gosta, mas ao próprio significado de sua existência, a ver sentido naquilo que faz. Castells (2011:26) enfatiza que “as relações sociais são definidas em relação aos outros com base nos atributos culturais que especificam a identidade”. A onipresença na ciência religiosa é um atributo divino, só possível a Deus. As novas invenções tecnológicas, iniciadas a partir da década de setenta, dão ao ser humano a ilusão de serem heróis do tempo e de possuírem atributos considerados divinos.
Manuel Castells (2011: XLIX)177 chama este fenómeno de “A Sociedade em Rede”: “A World Wide Web é uma rede de comunicação utilizada para enviar e trocar documentos. Castells sublinha ser a Internet e seus aplicativos hoje “o tecido comunicacional de nossas vidas” (Castells, 2011: XLIX).
A busca frenética por formas de entretenimento virtual modificou as noções de tempo, espaço e velocidade. Tudo passa a ser “instantâneo”, “simultâneo”, multiespacial. O que se deseja ver e pesquisar encontra-se, em linhas gerais, catalogado na rede. O autor (2011:LVI) denominou a “espacialidade da interação social” de “espaço de fluxos”: “o suporte material das práticas sociais simultâneas comunicadas à distância”. Toma-se o pequeno almoço em algum país da Europa, comunicando-se com um “amigo virtual” do ouro lado do continente, que supostamente partilha das mesmas ideias, ideologias e saberes. Da mesma forma, imediatamente podem se excluir amigos virtuais, que já foram ou não reais, se os laços e redes que os uniam já não interessarem a um e outro. A palavra “unfriend” foi incorporada ao “Oxford English Dictionary” a partir de 2013 e significa “remover (alguém) de uma lista de amigos ou contatos em um site de rede social”178.
177 Castells, 2011. Em Prefácio à edição de 2010.
178 “Remove (someone) from a list of friends or contacts on a social networking website”. In Oxford
133 Todas estas possíveis interações comunicacionais atestam pessoas em movimento, a registrar e a divulgar o que estão fazendo para outras pessoas. Querem, assim, chamar a atenção de olhares para si, a mostrar que se é interessante ou que se sabe fazer coisas interessantes. Como enfatiza Mirzoeff (2016:15), a cada mês são gerados, apenas no “YouTube”, “seis bilhões de horas de vídeo, uma hora por cada habitante do planeta”179. Isto tudo após o ano de 2005, quando a ferramenta entrou no ar. No que tange às fotografias, apenas em 2014 foram produzidas mais de um bilhão. Estes números servem para nos fazer reconhecer que vivemos em uma sociedade plenamente “visual” e amplamente “conectada”. Há disputa entre países e continentes para liderar as inovações tecnológicas e dar suporte às transições temporais que impõem mudanças culturais no âmbito da comunicação, dos transportes, da infraestrutura das cidades, da distribuição de energia, da produção agrícola e industrial, da educação, entre outras.
Mirzoeff (2016:22) realça que nossos corpos são, na chamada era virtual, “extensões de redes de dados que fazem cliques, links e selfies”180. Pode-se dizer que a imagem fotográfica da selfie transforma nossa própria imagem em “cyborgs”, “organismos cibernéticos”, termo criado nos anos sessenta por Manfred E. Clynes e Nathan S. Kline para estabelecer uma relação entre seres humanos e máquinas e, posteriormente, publicado em 1985, por Donna Haraway, por meio do ensaio “A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieh Century”.
As interações na rede não se limitam a troca de mensagens nas redes sociais. Incluem transações bancárias, operações na bolsa de valores, reserva em hotéis, compras e serviços de toda espécie, alimentação, vestuário e meios de transporte. Todas estas interações exigem uma arquitetura de redes que suporte excessos de acesso em horários de maior utilização pelos usuários, além de aprimoramento constante em função de expansões diárias e futuras.
A expansão da visualidade nas redes de informação e comunicação é capaz de interferir, como refere Castells (2011:129-130), em mercados em todo o mundo, que se
179 “6.000 millones de horas de vídeo, una hora por cada habitante del planeta” (Mirzoeff, 2016:15). 180 “extensiones de redes de datos que hacen clics, enlaces y selfies” (Mirzoeff, 2016:22).
134 encontram numa “rede global financeira cada vez mais complexa”, e que operam mercados globais interdependentes:
“os movimentos nos mercados financeiros são o resultado de uma complexa combinação de regras de mercado, estratégias comerciais, medidas de motivação política, planos dos bancos centrais, ideologias dos tecnocratas, psicologia das multidões, manobras de especulação e turbulências de informação com origem em vários locais” (Castells, 2011:129-130).
Tais mecanismos de organização estão imbricados no padrão mental das pessoas, a partir de formas comunicacionais adotadas como signos da linguagem e da expressão humana. A utilização da Internet promoveu a formação de redes de interação e comunidades virtuais. As emoções individuais já não são tão privadas, embora muitos escondam seus sentimentos atrás de publicações de imagens de ócio, curtição e lazer. Muitos teóricos e estudiosos apontam esta forma de comunicação como não nobre, fluída, superficial. Mas como argumenta Castells (2011:432), os media são as metáforas do nosso cotidiano e “criam o conteúdo da nossa cultura”: “os media, e em particular os media audiovisuais na nossa cultura, representam de facto o material básico dos processos de comunicação. Vivemos num ambiente de media, e a maior parte dos nossos estímulos simbólicos vem dos meios de comunicação” (Castells, 2011:442).
Outras formas de ocupação e força de trabalho foram incrementadas na era da comunicação em rede. Castells (2011:32) observa que “entramos num mundo verdadeiramente multicultural e interdependente, que apenas pode ser percebido e modificado a partir de uma perspectiva plural que une a identidade cultural, os sistemas de rede globais e as políticas multidimensionais”. No limite, como denuncia Mirzoeff (2016:20), estamos “conectados ou desconectados”, eis o que caracteriza a nossa Identidade no mundo atual. Neste sentido, destacamos os blogs como um meio social de comunicação, que responde ao imediato e ao simultâneo de nossa época, já que comentários e notícias podem sair no exato momento do acontecimento de um facto e o próprio autor comanda o click da publicação, sem ter que passar pelo crivo de editores ou por burocracias e hierarquias internas às organizações, que interrompem o fluxo imediato das notícias. Estamos numa época em que a notícia de ontem já é velha e o que interessa é a notícia do momento. Grandes empresas da comunicação contam com
135 imagens e vídeos de fotógrafos amadores para responder às exigências de noticiar factos, no exato instante em que acontecem.
Corporações da moda se utilizam de blogs e outras redes sociais para divulgarem as suas marcas. Pelo facto de milhares de consumidores utilizarem as redes sociais e a internet em suas práticas diárias, as empresas, de modo geral, redirecionaram a sua estratégia de marketing, vendas e comunicação para as mídias sociais.181. De acordo com o estudo “How fashion brands use social mídia” (2016)182, as marcas procuram adaptar-se àquilo que os consumidores procuram. Sem carregá-los com informações desnecessárias, buscam oferecer informação de boa qualidade e criar “conexão emocional” entre marca e usuário, apresentando novos desfiles e colecções nas redes sociais. Empresas de media prometem às grandes marcas criar campanhas de marketing que causem impacto no mundo digital, por meio de experiências e sensações de verdadeira imersão. Segundo o estudo da Adglow, outra estratégia utilizada pelas marcas para se aproximarem de seus seguidores nas redes sociais é envolver seus produtos em experiências e momentos com seus usuários, por meio da publicação de fotos, street style, dicas de moda e estilo e projeção da imagem da marca, por meio de influenciadores, como blogueiras ou as chamadas “It girls”. As marcas também promovem eventos e os divulgam nas redes sociais. Vivemos no tempo das hashtags, termo incorporado ao dicionário de língua inglesa Oxford, em 2014, que se refere a palavras chaves associadas a um tema que se quer por em destaque. O símbolo cerquilha (#) antecede a palavra ou o termo que se pretende destacar183.
As marcas pretendem alcançar um diálogo mais profundo com os seus usuários por meio das redes sociais. Uma das estratégias fortemente utilizadas para a boa projeção da imagem de uma marca junto aos seus usuários é a “strategic storytelling”. Para Sarah Oh, da “Columbia University School of the Arts”184, uma storytelling “sempre foi central para a experiência humana - é como explicamos e entendemos o mundo”. Sarah Oh acredita que pessoas necessitam ver o mundo por meio de uma história a ser contada, porque as narrativas criam empatia e conexão emocional com o usuário. Sarah Oh diz que boas séries de televisão podem gerar outras séries para a Web,
181 Ver http://www.adglow.com/blog/it/how-fashion-brands-use-social-media, acedido em 26/07/2017. 182 By Adglow – February 19, 2016, disponível em http://www.adglow.com/blog/it/how-fashion-brands-
use-social-media. Adglow – Empresa de Consultoria e Tecnologia em Media Management and engage on social platforms.
183 https://pt.wikipedia.org/wiki/Hashtag, acedido em 27/07/2017.
184 “has always been central to humam experience – it´s how we explain and make sense of the world” -
136 jogos de vídeo online, experiências interativas com os fãs, entre outras formas de participação com o usuário.
As marcas de roupas possuem audiência distribuída entre diferentes canais das redes sociais, como Facebook, Instagram, Pinterest, Twitter, entre outras.185 Atualmente, a rede social Facebook domina a audiência no âmbito da moda, acumulando um considerável número de seguidores, que, em números do ano de 2016, estava em 2,3 bilhões.