2. SIP to PSTN Dialing
2.7. Unsuccessful SIP to PSTN: ANM Timeout
O ultramontanismo foi um modelo eclesial surgido no final do século XVIII, ganhou força após a Revolução Francesa como reação a esta, e atingiu seu apogeu com os pontificados de Gregório XVI (1831 – 1846) e Pio IX (1846 – 1878).
“Ultramontano foi um neologismo cunhado no século XIII por meio da junção do prefixo ultra e do substantivo
mons/montis, cujo significado literal – “para além dos
montes” -, passou a designar a procedência dos papas escolhidos além-confins dos Alpes. No decorrer dos anos de 1800, tanto “ultramontano” quanto seus derivados ganharam um sentido bem diverso, pois se tornaram o qualificativo por excelência de pessoas ou associações alinhadas com as diretrizes do Romano Pontífice.82
Segundo Hubert Wolf, no contexto do conflito religioso-cultural alemão, que ficou conhecido como kulturkampf, o termo ultramontano assumiu um sentido negativo entre os liberais. No período nacional-socialista, todos os católicos eram chamados de ultramontanos, mas como forma de difamação, significando que eram membros da internacional católica. 83 Os adeptos do ultramontanismo eram alinhados às diretrizes vindas de Roma, e entendiam o Papa como o verdadeiro chefe da Igreja, o representante de Cristo na terra. Combatiam as ideias liberais e revolucionárias, que questionavam as autoridades constituídas, tanto eclesiásticas quanto civis.
Com a convicção crescente do próprio valor, a ideia papal de igreja ganhou mais e mais peso. No embate com a modernidade, com as errâncias e confusões de uma época cada vez menos compreensível em sua pluralidade praticamente inexplicável, erguia-se o papa como a rocha de Pedro no meio das tempestades e dos vagalhões. Nele era possível encontrar um apoio seguro. Por isso, o papa devia ser transformado, também no campo literário, na instância máxima e incontestável enraizada na eternidade, para que pudesse emitir juízos definitivos acerca das
82 VIEIRA, Dilermando Ramos. História do catolicismo no Brasil, p. 213. 83 KAUFMANN, Thomas. História ecumênica da Igreja, volume 3, p. 114
grandes questões da época, abonados pela autoridade divina. 84
Os ultramontanos fizeram o possível para transformar o Papa na voz certa em meio ao que eles consideravam a confusão, mas que na verdade era uma série de mudanças pelas quais passava a sociedade da época. Como exemplo, temos a obra Il trionfo dela
Santa Sede, de 1799, escrita pelo monge camaldulense Frei Mauro Cappellari (1765 –
1846), que em 1830 foi eleito papa e adotou o nome de Gregório XVI. Neste opúsculo, Cappelari fazia uma equiparação entre papa e Igreja: quem quisesse ser católico deveria ser papal. Não foi difícil transformar o papado num símbolo; embora a Revolução Francesa tenha contribuído para o declínio dessa instituição, sincronicamente ele tornou- se num símbolo para as forças antirrevolucionárias. O Papa Pio VI, preso e exilado em 1798 pelas forças revolucionárias, foi alçado à categoria de mártir após sua morte, mesmo que lhe tenha faltado certo tino diplomático para enfrentar a crise.
Ainda segundo Wolf, o Papa e Roma tornaram-se não apenas o centro de organização da Igreja enquanto aparato burocrático-administrativo, mas também parâmetro para a religiosidade popular. A liturgia romana tornou-se a única correta. Também a vida de piedade foi romanizada, com a substituição das liturgias próprias das dioceses pelo ritual romano. Contudo, nas regiões setentrionais foram acolhidas as formas de piedade italianas, espanholas ou romanas, mais emotivas, até então estranhas ao frio do Norte. Especialmente as devoções a Maria no mês de maio e a devoção ao Sagrado Coração de Jesus cresceram muito.
Quando foi aberto o conclave para a eleição do sucessor de Pio VI, o colégio dos cardeais mostrou-se claramente dividido em duas tendências: os zelanti e os politicanti85.
Os primeiros propunham a restauração plena da Igreja e dos Estados Pontifícios ao que era anteriormente à Revolução. O segundo grupo, por outro lado, vislumbrava uma adequação, na medida do possível, às reformas propostas pelos liberais. Acabou vencendo a segunda tendência, com a eleição do beneditino Barnabá Luigi Chiaromonti (1740 – 1823), um politicanti moderado que adotou o nome de Pio VII. Era um homem que sabia distinguir entre interesses políticos e interesses religiosos, e adepto de reformas e de um diálogo com Napoleão. Por isso, assinou com ele uma concordata e aceitou ir a Paris
84KAUFMANN, Thomas. História ecumênica da Igreja, p.114 85 Idem, p.120
participar de sua coroação como imperador, embora não tenha colocado a coroa no imperador, como era o costume desde Carlos Magno. Contudo, não aceitou participar do bloqueio continental à Inglaterra e, quando Napoleão, em represália, invadiu e ocupou os Estados Pontifícios, pronunciou uma excomunhão aos “saqueadores do patrimônio de Pedro”. Em 1809, foi levado para Paris onde foi obrigado a assinar o Tratado de Fontainebleau. Retornou a Roma em 1814. Devido à sua resistência contra Napoleão, o papado viu aumentar sua autoridade moral.
Com a morte de Pio VII, os zelanti conseguiram eleger Annibale della Genga (1760 – 1829), que adotou o nome de Leão XII. Em seu pontificado, instalou-se um regime de severidade. Foram trazidos a Roma o maior número possível de candidatos ao sacerdócio, a fim de que, bebendo das fontes da escolástica, levassem para o mundo a teologia romana. Após Leão XII, foi eleito Francesco Castiglione (1761 – 1830), um politicanti, que adotou o nome de Pio VIII, e que governou por pouco tempo, por isso não pôde fazer reformas. Apenas conseguiu diminuir um pouco a severidade instalada em Roma.
No conclave de 1831, foi eleito um zelanti extremado com mentalidade reacionária: Mauro Capellari, que, como já foi citado, escreveu, em 1799, um opúsculo em defesa da Igreja e do papado, adotou o nome de Gregório XVI.
Gregório XVI era favorável à monarquia absoluta do papado. Ele defendia uma delimitação clara entre o catolicismo e a modernidade, por considerar essa última absolutamente incompatível com o espírito da Igreja. Pelo mesmo motivo rejeitava também a democracia. Quanto à doutrina, chegou a condenar tanto o fideísmo (Bautain) quanto o racionalismo (Georg Hermes). 86
Gregório XVI era oriundo de família nobre, nascido em 1765 na cidade de Belunno. Aos dezoitos anos ingressou na ordem camaldulense, a mais severa do ramo beneditino. Era um teólogo e erudito, com pouca experiência política e diplomática. Criado cardeal em 1825, foi Prefeito da Congregação de Propagação da Fé.