Conheci o Ilê Asé Ogum por intermédio de uma amiga. Ela, por sua vez, chegara ao Ilê em 2013 para cuidar de suas obrigações em seu caminho na religião dos Orixás. Não nos falávamos fazia tempo, mas eu sabia que ela estava frequentando um Ilê na grande São Paulo. Primeiro, porque tendo sido a pessoa que me iniciou nas palavras18 do culto aos Orixás, sabia que ela não estaria totalmente desamparada espiritualmente e, segundo, porque havia conhecido a Iya Ana Rita no mês de junho anterior, numa festa do grupo de jongo que Nyota faz parte.
Conversei por mensagens, telefonemas e e-mails com todas as pessoas conhecidas que poderiam indicar e me apresentar a algum terreiro de Candomblé em que eu pudesse, potencialmente, vir a desenvolver a pesquisa. Minha fala, neste momento, foi de retomar com estas pessoas os objetivos de minha pesquisa e explicar minha necessidade de encontrar um terreiro de Candomblé, em São Paulo, dada a inviabilidade para minha ida e permanência em Salvador. A princípio, eu precisaria apenas ser apresentada à casa, participar das festas e ir, aos pouco, abrindo os caminhos da relação que gostaria de estabelecer com aquela comunidade.
Tive poucos retornos. Uma resposta negativa, de um colega participante da RENAFRO Saúde (Rede Nacional de Religiosidades Afro-Brasileiras) e Nyota que me passou uma lista de contatos que ela criou ao longo de sua caminhada. Perguntada especificamente sobre a Casa de Ogum, ela me disse que seria complicado para ela fazer esta indicação, ao passo que ela mesma ainda estava construindo seu espaço dentro do Ilê. Também me informou que a casa está fechada19 há mais de vinte anos e seria muito difícil Iya Ana Rita receber uma pesquisadora. Mas ela me convidaria para todos os momentos em que coubesse a chegada de pessoas externas a casa.
18 Digo “nas palavras”, pois apesar de, até então, não conhecer formalmente os meandros do Candomblé,
já tinha um certo repertório de uma espiritualidade abafada desde criança, tanto por uma inexplicável sensibilidade, quanto por práticas alimentares e de vestimentas, indiretamente herdada por minha família oriunda da Bahia e de Pernambuco. Esta “primeira iniciação” foi o momento em que passei a nomear este repertório.
19 Quando falece alguma pessoa de um Candomblé, a casa fica fechada por um determinado tempo.
Quanto maior o cargo e a presença desta pessoa no terreiro, mais tempo a casa fica fechada. No caso do Ilê Asé Ketu Egbe Oni o falecimento foi do Babalorixá, fundador deste Ilê. Este fechamento é a pausa nos festejos públicos, principalmente, o xirê, o toque para os Orixás. No entanto, permanecem os cuidados internos e as obrigações de filhos e filhas da casa.
Assim foi e, em janeiro de 2015, fui convidada para participar de um mutirão de limpeza do Ilê. Foram cerca de 15 pessoas, quase todas convidadas externas como eu. Passamos o dia entre a capinação, a construção de uma mureta e o conserto do galinheiro. Com o sol escaldante, as mulheres já mais inseridas a casa se encarregavam de subir e descer as escadarias para levar água, sucos e frutas a quem estava ali no trabalho mais braçal. Iya Ana Rita encarregou-se da cozinha e nos ofereceu um maravilhoso banquete com feijão baiano, galinhada, frutas e suco natural. Ao final do dia, preparou acarajés que foram nosso lanche da tarde.
Eu conhecia parte das pessoas presentes, algumas amigas em comum, minhas, de Nyota e outras conhecidas da mesma festa de jongo em que vi Iya Ana Rita pela primeira vez. E, com muito trabalho a ser realizado, pouco conversamos sobre a presença delas ali no Ilê. Mas supus que, pelo engajamento delas, não era a primeira vez que estavam ali, como era meu caso. Também não consegui conversar, neste dia, com Iya Ana Rita.
Procurei Iya Ana Rita virtualmente, e pedi seu telefone. Minha ideia era falar abertamente sobre a pesquisa e propor-lhe uma entrevista, nos moldes propostos para Dabossi Urânia e Gaiakú Regina. Poucos dias depois, Nyota mandou-me recado que, no dia 19 de abril, haveria uma reza20 para Xangô no Ilê Asé Ketu Egbe Oni. Disse que Iya Ana Rita pediu para eu ir com tempo para termos a tal conversa que eu havia mencionado por mensagem.
No dia da reza éramos ao todo 8 pessoas, todas presentes no dia do mutirão, com exceção de uma mulher de Salvador/BA, irmã de Iya Ana Rita, que passava férias em São Paulo e o único homem, neste dia. Assim que chegamos, Iya orientou que tomássemos banho e colocássemos roupas brancas limpas e, rapidamente, fomos todas para os momentos da reza.
Já de noite, quando tudo acabou e comíamos coletivamente no barracão do Ilê, Iya disse que ainda precisava conversar comigo. Foi uma mistura de alivio e receio. Alivio porque eu estava sem forças para pedir uma conversa sobre a pesquisa e achei ótimo que ela mesma me chamou e receio, porque esta fragilidade já havia colocado muitos obstáculos para a continuidade da pesquisa e do meu próprio caminho na religião dos Orixás. Tive receio de, nesta conversa, colocar em risco a possibilidade de criar meu espaço ali, como filha, em nome da criação do espaço como pesquisadora. Ou
20
A reza, como prática interna ao Candomblé, trata, basicamente, do momento do canto das cantigas míticas dos Orixás.
ainda, com o desânimo que vinha carregando sobre os caminhos, acabar perdendo uma boa chance de conquistar ambos os espaços.
No entanto, a conversa com Iya Ana Rita foi bastante tranquila. Expliquei que estava pesquisando, mas que as coisas não vinham caminhando muito bem: os planos não davam certo, não estava encontrando um terreiro para fazer a pesquisa e estava com o ânimo e a confiança muito abalados fazendo-me ter perdido um tanto o foco de que caminho seguir. Também disse-lhe que algumas amigas haviam alertado-me que eu precisaria, pelo menos, pedir autorização a Exu para realizar a pesquisa, coisa que eu fazia em meu âmbito pessoal, mas, sem estar vinculada a nenhuma casa de axé. Eu realmente não tinha pedido esta licença do ponto de vista sagrado no Candomblé.
Iya Ana Rita disse-me que deveríamos pedir licença a Exu e aos Erês. Entendi que o primeiro, sendo o grande comunicador da religião dos Orixás, seria o primeiro receptor de meu pedido e que os segundos deveriam ser saudados pelo tema envolvido na pesquisa.
Adiante, Nyota ligou-me avisando que Iya Ana Rita iria realizar uma pequena obrigação da casa e me prontifiquei a ajudar , pois a própria Iya já havia indicado a necessidade de mais pessoas envolvidas na reabertura e cuidados de toda aquela nova comunidade que estava se reformatando.
Durante esta obrigação, estavam presentes as mesmas pessoas da semana anterior, na reza de Xangô e Iya Ana Rita rememorava mitos, cantigas, palavras em Iorubá que designam objetos e ações que, com o passar do tempo, tornaram-se internas da religião. Iya me perguntava sobre minha experiência com o povo de santo da nação Jêje, na Bahia e no Benim. Numa das histórias que contava animada sobre uma menina que foi iniciada ainda bebê, no Ilê, há mais de vinte anos atrás, enquanto nos orientava com os afazeres da casa possíveis a quem não é iniciado na religião, falei, em tom de brincadeira, que a história era tão boa que eu iria ligar o gravador e colocá-la em minha pesquisa. Todos riram e Iya Ana Rita disse: “Pode colocar! E tem muito mais, tem muita história com criança nessa casa!”.
A partir daí, ela própria passou a me indicar histórias, caminhos e narrativas que permeiam o tema da pesquisa. Autorizou-me a olhar as duas pilhas de mais de 20 álbuns com fotografias do Ilê e se dispôs a contar-me as histórias que envolvem as crianças que aparecem nas imagens. Iya Ana Rita, também, está constantemente preocupada com minha escrita e meu fortalecimento.
Desta forma, penso ter atingido meu objetivo inicial para a realização do trabalho de campo. Ousaria dizer que este objetivo foi, inclusive, ultrapassado. A aceitação de minha presença na Casa de Ogum por Iya Ana Rita se dá tanto do ponto de vista da pesquisa, quanto do ponto de vista do sagrado, como abian e possível filha da casa. Na verdade, a separação destes dois papéis só é possível do ponto de vista didático ou, talvez, a pesquisadoras/es com outras perspectivas. No meu caso, no entanto, o encontro e aceitação à casa de Ogum como parte daquela comunidade é o encaixe, o apaziguamento diante dos desajustes encontrados em outros espaços.
Fazer-me pesquisadora dentro do terreiro é o início de uma caminhada não somente pelo e sobre o terreiro, solo a ser por mim compreendido, nem a conversão à religião para melhor compreensão do olhar nativo, tema já amplamente debatido na Antropologia. É, antes de tudo, o encontro comigo mesma, com minha ancestralidade, com os processos de cura, com os valores e formas de ver o mundo deixado como legado e herança negra atualizada cotidianamente no terreiro.
Desta forma, penso ter atingido meu objetivo inicial para a realização do trabalho de campo. Se, inicialmente, não previa a necessidade de uma nova casa de axé21 para realizar a pesquisa, refletir sobre minha entrada tornou-se parte importante da pesquisa e de meu caminho como pesquisadora até aqui.