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UNIVERSITÉ PARIS - NANTERRE

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Rodrigo Pinto de Brito41

Resumo: O Império Persa contava com o apoio de eminentes famílias abderitas em seu projeto de expansão Mediterrâneo, dispondo da hospitalidade da família de Demócrito, o atomista. Em troca de tal auxílio, deixou preceptores magos e caldeus ao, então jovem, Demócrito, além de passe livre por todas as colônias do Império Persa, como a Índia, terra dos gimnosofistas, ou jainas que crêem até hoje que o universo é formado por partículas ínfimas chamadas anu, semelhantemente aos átomos de Leucipo. O monge jaina não reage ante qualquer evento e torna-se indiferente às investidas do prazer ou da dor, porque deixam de ser desejáveis ou repugnantes. Seria esta a origem das noções de apraxia, akatalepsia e ataraxia que aparecem no vocabulário pirrônico? Sobre isto trata este trabalho.

Abstract: The Persian Empire counted with the help of eminent Abderitan families in his expansion’s project through the Mediterranean Sea, disposing of the hospitality of the Democritus’ (the atomist) family. As a payment for this help, the Persian authorities left preceptors magus and Chaldean to the young Democritus, and also a ‘green card’ through all the Persian Empire’s colonies, as India, land of the gimnosophists, or Jainas. People who believe until today that the Universe is composed by lowermost particles called anu, similar with the Leucipus’ atoms. The Jaina monk does not reacts face of every event and becomes ind ifferent to the attacks of pleasure or pain, because they become no more desirable or avoidable. Would be this the origin of the notions of apraxia, akatalepsia and ataraxia which appear in the Pyrrhonic vocabulary? This work treats about this.

“Este mundo, com toda certeza, é transitório” (Aravinda)

I

A escola atomista, ou abderita, é fundada por Leucipo. Não se sabe ao certo de onde ele vinha. Teofrasto afirmou que era milésio, Diógenes Laércio diz que ele era eleata ou abderita. Mas as dúvidas não param aí, a própria existência de Leucipo foi questionada. Há uma possível interpretação de um fragmento de Epicuro que aparece em Diógenes Laércio, ‘Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres X, 13’ (dor avante D.L.) que pode ser traduzida de diversas formas, dada a influência do atomismo sobre Epicuro, interpreta- se a citação como: “Abstenho- me de discutir Leucipo” (Leukipon oudei gegonen oida).

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56 Esta é a interpretação que prevalece, some-se a ela que Aristóteles, que tinha um interesse especial pelo atomismo, e também seu discípulo Teofrasto que é uma impor tante fonte doxográfica para a filosofia pré-socrática, fizeram de Leucipo o criador da teoria atomista. Todas as dúvidas quanto a existência de Leucipo se devem ao eclipse causado por Demócrito sobre a figura do mestre. Isto porque a filosofia de ambos forma um corpus semelhante ao que nos chegou sob o nome de corpus Hipocrático. Teofrasto relaciona Leucipo com a filosofia eleata dizendo que ele “se associou a Parmênides em filosofia” (Teofrasto apud. Simplício, Phys., p.28, 4 (R.P., 185)). Pelo menos a influência de Zenão sobre o pensamento de Leucipo é inconfundível.

Uma notável diferença entre a doxografia sobre Leucipo e os fragmentos de Demócrito é a preocupação física e cosmológica do primeiro, e ética do segundo. Antes de seguirmos, convém uma olhadela no que nos diz Teofrasto, no Primeiro Livro de suas ‘Opiniões’:

[...] Leuc ipo presumiu ele mentos inumeráveis e m movimento permanente, a saber, os átomos. E tornou suas formas nu merica mente infin itas, já que não havia ra zão para que fossem de u m t ipo e não de outro, e por ter visto que havia u m v ir a ser e u ma mudança incessantes nas coisas. Ademais e le afirmou que o que é não é mais real do que o que não é, e que ambas são causas similares das coisas que vêm a ser. (R.P., 194.)

“Leucipo, entretanto, julgou ter uma teoria que se harmonizava com os sentidos. Não se desfez do vir a ser e do perecer, nem tampouco do movimento, nem da multiplicidade das coisas” (Aristóteles, De gen. Corr. A, 8, 324b 35 (R.P., 193)). Aristóteles, principalmente, mas também Teofrasto e Simplício investigaram arduamente os precursores da cosmologia e física ímpar de Leucipo. Tendo chegado a Pitágoras, Parmênides, Zenão, Melisso e Empédocles.

Contudo, dois indícios externos à discussão aqui são particularmente intrigantes: Heródoto, que nos informa que durante o projeto expansionista persa, eles contaram com o “apoio” de algumas nobres famílias jônicas para acomodar em suas casas autoridades persas (o mesmo ocorrerá após o domínio macedônio). E também Diógenes, que diz, sobre todos os sucessores da escola atomista que dispõem de uma

57 biografia um pouco mais detalhada, que estes teriam viajado para longínquas terras, porque abrigavam em suas casas autoridades invasoras, como foi o caso com Demócrito. E em troca, estes nobres traidores recebiam passe livre para viajar através dos domínios do império persa.

Um terceiro indício, desta vez interno, é o deslocamento da física para a ética que vigorará na escola à partir do viajante Demócrito. Se é possível inferir à partir de “o que é não é mais real do que o que não é”, que deve-se manter indiferente ou abster-se de opinar, porque o que importa são os sentidos. Mesmo assim o elo é muito frágil entre causa física e conseqüência moral e prática envolvidos aqui. Deve então haver outra gênese para a ética atomista.

II

Demócrito, de acordo com Demétrius e Anthistenes, teria viajado para o Egito, Pérsia e mar Vermelho. Diógenes o trata quase como um nômade, dizendo que ele visitou também a Índia, onde teria inclusive se associado aos Gimnosofistas. O mesmo é dito de Metrodoro, discípulo de Demócrito e mestre de Anaxarco que, por sua vez, era de quem Pirro era discípulo, e com quem teria viajado.

Fazendo um breve interlúdio. Muito se questionou o rigor de Diógenes quanto às citações. Algumas coisas devem ser ditas em favor dele: 1 – é anacrônico pretender que ele possuísse um rigor que só foi postulado a partir da Modernidade. 2 – mesmo assim, se devemos descartar Diógenes, devemos descartar também boa parte do que sabemos sobre pensadores como Pitágoras, Tales e todos os pré-socráticos em geral. Porque boa parte do que sabemos sobre eles vem de Diógenes ou de outras fontes mais ou menos tão confiáveis quanto ele. 3- Se há nele anedotas, e há muitas, isto não deve merecer descrédito, porque elas expressam o entendimento das pessoas comuns sobre as doutrinas filosóficas, o envolvimento dessas pessoas com estas doutrinas e com os filósofos, e o nível de inserção da reflexão filosófica, ao longo de vários períodos da cultura grega, sobre a linguagem do homem comum.

No caso específico de Pirro, as fontes para sua “Vida” em Diógenes são, entre outros, Antigonus de Carystus e Ascanius de Abdera. Ambos contemporâneos de Pirro, o que faz da “Vida” deste uma das mais bem documentadas e fidedignas de todas as

58 “Vidas” narradas.

Ambas as fontes, em D.L. IX 62 e D.L. IX 63, afirmam que Pirro ado tou sua filosofia suspensiva, com todo o modus vivendi particular que disto advém, após uma viagem com Anaxarco à Índia, tendo lá encontrado certos Magi e os Gimnosofistas.

Os Magi podem ser concebidos simplesmente como os sacerdotes Magi iranianos, mas dados os usos da palavra Magus nesta época, e neste contexto particular, os Magi são, mais provavelmente, algum grupo de homens santos da própria Índia, tanto hindus quanto budistas. Contudo, é metodologicamente arriscado e rigorosamente absolutamente hipotético relacionar Pirro com qualquer dessas escolas porque não há evidência documental suficiente e sólida para tal, embora as semelhanças sejam desconcertantes.

O mesmo não ocorre com o Jainismo. Gimnosofistas é uma palavra grega que significa sábio nu. E os únicos nus que existiam no vale do Indo na época da incursão de Alexandre eram os digambara (vestidos de espaço), que foram forçados pe lo governo muçulmano no ano 1000 a se vestirem, e aí se assemelharam aos svétambara (vestidos de branco). Os digambara são a seita Jaina original, teria havido um cisma entre os Jaina em torno de 83 d.C., por causa da insurgência de uma seita com pr incípios relaxados que se transformou na atual comunidade dos svétambara.

III

A fundação do Jainismo é atribuída, pelos historiadores ocidentais, a Vardhamana Mahávira, contemporâneo de Buddha. No entanto, os Jainas consideram que Mahávira não foi o primeiro, mas o último de uma série de 24 Tirthankaras (os Autores da Travessia do rio). O mais venerado entre todos eles é Pársvanatha “o Senhor Pársva”, que viveu exatamente cem anos antes de Mahávira, e atingiu o moksa, a libertação espiritual, o último e supremo objetivo dos adeptos da religião Jaina.

O senhor Pársva vivia e reinava como um deus no décimo terceiro céu. Quando chegou a hora de reingressar no mundo dos homens, reencarnou como filho do rei Ásvasena e da rainha Vâmá. Todos se admiravam desde cedo da sua beleza, e também de sua indiferença aos interesses, prazeres e tentações do palácio. Não desejava suceder seu pai, nem os encantos femininos, seu desejo era o não desejo, e assim renunciou ao

59 mundo. Partiu então aos 30 anos, tornou-se sannyása (asceta) e fez na floresta o voto de renúncia do mundo.

Assim, Pársvanatha alcançou a onisciência, anulou seu karma, se tornou salvador em vida e ensinou sua sabedoria. O interessante aqui é o radicalismo da libertação jaina, mesmo para padrões indianos. Pársva ensinou uma sabedoria que postulava a impossibilidade de se assentir à qualquer doutrina, porque o sábio se torna sem opinião, sua vida é inativa e isto gera a felicidade, que por sua vez é a negação da inquietude. Em grego estes conceitos são, respectivamente, aphasia (não asserção); adoxastous (não op inião); apraxia (não ação); ataraxia (não perturbação). Com a ênfase de que todas estas palavras fazem parte do vocabulário cético e servem para qualificar os estados do modus vivendi de Pirro; e também que são formuladas negativamente, assim como no vocabulário Jaina.

A ataraxia é uma palavra que provavelmente evoluiu a partir de euthumia e athambia, ambas usadas por Demócrito, mas não se sabe de onde Demócrito as tirou, que também no seu caso têm formulação negativa. Pesquisas “heróicas” como as de Everard Flintoff e Edwin Bevan demonstram a relação destes conceitos, em sua formulação negativa, com a recepção grega de metas de vida indianas. Mas é gritante a forma como isto é ignorado pela academia.

A arte Jaina representa os Tirthankara em uma tão grande impassibilidade inexpressiva, que mesmos os adeptos têm dificuldade em distinguir entre eles. Sua libertação é associada à pureza, ao despojamento das futilidades da vida comum (que se confundem com a própria vida comum), e isto deve estar representado nas imagens, semelhantemente, D.L. procurou retratar um Pirro despojado e indiferente.

Além disso, Pirro, assim como Pársva e seus 22 antecessores, se tornou renunciante aos 30 anos, passando a viver como nômade e eremita, qualidades do estado de vida dos apragmones, a apragmosynê, o equivalente grego dos vanaprastha indianos.

Outra semelhança: a aphasia (não asserção) se dará diante da percepção de que o que quer que se diga é dogmatismo (ditthi). Daí que tudo é inexprimível (avyakrta). Há catorze inexprimíveis, tanto para o Budismo Theravada quanto para o Jainismo, e também, pasmem, para Sexto Empírico, a formulação dos inexprimíveis sendo em quadrilemas nos três casos.

60 (1) que é, ou (2) que não é, ou (3) que é e que não é, ou (4) que não é e nem não é”. A fonte é Eusebio de Caesarea, falando de Timon, que fora discípulo de Pirro.

Como se não bastasse, voltemos a Demócrito. Para ele, assim como para Leucipo, seu mestre, o Kosmos é composto por partículas ínfimas que possuem infinitas formas e vagam aleatoriamente pelo vazio. Só há vazio e átomos, estes vagam devido a uma tendência natural ao movimento (mais tarde chamada clinâmem por Epicuro), até encontrarem átomos nos quais se encaixem para criar arranjos que componham a ilusão da realidade. Daí que não faz diferença ser bom ou mal, e a visão disso é a própria felicidade, sinônimo de indiferença. Isto redundará em duas possíveis posturas, a negação total do mundo ou a aceitação absoluta das regras sociais, que mesmo falsas, fornecem um critério eficaz para a ação (isto se refletirá nos dois paradigmas das biografias de Pirro em D.L. em que Pirro aparecerá como cidadão exemplar ou como outsider).

Para os Jainas, o universo funciona como um organismo vivo, mas composto por partículas ínfimas indivisíveis (anu e ajivika, respectivamente). Estas partículas vagam devido a uma tendência natural ao movimento, até encontrarem outras partículas nas possam se encaixar, criando arranjos que compõem a realidade como percebemos, que não passa de ilusão (maya). Diante de toda ilusão só resta cessar o karma, mesmo o positivo, cessam-se as ações boas ou más (asrava), estaciona-se a vida. O caminho de aperfeiçoamento ensinado pelo Jainismo era o do ascetismo iogue e o da abnegação.

Os sábios Tirthankara são assim chamados porque conseguiram atravessar o caudaloso rio das ilusões mundanas. E o fizeram com o auxílio da doutrina Jaina que lhes serviu de jangada. Tendo chegado à outra margem, uma margem de quietude infinita e reinante, jogaram a própr ia jangada da doutrina fora.

Sexto Empírico, e m uma passagem agora imortalizada por Wittgenstein, considerava o ceticismo como uma escada, utilizada para nos libertar das inquietações do gmáticas. Com essa escada podemos escapar alcançando a mais alta das janelas: aquela que nos conduzirá à quietude infinita e reinante. Depois, nos restará jogar a escada fora.

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ALEXANDRIA ROMANA POR DION CRISÓSTOMO, DION CÁSSIO E

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