3.3 Les transformées de Fourier couleur
3.3.3 Approche fréquentielle par algèbres de Clifford pour les images couleur
3.3.3.3 Une transformée de Fourier couleur utilisant G 4
Até ao ano de 1931, quando Meira de Carvalho iniciou a sua colaboração com os Irmãos Hospitaleiros170, o único médico responsável por observar e cuidar de uma população de cerca de trezentos pacientes era Luís Cebola, apenas esporadicamente auxiliado por Francisco Guilherme Teixeira Bastos171. De acordo com Carvalho, as terapias administradas anteriormente à década de trinta do século XX seriam as seguintes: aos alcoólicos era forçada a abstinência, sendo-lhes administrado sulfato de sódio; banhos e duches eram utilizados para acalmar os pacientes agitados; praticava-se o isolamento em celas individuais, bem como a restrição física – colete-de- forças, luvas de lona com correias, prisão com correias e lençóis à cama – na manutenção dos doentes classificados como esquizofrénicos. Carvalho acrescentava ainda:
Havia ainda umas cadeiras especiais, o que eu chamava o "sofá pau" com um buraco no assento, por baixo do qual se colocava um bacio alto, a que se chamava "cartola" que recebia as fezes e urina dos doentes gatistas172 que ali ficavam presos horas indeterminadas, nus da cintura para baixo e presos ao cadeirão173.
O mesmo médico referia a administração de neosalvarsan (914) e o uso de terapia pela injecção do parasita da malária, aplicadas aos doentes diagnosticados com paralisia geral, uma consequência da infecção por sífilis, aquando do último estádio de evolução desta patologia. O médico indicava ainda que nessa época existiam quatro diagnósticos principais: alcoolismo, esquizofrenia, perturbação maníaco-depressiva e paralisia geral174. No mesmo texto, publicado na revista Hospitalidade, Carvalho acrescentava ainda a existência de um método usado para controlar os doentes agitados – o abcesso de fixação –, bastante indicativo da ineficácia dos diferentes tratamentos, bem como do grau de agitação de determinados pacientes:
Quando tal processo não resultava [aqui referindo-se à hidroterapia] injectava-se na face externa da coxa do doente, dois centímetros de essência de terebentina (aguarrás) do que resultava, poucos dias depois, um grande abcesso, evidentemente
170 Exerceu clinica geral na CST até 1978.
171Carvalho, Meira (1968), op. cit., 1993, p. 233; Lavajo, Joaquim Chorão, op. cit., 2003, p. 182.
172 O gatismo é um estado de incontinência esfincteriana resultante da senilidade física e mental profunda,
de certos doentes paralisados, alienados ou muito idosos.
173 Carvalho, Meira, “Tratamentos no Telhal pelos anos 30” (1943), in Gameiro, Aires (Dir.), Casa de
Saúde do Telhal 1º Centenário 1893-1993 - Documentos Históricos e Clínicos, Lisboa, Editorial Hospitalidade, 1993, p.225.
40 asséptico. Pouco depois formava-se um grande fleimão que à menor movimentação exacerbava-lhe de tal maneira a dor que ele fazia o possível por não se mover. Quando estava em plena maturação procedia-se à abertura com um bisturi e após drenado continuava-se a fazer pensos diários atá à cura completa. Não era raro que logo a seguir se procedesse a uma mesma terapêutica na outra coxa175.
O nível de agitação dos pacientes era por vezes de tal forma que Carvalho descrevendo as sessões de hidroterapia recordava: “Quando se lá entrava era um grande pandemónio, com os doentes a gritar, enfermeiros a saltar e o médico a fugir para não se molhar”176.
Esta descrição acerca do ambiente na CST, antes da década de trinta, encontra-se em consonância com o que Edward Shorter referia acerca dos anos subsequentes à Primeira Guerra Mundial, durante os quais os psiquiatras, sentindo-se impotentes em relação à cura das doenças mentais, terão decidido experimentar diferentes alternativas terapêuticas. Uma delas foi a malarioterapia desenvolvida em 1917 por Wagner von Juaregg, para tratar a fase terciária da sífilis, atrás referida. Experimentaram igualmente o uso de fármacos da família dos anti- histamínicos que trouxeram algum alívio dos sintomas. Apenas no início da década de cinquenta ocorreria uma revolução farmacológica no tratamento das doenças da psique, através da introdução dos fármacos com propriedades antipsicóticas como a cloropromazina e outros da classe dos compostos orgânicos das fenotiazinas177.
No segundo volume da revista Hospitalidade, publicado em 1936, a nota de redação, constatava o “insignificante” número de tratamentos aplicados aos doentes internados na CST, face a uma população de pacientes tão elevada, que se justificava pelo facto dos tratamentos apenas serem administrados aos doentes que ainda demonstravam alguma possibilidade de cura:
Atendendo ao número total dos doentes internados poderá parecer insignificante o número de banhos de imersão prolongada, de duchas escoceses, injecções, etc. Todavia, convém não esquecer que os tratamentos aqui referidos são geralmente aplicados aos doentes, enquanto dão alguma esperança de virem a curar-se e não aos que passam ao estado de incuráveis que, como facilmente se compreende, são em maior número. Ora, atendendo ao número de entradas, no respectivo trimestre, observam-se resultados muito animadores e que enchem de alegria e coragem. Entraram 40, curaram-se 6; melhoraram 13; é alguma coisa!
175 Idem, p. 225. 176 Idem, p. 225.
177 Healey, David; Shorter, Edward, Shock Therapy: History of Electroconvulsive Treatment in Mental
41 Durante este trimestre de 1936 – Abril, Maio e Junho – passaram pela CST quatrocentos e trinta e nove doentes, dos quais trinta e quatro saíram até ao final de Junho. Desse grupo de doentes que obtiveram alta, seis foram classificados como estando curados, treze como estando melhorados, três saíram no mesmo estado, sete abandonaram a instituição em estado de cronicidade e cinco faleceram na instituição. As terapias mencionadas nesta estatística são a hidroterapia, malarioterapia, trepanações178, indução de comas insulínicos, tratamento pelo novarsenobenzol (914)179; tratamento pelo bismuto, stovarsol e sulfarsenol. Os quatro últimos, em conjunto com a malarioterapia, eram usados no tratamento da sífilis. De acordo com as estatísticas terão sido aplicados, durante esse trimestre, trezentos e quarenta e dois banhos de imersão, os quais teriam originado doze curas; duzentos e sessenta e seis duches escoceses, resultando em duas curas e oito melhoramentos; seis trepanações; quatro injecções de Sulfan, resultando num doente melhorado; um tratamento da narcose permanente180 resultando nas melhoras desse doente; onze doentes tratados por malarioterapia, referindo-se quatro melhorias e uma cura; um tratamento por insulinoterapia; sete tratamentos por novarsenobenzol 914; trinta tratamentos pelo bismuto; um pelo stovarsol e quatro pelo sulfarsenol. Face a esta análise poder- se-á então perguntar: o que entenderiam os Irmãos da OHSJD por melhorado, e por curado? Apenas seis dos pacientes, aqui indicados, saíram da CST durante este trimestre, um número inferior ao das curas indicadas nestas estatísticas, pelo que é legítimo supor que as referidas curas não seriam permanentes, mas apenas temporárias181.
Sobre os tratamentos aplicados à esquizofrenia, os Irmãos da OHSJD mencionavam, em 1938, a aplicação do coma insulínico, ou a terapêutica convulsiva. Acerca do primeiro método, indicavam não ter obtido “nenhuns resultados satisfatórios”, senão “ter conseguido levantar o estado físico do doente (nutrição), acompanhado de uma ligeira e pouco duradoura tranquilidade”.
178 Hospitalidade, op. cit., 4, 1936, p. 21.
179 Também designado por Novarsenol (914), ver Hospitalidade: Crónica Trimestral dos Irmãos da Ordem
de S. João de Deus, 3, Sintra, Editorial Hospitalidade, 1936, p. 8.
180 Tratamento que consistia na indução de um estado de inconsciência pela administração de fármacos,
produzindo um período de sono que podia ter a duração de vários dias.
181 Claude Quétel realizou um estudo estatístico, conjuntamente com Pierre Chanu e Pierre Morel, no qual
escrutinaram os registos de internamento do Hospital psiquiátrico do Bom Salvador de Caen, em França, para o período de 1838-1925. No total, analisaram 18.000 processos clínicos. Quétel refere que durante este período, a prioridade dos médicos e dos governos era esvaziar os asilos que se encontravam sobrelotados. De acordo com uma circular ministerial de 10 de Novembro de 1906, o então presidente do Conselho e ministro do Interior, Georges Clemenceau aconselhava os médicos a conferir alta a todos os alienados que não estando totalmente curados não precisassem de cuidados especiais, aos alienados curados ainda em idade relativamente jovem, bem como a todos os idosos cuja actividade intelectual estivesse quase eliminada, mas cujo estado não exigisse cuidados médicos especiais. Desse modo, Quétel sugeria que a designação de curado, indicada nas folhas de alta, nem sempre significava uma remissão total da doença psiquiátrica, recordando que muitas vezes o termo curado surgia mesmo em expressões de significado contraditório: “curado à experiência”, “presumível curado”, “aparentemente curado, não parecendo perigoso e podendo ser, sem inconveniente, devolvido à liberdade”. O doente designado por “curado” não exibiria por vezes melhor estado de saúde do que um doente apelidado de “melhorado” Ver Quétel, Claude,
História da Loucura: do alienismo aos nossos dias, Vol. II, Félix, Marcelo, (Trad.), Edições Texto & Grafia, Lisboa, 2014, pp. 144, 151.
42 Com a terapêutica convulsiva, os Irmãos afirmavam ter “obtido algumas curas e melhoras”, sendo que em trinta e oito tratamentos, onze doentes haviam melhorado e sete haviam sido curados. Destes sete, quatro seriam diagnosticados como sendo esquizofrénicos e os restantes três como sofrendo de psicose maníaco-depressiva182. Os Irmãos revelavam o completo desconhecimento sobre a actuação destas terapias e a razão que motivara as curas, propondo, contudo, uma explicação:
O porquê destas curas e o modo como a terapêutica actua, é ainda muito sombria, boiando à superfície da qual várias opiniões, e entre elas, que a actuação deve ser motora e ao mesmo tempo orgânica, excitando certos órgãos de função interna, que ao segregarem humores orgânicos, que pela sua patologia tinham deixado de funcionar, a fim de irem abastecer as células nervosas que antes se conservavam preguiçosas à sua função183.
Sobre o tratamento convulsivo pelas injecções de cardiazol, os Irmãos indicavam alguns efeitos colaterais nocivos, verificados na CST, nomeadamente a luxação ou fracturas ósseas, salientando que estas consequências se haviam verificado igualmente no Hospital de Rilhafoles como consequência da aplicação dos mesmos tratamentos aos pacientes184.
Ergoterapia, terapia pela arte e o Museu da Loucura
A única informação de que dispomos sobre este tratamento na CST, durante o período em que Cebola foi diretor clínico, provém dos artigos escritos pelo psiquiatra para integrar as publicações internas da OHSJD, ou referências nas suas obras publicadas. Outra fonte de informação são as publicações comemorativas relativas à CST e à própria Ordem. Joaquim Lavajo, na já referida publicação de 2003, afirma que o uso da ergoterapia esteve presente na casa desde os primeiros anos do seu funcionamento. Embora não cite documentação nem nos providencie exemplos concretos de como seria desenvolvida esta prática, o mesmo autor afirma que Luís Cebola terá sido o médico impulsionador deste tipo de terapia no Telhal, i.e. Cebola não a teria introduzido, mas, sim, desenvolvido e fomentado o seu uso185. Cebola, por sua vez, apresenta-se como o inovador, afirmando ter convencido os Irmãos a alargar a propriedade, de
182 Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal, 11, Sintra, Editorial
Hospitalidade, 1938, p. 33.
183 Idem, p. 33.
184 Hospitalidade, Crónica Trimestral dos Irmãos de São João de Deus em Portugal, 12, Sintra, Editorial
Hospitalidade, 1939, p. 40.
43 forma a melhorar as condições de internamento, a modernizar a casa de saúde, criando espaço para novos meios complementares de diagnóstico, atividades laborais e de lazer.
Num artigo de elogio a este tipo de terapia, Cebola afirmava que a reabilitação social dos doentes através de trabalho dirigido era uma das suas “antigas aspirações de psiquiatra”186 . De modo a cumprir este processo de modernização da CST, o psiquiatra terá visitado instituições estrangeiras, nas quais a ergoterapia era praticada, conduzindo a sucessos terapêuticos, nomeadamente as colónias de psicopatas, e.g. a Colónia Agrícola de Cadillac em França e a Colónia Familiar da comuna de Ghell na Bélgica187. Infelizmente, esta prática terapêutica não é referida nos processos clínicos, pelo que não é possível compreender qual a influência que Luís Cebola terá desempenhado no desenvolvimento da terapia ocupacional na CST.
Cebola indicava que de modo a determinar qual a tarefa a atribuir ao doente, o médico teria de ter em consideração a idade, o seu estado psicofísico, o grau de educação, a profissão e o ambiente onde o paciente vivera anteriormente ao seu internamento. Os trabalhos desenvolvidos pelos doentes poderiam ocorrer no interior dos pavilhões, onde recortariam cartões e madeira, teceriam objetos de palha, fariam cópias e traduções, bem como desenhos e pinturas para integrarem o Museu da Loucura. O trabalho ocorria igualmente no exterior do hospital, na granja, onde praticariam os serviços agrícolas e cuidariam dos animais, ou nas oficinas, onde os doentes se poderiam dedicar à carpintaria e serralharia. No mesmo artigo, Cebola afirma mesmo que, em muitos dos casos, esta terapia levou à quebra dos acessos de fúria, à extinção de alucinações e ideias delirantes, esbatendo os sintomas perigosos dos pacientes188.
Lavajo indica que desde 1842, através dos relatos do Dr. Bernardino António Gomes (1806-1877) e das suas visitas a diversas instituições europeias, se conhecia em Portugal as vantagens terapêuticas do trabalho desenvolvido pelos doentes189. Miguel Bombarda era um dos defensores dos benefícios da ocupação laboral dos doentes, como já foi anteriormente mencionado, e terá pressionado o governo a ampliar a extensão de terrenos de Rilhafoles para este mesmo propósito190. Decerto, Cebola terá sido influenciado na sua orientação clínica por Bombarda e, ainda, pelo funcionamento do Hospital de Rilhafoles, durante a preparação do seu trabalho final do curso realizado nesta instituição psiquiátrica. Terá sido nesta instituição que, pela primeira vez, teria observado as vantagens da ocupação laboral, lúdica e artística dos doentes, transportando estas ideias para o novo hospital de que era diretor. O facto de ter realizado viagens ao estrangeiro para observar esta prática, é indicativo de que Cebola ambicionava não só copiar o que já fora desenvolvido em Portugal, e praticado pelos Irmãos Hospitaleiros na CST, mas
186 Cebola, Luís, op. cit., 1993, pp. 219-221.
187 Cebola, Luís, Psiquiatria Social, Livraria Gomes de Carvalho Editor, Lisboa, 1931, pp. 19, 20, 25, 26. 188Cebola, Luís, “Elogio da laborterapia” (1944), em Hospitalidade: Crónica trimestral dos Irmãos de
S.João de Deus, 36, Janeiro de 1945, p. 162.
189 Lavajo, Joaquim Chorão, op. cit., 2003, p. 191.
190 Pichot, Pierre; Fernandes, Barahona, op. cit, 1984, p. 263; Fernandes Barahona, op.cit., 1950, pp. 314-
44 aperfeiçoar e inovar esta forma de terapia ocupacional pelo trabalho dirigido. Infelizmente, na ausência de textos do próprio, explicitando quais as alterações que lhe poderiam ter sido sugeridas aquando da observação de doentes nas colonias agrícolas, ou de relatórios sobre a evolução da prática no Telhal, indicando os sucessos e insucessos da sua própria prática da ergoterapia, torna- se impossível conhecer a extensão das suas inovações, revelando desse modo se tiveram ou não algum impacto na alteração desta prática em Portugal.
Devido ao carácter reservado e independente de Luís Cebola, presume-se que quaisquer aperfeiçoamentos na implementação desta prática, através da sua vasta experiência clínica, terão sido unicamente reservados ao quotidiano terapêutico da CST, e não divulgados ou discutidos com outros colegas de profissão, e desta forma permitindo avanços nesta área a nível regional ou mesmo nacional. O facto de não terem sobrevivido quaisquer actas ou registos de participação em congressos, apenas nos permitem especular sobre este assunto.
Sendo um homem com enorme sentido de missão, afirmando-se inspirado pela acção do próprio S. João de Deus e pelo neuropatologista suíço, Paul Charles Dubois (1848-1918), que será referido com maior detalhe na secção cinco do presente capítulo, Cebola parece mais interessado em apresentar-se como homem estritamente preocupado com a cura e o melhoramento das condições de vida dos seus “infelizes doentes mentais”191, do que em se promover enquanto pioneiro terapêutico entre os seus pares. Esta ideia parece contrariar a sua evidente vontade de obter reconhecimento público pelo seu serviço enquanto médico e divulgador, que nos foi confirmada durante a entrevista a Carlos Sousa, seu sobrinho-neto. Contudo, é possível que o próprio estivesse consciente de que as suas práticas terapêuticas não eram inovadoras, seguindo apenas metodologias de sucesso comprovado, que observara nas viagens de estudo, procurando somente acompanhar as práticas clínicas mais modernas, sem sentir necessidade de desenvolver os seus próprios métodos.
Sabemos que os pacientes da CST se dedicavam à preparação e edição de periódicos. Aires Gameiro menciona que, em 1925, se publicava no Telhal a “folha ergoterápica” apelidada de “Gazeta do Telhal”. Em 1930, foi publicado um jornal manuscrito denominado “A Telha”. Em 1934, foram publicadas duas outras revistas manuscritas, “ A Luz do Telhal” e o “Areias”, e nos anos seguintes, até 1949, surgiram as revistas “Ecos do Telhal”, “O Maduro” e “Fixe” 192.
No processo clínico 203, referente a um doente sofrendo de demência precoce, internado na CST a 31 de Julho de 1907, e permanecendo hospitalizado até ao seu falecimento em 1939, existem algumas anotações elaboradas pelo próprio paciente, esboços e fragmentos de escrita que seriam integradas no jornal por ele editado e fundado, “A Telha”, acima referido. Numa delas, o paciente pedia para que o salão da CST, no qual todas as noites se ouvia música por telefonia sem fios, fosse melhor iluminado; uma outra indicava a ementa do almoço de 8 de Abril de 1935: “Pão
191 Cebola, Luís (1943), op. cit., 1993, p. 219. 192 Gameiro, Aires (Dir.), op. cit., 1993, pp. 25-27.
45 de quinze réis, água fresca, sopa de arroz com hortaliça, grão de bico com tomate, bife de vaca com manteiga e batatas. Sobremesa: Seis nozes abertas e leite”. Os registos da folha clínica indicam que este paciente se dedicava à escrita e desenhava, sempre em momentos expansivos, nos quais se encontrava em exuberante alegria. De acordo com Cebola este periódico ergoterápico seria dominado por noticiários da CST marcados por um “carácter infantil”, contendo também textos onde o doente expressava a sua “antiga faceta irónica” 193.
Existiria ainda um grupo dramático “telhalense”, mencionado no primeiro número da revista Hospitalidade, no ano de 1936, que participaria nas festas da instituição. Esse volume do periódico centrava-se na comemoração da festa onomástica do Prior João Caetano Pinto, celebrada a 5 de Março do mesmo ano194. No terceiro volume da mesma revista indicava-se que o mesmo grupo teria participado num sarau músico-literário que ocorrera na CST pelas celebrações da Páscoa195. Sobre essas celebrações os Irmãos escreviam o seguinte, demonstrando a estreita convivência praticada pelos religiosos com os seus doentes, e a dedicação dos pacientes à performance artística:
Os diversos números do programa foram bem interpretados e bastante engraçados pelo que tinham de cómico. Lindos trechos musicais, executados com perfeição pelos doentes, que, na execução da sua arte, esquecem os tenebrosos pensamentos e ideias fixas, resultantes da doença que os aflige, para só atenderem ao dedilhar e premir das cordas de que tiram melodiosos sons, entretêm a assistência composta por doentes, comunidade e alguns empregados. Recitaram várias poesias e monólogos, que agradaram196.
Cebola aconselhava os enfermeiros, no seu manual Enfermagem de Alienados, publicado em 1932, a recolher e guardar todos os escritos, desenhos ou pinturas elaborados pelos pacientes do hospital, sugerindo igualmente que lhes fosse fornecido todo o material necessário para que os doentes se pudessem dedicar à actividade expressiva e artística caso desejassem197.
Guarde quaisquer escritos, desenhos, pinturas ou objectos manufacturados pelos alienados mesmo que insignificantes lhe pareçam, para os mostrar ao médico. Não havendo contra-ordem pôr sempre à disposição dos doentes que tenham manifestado
193 Processo clínico 203, caixa de arquivo XXVII.
194 “E, para remate da festa, o grupo dramático telhalense apresentou pelas 20 horas, dois lindos trechos
dramáticos, interessantíssimos, que fizeram, rir a bom rir, os espectadores.” Ver Hospitalidade, op. cit., 1, 1936, pp. 16-17.
195 Hospitalidade, op. cit., 3, 1936, p. 2. 196 Idem, p. 2.
46
tendência a escrever, a desenhar ou a pintar, os meios próprios para a realização dos documentos, susceptíveis de enriquecer o respectivo Museu198.
Estes trabalhos seriam destinados a ser exibidos num museu, criado com o intuito de mostrar essas produções artísticas elaboradas pelos doentes da instituição199. Embora não exista
praticamente informação adicional acerca da criação desse Museu, Cebola dedicou um capítulo a este tema no seu volume Almas Delirantes, publicado em 1925, o que pressupõe que a