ser um direito adquirido, constitui-se, portanto, como meio para a aquisição de novos direitos e para o conhecimento das garantias jurídicas às quais a pessoa pode recorrer para “se defender”, como nos demonstra Flávia. Poderíamos entender o “se defender” como a noção do autorrespeito constituído a partir das relações de reconhecimento mútuo na sociedade; sentir-se como alguém capaz de se defender seria sentir-se respeitado juridicamente, portanto, menos vulnerável nas condições de disparidade das interações sociais. Considerando a perspectiva subjetiva, a participação política pode contribuir na aquisição de autonomia e autorrespeito.
Outros entrevistados também nos mostraram, através de seus depoimentos, que as experiências de desrespeito por eles vivenciadas no âmbito das interações sociais, relacionadas ao estigma do sofrimento mental, mobilizam intensamente afetos e podem se tornar motivos para a ação política. Escolhemos apresentar o depoimento de Flávia porque ele ilustra a potência de uma vivência de desrespeito e estigmatização, podendo tanto provocar prejuízos à aquisição de autorrelações positivas na constituição identitária dos sujeitos, como mobilizar afetos que podem potencializar a capacidade de ação política, ou seja, de luta por reconhecimento.
8.3 Relações familiares e crenças religiosas: valores pessoais que acompanham a prática política
Esta categoria está ligada à dimensão afetiva, ou seja, às trajetórias afetivas que cada membro traz para o grupo a partir de outros espaços de sociabilidade, como família e religiosidade.
Na inter-relação que se estabelece entre subjetividade social e subjetividade individual, os elementos de sentido subjetivo que constituem a subjetividade social de um determinado espaço social são produzidos nas diversas zonas da vida social da pessoa. Por sua vez, a
subjetividade individual de cada pessoa está atravessada pela subjetividade social dos espaços por onde circula (González Rey, 2005a). Considerando isso, encontramos, nos depoimentos dos entrevistados, importantes referências às vivências familiares e religiosas – ou transcendentais para sermos mais abrangentes – as quais têm forte relação com a ação política que desenvolvem, dotando de sentidos subjetivos esta prática.
Silvana, ao falar sobre o seu interesse pela luta por direitos e dignidade das pessoas, nos mostra como os valores familiares estão entranhados em sua experiência e constituem elementos de sentidos subjetivos para sua participação política como um todo:
Nós aprendemos [o engajamento político] com meu pai e minha mãe. Meu pai foi vereador [por] 20 anos na minha terra, veio de Petrolina, descobriu um crime de peculato do prefeito da cidade.... Minha mãe era secretária da União Democrática Nacional, era secretária do partido do meu pai.
Ela relata explicitamente o motivo pelo qual, em suas palavras, “surtou”, e que a levaram a um sofrimento intenso: a morte de seu irmão, em 1968. Um jovem advogado, militante político contra o governo ditatorial. Segundo ela, a “primeira vítima da ditadura em Minas Gerais”. Seu depoimento demonstra a importância do envolvimento com questões políticas na história de sua família. A carga afetiva que esse episódio carrega enche de sentidos subjetivos o processo de participação política de Silvana, como podemos ver em um pequeno trecho do material literário que ela nos presenteou quando a visitamos em sua casa: “Sou militante da luta antimanicomial. Até hoje velo o meu irmão. Levantei e levanto várias hipóteses sobre a morte dele.”
A identidade como militante da luta antimanicomial vem acompanhada diretamente da lembrança da morte do irmão. O amor como componente da relação que Silvana estabelece com o irmão permeia os sentidos subjetivos que ela dá a seu envolvimento político. Ela mantém a bandeira da liberdade e dignidade das pessoas, tal qual o irmão fazia em outro contexto, mas com os mesmos ideais. Fazer parte do movimento antimanicomial parece lhe propiciar uma contínua luta que atravessa gerações em sua família.
Antônio, em sua fala, demonstra como os valores familiares e de crença religiosa são fundamentais para dar sentido ao seu projeto de participação política:
É mesmo um sentido de resposta que a gente dá a um chamado. Às vezes, a gente acha que não, mas aquilo que a gente está vivenciando muitas vezes na vida, a gente às vezes não percebe, através das situações, como cristão que sou, sou católico, que a gente vê isso como um chamado de Deus.
O exercício da atividade política, para Antônio, é vivenciado como um “chamado de Deus”, como a realização de uma proposta que transcende o âmbito político, permeado por valores que foram aprendidos em sua vivência como católico. Ao ser questionado sobre a sua motivação em participar da militância política na luta antimanicomial, ele salienta a importância de sua fé:
Pois é, uma das coisas principais eu tenho dito muitas vezes é a questão da fé. Essa espiritualidade, essa religiosidade que eu trago comigo, acho que faz uma diferença, e a gente sabe disso. Atualmente, nas pesquisas que são feitas acerca disso, a gente percebe que quem se coloca num nível de visar, vislumbrar uma transcendência, um absoluto, que é Deus, exerce algo, não mágico, mas consciente e racional, uma fé que seja inteligente.
A vivência familiar também faz parte do conjunto de elementos subjetivos que Antônio compartilha em suas relações sociais, sobretudo no âmbito político, como podemos perceber em seu depoimento:
Eu acho que a humanidade só se sustenta a partir dessa vivencia familiar, são os valores que estão inerentes na família que vão se projetar socialmente. Então, aquilo que a pessoa é dentro da sua casa, na família, vai reproduzindo na sociedade, nas suas relações sociais.... A família não deve viver só para dentro de si mesma, só olhando pra si mesma, mas ela deve se abrir para a sociedade, para o mundo, pra dar respostas às demandas do mundo, às demandas sociais. Então, a família que se organizou, que percorreu um caminho de doação, ela deve se abrir num projeto mais amplo, de incluir todas as famílias, todas as pessoas.... A gente vai encontrando situações da vida, onde, com esses valores que a gente aprendeu na família e também na religião.... um jeito de ser que supere toda questão antiética e destrutiva da dignidade do ser humano, e também de toda a criação.
Observa-se, na fala de Antônio, uma valorização da família como espaço de construção de valores éticos e que precisam ser expandidos para a sociedade como um todo. É preciso salientar que essa é a experiência subjetiva de Antônio em relação à família e à religiosidade. Outras pessoas poderiam trazer experiências de vivências afetivas negativas no âmbito familiar ou religioso. Mas o que pretendemos mostrar é como, no caso de Antônio, os valores aprendidos nos âmbitos sociais da família e da transcendentalidade espiritual trazem sentidos subjetivos à sua prática política, no sentido de que tais valores possibilitariam a ampliação das relações de solidariedade na sociedade.
O depoimento de Flávia mostra como a vivência afetiva com o pai não só propiciou reconhecimento no âmbito das relações primárias de amor, mas também a garantia jurídica de sua liberdade. Ao falar sobre seu sentimento como militante política atualmente, ela nos conta a sua história com o pai:
F: Olha, eu sinto livre, igual um passarinho, livre pra voar. Eu sei que vou sair de casa e vou voltar, eu sei que vou sair de casa, eu sei que não vou para um hospício, pelo menos com essa dor na consciência eu sei que pro hospício nunca mais, nunca mais. Porque antes do meu pai morrer ele deixou isso escrito.
C: O que ele deixou escrito?
F: Foi em juízo, com ajuda de um psiquiatra do IPSEMG, que ninguém mais da minha família teria direito a me internar. Porque todas as minhas internações não foi nenhum dos meus pais que fez.... Não foram os meus pais, foram tias, irmãos, né. Mas nunca foi meu pai. Como rege, tem que ser o pai, caso extremo que é outra pessoa.... Meu pai foi chamado, ele entrou na justiça, foi na justiça, teve uma audiência com o juiz. Ele estava declarando que, se por ventura eu viesse a ter um surto, que eu fosse tratada no SUS, que ele estava deixando em vida o impedimento que eu fosse internada num hospital psiquiátrico. Aí o juiz assinou.... Meu pai me deixou essa liberdade. Antes de morrer ele me deixou essa liberdade, e o juiz concedeu, a justiça federal concedeu.
A liberdade deixada pelo pai traz aspectos afetivos importantes na constituição da autoconfiança de Flávia e constitui um sentido subjetivo fundamental, que mantém a entrevistada em constate movimento de lutar por sua liberdade, bem como das demais pessoas com sofrimento mental, como mencionado por ela em outros momentos da conversa. Aquisição de autoconfiança e autorrespeito se encontram nesse episódio. Observa-se que há conflitos familiares em sua história, inclusive relatos de opressão e desrespeito, mas a atitude do pai é suficiente para que ela se mantenha firme em sua luta pela liberdade, pelo menos, liberdade de escolha de seu tratamento. Ao impedir que fosse internada novamente, de forma legalmente garantida, Flávia sente-se protegida, tanto pelo pai, quanto pela Justiça. Os aparatos públicos de justiça lhe concedem aquilo que os vínculos afetivos com o pai já potencialmente proporcionavam, a liberdade.