O sonho a seguir abre novas perspectivas para seu self em construção e toma lugar central na narrativa de vida de Balthazar. Posições escondidas do self se revelam:
Tem uma menina presa um poço. Pensam que ela morreu e quando olho - posso fazer isto porque sou pequeno e enfio a cabeça - ela está num canto e pode ser salva, está bem escondida, encostada na parece do poço.
Nas associações diz que a menina teria uns 12 anos. Diz: “Para vê-la, tive que enfiar a cabeça no poço... É bonitinha, parece uma ‘santinha’ (rindo)”. Depois sério: “é uma santinha mesmo”. Reflito em voz alta: “Quando tudo aconteceu em sua família você tinha nove anos. Entre os nove e 12 anos, onde você estava?”. Balthazar logo compreende que a pergunta é metafórica. Começamos a buscá-lo a partir de minhas perguntas. Em que ano escolar estava no momento do incidente? Em que período de sua vida cozinhava e cuidava da casa enquanto seu pai ia para a roça? Foi aí que passou a sentir-se uma menina? E quanto ao poço, metáfora para sentimentos e vivências profundas escondidas, mas também fonte de vida e cura, que novas posições de eu nos desvendariam?
Lembrou-se subitamente de seu pai ter jogado a imagem da santa no chão da cozinha. Não quebrou já que o chão era terra batida, mas ficou lá jogada. Parece que no dia em que o agradecimento foi interrompido pelo pai, a menininha se escondeu. O susto e o medo o jogaram no chão – não precisou cair de fato, o que talvez tivesse sido melhor para sua corporeidade - do mesmo modo que a santa que foi atirada ao solo por seu pai.
Balthazar faz uma associação: “Perdi minha mãe e perdi tudo o que se relacionava a ela: a pureza, a ingenuidade, será que quero ser padre para me reencontrar com a pureza de minha mãe?”. Reflito com ele: “Você falou em santinha escondida. É você? Ao menos me parece. A pureza de tua mãe é também você”. Balthazar responde (pensativo): “Nossa Senhora do Bom Parto....eles agradeciam por minha vida”. Digo: “Nossa Senhora foi atirada ao solo, perdeu o valor”. Com olhos úmidos retruca: “Não dentro de mim”. No enlevo de tão instigante diálogo, pergunto: “Você não aceita a quaternidade. Quem é a quarta pessoa senão Maria?”.
Eis que Maria fora resgatada e a memória de sua mãe também.Trata-se de seu fundo cultural: a pureza identificada com Nossa Senhora do Bom Parto, que intercedeu para que nascesse, que protegeu sua mãe e a ele próprio. A proteção que perdeu naquele fatídico momento.
Balthazar traz nova associação: “Jesus pediu água para a samaritana”. Lembrou-se da passagem bíblica (JOÃO 4, 1-17). Nunca culpou sua mãe. Afirmava somente que os filhos não eram culpados do problema deles (os pais). O dano foi grande já que ficaram cúmplices para sempre desse desapontamento, dessa dor. Porém tratava-se de uma cumplicidade silenciosa. Nenhum dos três irmãos falava disso um com o outro. A irmã mais velha, já na adolescência defendeu-se como
pôde continuando seus estudos na cidade grande. Ele, menino pré-púbere, ficou sem ação. A caçula, pequena demais, para compreender o quadro, passa a comportar-se mal na escola e nunca concluiu sequer o 2º grau. Disse que sua irmã caçula era meio ‘atrapalhada’ desde pequena. Quase nunca se encontravam, cada um passou a ter uma vida; cada um passou a morar num lugar diferente.
A caçula, em certo momento voltou a viver com a mãe e é hoje a que mais ‘agita’ a família. Tem duas filhas e a mais velha é uma sobrinha muito cativante, pré adolescente (12 para 13 anos) ao início de nossos encontros, que busca o colo de Balthazar através de telefonemas, SMS enviados pelo celular que ganhou do tio seminarista e, esperta como ele mesmo foi, o estimula com seus pedidos e comentários. Claramente para mim - nada claro para Balthazar- ele se identifica com a menina. Dizia seu pai que meninas dão mais trabalho para educar. Balthazar diz que era a questão da sexualidade que preocupava o pai. Pergunto: “Você passou a viver com ele e virou a filha mulher que ajuda na casa”. Responde (irônico como sempre e, a modo de defesa): “eu era a mulher dele, isso sim. Lavava, passava e cozinhava. É certo que roupa passada era só para os domingos. Eu era a escrava Isaura mesmo”. Retruco: “Mas uma menina ficou preservada no poço”... “uma santinha”. Balthazar reflete: “No fundo do poço (pensativo)... Meu mau humor de sempre”. Lembrei-lhe então que seu humor resvalava para o sarcástico e que recheava a sessão com histórias engraçadas.
Contou-me então que essa sobrinha morava com a avó materna (mãe de Balthazar) e “seu Fulano”, o homem com quem a mãe vivia, terceiro ou quarto marido, e a quem nunca chamou de tio ou padrasto. Pois bem, esta sobrinha inteligente e graciosa dialogava com uma posição do eu de Balthazar. Através dela, sabia da mãe, do modo como vivia. A seu ver, vivia mal e trabalhava muito, sempre recebendo os filhos de “seu Fulano” que abusavam de sua força de trabalho. A menina lhe pedia coisas de São Paulo: tênis, roupas de marca, DVDs e CDs. Realizava seus desejos com alegria, mesmo sendo irônico ao chamá-la de consumista. Digo a ele: “Como é bom ter alguém que faz aquilo que não fazemos, pede aquilo que nunca pediríamos”. Balthazar confirma: “Dificilmente eu compraria um tênis novo somente por consumismo”.
A austeridade econômica vivida na congregação o incomodava e muito. Se soubesse como funcionava, não teria economizado dinheiro para entrar. Fez seu próprio enxoval e era como se tivesse tido que pagar seu lugar numa instituição “de
tanto nome”. Diz com energia: g “Ah, se fosse agora não pagava mesmo, entrava duro e seco igual as ‘bichinhas’ que vejo agora”. Aproveito a expressão irada e complemento: “Você tem raiva das ‘bichinhas’ e tem uma menina escondida no fundo do poço do sonho”. E Balthazar complementa: “Uma santinha. Santinha do pau oco”.
Escondia algo muito precioso dentro de si. Achei muito bom que expressasse a raiva por ter pago caro sua entrada na instituição. Tinha a ver com a não aceitação de sua sexualidade que agora se apresentava nos sonhos66. Tinha a ver com sua dificuldade com as figuras institucionais de autoridade: formador, provincial, ecônomo etc. Sua posição de eu menina estava lá preservada numa ranhura do poço em diálogo com sua contra-posição de tio seminarista (real, do mundo compartilhado) que vivia em São Paulo e podia atender os caprichos da sobrinha, posição de eu que partilhava com ela. Tal como ele próprio, sua sobrinha também tinha mãe destrambelhada, que estava esperando uma segunda filha com o segundo marido/namorado.
Balthazar suspira: “Pelo menos ‘mãe’ não teve filhos”. Queria dizer que não teve filhos com outro homem. Um casamento rompido o machucava muito. Mostrava esta posição sempre que se referia a uma amiga sua que era separada do marido. Com esta amiga trocava confidências e foi com ela que aprendeu que a vida não tem mesmo sentido. “É ir tocando...”. Lembremos aqui que Melcquior também demonstrava sofrimento ao referir-se à sua irmã ‘separada do marido’.
Nessa situação se vê claramente como posição e contra-posição podem tomar variados modos de oposição. Adolescente menina cheia de necessidades/desejos criados pela sociedade de consumo em contra-posição à posição de eu seminarista ‘pobre’ e intelectualizado. Menina com mãe destrambelhada em contra-posição à posição de eu tio que acolhe. Há também a amiga ‘separada’ do marido e descrente da vida que confirma sua posição de eu pessimista. Mulher separada e menina como metáforas para seu self em construção. Poço como metáfora para seu self polifônico em movimento de criação e de preservação de si. E também de resgate de posições escondidas do eu. Subitamente, como para autenticar o diálogo que estabelece comigo (já sabe que
66 Cf Vidal, 2008, p. 158-159. O autor descreve as dores morais relativas à culpa pela condição homossexual não aceita nos documentos da Igreja.
não são interpretações e sim um “encadeamento dos fatos”) diz “Agora ela quer um Keds preto com friso rosa. Que cafona!”
Digo a ele que não conseguiu me enganar ao achar ‘cafona’ o desejo da sobrinha. Balthazar sorri um sorriso de pai feliz, de irmão atento, de tio cuidadoso. De fato a menina aciona posições íntegras de seu self e, a partir do diálogo com ela, vamos adentrando seus elementos masculinos (como pai, como irmão, como tio) e seus elementos femininos seqüestrados e rejeitados por sua posição de eu adequado. Balthazar: (referindo-se ao local em que ‘mãe ‘ mora com ‘seu’ Fulano e em concordância com o que a sobrinha lhe conta) diz com certa repugnância: “Aquela casa é um inferno... Gente entrando e saindo o dia todo, minha mãe no fogão”. Casa que se junta com o depósito de material de construção de propriedade do ‘véio’, expressão que não usa para seu pai. Pergunto a respeito do ‘marido’ de sua mãe: “Ele é muito “veio”? Balthazar responde: Tem uns dois anos a mais que ‘pai’. Digo assertivamente: “Teu pai te incomoda!?” . Balthazar reflete: “É que pai é tão quieto, tão fechado, que até esqueço da presença dele. Fico lá nas férias cada um na sua, agora ele deu para querer que vá todo mundo junto à missa.... Para ele eu sou o padre, nem padre sou ainda.”
Digo a ele: ”Ele tem orgulho de você. Quer mostrar você para a comunidade”. A resposta é que vão juntos mas ninguém conversa: “Vai todo mundo junto e só... Só porque ele quer. Nada acontece”. Refuto: “Você quer dizer que não há conversa mas que algo acontece, acontece. Teu pai sente falta do convívio com os filhos, sente vontade de ser visto com vocês diante da comunidade, do padre. Tem muito sentimento aí”. Balthazar concorda: “É isso. Mas tem hora que fica igual na casa (de formação)”. Digo a ele que entendo seu temor pela precariedade das interações. Digo também que ele anseia em viver sentimentos genuínos. Balthazar: (já chorando) declara: “quero amor, não casa, estudos, poder. Nada disso me compra”. Respondo convicta: “Te compra sim, porque é da ordem do humano. Mas não te basta!”.
Comentários clínicos: Em relação ao pai e a mãe, desapontamento, frustração. Não congregaram a família. Quanto a ele e suas irmãs, cúmplices na dor e na perda. E não no júbilo. Tal como o que experimentava na casa de formação. Ao perguntar se era assim mesmo no seminário ou se ele é que não se abria para os demais, disse-me que as duas possibilidades estavam corretas. Os demais colegas tinham também histórias de dor e perda. Começava a ter compaixão por seus
irmãos de fraternidade. Os ‘outros’, os estranhos se assemelhavam a ele. Podia já ver-se neles. É sempre difícil perceber que a identidade não se constrói de modo plácido pelas similaridades e sim, ao contrário e muito frequentemente, na diversidade67.
De todo modo havia surgido algo que ambos precisávamos, eu e ele, uma esperança, um resgate. E o sonho se oferecia à nossa escuta. A menina escondida no poço não é a mesma que vivia com seu pai, a ‘escrava Isaura’, tampouco era o menino que maltratava os gatos (contou que fazia isso para brincar), nem o que se assustou com as palavras que desconhecia: traição, adúltera. Tampouco o menino com a toalha na cintura, tentando proteger a mãe. Havia uma outra posição de eu intacta, resguardada das intempéries da vida familiar, talvez um anjo sem sexo, representado por uma menina de mais ou menos 12 anos: “uma santinha”. Balthazar só pôde vê-la “porque sou pequeno e enfio a cabeça”. Quer dizer que se desdobrava ainda outra posição do eu: ele menino pequeno, o que podia ver a menina. Talvez o projeto de uma meta- posição que, na infância, havia perdido a continuidade. Faltavam na ocasião amadurecimento biológico e mesmo neurológico. Estava no período de latência no linguajar psicanalítico, com o corpo se preparando para a puberdade. Fora bruscamente interrompido. Observei em seu corpo que tinha pernas curtas e tórax desenvolvido. Talvez não tivesse crescido tudo o que poderia. Mas voltando ao simbólico, agora como adulto não teria visto a menina, defendido que estava nesse lugar de seminarista adequado.
Imaginei que a menina fora semeada em suas primeiras vivências junto à mãe que era muito bonita, amorosa e devota de Nossa Senhora. Uma mulata bonita: “para que tanta beleza, a de mãe? Suas tristes palavras em relação à mãe, explorada por ‘seu Fulano’ no presente. Explorada no passado por parentes do patrão, causa do adultério, sem consciência de si mesma, de seu poder, de sua feminilidade.
67 Cf Hermans e Konopka, 2010, p.131. Os autores apresentam resultados de pesquisa que sugerem que a trajetória do self não passa pela identidade e mesmidade e,sim, muito mais pela diferença e diversidade.