A formação do espaço urbano é resultado de um jogo entre os diferentes agentes que atuam nas cidades. Interesses econômicos, políticos e sociais fazem parte de uma disputa que visa exercer o poder na e sobre a cidade. Desse modo, o espaço não é um elemento neutro ou imparcial, mas se constitui em um emaranhado de ambições. Conforme observa Milton Santos,
[...] Aí se juntam parceiros que se enfrentam segundo os grupos e filiações a que pertençam. Há os políticos, técnicos e funcionários que representam o GOVERNO [...] existem as EMPRESAS que agem através de investimentos na indústria, no comércio e nos serviços, com especial destaque para o capital ligado aos ramos imobiliário e da construção civil, cujas ações têm reflexos diretos no meio urbano. Por fim entra a POPULAÇÃO, fragmentada nos mais diversos grupos (vizinhança, filiação política e religiosa, profissão, parentesco, afinidades...). (SANTOS, 1988, p. 50, grifo do autor).
Ao considerar esse embate devemos ressaltar que os interesses da iniciativa privada, as necessidades da população e a atuação dos agentes sociais são intermediados, a princípio, pelo Estado. No caso de Goiânia, alicerçada em um projeto urbano moderno, a nova capital passou por importantes mudanças econômicas e de dinâmica populacional.
A configuração espacial, originalmente concebida no ano de 1933, vivenciou um vertiginoso crescimento urbano, acompanhado de correntes de migrações. Ao mesmo tempo, os agentes imobiliários acabaram interferindo nos rumos que a cidade tomaria.
Na década de 1950, a cidade planejada para 50.000 mil habitantes já contava mais de 53 mil pessoas, distribuídas nos setores: central, norte, sul, oeste e cidades-satélite, conforme se observa no Mapa 5. No plano diretor da cidade, aprovado em 1938 e elaborado por Armando Godoy, constava apenas uma cidade satélite: Campinas.
A proposta de cidades-satélites fez parte do projeto urbanístico das cidades-jardins, como foi o caso de Goiânia. Correspondiam à bairros mais afastados dos setores centrais e que abrigariam o excedente populacional, ocasionado pela expansão urbana dos grandes centros. Segundo o superintendente de obras, Jerônimo Coimbra Bueno, da Construtora Coimbra Bueno, responsável pela construção de Goiânia,
Projetada a cidade em todos os seus contornos, o perímetro urbano ficará fixado para sempre. [...] A cidade teria, assim, garantida em toda a sua circunvizinhança, uma faixa de vegetação, suficiente para satisfazer à salubridade da vida. Atingida a população, para a qual a cidade está sendo planejada, o excesso de população, ou seja, a extensão da cidade, se fará em novos núcleos suburbanos que foram designados 'cidades-satélites', separadas e convenientemente afastadas do núcleo ora projetado. (Citado por ÁLVARES, 1942, p. 25).
Os estudos urbanísticos envolvendo a extensão da cidade não foram levados adiante nos planos que conduziram a construção de Goiânia, após a década de 1950. A única cidade-satélite identificada foi Campinas. O mapeamento aéreo para localizar regiões onde se localizariam as futuras cidades-satélites era muito difícil para os planejadores do espaço. A princípio, esses bairros seriam construídos distantes do cinturão verde, formado pelos vales dos Córregos Botafogo e Buritis.
Fonte: Souza, F. (2017).
Entre as décadas de 1950 e 1960, o poder público foi pressionado pelos proprietários de terras, próximas à zona urbanizada, e por especuladores ligados às grandes imobiliárias – como o caso da Construtora Coimbra Bueno – para aumentar a venda de lotes. O resultado dessa pressão foi a "cidade [que] cresceu a partir de então em progressão geométrica, sofrendo uma explosão demográfica que descaracterizou o plano inicial" (RIBEIRO, M. 2004, p. 39).
Os espaços de lazer, destinados ao convívio da população, são exemplos da diminuição da área pública em favor dos interesses de particulares. O Parque dos Buritis, localizado no setor oeste, região central de Goiânia, uma das primeiras áreas públicas de convivência e criada na década de 1930, teve seus limites diminuídos com a pressão do capital. Na disputa do que deveria ser destinado à população e o que poderia gerar riquezas para os agentes imobiliários, os habitantes foram prejudicados quanto ao direito ao lazer. Neste particular, a crítica de geógrafos regionais é que:
[...] Isto não deveria acontecer, pois a cidade não tem apenas o papel de produzir e circular riqueza. Tem também a função de proporcionar prazer aos
Fonte: Souza, F. (2017).
seus habitantes. Mesmo sendo planejados os espaços livres para atividades de lazer da população ao longo do tempo houve um conjunto de ações que acabaram por facilitara alteração da destinação original dos bens públicos por instituições que poderiam ocupar locais diferentes. Verifica-se aí uma falta de compromisso com a cidade e falta de determinismo de algumas autoridades que não foram firmes o suficiente para não permitir a quebra de harmonia da cidade que foi pensada e planejada como um todo. (BARREIRA; DEUS, 2006, p. 86).
A questão posta acima pode ser observada no Mapa 6, que demonstra a grande diminuição nos limites do Parque dos Buritis. Este parque, localizado em uma parte extremamente valorizada da cidade, próximo à Praça Cívica, onde os lotes até os dias atuais são vendidos a altos valores.
O historiador e arquiteto Alexandre Ribeiro Gonçalves (2002) afirma que o surgimento de novos bairros em Goiânia, ocorreu na formação da cidade legal, ou seja: estes bairros faziam parte de uma previsão aprovada pelo Código de Edificação de Goiânia, aprovado em 1947. Entretanto, mesmo amparados pela lei, os novos bairros não foram acompanhados pelo planejamento urbano e não foram inseridos em um crescimento citadino ordenado. Deste modo, a nova configuração urbana priorizou os loteamentos privados e os proprietários de terras localizadas no limite com a zona urbana da capital. Ainda segundo o pesquisador, a expansão
Fonte: BARREIRA; DEUS (2006, p. 84).
urbana "[...] é a corporificação do que melhor expressa o crescimento urbano de Goiânia entre 1950-1960: o 'desplanejamento' da cidade planejada". (2002, p. 148).
O surto populacional teve reflexos diretos na expansão desenfreada. Como podemos perceber no Gráfico 1, na medida em que chegavam novos habitantes, impulsionava-se o mercado imobiliário e forçava-se o crescimento urbano:
Diante do Gráfico 1, é possível depreender três fases principais de boom populacional, notadamente entre os anos de 1930-1950, 1950-1960 e 1970-2000. Percebemos que de década em década a população quase triplica e, mais especificamente no intervalo da década de 1930 a 1940 –lapso de tempo que correspondeu a uma intensa propaganda realizada pelo poder público –verificou-se um crescimento de 221% no fluxo de migrantes que ocuparam a cidade de Goiânia.
A cidade representada nos cartões postais e cartazes afixados nas cidades de São Paulo e Bahia, por exemplo, inclusive em estações de trem e rodoviárias, tornou Goiânia uma mercadoria. Nesta perspectiva,
[...] a cidade é uma mercadoria a ser vendida, num mercado extremamente competitivo [...]. Isto explicaria que o chamado marketing urbano se imponha cada vez mais como uma esfera específica e determinante do processo de planejamento e gestão das cidades. [...] a venda da cidade é, necessariamente, a venda daqueles atributos específicos que constituem, de uma maneira ou outra, insumos valorizados pelo capital. (VAINER, 2012, p. 8; 79).
Fonte: Dados demográficos do SIDRA (IBGE, 2018) 0 200.000 400.000 600.000 800.000 1.000.000 1.200.000 1.400.000 1.600.000 1.800.000 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010 2017 2018 15.000 48.166 53.389 151.013 380.773 717.526 922.222 1.093.007 1.302.001 1.466.105 1.776.074