Fonte: autora.
Observe que, assim como as outras representações, há inicialmente a forma base (a)175; depois, um acréscimo da semivogal [ ] (b)176. Em seguida, a diferença entre essa representação e as demais acontece, já que o choque entre a vogal e a semivogal (c)177 resulta na flutuação da semivogal [ ] e no seu apagamento total (d)178. O segmento nasal [ã] perde a nasalidade (arquifonema N) em função do autossegmento oral do fonema /a/ (primeira sílaba).
Mas como comprovar no PRAAT que tais processos são efetuados?
Adotamos como solução a comparação entre as características acústicas das vogais nasais [ã] [ ] e [ ] e das vogais orais [a], [ɛ] e [i].
A princípio, antes de analisar os segmentos nasais, é importante afirmar que “as vogais são fáceis de visualizar no espectrograma de banda larga, pois seus formantes têm mais energia do que os outros sons ressoantes [...] (BARBOSA e MADUREIRA, 2015, p.180), ou seja, no PRAAT é nítido a diferença de tons de cinza entre as vogais e as consoantes (especialmente, as plosivas), dado que os sons vocálicos apresentam-se em um tom cinza mais escuro do que qualquer outro som consonantal, devido ao maior nível de energia.
Jakobson e Halle (1980 apud Masip, 2014) caracterizam as vogais como sons produzidos livrementes e, acusticamente, como sons marcados pela alta definição dos seus formantes. 175 Página 175. 176 Página 175. 177 Página 175. 178 Página 176.
Chomsky e Halle (1979 apud Masip, 2014) definem as vogais como sons que são sonorizados espontaneamente, com graus de aberturas e fechamentos diferenciados.
E como saber quais são as vogais pronunciadas? A opção mais viável é a análise dos formantes, posto que eles:
[...] Se relacionam com a articulação das vogais, assim, segundo Ladefoged (1993), F1 é o inverso da altura da vogal, logo, quanto mais alto o valor de F1, mais baixa a vogal e assim sucessivamente. [...] Para Kent e Read (1992), o valor de F2 está relacionado com a anterioridade/posterioridade da vogal, ou seja, quanto mais posterior a vogal, mais baixa a frequência de F2 [...] (SILVA, 2012, p.41-42).
Imagem 33 - Características acústicas das vogais orais do Português brasileiro
Fonte: autora.
A imagem, em conjunto com a citação de Silva (2012), mostra claramente a diferença entre os formantes179 de cada vogal oral.
Como F1 representa o inverso da altura da vogal, é notável que as vogais altas [i] e [u] são as que detêm o valor mais baixo de F1; a vogal baixa [a] apresenta a posição mais alta de F1 no espectro; as vogais médias-altas [e] e [o] ficam em posições aproximadas de [i] e [u] e, por fim, as vogais médias-baixas [ɛ] e [ɔ] ocupam posições de F1 próximas a [a]. Em F2, a frequência mais baixa da vogal [ɔ], [o] e [u] revelam que elas são posteriores, em oposição as demais anteriores.
Quanto as vogais nasais, vale retomar a citação de Masip (2014), presente no quadro180 traços de sonoridade do Português braisleiro. Nele, o autor afirma que a vogal
nasal é caracterizada pela “redução da intensidade no primeiro formante” (MASIP, 2014, p.135).
E os ditongos? Como identificá-los?
No caso dos ditongos ou tritongos, não há necessidade de separar os constituintes que os formam, embora seja possível se estabelecer critérios para fazê-lo, como por exemplo, identificar os pontos nos quais se verifica uma mudança nas trajetórias dos segundo formantes (BARBOSA e MADUREIRA, 2015, p.180).
Os teóricos defendem a não necessidade de segmentação acústica da vogal e da semivogal, contudo alegam a existência da possibilidade de distinguir os dois, por meio de F2. Nos sons vocálicos nasais são notáveis mudanças de percurso de F2, contrapondo-se a linearidade do percurso desempenhado por F2 nas vogais orais.
Em todos os casos181 de supressão em verbos na terceira pessoa do plural, apresentados no PRAAT, não é verificável uma mudança no percurso de F2. Isso nos leva a concluir que não há presença de dois segmentos sonoros (vogal e semivogal); não há, portanto, a presença de ditongos.
Em nenhum dos casos há enfraquecimento do primeiro formante, como mencionado por Masip (2014), portanto estamos diante de vogais orais e não nasais.
Conforme a observação e comparação de F1 e F2, é verossímil a conclusão de que a imagem 24 (JADS)182, 29 (MWFDS)183, 31 (RAE)184 e 32 (MDDDC)185 tem como último segmento silábico a vogal [u]; a imagem 27 (SG)186 e 28 (MFDS)187 apresenta a vogal [i] como último segmento silábico; a imagem 25 (JFDS)188 e 30 (NCCDS)189 é marcada na última sílaba pelo segmento vocálico [a].
Acreditamos que os casos de Apócope em verbos na terceira pessoa do plural são afetados, estruturalmente, pelo Princípio de economia linguística.
180 O quadro é fundamentado nas classificações de Jakobson e Halle (1980).
181 Exceto a imagem 47 (ALDS) e a imagem 50 (JLFDS), já que houve, nesses casos, supressões distintas das demais. Todo o segmento vocálico da última sílaba foi suprimido, basta observar o tom cinza da última parte dos espectro, afinal, o cinza não é tão escuro como esperado nos sons vocálicos.
182 Página 167. 183 Página 168. 184 Página 169. 185 Página 169. 186 Página 168. 187 Página 168. 188 Página 167. 189 Página 169.
A economia linguística é um termo que recobre uma variada gama de processos que se caracteriza por representar mecanismos de mudança que tentam reagir positivamente a dois impulsos: (a) poupar a memória, o processo mental e a realização física da língua, eliminando os aspectos redundantes e as articulações mais exigentes; [...] (BAGNO, 2011, p. 147).
Os fenômenos explicam-se a partir do item (a) da citação anterior, tendo em vista que a produção de uma vogal e de uma semivogal exige muito mais esforço físico do que a pronúncia de uma simples vogal, portanto o falante tende a apagar um dos termos, de modo que possa poupar energia articulatória.
c) Apócope – Verbos no infinitivo da primeira conjugação/AR
Imagem 34 - Falante ALDS – Pronúncia do verbo estar
Fonte: autora.
Imagem 35 - Falante JADS – Pronúncia da palavra cortar
Imagem 36 - Falante JFDS – Pronúncia da palavra passar
Fonte: autora.
Imagem 37 - Falante JLFDS – Pronúncia da palavra brincar
Fonte: autora.
Imagem 38 - Falante SG – Pronúncia da palavra pregar
Imagem 39 - Falante MFDS – Pronúncia da palavra explicar
Fonte: autora.
Imagem 40 - Falante MWFDS – Pronúncia da palavra botar
Fonte: autora.
Imagem 41 - Falante NCCDS – Pronúncia da palavra dançar
Imagem 42 - Falante RAE – Pronúncia da palavra calçar
Fonte: autora.
Imagem 43 - Falante MDDDC – Pronúncia da palavra falar
Fonte: autora.
Imagem 44 - Falante REDS – Pronúncia da palavra buscar
Imagem 45 - Falante JRCDS – Pronúncia da palavra lembrar
Fonte: autora.
d) Apócope – Verbos no infinitivo da segunda conjugação/ER
Imagem 46 - Falante ALDS – Pronúncia da palavra dizer
Fonte: autora.
Imagem 47 - Falante JADS – Pronúncia da palavra viver
Imagem 48 - Falante JFDS – Pronúncia da palavra ler
Fonte: autora.
Imagem 49 - Falante SG – Pronúncia da palavra correr
Fonte autora.
Imagem 50 - Falante MFDS – Pronúncia da palavra fazer
Imagem 51 - Falante MWFDS – Pronúncia da palavra trazer
Fonte: autora.
Imagem 52 - Falante NCCDS – Pronúncia da palavra ser
Fonte: autora.
Imagem 53 - Falante RAE – Pronúncia da palavra querer
Imagem 54 - Falante MDDDC – Pronúncia da palavra comer
Fonte: autora.
Imagem 55 - Falante REDS – Pronúncia da palavra ter
Fonte: autora.
Imagem 56 - Falante JRCDS – Pronúncia da palavra locomover
Os casos de Apócope em verbos no infinitivo, representados no PRAAT, revelam uma supressão do arquifonema /R/, independente dos léxicos. De acordo com Dubois et al (2006) e Lima (2014) é muito comum a queda de termos finais em verbos. O primeiro teórico cita como exemplo o inglês arcaico versus o inglês moderno (singe\sing), os dialetos itálicos (cantare\cantar) e algumas pronúncias verbais do Francês (Chanter). A segunda teórica cita exemplos de supressões finais em verbos no infinitivo no Português brasileiro (cantá, vendê, vê, etc.).
A Apócope em verbos no infinitivo é melhor representada e explicada a partir dos pressupostos da Geometria dos Traços e da Teoria da Sílaba. A seguir, optamos por utilizar como exemplo a imagem 40 (MWFDS- botar) e a imagem 56 (JRCDS- locomover).