Adaptation de domaine
2.1 Qu’est ce que l’adaptation de domaine ?
2.1.1 Un des champs d’´etude de l’apprentissage par transfert
Este pequeno trecho de "Estátua do Sal" é paradigmático nesse sentido. Notem-se as formas verbais ("é"; "pronta a ser contada"; "palmilhei"; "nasci"; "não posso esquecer"; "tenho de lembrar"; "tenho também de confrontar") cujos tempos reflectem não só a oscilação passado-presente mas mais do que isso, o sentimento de quem num momento presente se sente investido de uma "ordem" da qual não pode fugir. Daí o sentido do dever ,"ter de", e a apresentação do projecto - a escrita do passado, a começar num agora que, inevitavelmente, se continuará no futuro. É, considerando estes aspectos que se pode concluir que a escrita da autobiografia além de retrospectiva e incoativa, é prospectiva, sobretudo para o sujeito que, a dado momento, a inicia. Será também, por esta razão que a autobiografia é um momento privilegiado para "reviver" a partir da análise a que a memória se dedica. E "reviver" não será repetir "passo a passo", exactamente, "ipsis verbis", momentos que passaram e não voltam mais. "Reviver" é viver novamente e de forma nova. E essa forma é a escrita. É através dela, então, que o desejo de encontro consigo próprio se concretizará (ou não). De qualquer modo permanecerá o registo (o canto) de quem se propôs a aventura do "autoconhecimento".
Porém, esta aventura é arriscada. Todos quanto a tentaram acarretaram com terríveis e irreversíveis consequências - Orfeu, outros poetas e mulheres, como a "mulher de Loth". Daí ser natural que se considerem alternativas. Por isso, o "Eu" de Estátua de Sal se põe a questão: "ou me volto toda para trás (fique embora transformada em estátua de sal) ou me perco neste mundo remoto, como que eterno, de uma raça sem idade."11 Mas, porque, como já se disse, a escrita não é apenas, um
comum "voltar para trás", e pode ser, além do mais, uma forma de "salvação", o sujeito não se transformou num ser mineral e estéril. Ao "perder-se", "neste mundo remoto, como que eterno, de uma raça sem idade", que pode ser (e é) o lugar da escrita, encontrou-se, ou, pelos menos caminhou para esse encontro, buscando(- se) (n)a Segor-Macau que lhe proporcionou o espaço do refúgio e da criação - o da escrita liberta e libertadora.
Macau, como lugar da enunciação, (referido explicitamente ou através do deíctico "Aqui"12 ) vai desencadear a autobiografia de um sujeito
envolvido numa realidade que se lhe apresenta como "ficção", tal o sonho
11 Idem. Ibidem, p. 6
12 "Aqui" é empregue, neste sentido, nas páginas 25. 27, 49, 105, 128. 162, 169. É interessante notar
que o mesmo advérbio na pagina 162, se refere ao "livro" que está a ser escrito. Na pagina 45. é "sinónimo" de Hong-Kong.
ou a memória. Daí que só possa ser uma "autobiografia romanceada." "Escrita do Eu" em romance porque se diz da existência e a melhor forma para falar dela é o romance.13 Assim, a dicotomia "realidadeVficção" mais
uma vez se revela enganadora, no processo de autoconhecimento e no processo da escrita que dele e para ele vive. A divisão será assim sem sentido? ou terá algum sentido? Talvez sirva sobretudo, para mostrar que os "limites" são sempre para ultrapassar e que o que aparentemente "nasce" separado se pode, por fim, mostrar indissociável.
Se o "resultado" é uma Estátua de Sal, ela não surgirá como consequência de um qualquer castigo mas como objecto-simbolo "resultante e equilíbrio das propriedades dos seus componentes" u que se
combinaram, neutralizando as duas substâncias complementares para formar um todo que mais do que cristalização ou solidificação, será o suporte de uma sabedoria (iniciática) e habitáculo estável, dizendo de desejos de amizade, hospitalidade, fecundidade e fé, isto é, aparecerá como símbolo impregnado de um obscuro poder mágico.
O "pacto" a que o leitor deverá aderir será portanto um que assuma a leitura como um exercício de imaginação e que tal como a escrita faça da "beleza" o modo justo para exprimir o "eu", os seus afectos e tudo quanto o afecta.
A ficção assumirá um relevo ainda mais acentuado na obra A Personagem. Sentimo-nos, de imediato, (pela leitura do título) nos seus domínios. Pois, o que é uma "personagem", se não um "ser" a fingir ou "máscara" de um que se apresenta como real?. Penetrando na obra, a breve trecho, constatamos que elege para primeiro plano a criação da "personagem" e, assim, põe em relevo o estatuto do autor. Assumindo-se como tal no texto, este passará a ser, também figura fictícia. Da leitura global concluímos que do que se trata, nesta obra, é do "papel" (ou dos "papéis") do autor, da relação que estabelece com a (s) personagem(s), e (vice- versa), da problemática da criação, enfim, da construção do romance no próprio Romance.
O texto vai-se compondo à medida que um sujeito (no feminino) redige um Diário, isto é, se vai tornando, também, "personagem" pela inevitável divisão do "eu" que se escreve e que, neste caso, se revelará de forma bem plural. Aqui, a escrita diarística é assumida, num primeiro momento, como um "remédio", um "diálogo", uma "fuga" e um
13 Relembre-se o que diz Kundera (cf. Ia parte deste trabalho)
14 Chevalier. Jean e Gheerbrant. Alain, Dicionário dos Símbolos. Lisboa. Editorial Teorema. 1994. p. 582
apaziguamento para o "eu" que diz: "Trespassa-me a pena de viver (...) E a folha em branco é por vezes o único conforto."15 Só que a autora não se
limitará a apontar um quotidiano passado em Lisboa (ou, esporadicamente, fora) mas diz, também, da fuga à monotonia que invade o dia-a-dia pelo recurso à ficção que passará a fazer parte da escrita e da vida. O Romance invadirá todos os espaços em que a autora se move, inclusiva e principalmente, o seu Diário. Aliás, ficamos a saber da importância fundamental do Romance por via do diário. É mesmo impossível separar um do outro de tal modo se fundem e confundem.
Assim, um e outro, avançam no modo fragmentado e marcado pela cronologia. O autor ao construí-los vai reflectindo sobre a "forma" que adoptou. Sabe que esta se rege por "leis" que, de alguma maneira adopta, integrando-as, questionando-as ou mesmo subvertendo-as. Traduzindo Mauriac, apresenta uma "definição": " O mais secreto Diário é uma composição literária, um arranjo, uma mentira. Tiramos do nosso caos uma criatura harmoniosa e comprazemo-nos com ela. Se existe um único homem que escreva um diário para seu próprio entretimento e não para os séculos futuros (e duvidamos muito que tal homem exista) resta-lhe sempre alguém a enganar, que é ele próprio."16 E temos aqui, em síntese, a
problemática da escrita diarística que foi posta em evidência na 1â parte
desta dissertação.
Aqui se expõem questões que têm a ver com o estatuto do sujeito enunciador, com o do enunciado, com as de verdade e referencialidade, com a da leitura e sobretudo, com o insuperável problema de se saber onde acaba o "real" e começa a "imaginação", isto é, a eterna contaminação do real pela ficção, e da ficção pelo real.
A redactora do "Diário", comentando a "definição" por ela assumida, manifesta as suas dúvidas quanto à identidade de quem se anota diariamente. No seu caso, não existe a tal "criatura harmoniosa" pois se caracteriza, ao contrário, por um enorme conflito e sobressalto. No entanto, com uma constatação está de acordo: a do "fingimento" de que fala Mauriac. É o reforçar da ideia de que o Diário é fictício e/ou que a ficção faz parte da escrita diarística.
Quem, aqui, se revela, põe em relevo a impossibilidade de se dizer de maneira coerente e plena: "Esta primeira pessoa a que o diário me obriga - que mistério esconde - que profundezas - que indecisão - que
15 Braga. Maria Ondina. A Personagem. Amadora. Livraria Bertrand, 1978. p. 10 16 Idem. Ibidem, pp. 57-58
falta?."17 A identidade una e estável é portanto posta em questão, porque se
deixa adivinhar como projecto votado ao fracasso, impossibilidade que funda outras possibilidades. E daí o "fingimento" não como fim mas como meio, isto é, caminho por onde o "mistério" se poderá manifestar, ainda que de forma insegura ou insconsistente. É, por isso, que o direito à "contradição" é afirmado e assumido. É, por isso, também, que o sujeito do diário "(...) semble se mouvoir à distance respectueuse de son propre secret."18 , afirmando no seu relato os poderes da imaginação pela qual se
permitirá instaurar o aparente paradoxo de um ser plural, dialecticamente assumido como único (ipse), igual (même) e sempre outro (alter). Assim, se por um lado o objecto-diário é encarado como "um refúgio, um arrumo, um repouso (...) um lugar seguro"19, por outro, e pela parte de quem faz
confidências, surge o espanto e a perturbação quando se confronta consigo mesmo e com as suas atitudes: "Mas porque não "falo" com ele [diário] de coração nas mãos (...)? Porque enredo e distorço e jogo a toda a hora com as ideias, com as imagens? Se acaso o folheio, pergunto a mim mesma, aturdida: Onde estou eu?. Outras vezes é um desdobramento de mim, igual ao que sucede numa sala forrada de espelhos."20.
Parece, então, que neste diário, o próprio autor é a fingir ou que "finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente" 21 tal como são "fingidos" a sua "personagem" ou os seus possíveis
leitores, nomeados, mesmo assim. É claro, então, que estamos em pleno Romance, ou melhor, estamos (supostamente) a acompanhar a "feitura" do Romance. Por isso, o autor, tão abertamente, põe a problemática da construção.
O projecto do romance só (nos) é apresentado no dia 28 de Fevereiro quando o Diário teve início a 4 do mesmo mês (é verdade, que nem todos os dias são "apontados" como, aliás, é comum na escrita diarística). Neste intervalo, a autora-narradora-personagem narra o seu quotidiano, apresenta-se e apresenta(-nos) o seu casamento e alguns dos companheiros (do momento e não só), o seu gosto pela leitura e pela escrita, a sua ligação ao passado, à infância (aqui o texto torna-se "autobiográfico") e diz-nos dos seus equívocos, isto é, o texto assume-se como um "verdadeiro" diário. Nesse último dia de Fevereiro, ao pensar no seu "modo de vida" acha-o "o único que me permite teimar no vago caminho