Até o início da década de 1980, os pesquisadores da cultura de alho no Brasil não consideravam em seus trabalhos a dormência dos bulbos como um parâmetro importante (Ferreira et al., 1986), e os resultados se limitavam às fases vegetativas até a produção comercial. Entretanto, a cultura passa por sucessivas condições fisiológicas e culturais (Figura 5), sendo que as mudanças que ocorrem no bulbilho durante a bulbificação, a senescência e também durante o armazenamento, são acentuadamente influenciadas pelas condições ambientais. A aplicação de temperaturas baixas, em pré-plantio dos bulbilhos, pode modificar o balanço a favor dos fitohormônios promotores de crescimento (auxinas, citocininas e giberelinas) e contra os inibidores (ácido abscísico e/ou compostos relacionados) levando o bulbilho à brotação precoce (Rakhimbaev & Solomina, 1980; Braz et al., 1997). A biossíntese de giberelinas, por exemplo, pode ser fortemente regulada por fatores ambientais, como fotoperíodo e temperatura, os quais podem alterar os níveis de giberelinas biotivas por afetarem passos específicos da rota biossintética (Guerra, 2004). O efeito do frio em pré-plantio serviria então de gatilho para modificar balanços hormonais.
Um conceito generalizado define a dormência do alho como o estado no qual o crescimento da folha de brotação é temporariamente suspenso, não podendo ser definida como repouso, pois, na prática, se manifesta como um processo dinâmico de mudanças lentas, graduais e
permanentes (Arguello et al., 1986). Nos bulbos e tubérculos, assim como nas sementes, a dormência é decorrente de interações entre substâncias promotoras e inibidoras do crescimento (Thomas, 1981; Sato et al., 2001), sendo que o papel exato destes hormônios não é ainda bem definido (Xu et al., 2006).
O controle do equilíbrio entre substâncias promotoras e inibidoras do crescimento é altamente complexo (El Motaz Billan et al., 1971). De acordo com Xu et al. (2006), substâncias localizadas em diferentes tecidos, associadas a diferentes sistemas do bulbo, determinam o comportamento altamente específico, o que tem levado muitos pesquisadores a confundirem esses comportamentos, como sendo causas distintas de dormência. Luckwill (1952), citado por Amen (1968), foi o primeiro a lançar a teoria unificadora da dormência, englobando todas as possíveis causas como diferentes facetas de um mesmo sistema. A dormência em alho pode ser dividida em três estágios: pré- dormência, dormência propriamente dita e pós-dormência, como ilustrado no diagrama da Figura 5.
Figura 5 – Diagrama das etapas culturais e da fisiologia da planta do alho, adaptado de Ferreira et al. (1986).
O primeiro estágio fisiológico da dormência é controlado fundamentalmente por fatores externos e os relacionados com as últimas
AR MA ZE NA ME NT O PÓS DO RMÊN CIA D O R M Ê N C IA PRÉ DORM ÊN CIA C U R A COLH EITA BU LB IF IC AÇ ÃO CR ESC IM EN TO VE G ET AT IVO SENESCÊNCIA CRES C B ULB O PLANTIO AR MA ZE NA ME NT O PÓS DO RMÊN CIA D O R M Ê N C IA PRÉ DORM ÊN CIA C U R A COLH EITA BU LB IF IC AÇ ÃO CR ESC IM EN TO VE G ET AT IVO SENESCÊNCIA CRES C B ULB O PLANTIO
etapas do cultivo antes da colheita; o segundo é devido exclusivamente a fatores internos, e o terceiro estágio, a pós-dormência, novamente é controlada pelas condições ambientais externas do ambiente (Ferreira et al., 1986).
A duração da dormência pode ser mais ou menos longa, variando com a cultivar ou clone, com as condições ambientais de crescimento, com as temperaturas de armazenamento, com o tamanho do bulbilho e sua posição no bulbo e com todos os fatores que afetam a senescência do bulbo mãe (Carvalho et al., 1980). De acordo com Burba (1983), existe uma correlação entre a duração do período de dormência e os requerimentos de frio e de comprimento de dia para a formação do bulbo. De fato, tem se verificado a campo que, cultivares de dormência curta, como é o caso de cultivares pertencentes ao grupo precoce (comum), possui baixo requerimento, ocorrendo o inverso com as cultivares do grupo tardio (nobre), de dormência prolongada.
4.3. Vernalização
Por dependência, principalmente, de temperaturas apropriadas para o desenvolvimento do bulbo, as cultivares de alho do grupo “nobre” têm seu cultivo normal dificultado em várias regiões do Brasil, inclusive nas regiões mais quentes. No entanto, vários estudos têm mostrado que, a exposição dos bulbilhos a temperaturas de zero a 10oC em câmaras frigoríficas, prática denominada de vernalização, por períodos que podem variar de 30 a 60 dias, dependendo da região onde se pretende produzir, substitui a principal exigência climática dessa espécie, estimulando a bulbificação e viabilizando o cultivo dessas cultivares em regiões com condições climáticas adversas (Aoba & Takagi, 1971; Carvalho et al., 1980; Ferreira et al., 1986; Biasi & Mueller, 1999; Yuri et al., 2005).
Entre os primeiros trabalhos que citam o uso da vernalização de bulbilhos de alho no pré-plantio, Mann (1952) observou que bulbilhos armazenados à temperatura de 5 a 15oC produziram plantas com crescimento inicial mais rápido e que para algumas épocas de plantio, o armazenamento à temperatura de 0 a 5oC pode acelerar a senescência da planta. Aoba & Takagi (1971) verificaram que plantas provenientes de bulbilhos frigorificados à temperatura de 5 a 15oC por 20 a 30 dias, apresentavam bulbificação antecipada, sendo tanto maior o efeito quanto menor a temperatura e maior o tempo de tratamento. Sob condições semelhantes, Carvalho et al. (1980), observaram produção de bulbos de
peso médio inferior aos obtidos nos tratamentos sem frigorificação com a cultivar “Amarante”.
Normalmente, plantas provenientes de bulbilhos-sementes não vernalizados, só bulbificam quando recebem condições fototermoperiódicas adequadas, ao passo que, plantas provenientes de bulbilhos vernalizados no pré-plantio iniciam o processo de bulbificação mais rapidamente sob temperaturas elevadas do que sob temperaturas baixas. Esse comportamento, segundo Burba (1983), sugere que no processo de bulbificação existiriam duas etapas: uma indutiva, na qual o frio e/ou os dias longos seriam fatores imprescindíveis (efeito qualitativo) - já que a ação de pelo menos um deles se faz obrigatória para que a bulbificação se manifeste - e outra morfogênica, em que as condições fototermoperiódicas só são capazes de modificar a velocidade do processo (efeito quantitativo). A primeira etapa seria favorecida por temperaturas baixas e/ou dias longos e a segunda, por temperaturas altas e/ou dias longos.
Como regra geral, tem sido considerado que, para que ocorra a indução do processo de bulbificação nas cultivares de alho “nobre” plantadas no Brasil, é necessário um período de frio no primeiro terço do ciclo de cultura (pelo menos um mês) para quebra da dormência de meristemas localizados na inserção de primórdios foliares sobre o caule da planta, e um fotoperíodo de dias longos na sequência. Na região do planalto catarinense foi observado que as temperaturas ótimas para induzir a bulbificação em alho nobre estão entre 5 e 12oC, e a duração do período varia com a temperatura e a cultivar, antecipando a bulbificação na medida em que se aumenta o tempo de exposição da planta à baixa temperatura (Mueller et al., 2005).