Os dados referentes à aquisição fonológica foram apresentados na secção dos Resultados nas figuras 3 e 4. Neste estudo contrariamente ao encontrado por Charrua (2011), os processos fonológicos não diminuem de forma linear com o aumento da idade. Verifica-‐se esse fenómeno de diminuição dos processos com o aumento da
idade apenas em alguns casos, nomeadamente para os processos de “PAL”, “RGC”, “OCF” e “DESV”.
Pode-‐se verificar ainda que, para o sexo feminino, a percentagem de utilização de processos fonológicos foi superior ao sexo masculino. No sexo masculino, e contrário ao que seria de esperar, a faixa etária [30-‐36[m desta amostra apresentou uma maior percentagem de ocorrência dos processos fonológicos que a dos [24-‐30[m e a dos [18-‐24[m. Porém, no sexo feminino, os resultados vão de encontro ao expectável, uma vez que a ocorrência dos processos fonológicos foi maior na faixa etária dos 18-‐24[m que a dos [24-‐30[m e dos [30-‐36[ m.
Esta percentagem de ocorrência de processos fonológicos foi mais baixa do que o esperado, pois foram considerados muitos processos fonológicos. Muitos desses processos tiveram percentagens de ocorrência muito baixas, nomeadamente a assimilação regressiva e progressiva, a liquidização, a fricatização, despalatalização, epêntese, metátese a alteração de vogal.
Na análise dos resultados observou-‐se uma relação direta entre os processos fonológicos e as estruturas silábicas complexas, nomeadamente o ataque complexo e a rima ramificada. Deste modo, os processos fonológicos afetam, de forma mais frequente, as estruturas silábicas CCV e CVC. Estas estruturas são adquiridas mais tardiamente e as produções das crianças tendem a aproximar-‐se da estrutura silábica mais frequente CV, de acordo com o observado por Guerreiro and Frota (2010).
No processo “OCF”, os valores de utilização indicam que este processo foi utilizado nas três faixas etárias. Segundo Othero (2005), para o PB este processo ocorre até aos 30 meses de idade, mas ainda se pode encontrar até aos 42 meses, com menor frequência. Deste modo, os resultados deste estudo vão de encontro aos estudos de outras línguas que indicam idades de supressão do processo superiores a 36 meses. Neste estudo, a utilização do processo “OCF” tende a aumentar da faixa etária dos [18-‐24[m para os [24-‐30[m, contudo torna a diminuir dos [24-‐30[m para os [30-‐36[m. Uma possível explicação reside na possibilidade de a partir dos [24-‐30[m se iniciar a aquisição do fone [ʃ]. Freitas (1997) cit. por Charrua (2011) referiu que a informação morfossintática de uma língua influencia a aquisição e estabilização precoce da rima ramificada com a fricativa. No entanto, as fricativas e as líquidas são as últimas classes a serem adquiridas e a coda também é dos últimos constituintes
adquiridos. Deste modo, espera-‐se que este seja um processo comum até mais tarde, o que vai de encontro ao estudado por Mendes et al. (2009), que referem que o processo pode-‐se verificar até aos [78-‐84[ m.
Os resultados do estudo para o processo “RGC” foram os mais elevados (76,06%). Este processo foi aquele que demorou mais a desaparecer e é um dos últimos a estabilizar Freitas (1997), uma vez que engloba a produção do fonema [ɾ], que é dos fonemas adquiridos mais tardiamente. Este processo é mais tardio também devido ao facto de estar relacionado com as simplificações no ataque ramificado que no PE e no PB e fazem parte do desenvolvimento normal da aquisição fonológica até aos [60-‐72]m (Guerreiro 2007). Estes resultados vão de encontro aos dos outros estudos, nomeadamente de Mendes et al. (2009), que considerou que este processo só foi suprido entre os [60-‐72[m. Os resultados deste estudo não demonstraram uma diferença significativa entre as 3 faixas etárias, para a produção de processos fonológicos.
Neste estudo verificou-‐se uma percentagem de produção elevada (46,69%) para o processo “PAL”. Este foi o processo de substituição que ocorreu com maior frequência e contrariamente ao que seria expectável tende a aumentar com a idade. Este processo está relacionado com a substituição de fonemas e não se encontra relacionado com a estrutura silábica da palavra. As consoantes palatais são adquiridas mais tardiamente e, devido a esse facto, não seria de esperar que este processo aumentasse. No entanto, de acordo com Mendes et al. (2009) o processo “PAL” só foi suprimido aos 54 meses, ou seja, é normal que nas faixas etárias do estudo ainda se verifique este processo.
No processo “OSA”, os resultados do estudo demonstram uma diminuição ao longo da idade, facto também encontrado por Charrua (2011). Deste modo, as crianças em idades precoces simplificam palavras polissilábicas e à medida que ultrapassam os 36 meses tendem a apresentar menos dificuldades em lidar com os vários formatos da palavra. Este é um dos últimos processos a ser suprido, segundo o estudo de Mendes et al. (2009).
O processo “SVL” foi o segundo processo de substituição com maior percentagem de ocorrência. Este facto coincide com os dados do estudo de Charrua
percentagem ocorrência significativamente superior. Porém para a faixa etária [30-‐ 36[m não houve aumento nem diminuição. Este processo só tende a ser suprido por volta dos 78 meses de acordo com Mendes et al. (2009).
Verificou-‐se que os processos de estrutura silábica ocorrem em maior número e de forma mais frequente que os de substituição. Nos processos de estruturação silábica: “OCI”, “RS”, “OL”, “EPE”, “MET”, as percentagens de ocorrência calculadas foram bastante reduzidas verificando-‐se uma diminuição consoante o avanço da idade. Nas estratégias de simplificação do ataque ramificado é comum a utilização da epêntese vocálica em que se insere uma vogal para quebrar a sequência CC (Guerreiro and Frota 2010).
Relativamente aos processos de substituição “ASSP”, “ASSR”, “SL”, “SV”, “OCL”, “LIQ”, “FRIC”, “DESP”, “AV”, “DESN” que continham percentagens reduzidas tendem a diminuir com o aumento da faixa etária. Os resultados deste estudo são coincidentes com os estudos de Freitas (1997); Lamprecht et al. (2004) cit. por Charrua (2011), uma vez que a omissão de segmentos não foi uma estratégia preferencial utilizada pelas crianças em idades precoces. Esta omissão de segmentos ocorre preferencialmente na classe das líquidas. Isto deve-‐se ao facto desta classe ser a última a emergir e a estabilizar na produção das crianças. Deste modo, a estrutura silábica CV encontra-‐se adquirida, já em idades precoces [18-‐24[m. A “MET” surge, nesta faixa etária, de forma a eliminar o ataque ramificado, trocando a localização dos segmentos. Neste estudo, verificaram-‐se percentagens de ocorrência quase nulas à semelhança do que acontece para outras idades, nomeadamente nos estudos de Guerreiro (2007); Lamprecht et al. (2004) cit. por Charrua (2011). Apesar de existir um processo fonológico que permite a troca de segmentos de forma a simplificar o formato silábico para CV, este é pouco utilizado pelas crianças. Analogamente à “MET” tem-‐se a “EPE”, onde ocorre a inserção de uma vogal neutra de forma a restruturar o formato silábico para CV. No entanto, nos resultados do estudo também este processo foi pouco utilizado. Todavia, contrariamente à “MET”, este processo aumentou à medida que as faixas etárias aumentaram, coincidindo com Lamprecht et al. (2004). Isto deve-‐se, em parte, à tentativa das crianças para não omitir alguns dos fonemas e como tal inserem um som, de forma a simplificar a estrutura silábica.
Relativamente à aquisição fonológica entre os sexos constatou-‐se que não existem diferenças para as crianças com idades compreendidas entre [18-‐36[m. Cambim (2002) também estudou para o PE esta variável independente e constatou que a mesma não influenciava diretamente numa maior ocorrência dos processos fonológicos.
Em síntese, os resultados analisados para as faixas etárias em estudo [18-‐36[m, permitiram concluir que, em média, à medida que a idade aumenta, a ocorrência total dos processos fonológicos diminui. Assim sendo, as crianças da amostra dos [30-‐36[m produzem menos processos fonológicos, aproximando-‐se mais da produção alvo (produção dos adultos) e consequentemente adquirindo mais fones (aquisição fonética). Estes resultados vão de encontro aos estudos de Khan and Lewis (2002); Mendes et al. (2009) embora estes estudos tenham sido para faixas etárias superiores.