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Ao mencionarmos olhares e palavras, entramos no campo da fenomenologia e da dialética que são aportes teóricos extremante presentes na constituição da complexa visão humana e elaboração educacional freireana. Pensadores como Hegel, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty, também foram influências essenciais na construção do pensamento freireano. O próprio Freire afirma:

Minha perspectiva é dialética e fenomenológica. Eu acredito que daqui temos que olhar para vencer este relacionamento oposto entre teoria e práxis: superando o que não deve ser feito num nível idealista. De um diagnóstico científico deste fenômeno, não podemos determinar a necessidade para a educação como uma ação cultural. (FREIRE, apud GADOTTI, 1996, p. 125).

Amparados nas palavras de Freire, tentaremos delinear estes aportes fenomenológicos e dialéticos a partir de uma proposta educacional filosófica crítica e como esta proposta pode ser alicerce para se pensar a formação do ser-sujeito-criança. A coerência de Freire com a fenomenologia é descrita por Zanella (2016, p. 12) nas seguintes palavras:

Coerente com o método fenomenológico, Freire mostra que o desvelamento da realidade se faz pela problematização, caminho pelo qual há uma emersão das consciências que se inserem criticamente na realidade [...] Parece ser possível realizar o processo de reflexão que problematiza o pensar sem a mediação da teoria, pois não se trata de investigar a realidade objetiva no sentido do realismo filosófico, mas de problematizar a realidade enquanto o pensar do sujeito sobre a mesma. Desta forma, podemos inferir que a perspectiva historicista assumida por Freire a partir de uma concepção dialética está explicitamente presente em seus escritos. Faundez (1985) em diálogo com Freire, afirmou: “nenhum de nós tem a verdade, ela se encontra no devir do diálogo, como dizia Hegel, “a verdadeira realidade é o devir”, não é o ser nem o não ser, mas a tensão entre ambos – o processo histórico é o verdadeiro”. (p. 43).

Sobre esta questão do ser, entendida na perspectiva heideggeriana como fundamental, Kahlmeyer (2008, p. 19) vem dizer que “Heidegger, ao assumir essa tarefa, não o faz nos moldes da tradição filosófica, que pergunta pelo ser como uma categoria entre outras, mas indaga pelo sentido do ser”. Desta forma, o método fenomenológico “viabilizaria a investigação do sentido do ser a partir da análise daquele, que entre todos os seres, seria capaz de compreendê-lo, o único ente capaz de refletir sobre o sentido dessa palavra, a saber: o homem”. (KAHLMEYER, 2008, p. 19). Isto enfatiza que os aportes fenomenológicos na acepção de Heidegger são essenciais para que se compreenda este real sentido do ser, entendido como um ser-aí.

Por não se ancorar nos princípios de uma tradição filosófica quando indaga a questão do ser, este ser-aí heideggeriano, pode ser compreendido como uma expressão da essência humana, uma maneira de existir, uma existência em aberto, um continuar sendo do ‘ser sujeito’.

Heidegger entenderá que ser-aí é uma possibilidade aberta, apenas constituindo seu fenômeno ao existir. É no existir que se é aí (ou seja, apenas se lançando a esse mundo aí, diante de nós). Assim, o ser aí é compreendido como a possibilidade de ser para as circunstâncias de um mundo e no constante exercício de existir nesse. Infere-se, portanto, que ser no mundo é mais um cultivo do que uma condição humana. (KAHLMEYER, 2008, p. 20).

Sobre Heidegger, Kahlmeyer (2008) enfatiza que “seu trabalho fez com que certos conceitos fundamentais ao pensamento ocidental pudessem ser pensados com base em novos paradigmas, trazendo significação renovada às noções tradicionais de razão, sujeito, indivíduo

e existência”.(p. 13).

Mantovani (2011) persiste em afirmar que existe uma reciprocidade entre as concepções teóricas e epistemológicas da formação dialética em Hegel e as condições da existência de uma educação ontológica em Freire. “Diríamos que a educabilidade, ou o ser

educável em Paulo Freire, diz respeito às condições pelas quais o se formar da consciência em

Hegel se efetiva”. (MANTOVANI, 2011, p. 44).

O conceito de consciência é essencial nas formulações do projeto fenomenológico. A consciência intencional é uma das marcas deste aporte teórico. E esta premissa do ‘ser educável’ articulado à formação da consciência só é possível de ser concretizada porque necessariamente parte da afirmação do ser sujeito possuidor de um corpo-consciente, pois não é apenas corpo, nem apenas consciência.

O ser humano é concebido como corpo consciente, cuja consciência é intencionada ao mundo; consciência de algo (de si e do mundo), pressupondo que a consciência se constitui através da intenção com a realidade objetiva, num caráter dinâmico, na

medida em que está direcionado ao mundo para captá-lo, objetivá-lo e transformá-lo. (OLIVEIRA, 2015, p. 54).

Contudo, é importante frisar que não podemos nos valer do termo consciência com absolutez, pois, há, por exemplo, duas formas de consciência que envolvem os seres humanos: a ‘consciência em si’ e a ‘consciência para si’. De forma concisa, a consciência em si é vivida, mas não traz em seu bojo a reflexão acerca da realidade ou dos fatores pelos quais este ser humano vive. Por outro lado, a consciência para si tem em seu âmago a reflexão constante do sujeito que tem consciência e que a direciona ativamente.

Nutrindo-se das teorizações fenomenológico-dialético, nas quais a presença da tomada de consciência é algo inerente ao sujeito quando este se apropria de uma determinada experiência ou conteúdo, Chagas e Rocha (2014, p. 107) refletem que “nunca se exagera quando se enfatiza o valor da reflexão enquanto tomar consciência da necessidade da “hominização”, ou seja, assumir a identidade do ser humano como ser consciente no mundo, ser social inserido em comunidades históricas de vida”.

As crianças precisam exercitar seu pensar de sujeito, ser incentivadas a tomar consciência de sua inserção no mundo, a problematizar o mundo e a se inserir criticamente na realidade. Esta é uma das tarefas do ensino de filosofia.

Em Hegel (2008, p. 35) encontramos as seguintes palavras relacionadas ao ‘ser- sujeito’: “a substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou – o que significa o mesmo – que é na verdade efetivo, mas só na medida em que é o movimento do pôr-se-a-si mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tornar-se outro”. Como sobredito para Hegel ser-sujeito é um só. E se tratando do entendimento em torno do sujeito, Mantovani (2011) fundamentado em formulações hegelianas afirma que:

O sujeito não é mais, como na lógica tradicional, uma base fixa e estável constituída por predicados que, afastando-se da dinâmica da realidade, não dizem a “unidade na diferença”. Através dessa concepção de sujeito que se autodesenvolve em seus predicados, Hegel apresenta à filosofia o “juízo especulativo” que, tendo por conteúdo o processo objetivo da realidade, penetra em sua dinâmica concreta, racionalizando-a. (p. 47).

Por ser um ser de relações com outros humanos e relações com o mundo, o homem, a mulher ou a criança são um ser-no-mundo. E neste sentido, importante se fazem as seguintes palavras de Loureiro (2009):

A relação do homem com o mundo é um dos principais temas tanto da filosofia de Heidegger, quanto do pensamento e da metodologia de alfabetização de Freire. Esse é um tema que fundamenta ambos os trabalhos: o de Freire e o de Heidegger. Para esses dois pensadores o homem é um ser que está em profunda relação com o mundo; ambos criticam a dicotomia homem/mundo. (p. 328).

Para racionalizar esta dinâmica concreta da realidade nas ponderações feitas por Oliveira (2015), Freire “relaciona de forma dialética, a contemplação com a ação, o individual com o coletivo, o afetivo com o racional, valorizando o cotidiano e a cultura como lugares de luta, de resistência e de afirmação do sujeito”. (p. 50). Além disto, a autora acrescenta que “o ser humano é um ser de relações, cuja relação dialética ser humano-mundo, possibilita a sua característica existencial de sujeito do conhecimento, da história e da cultura. (p. 52).

Isto é, o ensino de filosofia com crianças está fundamentado na perspectiva de Freire a qual é alicerçada na relação fenomenológica e dialética, nunca mecânica, crua, mas livre e consciente de sua presença nos diversos campos do conhecimento humano.

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