Existing and Committed Production*
OF UKRAINE AND THEIR RESOURCES
As questões que levantamos tornam-se ainda mais significativas no momento atual, em que é conhecida a tendência internacional para o aumento da participação das mulheres no jornalismo, em um processo que tem sido chamado de feminização da imprensa30. Segundo dados da Federação Internacional dos Jornalistas publicados por Corazza (2005), estima-se que dos 600 mil jornalistas espalhados pelo mundo, 300 mil sejam mulheres. Ainda segundo a FIJ, na América Latina são em torno de 50 mil as mulheres jornalistas, entre repórteres, editoras, pauteiras e colunistas, entre outras ocupações na mídia.
No Brasil, no fim de 1999 as mulheres jornalistas totalizavam um efetivo de 8.693 profissionais com carteira assinada (de um total de 19.944) e que em 2009 eram 790 sindicalizadas no estado da Bahia (de um total de 2.017)31. Respectivamente, as mulheres representavam no período 43,58% do total de jornalistas no país e 39,16% na Bahia. Os dados do Sinjorba (Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia) apontam para uma maioria masculina entre os profissionais sindicalizados. Em
30 Para o aprofundamento dessa questão, ver: SILVEIRINHA (2004), CERQUEIRA (2008) e CORAZZA
(2005).
2009, entre os mais de 2 mil filiados ao Sindicato, 61% são homens e 39% são mulheres.
A revista Imprensa de março de 2005, em edição especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, traz uma pesquisa sobre as mulheres que trabalham nos meios de comunicação no Brasil. O gráfico (Maxpress/Revista Imprensa) reproduzido por Corazza (idem) no artigo Questão de gênero: inclusão/exclusão da mulher no
complexo midiático, mostra que do total absoluto de 51.899 jornalistas dos dois sexos
em atuação no país em jornais, televisão, revistas, rádio, internet e autônomo, 35,63% eram mulheres e 62,37%, homens.
Entre as 19.521 mulheres em atuação no mercado de jornalismo brasileiro em 2005, 31,51%, ou seja, 6.152, atuavam em jornais impressos. O meio jornal ocupou, nessa lista, o primeiro espaço em quantidade de mulheres, seguido pela televisão, com 5.752 profissionais (ou 29,46%) em atividade no mesmo período. Na seqüência, apareceram os meios revista (19,43%), rádio (11,57%), internet (6,65%) e autônomo (1,35%).
Mas não são apenas nos meios de comunicação de massa que as jornalistas estão atuando. Na dissertação de mestrado Mulheres em Pauta: jornalismo sob a ótica de
gênero em Salvador, Ana Fernanda Campos de Souza (2010) afirma que, além da
imprensa escrita, que concentra a maior quantidade das mulheres jornalistas (40,3%), elas também estão presentes nas atividades denominadas extra-redação — como as empresas de assessoria, produtoras e consultorias (39,2%)32.
Outro dado destacado por Souza (2010) é o que aponta maior grau de escolarização entre as mulheres do que entre os homens jornalistas. Em 2000, o número de mulheres jornalistas com curso superior era maior do que o de homens: 73,19% delas possuíam o diploma, contra 53,1% deles. Ela indica, como possível motivo para esse índice, o fato de que em 2008, ano de início de sua pesquisa, a profissão de jornalista apenas podia ser exercida no Brasil por quem houvesse concluído o curso superior de jornalismo.
Na prática, porém, nem todo profissional de imprensa havia passado pela faculdade. Isso acontece porque as redações dos meios de comunicação ainda contam com profissionais que começaram a trabalhar antes mesmo da determinação da obrigatoriedade do diploma universitário: são os chamados jornalistas provisionados.
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A pesquisadora utilizou dados de: NARDELLI, Elizabeth; SANT'ANNA, Francisco. Mulher e Imprensa na América Latina. Brasília: Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, UNESCO, 2002.
Uma vez que os homens entraram na profissão antes das mulheres, eles são a maioria entre os provisionados (SOUZA, 2010, p. 53).
Apesar da presença crescente nos veículos de comunicação, não podemos afirmar que não exista diferenciação entre homens e mulheres em termos de distribuição e tratamento da agenda noticiosa. Pesquisadoras como Cerqueira (2008), afirmam que as mulheres continuam a não ter acesso aos cargos de chefia. Ela cita um estudo publicado pela Federação Internacional de Jornalistas, que concluiu que menos de 3% das mulheres jornalistas ocupam cargos de direção e com poder de decisão. Dessa forma, na teoria, qualquer mulher poderia ser diretora de um jornal, mas na prática, têm dificuldade em chegar ao topo e encontram obstáculos quando querem atingir uma posição de destaque.
Além disso, as mulheres jornalistas/produtoras do discurso passam a integrar a cultura profissional e deixam de representar os interesses femininos, aceitando as ideias e os valores daquilo que as feministas definem como ideologia patriarcal, tendo mais tendência para a reproduzir no seu trabalho do que para a contestar (CERQUEIRA, 2008, p. 142).
A mulher jornalista não goza da mesma média salarial dos homens, ainda que represente uma parcela significativa dos profissionais de imprensa no país e tenha mais anos de estudos do que eles. Em 2000, elas ganhavam em média 5,09% menos do que eles: US$ 1.072 para elas, US$ 1.129 para eles, segundo a pesquisa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Distrito Federal. O economista Nelson Sato (2002) defende que não há diferença salarial entre homens e mulheres que exercem a mesma função nas médias e grandes redações, já que essas são empresas com planos de cargos e salários. Uma possível explicação para a diferença é que há um número maior de homens ocupando os cargos de diretor, chefes e secretários de redação, o que elevaria a média salarial masculina.
Alguns autores mostram ainda que as mulheres continuam a ser associadas à esfera privada, não conseguindo ingressar com a mesma igualdade que os homens em importantes campos da agenda midiática, como é o caso da política e da economia. Essa dificuldade de as mulheres alcançarem postos de maior prestígio em suas companhias e a limitação seu campo de atuação a tarefas ou pautas consideradas mais adequadas ao estereótipo de feminilidade tradicionalmente aceito não são uma singularidade do campo jornalístico. Gilles Lipovetsky (2000) chama esse fenômeno de ―teto de vidro‖.
A explicação, de acordo com o pesquisador, tem origem na persistência de estereótipos sexuais que afastam as mulheres de certos postos, encerram-nas em um repertório de atitudes socialmente aceitáveis, criam conflitos de papéis entre feminidade e competência e deformam a avaliação de seu desempenho.
Dessa forma, os quadros masculinos nas empresas continuam a associar o sucesso profissional a qualidades comumente atribuídas aos homens e continua-se a considerar as mulheres muito emocionais, menos ambiciosas e menos capazes de espírito de iniciativa que os homens. Essas imagens sexistas impedem que as mulheres sejam avaliadas no mesmo nível de igualdade que seus colegas do sexo masculino.
Deformando a percepção que os superiores têm do potencial das mulheres, os estereótipos sexuais as desfavorecem em seu avanço, fazem-nas sofrer a prática do ―dois pesos, duas medidas‖ e as destinam a funções menos valorizadas, menos diversificadas, menos decisórias. Além disso, como os dirigentes acham mais difícil criticar os desempenhos de uma mulher que os de um homem, os quadros femininos têm menos feed back, menos possibilidade de aprender, corrigir-se e progredir (LIPOVETSKY, 2000, p. 267).
Isso não signfica, entretanto, que as mulheres não estejam ocupando postos mais elevados no mercado de trabalho. O fato mais marcante, destaca o pesquisador, é persistência do isolamento das mulheres que conseguiram abrir o caminho até o topo e a reprodução social do poder masculino.
Há alguns anos, apareceu um novo tipo de mito, que celebra a especificidade do poder feminino nas organizações. Levar em conta a dimensão humana dos problemas, vontade de dividir o poder, esforço para valorizar as pessoas e sensibilidade para as relações pessoais seriam algumas das características associadas à gestão no feminino. Dessa forma, alerta Lipovetsky (idem), é construído um novo mito, baseado na idéia de que as mulheres irão humanizar a empresa e criar ambientes de trabalho mais harmoniosos, prazerosos e menos autocráticos. Podemos observar que o mito, aqui, é elaborado a partir de qualidades tradicionalmente atribuídas às mulheres: sensibilidade, intuição, preocupação com os outros, orientação para as pessoas.
O tema ―gerir no feminino‖ aparece tipicamente como um novo imaginário social edificado sobre o solo dos estereótipos sexuais, não como uma constatação apoiada em reais observações. (...) Tudo se passa como se a nova legitimidade do poder feminino só pudesse se afirmar socialmente moldando-se à imagem arquetípica do feminino. O mundo da racionalidade meritocrática não faz desaparecer os mitos de sexos, quando muito consegue recicla-los em consonância com os novos ideais democráticos feministas (Ibid., p. 273-274).
A partir dessa análise, não podemos afirmar que os estereótipos sexuais tenham desaparecido. Apesar disso, segundo o Lipovetsky, seu modo de ação, seu poder de influência e de discriminação já não se reproduzem da mesma forma de antes. Na opinião do autor, os clichês sexuados terão menor capacidade de inferiorização, de hierarquização e de exclusão. Ele as denomina ―representações fracas‖, que já não fecham de forma anuladora o acesso das mulheres aos setores e postos de trabalho tradicionalmente masculinos, conformando estereótipos ―mais maleáveis‖, que privilegiam a individualidade dos sujeitos.
Para Lipovetsky, a nova relação das mulheres com suas carreiras profissionais é motivada por um desejo de abertura para o espaço público e para a vida social, a reivindicação de autonomia em relação à família e a construção de uma segurança material para o futuro. Motivações que exprimem a ascensão de um individualismo feminino, paralelamente às atitudes relativas ao aborto, à contracepção, à liberdade sexual, ao recuo do casamento e das famílias numerosas, aos pedidos de divórcio por iniciativa das mulheres: por toda parte se manifesta a vontade feminina de afirmar-se como protagonista de sua própria vida. No investimento feminino no trabalho há muito mais que um desejo de escapar ao ―gueto‖ doméstico, há a nova exigência de afirmar uma identidade de sujeito.
Apesar de apontar essas transformações, o autor reitera que elas não significam, de modo algum, que os bloqueios ao acesso das mulheres aos mais elevados escalões se dissiparam. Eles apenas não são mais intransponíveis.
No campo jornalístico, consideramos importante observar dois níveis da rotina profissional: a seleção das notícias e das fontes ouvidas para construir essas notícias. Seria lógico, aponta Silveirinha (2004), pensar que as mulheres podem fazer a diferença se selecionarem temas que mais lhe interessam e também se ouvirem mais fontes femininas, ou seja, dar voz a mais mulheres em suas histórias. No entanto, a agenda profissional estabelece o que vai ocupar espaço nos jornais, na agenda do dia, através de seus critérios de noticiabilidade.
Essa agenda é construída pelos principais agentes do espaço político e social e, numa sociedade essencialmente masculina, onde os lugares de decisão nomeadamente políticos, são essencialmente masculinos, é difícil subverter essa ordem. (...) Se as principais fontes da rotina noticiosa são as autorizadas, então as fontes oficiais serão normalmente masculinas – pois esse é o lugar que têm na estrutura social. Uma vez
mais, será o ângulo da notícia e o seu enquadramento que podem trazer para o jornalismo novas vozes (SILVEIRINHA, 2004, p. 22).
Alguns autores33 vêm debatendo a questão de saber se o trabalho das mulheres dentro dos meios de comunicação pode contribuir para a redução dos problemas de representação. De acordo com Silveirinha (2004), essa diferença pode ocorrer apenas na medida em que a participação das mulheres no jornalismo faça parte de um processo mais vasto de participação na vida coletiva.
Não basta pedir simplesmente às mulheres que produzam representações diferentes, pois estas terão de ser incluídas num processo mais vasto que opera ideologicamente em vários níveis. Tal não invalida, naturalmente, que não se dê especial valor ao esforço de muitas destas profissionais que procuram agendar temas, ouvir fontes e trabalhar num sentido que responda às suas próprias preocupações feministas (SILVEIRINHA, 2004, p. 26).
Uma outra análise sobre o tema foi feita pela por Kay Mills no artigo em What
difference do women journalists make? (NORRIS, 1997). O estudo avalia o impacto da
presença das mulheres nas redações dos Estados Unidos entre as décadas de 50 e 90, a partir de pesquisas em reportagens e editoriais publicados em jornais de grande circulação e entrevistas. Embora o critério de seleção das notícias independa do gênero do repórter, na opinião das jornalistas que Mills entrevistou as mulheres tendem a levar suas experiências de vida para o trabalho, dando atenção, na cobertura, a elementos que passariam desapercebidos aos seus colegas de profissão do sexo oposto. A diferença que as mulheres imprimem à cobertura não estaria, portanto, em uma sensibilidade inata, mas no conjunto de situações que a cultura lhes apresenta e cuja consciência acaba por ser refletida em seu trabalho.
CAPÍTULO 3