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1.3 Types de placement pour l’enfance en difficulté offerts par le conseil scolaire
Grupo Heródoto/Unifesp
a malíCia de heródoto, segundo plutarCo1
a trágica histÓria do espartano Pausânias relatada por Heródoto é criticada por Plutarco em Da malícia de Heródoto, um tratado voltado para a crítica da escrita hero- dotiana. Logo no início de sua crítica Plutarco afirma que, em razão de serem muitos os pontos passíveis de questionamento, empreenderá a análise das partes essenciais, como indícios de sua malícia, pois, se apontasse todas, em suas palavras, “necessita- ria de muitos livros” (Da malícia de Heródoto, 854F). A partir de então, em um discurso impessoal, de caráter prescritivo e pedagógico, Plutarco estabelece um modelo, com as marcas que patenteiam a escrita de um malicioso. O significado original do termo é marca, como a deixada por uma mordida. Por isso, Plutarco afirma que pretende revelar “indícios e sinais de sua narrativa” (855B). Para cada característica arrolada, Plutarco cita um exemplo com o intuito de facilitar a compreensão do leitor, além de sustentar seu argumento, seguindo a técnica retórica que persuade com a com- provação do que foi afirmado, sem observar a veracidade do dito, mas apenas sua verossimilhança, de acordo com o que considera ser verdadeiro.
1 Com algumas alterações, este texto é o resultado de meu pós-doutorado em Estudos Literários financiado pela Fapesp, que também foi publicado pela Edusp em 2013, sob o título Plutarco. Da malícia de Heródoto, com a chancela da Fapesp.
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Então esta marca distintiva de uma narrativa maliciosa, conforme Plutarco, faz-se presente no processo de seleção dos fatos apurados. Nesse sentido, o his- toriador deve ser cuidadoso ao se ver diante de relatos distintos sobre um mesmo fato. A partir disso, o próximo preceito a ser observado é o seguinte: “estabeleço como um sinal de um comportamento não benévolo na história quando há dentre os relatos dois ou mais sobre um mesmo assunto e se concorda com o pior” (855E). A partir dessa reflexão, pode-se inferir que a concepção plutarquiana da histó- ria está condicionada ao agente, ao historiador que interpretará os fatos, que, de acordo com suas escolhas e intenções, produzirá uma narrativa maliciosa. Então, dada essa relação intrínseca entre o historiador e seu relato, Plutarco centra sua análise no caráter daquele que é responsável pela construção de uma narrativa his- tórica. Por isso sua preocupação com o caráter aparentemente doce de Heródoto, que, como vimos no início deste estudo, acaba por iludir seus leitores, fazendo com que confiem em suas interpretações permeadas de malícia, por sempre ver “o pior em tudo”.
menelau e helena
De acordo com o relato de Heródoto, Helena foi recebida por Proteu, rei do Egito, quando ela e Páris, também chamado de Alexandre, foram levados por uma tem- pestade à costa do Egito, onde estava situado seu reino:
Os sacerdotes disseram-me que, pelos acontecimentos que investigaram sobre Helena, ocorreu isto:
depois de Alexandre ter raptado Helena da cidade de Esparta, ele navegou de volta para a sua cidade; porém, quando ele estava no Mar Egeu, violentos ventos empurraram-no para o mar egípcio e, de lá (pois os ventos não baixavam), ele chegou ao Egito, até um lugar do Egito que hoje é chamado Canópica, uma embocadura do Nilo, e seguiu para Tariqueia (herÓdoto, Histórias, ii, 113)2.
Ao aportarem no local, o rei foi informado por seus súditos de sua chegada e também sobre o fato de Páris haver raptado Helena de Esparta. A informação de 2 Doravante, as traduções sem identificação de autoria são de Maria Aparecida de Oliveira Silva.
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que Helena nunca chegara a Troia, mas que havia sido deixada no Egito, é descrita por Heródoto até o capítulo cXX; tal versão também é encontrada em Hesíodo, fragmento 358 Merbeck-West, e, como se verá no que segue, bem desenvolvida em Eurípides na peça Helena (asheri et alli.,2007, p. 322-326). Ao ser indagado por seus súditos como deveriam proceder em relação a Helena e Páris, Proteu ordenou que fossem trazidos à sua presença e, quando ambos estavam diante dele, disse-lhes tais palavras:
Portanto, agora, visto que penso que o meu maior interesse é não matar um estrangeiro, não te permitirei levar embora contigo essa mulher e suas riquezas, mas eu mesmo as guardarei para o estrangeiro heleno, até o momento em que ele mesmo queira vir buscá-las; e, quanto a ti e os teus companheiros de navegação, pro- clamo que, dentro de três dias, levanteis ancora da minha terra e ides para outro lugar; se não fizerdes isso, eu vos tratarei como inimigos (herÓdoto, Histórias, ii, 115).
Na sequência, Heródoto dá continuidade ao seu relato sobre a recepção de Proteu e acrescenta a informação sobre a insistência dos gregos em solicitar aos troianos a entrega de Helena e dos tesouros subtraídos de Esparta. Ao final, depois da repetitiva negativa dos troianos sob a alegação de que ela e os tesouros estavam no Egito, Menelau para lá se dirigiu em busca de sua esposa e de suas riquezas. O desfecho da ida do rei espartano à corte de Proteu, na cidade de Mênfis, é assim relatado pelo historiador:
Depois de Menelau ter chegado ao Egito, navegou rio acima em direção a Mênfis, e ele contou a realidade dos acontecimentos; e foi recebido com grandes honras hospitaleiras e recebeu Helena incó- lume de males; além disso, recebeu todas as suas riquezas. Todavia, apesar do ocorrido, Menelau tornou-se um homem injusto para os egípcios. Quando estava começando a navegar de volta, ele foi detido pela impossibilidade de navegação. Visto que isso estava durando muito tempo, ele imaginou um plano que não era lícito; pois pegou duas crianças dos homens nascidos no local e as fez de vítimas sacri- ficiais. Depois disso, como esse feito se tornou notório, porque ele foi odiado e perseguido, partiu em fuga com suas naus para a Líbia (herÓdoto, Histórias, ii, 119).
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A recepção de Plutarco dessa narrativa herodotiana, como se poderia esperar, foi de recusar o dito em sua totalidade, por meio da seguinte crítica:
Assim, é filobárbaro, de modo que livra Busíris do dito sacrifício humano e do assassinato de estrangeiros. Enquanto testemunha a imensa piedade e justiça em todos os egípcios, faz recair sobre os gregos esta ação criminosa e a sede de sangue. No segundo livro, afirma que Menelau, após ter recebido Helena de Proteu e ter sido honrado com grandiosos presentes, tornou-se o mais injusto e terrível dos homens; porque retido pela impossibilidade de navegação “tramou uma ação ímpia, capturou dois filhos dos homens nativos e os ofereceu como sacrifício; odiado e perseguido por isso, partiu em fuga com as naus para a Líbia” (Plutarco, Da
malícia de Heródoto, 857A-B).
A argumentação de Plutarco mais uma vez apresenta erros quanto ao conteúdo exposto por Heródoto, pois acrescenta ao relato herodotiano: “após ter recebido Helena de Proteu e ter sido honrado com grandiosos presentes”, enquanto lemos em Heródoto: “recebendo de volta Helena incólume e com ela todas as riquezas”. As alterações de Plutarco nos levam a crer que Heródoto de Halicarnasso é real- mente filobárbaro e que cometeu injustiça contra Menelau em sua narrativa. O interesse de Heródoto pelos costumes e práticas dos povos estrangeiros, segundo Rood, principia um tipo de literatura etnográfica que se coaduna com a expansão do imperialismo dos persas, lídios e gregos, resultando no contato de diferentes povos. Dessa maneira, o gênero literário de cunho etnográfico se desenvolverá nos escritos posteriores, em virtude desse estreitamento das fronteiras geográficas (rood, 2003, p. 103-144.)3.
Ressaltamos que, em sua biografia do herói Teseu, Plutarco relata que Héra- cles sacrificou Busíris (Plutarco, Teseu, Xi, 2), o qual, segundo a mitologia grega, é descrito como sendo um rei do Egito, filho de Posídon, que, para evitar as secas, sacrificava os estrangeiros a Zeus e que Héracles o teria matado quando foi colo- cado no altar para seu sacrifício. Sobre o fato de Menelau ter sido honrado com presentes pelo rei há outro engano, pois Heródoto grafa que as riquezas pertenciam ao próprio Menelau, como podemos ver em seu uso do pronome pessoal reflexivo, com função de possessivo, eōutoû (ἑωυτοῦ). Portanto, vemos que as manipulações 3 Sobre a natureza etnográfica da escrita herodotiana, ver: sourVinou-inwood, 2003, p. 103-144.
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de Plutarco servem de artifícios retóricos, à moda dos sofistas, para validar sua argumentação; como Moles nos esclarece, encontramos mentiras nos relatos de Heródoto, Tucídides e Plutarco; porque elaboram manipulações a que denomina “fabricação”, para que suas narrativas pareçam ser verdadeiras (1993, p. 115-116).
Outra questão interessante a ser discutida é que Heródoto justifica o registro do fato de Helena ter sido acolhida por Proteu, demonstrando que Homero deixa entrever em seus versos da Ilíada e da Odisseia que houve um desvio de Páris e Helena em sua ida a Troia, mas que não interessava ao poeta que ela fosse descrita em seus cantos por não atenderem às necessidades de seu argumento, uma vez que não cabia dentro do enredo de sua história (Histórias, ii, 116). Na peça Helena de Eurípides, o tragediógrafo faz referências à hospedagem oferecida por Proteu a Helena e à sua entrega ao rei Menelau (Helena, v. 42-48). Os versos revelam a existência de uma tradição literária que aceita uma versão diferente para o relato homérico e que se aproxima da apresentada por Heródoto, ou seja, que não se trata de uma criação herodotiana, como faz crer Plutarco, e que essa variante do mito não foi registrada pelo poeta para que não houvesse falha em seu enredo, uma vez que Homero compõe vários versos em que Helena figura no palácio de Príamo (hoMero, Ilíada, iii, v. 161-164).
os laCedemônios
Plutarco volta agora sua defesa aos lacedemônios na questão da derrubada da tirania em Samos, pois não somente aponta os enganos de Heródoto como a ele se contra- põe com argumentos que visam a fundamentar suas críticas. O historiador coloca a luta contra o tirano de Samos Polícrates como uma ação motivada pela vingança, enquanto Plutarco a considera um ato de aversão à tirania, conforme segue:
No terceiro livro, discorrendo sobre a expedição dos lacedemô- nios contra o tirano Polícrates, afirma que os próprios sâmios consideravam e diziam que, para lhes retribuírem o favor por sua ajuda contra os messênios, realizavam a expedição militar para buscar os cidadãos exilados e guerrear contra o tirano. Os lace- demônios negam tal motivo e afirmam que nem para os socorrer nem libertar, mas que realizaram a expedição militar para se vingar
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a Creso e uma antiga couraça de Amásis (Plutarco, Da Malícia de
Heródoto,859B-C).
O relato plutarquiano se refere ao registrado no primeiro livro de Heródoto no capítulo lXX, em que conta o episódio da cratera que os lacedemônios enviaram a Creso, mas que o rei não a recebera porque os sâmios a retiveram com eles. Heró- doto retoma brevemente a história no terceiro livro (Histórias, iii, 47-48). Assim, Heródoto estabelece uma relação entre o relatado no primeiro livro e o citado anteriormente, em raciocínio que espelha causa e efeito, em uma narrativa lógica que busca explicar a origem do fato. O historiador prossegue seu relato e inclui a aliança dos coríntios na ação, justificando sua ação com um desacato sofrido por eles no passado (o ultraje cometido no evento narrado sobre Periandro [859F]). Plutarco, porém, não concorda, alegando que os coríntios não pertencem a essa história e que foram incluídos para fortalecer o fraco argumento de Heródoto:
quanto à cidade dos coríntios, estando fora do curso para o fato, foi colocada no lugar, pois forja um caminho, como dizem, ao lado do assunto principal, para que lhe seja imputada a culpa terrível e a mais penosa calúnia. Afirma: “pois os coríntios, de modo ativo, partilharam da expedição contra Samos, porque primeiro os sâmios cometeram um ultraje contra eles (Plutarco, Da malícia de Heródoto, 859E-F).
Plutarco exemplifica sua descrença no relato herodotiano apresentando as acu- sações lançadas pelo historiador contra Clístenes (859C), Cleômenes e Iságoras (859D) e Aristogíton (859E). No entanto, segundo ele, o fim maior da narrativa de Heródoto sobre os sâmios, e em especial sobre Clístenes, está em desmerecer a derrubada da tirania ateniense realizada pelos lacedemônios:
Então, não podendo retirar os lacedemônios da liberação ateniense dos tiranos, é capaz de obscurecer e desonrar a mais bela obra com um sentimento vergonhoso, pois afirma que eles logo se arrepen- deram, porque não agiram corretamente; que “foram estimulados por oráculos fraudulentos – homens que eram seus hóspedes, que a eles também haviam prometido colocar sob o comando de Ate- nas – e expulsaram os tiranos de sua pátria para entregar a cidade a um povo ingrato” (Plutarco, Da malícia de Heródoto, 860F).
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Na verdade, ao citar o oráculo enganoso , Heródoto pretende mostrá-lo como um artifício retórico dos lacedemônios, uma vez que a motivação maior para seu arrependimento está nesta segunda parte do discurso, que Plutarco não revela:
Irmãos de armas, nós reconhecemos não ter agido corretamente! Apanhados nas malhas de falsos oráculos, expulsamos de sua pátria homens que eram nossos hóspedes e que, pior ainda, nos tinham prometido o controle de Atenas! E mais: após esta loucura, entrega- mos a cidade à ingratidão popular, uma vez que, embora o povo seja livre graças à nossa intervenção, se deixou dominar pela soberba. Destratando-nos de forma vergonhosa, Atenas investiu contra nós e contra nosso rei. Senhora de si, cresce em poder, conforme já se aperceberam sobretudo os vizinhos, os beócios e os calcidenses, em breve perceberá mesmo quem não estiver atento. Fracassamos em nossa estratégia. Tentemos agora, com vosso apoio, remediar a situação! Eis a razão pela qual convocamos Hípias, que aqui vedes, e vos mandamos vir das nossas cidades: para, a uma só voz e com um exército comum, o levarmos até Atenas e lhe devolvermos aquilo que lhe tiramos” (herÓdoto, Histórias, V, 91)5.
Plutarco oculta as razões do descontentamento lacedemônio por não conside- rar o discurso verídico, o que não está em desacordo com as informações de que dispomos, pois não há registro sobre esse discurso dos lacedemônios. A política lacedemônia de derrubar as tiranias das cidades gregas também merece a atenção de Tucídides, que registra tal prática, no entanto, sem emitir um parecer sobre a ação nem apresentar a motivação dela (História da Guerra do Peloponeso, i, 18). A partir disso, podemos inferir que Plutarco acolhe o relato tucididiano e atribui aos lacedemônios a luta contra a tirania como algo intrínseco a seu modelo político; portanto, não haveria a necessidade de um oráculo para que isso ocorresse e muito menos um posterior arrependimento para a deposição de um tirano, em qualquer que fosse a cidade. Assim, as evidências destroem a argumentação herodotiana de que houve um lamento dos lacedemônios quanto ao fim da tirania em Atenas. Nesse sentido, a crítica plutarquiana respalda-se em uma tradição que sustenta a aversão dos lacedemônios aos governos tirânicos, fato que também aproxima seus 4 Para a relação entre o oráculo e as decisões políticas em Heródoto, ver: Bowden, 2003, p. 256-274.
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ouvintes e conquista sua simpatia, tendo em vista o episódio da morte de César, que foi assassinado por Brutus quando aspirava à realeza em Roma.
Os lacedemônios também são defendidos por Plutarco no evento em que, segundo Heródoto (Histórias, Vi, 108), os plateus procuraram seu auxílio e eles o negaram:
No sexto livro, narrando os acontecimentos dos plateus, quando se entregaram aos cidadãos espartanos, estes somente lhes ordenaram reportarem-se aos atenienses, “que estavam na vizinhança e capa- citados para socorrê-los”, e isso acrescenta não como hipótese nem opinião, mas como se soubesse com exatidão que “os lacedemônios isso aconselharam aos plateus não por benevolência tencionavam que os atenienses penassem por estarem engajados com os beócios” (Plutarco, Da malícia de Heródoto,861D-E).
O relato de Heródoto volta-se para explicar os motivos que levaram os plateus a se posicionarem ao lado dos atenienses (Histórias, Vi, 108). Embora Plutarco cite com precisão a explicação dada por Heródoto de que “por quererem que os ate- nienses penassem engajados com os beócios”, não a mantém no restante do relato herodotiano, pois afirma que os plateus pediram socorro aos cidadãos espartanos, enquanto o historiador registra que solicitaram auxílio a Cleômenes, filho de Ana- xandrides, e aos lacedemônios. A recusa do auxílio e a intenção do rei espartano e dos lacedemônios de prejudicar os atenienses compõem a argumentação herodo- tiana para explicar a causa da mudança de lado dos plateus, outrora seus aliados, e que, após o ocorrido, tornaram-se companheiros de armas dos atenienses. Tucí- dides igualmente registra o fato narrado por Heródoto neste discurso dos plateus de defesa aos espartanos
Quanto aos grande feitos de antigamente, fomos valorosos para vós, e recentemente nos tornamos inimigos, mas vós sois os res- ponsáveis, pois pedimos uma aliança convosco quando os tebanos nos oprimiam, e vós nos expulsastes e ordenastes que nos voltásse- mos para os atenienses porque estavam próximos e vós habitáveis muito longe. Nesta guerra, em nada fostes importunados por nós, nem algo sofrestes nem vos preocupastes por nós. Se não queremos nos rebelar contra os atenienses, não cometemos injustiça, pois eles nos socorreram, ao contrário de vós... (tucÍdides, História da
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O relato de Tucídides corrobora a firmação herodotiana de que o rei espartano e os lacedemônios, ou cidadãos espartanos – segundo Plutarco – negaram auxí- lio aos plateus e ainda recomendaram que procurassem os atenienses. Contudo, Plutarco tenta atenuar o desdém espartano com seus aliados voltando-se para a opinião expressa por Heródoto sobre a intenção deles de prejudicar os atenienses, o que não parece infundado, como se percebeno discurso citado, quando os pla- teus dizem “no curso desta guerra, nem sofrestes nem correstes o perigo de sofrer qualquer mal por nossa causa”.
A descrição herodotiana sobre a demora dos lacedemônios em prestar auxílio aos atenienses na batalha de Maratona também merece a atenção de Plutarco:
Já claramente convicto a caluniar os lacedemônios quanto ao evento da lua cheia, afirma que eles a esperavam para não socorrerem os atenienses em Maratona. Contudo, os lacedemônios não somente realizaram outras milhares de saídas e batalhas quando se iniciava o mês, sem esperarem pela lua cheia, como também a referida batalha ocorreu no sexto dia do mês Boedrômio, quando se atrasaram por pouco, de modo a verem ainda os cadáveres jazentes no local (Plu- tarco, Da malícia de Heródoto, 861E-F).
Plutarco contrapõe-se ao afirmado por Heródoto (Histórias, Vi, 57; Vii, 106 e 206) a respeito da obrigatoriedade dos espartanos de celebrarem seus rituais antes de partirem para batalha, o que explicaria o atraso deles em Maratona. Há controvér- sias sobre o real motivo de os espartanos terem falhado no auxílio aos atenienses em Maratona, mas são evidentes as influências de Isócrates (Panegírico, 86-87), Platão (Leis, 698e) e Xenofonte (Helênicas, Vi, 4) na crítica plutarquiana à interpre- tação herodotiana do fato. Para fundamentar sua argumentação, Plutarco não se utiliza da retórica, e também não manipula o relato do historiador. Porém, é mister destacar que Tucídides (História da Guerra do Peloponeso, V, 54) partilha da mesma informação de Heródoto sobre as causas da demora na partida dos espartanos.
Outra defesa urdida por Plutarco aos lacedemônios envolve os argivos, quando houve a disputa entre eles pelo comando do exército grego na batalha contra os persas. Assim afirma:
porquanto todos sabem que os argivos não recusaram a aliança de guerra com os gregos, mas pleiteavam o comando, conforme
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os lacedemônios, que eram os mais terríveis e hostis inimigos, e fizessem sempre o que eles ordenassem (Plutarco, Da malícia de
Heródoto,863B-C).
Heródoto narra uma batalha entre argivos e lacedemônios em que aqueles foram derrotados e sofreram uma baixa de seis mil homens, fato que acirrou a inimizade entre eles. Ainda assim, estavam dispostos a auxiliar os gregos se os lacedemô- nios aceitassem um acordo de paz que durasse trinta anos e se eles recebessem o comando de metade das tropas aliadas (Histórias, Vii, 148). Como o acordo de paz não foi realizado, os argivos preferiram manter-se neutros no conflito e, cientes