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1.1.2 L E TYPE DE PRATIQUE
Ao analisar os relatos e as entrevistas, percebi a noção muito recorrente de que houve “prejuízos”. Toda a narrativa se desenvolve a partir da visão de que o
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indivíduo e sua família tiveram suas vidas alteradas negativamente pela perseguição a que foram submetidas nos anos do regime militar.
Tais prejuízos variam desde o isolamento social imposto a alguns, ao estigma que passaram a sofrer, às doenças ocasionadas em função da prisão de um integrante da família, às torturas sofridas, às demissões de empregos e expulsões de colégios e faculdades, enfim, às trajetórias de vida alteradas drasticamente pela perseguição.
A princípio, se pressupõe que aqueles que entram com o pedido de indenização e reparação, se acham de alguma forma prejudicados125. Portanto, não é simplesmente o fato de “ter sido prejudicado” que leva uma pessoa a pedir indenização e, portanto, narrar sua história nesse intuito. É o fato de “se sentir prejudicado” em algum momento da vida que leva as pessoas a exporem suas vidas à análise de uma Comissão, que não necessariamente é composta em sua maioria por pessoas “sensíveis” à causa.
Ao aceitar entrar com o pedido de indenização, faz-se necessário narrar esses sofrimentos e eles é que permeiam toda a extensão do relato.
A perseguição à época da ditadura militar surge então como a principal causa das desventuras individuais, familiares e profissionais. Não é à toa que em muitos relatos há a afirmação de que o perseguido “era o melhor aluno da sala”, “o melhor trabalhador do órgão”, que havia “sido aprovado em um concurso obtendo ótima colocação”, que ia fazer mestrado ou doutorado. Esses são exemplos descritos para se demonstrar como a perseguição alterou negativamente uma vida que “estava nos trilhos”.
Nos casos de pessoas que não conseguiram se refazer profissionalmente, a referência a esses prejuízos é ainda maior, como caso seguinte: “(...) restando-me somente a lembrança dos meus sonhos de estudante não concretizados em ser ‘um Doutor de Nível Superior”126.
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Posteriormente, discutiremos algumas das motivações para entrar com o pedido de indenização e reparação.
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Processo nº 04166448-5 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O autor tem 69 anos, foi militante da Juventude Universitária Católica e preso durante 15 dias em 1965.
Para além dos prejuízos financeiros e profissionais, são mostrados transtornos de outras naturezas:
Hoje, escrevendo a minha experiência vivida há mais de 30 anos, fiquei nervosa, até chorei, parecia que estava acontecendo de novo. As pessoas que me maltrataram, insultaram e humilharam estavam presentes. Elas destruíram muita coisa dentro de mim... 127
Há quase sempre nos depoimentos a referência ao fato de que a pessoa “nunca mais foi a mesma” a partir da experiência vivida: “aquele homem forte de 37 anos nunca mais teria a fortaleza com que conheci”128.
Um caso emblemático descreve prejuízos de ordens diferentes. A ex-presa política de 62 anos, divorciada, professora e ex-militante do PCBR, esteve presa durante 09 meses em 1972. Após a prisão, saiu do Ceará e passou à clandestinidade. Nesse período, tirou documentos com o nome de outra pessoa, com o qual passou a trabalhar. Em seu relato, ela enumera os prejuízos sofridos da seguinte forma:
- exílio da terra natal (Ceará, em 1974- terra a qual tanto amava e ama...);
- abandono da Faculdade de Letras (FAFICE): colaria grau em 71, colando grau em 78 em faculdade particular de Santo André, SP; - abandono de emprego de professora de português no Colégio São José;
- tempo que trabalhou como Laura Maria Mendes (todos os documentos com esse nome foram queimados pela polícia federal); - espancamentos, traumas, humilhações públicas, prisões (DOPS e PF) e discriminação sofrida pela requerente e família;
- separação e perda de seu grande amor: (assassinado pelo regime)129.
Esses prejuízos vão desde os mais objetivos, como o tempo em que trabalhou com o nome de outra pessoa e não poderá ser contabilizado para a aposentadoria, ainda, no abandono da faculdade que cursava, tendo que terminar
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A autora tem 69 anos, é aposentada e solteira. Foi presa em 1973, passando 52 dias na prisão. Em seu relato nega qualquer tipo de participação política, priorizando relatar as conseqüências da prisão (considerada injusta) para sua vida.
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Processo nº 04270042-6 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O marido da requerente era ferroviário e fazia parte do sindicato classista. Foi preso durante 10 dias em 1964. O relato de sua viúva afirma que, ao sair da prisão, foi aposentado compulsoriamente.
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seus estudos numa faculdade particular, para isso, sendo necessário dispor de dinheiro e ainda no abandono do emprego.
Seu relato, porém, contempla ainda danos de natureza mais subjetiva, como o fato de ter se exilado de sua terra natal, que ela faz questão de reforçar que “amava e ainda ama”, as discriminações sofridas não somente por ela, mas também, por seus familiares, e culmina com a separação de “seu grande amor”, fazendo entender que a ditadura militar não destruiu apenas questões objetivas, mas também famílias, amores e possibilidades futuras.
Os relatos dão conta das prisões, das torturas físicas e psicológicas a que foram submetidos os perseguidos políticos e dão um relevo às conseqüências destas para a vida do indivíduo e seus familiares; os abalos decorrentes da prisão, a vida que se tornou inviável, os cortes e rupturas do trajeto e, por fim, a vida que não se refez completamente, mesmo após a saída da prisão.
A trajetória de cada um é recontada com base no evento prisão e partir daí tudo se desenrola. Para isso, é interessante observar como se relata o dia em que tudo começou...
2.7.1 O dia da prisão
Minha família ainda dormia enquanto minha mãe rezava sentada na rede. Conforme os homens adentravam aos aposentados sem ao
menos pedir licença, e eu ia acalmando minha família à proporção que iam acordando, dizendo que se tratava da Polícia Federal. Eles abriam tudo e tudo reviraram, até o colchão da cama onde dormia o casal.130
Ao meio dia em frente à calçada da nossa casinha parou um caminhão do exército, cheio de soldados, comandados por um superior. Recebendo sua ordem, invadiram minha residência, sem pedir permissão, vasculharam tudo indo até o quintal, procurando livros, documentos e outras provas que incriminassem. Eu tremia e
chorava muito. Ao me ver assim, meu filho, chorava também com medo de ver tanto homem fardado, estranhos, isso deixando a
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Processo nº 04024162-9 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O autor tem 62 anos, é farmacêutico, separado. Ficou preso durante 02 semanas em 1974. Não assume a militância. Seu relato tem um componente religioso. Em vários momentos, conta que se apegava a Deus e aos santos nos momentos de tortura e desesperança quando preso.
criança uma situação angustiante. Eles, os soldados bruscamente
me puxavam, considerei agressão física, era uma indefesa mulher e
ao lado de uma criança com 2 anos de idade. Eles forçando a barra para que eu revelasse onde meu marido se escondia. Não sabia de nada. (..) me poupava do que se passava. E mesmo que eu soubesse, jamais contaria. Esta cena triste, chocante e marcante, foi presenciada pelos vizinhos, nas suas portas e assustados não sabiam o porquê131.
A prisão é vista por quase todos os narradores como um marco negativo em suas vidas. Em muitos casos, é sobre ela que se detém a maior parte do texto, reforçando a ruptura entre a vida que se tinha anteriormente e a que se passou a ter posteriormente.
Pelo que ela representou, se faz questão de que as datas sejam bem definidas e as horas bem precisas. A história começa, em alguns casos, com a frase “Era o dia...”, “Nossa história começa no dia...” e ainda “Eram tantas horas...”. Em alguns relatos é possível encontrar a afirmação: “me lembro como se fosse hoje...”
Há uma tentativa de se reconstituir o cenário: onde as pessoas se encontravam, o que estavam fazendo no momento do fato. Esse cenário não necessariamente é composto somente pela pessoa que seria presa, sendo ressaltada a normalidade do ambiente anterior ao evento prisão.
Em alguns casos, a prisão ocorreu na entrada ou saída do trabalho, mas, na maioria das vezes, nos quais se opta por descrever o ambiente, este se dá em casa. Poucos são aqueles que afirmam terem sido presos em plena ação (em comícios, panfletagens, em assaltos etc). A casa, vista comumente como um ambiente de refúgio, intimidade, privacidade e ordem, é apontada em contraposição ao que se viria a seguir: a desordem, o caos, a exposição e execração pública.
As cenas do momento da prisão geralmente são relatadas como “invasão”, “sem pedir licença”, marcadas pela violência e pela brutalidade. Os chutes, botinadas e as armas utilizadas reforçam o sentimento de arbitrariedade e agressão
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Processo nº 04024348-6 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O ex-preso político era ferroviário. No relato de sua viúva, não há referência explícita às agremiações de que ele fazia parte, no entanto, deixa bem claro que ele era um “idealista” e por isso foi perseguido e prejudicado.
da ação. Referências ao medo, estupor, surpresa por não entender o que se estava ocorrendo e a sensação de injustiça são constantes nos relatos.
Nesse cenário, são ressaltadas as figuras das mulheres e crianças, vistas quase sempre como pessoas inocentes e indefesas, que sofrem com a grosseria do ato. “Mães que rezavam ainda deitadas, crianças que dormiam ou brincavam” demonstram a impotência daquelas pessoas ante o ocorrido.
As ações dos policiais são descritas de forma negativa: eles são vistos como as pessoas que desorganizaram aquele ambiente e vida, vistos como até então “normal” e, sobretudo, “feliz”.
Ao afirmar que eles “remexeram nos papéis, desarrumaram a casa, rasgaram documentos, reviraram tudo”, está presente a idéia de que eles também fizeram isso com suas vidas; ou seja, não se referem somente à ação em si, mas também ao que ele significou posteriormente.
Não é à toa que o dia da prisão muitas vezes é acompanhado de termos como “via crucis”, “pesadelo”, “tormento”, “abalo”, “terror”, ou ainda com a expressão “comer o pão que o diabo amassou”.
A falta de documentos oficiais, como os mandados de prisão e a forma violenta como se procedeu, sugerem a falta de respeito às mulheres e crianças presentes na ação.
A prisão é vista como o principal evento e que explica muitas vezes as dificuldades financeiras advindas, os problemas afetivos, emocionais e os de saúde decorrentes, que passaram a afligir os membros da família.
2.7.2 A prisão
O tempo passado na prisão é sempre retratado com termos tristes. Palavras como “pesadelo”, “dias negros”, “piores dias da minha vida” são utilizados para reforçar esse período.
Nem todos os relatos os descrevem; em alguns casos, nenhuma referência é feita (datas, locais, detalhes são “estrategicamente” esquecidos), optando-se por demonstrar as conseqüências da prisão para a sua vida e de seus familiares.
Há casos, contudo, em que ocorre uma descrição extensa do período da prisão: cheiros, sons, sentimentos e pessoas são relembrados.
O local em que permaneceram durante o tempo em que estiveram detidos sempre é descrito como pequeno, apertado, desconfortável e malcheiroso. As condições de alimentação são sempre retratadas como inadequadas.
A vida na prisão é por vezes apresentada como um momento de reflexão sobre a injustiça de todo esse processo, acompanhada de uma sensação de desmoralização por parte daquele que a viveu.
A tirania da prisão se revela ainda mais forte nos relatos daqueles que afirmam não ter nenhuma vinculação partidária e ter “sido pego de surpresa” pelo evento. Estão muito presentes nos relatos daqueles que residiam em cidades do interior: a humilhação vivida por eles ao vêem seus filhos e esposas trazendo comida à prisão e ainda no momento em que foram presos, algemados e exibidos aos vizinhos e conhecidos pelas ruas da cidade.
Ser um “homem de bem” e ter sido aprisionado é sempre ressaltado, principalmente por aqueles que afirmam não ter vinculação partidária. Nesses momentos, há uma repetição do sofrimento vivido.
Grande parte dos relatos se atém às torturas e, embora muitos optem por não descrevê-las, há sempre uma referência (mesmo que implícita) a elas: choques elétricos, chutes, pancadas, torturas psicológicas e o limite do esgotamento físico. Percebe-se que há ainda muito desconforto em retratar essa temática. Em certos casos notórios, muitas vezes não há descrição nos relatos das torturas sofridas. Há ainda aqueles que pedem desculpas por não descrevê-las, alegando que estas já foram feitas em outros momentos ou que seria muito difícil reabrir essas feridas132. Quando se opta por descrevê-las, se mostra o que foi esse momento difícil.
132
O relato de um ex-preso, 65 anos, ex-militante da ALN, preso durante 09 anos, diz o seguinte:
Fiquei de joelhos e continuava a ouvir gritos de socorro, pedindo a ajuda a Deus. Após umas duas horas de joelhos voltaram a me torturar e eu nervoso comecei a me valer de Deus, pedindo em nome de Deus que não me dessem mais choques e não me batessem mais, e um deles, histericamente, começou a gritar: “SEU PORRA, AQUI NÃO TEM DEUS, AQUI NÃO É EXÉRCITO, NEM MARINHA, NEM AERONÁUTICA... AQUI É O INFERNO”133.
Fui torturada com choque elétrico, asfixiada em um tonel com água, machucaram meus seios e feriam várias vezes meus mamilos com alicate (hoje tenho câncer de mama), encenavam meu estupro na presença de vários torturadores e presos encapuçados.134
Em muitas narrações, há referências às experiências de quase-loucura, de tentativas de suicídio (durante a prisão e ainda no período posterior a ela), de desespero e desesperança quando do período da prisão. Há também menção às estratégias utilizadas por eles para se manterem vivos. O caso seguinte demonstra isso:
Em dado momento, um dos inquisidores, desses tipos asquerosos e covardes, veio à cela e com voz cínica, exigiu que eu o entregasse os palitos de fósforo dispostos, contando os dias, sobre a cama de cimento, o pedaço de papel da revista, que eu continuara lendo e relendo, as pontas de cigarro e os bonecos de miolo de pão que formavam o meu mundo na prisão. Em minha mente, era tudo o que me restava...135
Sobre o período vivido na prisão, há em muitos casos a afirmação de que mesmo com as torturas sofridas, se teve um comportamento honroso na prisão. A não-delação de companheiros, ter suportado as torturas em silêncio ou ter enganado
outros não- porque já fiz denúncia antes. Processo nº 04024404-0 da Comissão Especial de Anistia-
Wanda Sidou/ Ceará. Outro ex-preso também afirma em sua narrativa: (...)episódios que, embora,
marcantes para a minha vida demandariam um texto muito extenso e, para mim, penoso de escrever, pois seria um ato violento de reaviver lembranças nem sempre prazerosas e abertura de feridas, cicatrizadas pelo tempo, mas mesmo assim, ainda muito sensíveis a qualquer observação mais detalhada. Processo nº 04072018-7 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará.
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Processo nº 04044162-9 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O trecho em caixa alta está como no original.
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Processo nº 04024384-2 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. A autora, 54 anos, solteira, funcionária pública. Ficou presa durante três semanas em 1972. À época era estudante e tinha militância no movimento estudantil, tendo participação em várias atividades. Sua família é composta de militantes e quase todos foram presos em algum momento da ditadura militar: suas duas irmãs, seus dois cunhados, seu namorado foram também perseguidos.
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Processo nº 04269794-8 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. 61 anos, professor universitário, casado. Pertencia à ala trotskista e foi preso em duas ocasiões: na primeira delas, pela equipe de Sérgio Fleury e na segunda, em 1970, permanecendo assim durante 14 meses.
os inquisidores são fatos ressaltados e vistos como valores positivos. Em certos casos, são outros companheiros de prisão que afirmam a idoneidade do ex-preso, seja através de declarações ou relatos em livros, transcritos por eles para reafirmar sua dignidade quando preso.
Um desses casos é o de um ex-preso, 62 anos, casado, professor universitário, ex-militante da AP, preso em duas ocasiões: em 1968, em Fortaleza e em 1970, em São Paulo. No seu relato à Comissão Wanda Sidou, faz questão de afirmar: Não dei nenhuma informação... Para reforçar mais ainda a sua conduta, anexou ao seu texto um trecho do famoso livro O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira. Neste, o autor faz questão de retratar a conduta ilibada que o ex- preso teve quando da prisão e da tortura, presenciadas por ele.
Chamava-se Ceará e passava as noites com as nádegas de fora, pois estava em carne viva. Sofrera torturas insuportáveis, mas ainda encontrara tempo para conversar, dizia que perguntavam coisas que desconhecia, mas que de qualquer forma não revelaria nada, mesmo que soubesse. Dizia com uma convicção tão humilde, tão pouco preocupado com a platéia, que tenho absoluta certeza que dele não arrancariam nada....136
O tempo de permanência na prisão é considerado por muitos como o período em que se contraíram doenças, em muitos casos, vistas como caminho certo para a morte. Principalmente nos relatos feitos por esposas e filhos, há quase sempre a conexão entre prisão, doença e morte, mesmo que esta tenha ocorrido anos após os fatos. Há nas histórias referências ao nível de tensão sofridas nesse período tanto pelo preso como por outros familiares, que culminou na aquisição de doenças e morte.
Minha mulher contraiu seqüelas que ainda hoje a acompanham e prejudicam sua qualidade de vida. Foi vítima de vitiligo, contraído
durante minha permanência na prisão e manifestado com aumento crescente de áreas de pele afetadas...todo o seu sistema
imunológico foi afetado...tudo isso alterou de modo marcante seu
modo de vida e até seus (nossos) planos pessoais de construir família e a condicionar o número de filhos... 137
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Processo nº 04072190-6 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará.
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Processo nº 04072018-7 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O autor, 60 anos, arquiteto, casado. Fazia parte do PC do B e foi preso em 1973. Permaneceu detido durante 02 anos. Sua esposa e uma filha também foram detidas por 13 dias.
Devido à violência da ação [o ato de prisão], nos deixaram a todos muito atemorizados, principalmente a minha esposa. Esta que na época tinha apenas 38 anos ficou de tal forma traumatizada e
angustiada devido ao que aconteceu e devido aos outros fatos que ainda estavam por vir que em apenas três meses ficou com a cabeça completamente branca, fato que a medicina moderna explica
ser possível em situações de profundo estresse e sofrimento.138
O requerente permaneceu preso no período, ao longo dos quais viu
seu pai acometido de forte depressão, pôr cabo à própria existência... 139
Para aqueles que afirmam não terem sofrido torturas físicas, isso não elimina o fato de que eles não esqueceram as outras formas de violência sofridas, como no caso descrito:
Não houve torturas?! Que torturas?! Quisera eu ter sido espancado, submetido ao ‘pau de arara’, aos choques elétricos, como aconteceu em São Paulo, pela Equipe do Esquadrão da Morte, chefiado pelo famigerado Fleury. A dor física é curável, sara. Mas o intenso sofrimento mental, os traumas psicológicos sempre nos perseguem em qualquer tempo, ao longo dos anos, guardados na nossa memória, impressões que ficam pra sempre140.
Apesar do tempo de permanência na prisão variar de horas a quase uma década, não há nenhum relato que possa contestar o que se repete sempre: um dia na prisão é suficiente para trazer marcas indeléveis para a vida do indivíduo.
2.7.3 Pós-prisão
As narrativas afirmam que a temporada de prisão se estendeu para a pós- prisão. A princípio se pensa nesse período como um momento no qual o ex-preso
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Processo nº 04166260-1 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. 70 anos, casado, funcionário público aposentado. Em seu relato afirma ter participado do Conselho Comunitário do bairro em que vivia. Atribui a essa participação, sua prisão em outubro de 1973 e seu seqüestro em maio de 1977. De acordo com seu relato: passei a ser mal visto pelas pessoas que estavam à frente
dos órgãos de governo e pelos poderosos. Passaram então a me tratar como “subversivo”, pois este era o termo usado para qualquer um que questionasse as ações do governo.
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Processo nº 04166068-4 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O autor tem 76 anos, é jornalista e ex-deputado estadual, pelo PTB. Cassado pela Assembléia Legislativa do Ceará