A análise dos questionários nos permitiu constatar que o olhar do “outro” legitima nossa identidade e, pensando nisso, optamos por identificar o que os estudantes consideram ser um “bom professor” universitário para, enfim, chegarmos a esses docentes. Os estudantes da nossa amostra revelaram possuir inúmeras expectativas em torno do “bom professor” universitário. Assim, o desenvolvimento desta investigação nos possibilitou alcançar nossos objetivos de pesquisa e responder as questões levantadas por este estudo.
A partir de nossos achados, pudemos verificar que os estudantes consideram o “bom professor” universitário como aquele que negocia processos avaliativos, pois o momento da avaliação é visto pelos participantes como um aspecto importante da relação pedagógica entre professores e alunos. Os estudantes esperam avaliações justas, que valorizem o processo de aprendizagem, ou seja, têm a expectativa de que não sejam adotadas práticas avaliativas punitivas e contraditórias com aquilo que foi abordado em sala de aula.
Os estudantes também valorizam aqueles professores que apresentam experiências práticas do cotidiano da profissão, ou seja, os docentes universitários que se preocupam em atribuir sentido e significado ao que se aprende e também em aproximar o conhecimento científico da realidade da profissão em formação. Assim, os dados revelados pela presente pesquisa apontam a necessidade de o professor universitário contribuir para a formação dos estudantes com os exemplos vivenciados no mundo do trabalho como médicos, engenheiros, psicólogos, entre outros. Parece que, dessa maneira, existe um interesse maior por parte dos alunos para aprender e desmitificar os saberes práticos da profissão em formação.
Os estudantes que participaram da nossa amostra também consideram o “bom professor” universitário como aquele que assume posturas solícitas e próximas às necessidades dos seus alunos. Desse modo, “bons” são aqueles professores que ministram os conteúdos de forma acessível e não desprezam os saberes dos estudantes, bem como aqueles que têm boa didática e não são autoritários, mas revelam apropriação do conteúdo, estimulando o estudante a pensar, inclusive, sobre seus limites
e a melhor maneira de aplicar os conhecimentos adquiridos em sua futura profissão. Essas são as qualidades atribuídas pelos estudantes ao “bom professor” universitário.
Os professores acessíveis e que mantêm um bom relacionamento com os estudantes, que procuram estabelecer uma relação não hierárquica, ou seja, assumem uma postura próxima ao estudante, de forma ele (o estudante) possa tirar suas possíveis dúvidas, foram lembrados pelos participantes como um “bom professor” universitário.
Outro aspecto revelado por nossa pesquisa é que o “bom professor” universitário, a partir do olhar dos estudantes, é considerado exigente. Essa exigência, contudo, está associada a um caráter ético da profissão docente, que envolve o cumprimento de suas atividades e considera a dimensão humana do estudante em formação.
Enfim, esta pesquisa revelou que:
Os professores universitários indicados pelos estudantes como “bons professores” compreendem a docência universitária como uma atividade de grande responsabilidade com a formação de estudantes. E essa responsabilidade com a formação de estudantes está associada ao compromisso com o ensino; compartilhamento das experiências práticas vivenciadas no mercado de trabalho; e à preocupação com a formação humana dos estudantes.
Professores e estudantes universitários depositam uma grande expectativa em relação às atividades de ensino e aprendizagem na universidade. Ser “bom professor”, para os estudantes e professores universitários, é considerar uma relação entre o ensino e a aprendizagem significativa, que contribua para o exercício coerente da profissão em formação bem como para que a teoria possa ser articulada com a realidade do cotidiano da profissão em formação.
A formação humana dos estudantes também foi lembrada pelos professores universitários como uma dimensão subjetiva da atividade docente, entretanto, de muita relevância.
Ser um “bom professor” universitário é, enfim, formar o estudante de maneira integral, possibilitando-lhe discutir em sala de aula questões
existenciais do conteúdo, ou seja, criando possibilidades aos estudantes para pensarem sobre suas próprias vidas e suas relações uns com os outros. No que se refere aos desafios à prática universitária, os professores sinalizaram a infraestrutura como algo que prejudica as tarefas educacionais desenvolvidas na universidade, pois, em alguns momentos, as salas disponibilizadas apresentam cadeiras quebradas, ou não possuem materiais suficientes para o trabalho de determinadas disciplinas.
Outro desafio também apontado refere-se à aprendizagem dos estudantes. Assim, à docência universitária é entendida pelos participantes como uma ação coletiva que se desenvolve no momento da aula e, portanto, requer preocupação com a garantia da apreensão dos conteúdos pelos estudantes.
A avaliação também é vista como um desafio à prática docente universitária, pois os professores não possuem segurança em relação à melhor maneira de avaliar.
A pesquisa mostrou também que o professor universitário aprendeu a ensinar a partir de algum professor que norteou sua vida acadêmica. Eles afirmaram que ainda não aprenderam a ensinar, mas compreendem que esse processo vai se configurando no cotidiano do seu trabalho na universidade. Ademais, o exemplo de seus antigos professores repercute no processo de constituição da identidade profissional docente do “bom professor” universitário.
Quanto aos professores que afirmaram possuir experiência docente na educação básica, constatamos a continuidade de experiências que foram se desdobrando ao longo das diferentes situações vivenciadas, adquiridas anteriormente ao ingresso da docência universitária.
Em relação às motivações para escolha profissional, a pesquisa desvelou que os professores escolhem a docência universitária por acaso e a partir da experiência como estudante na pós-graduação. Os participantes afirmaram que a escolha pela docência não se constitui como primeira opção e o que contribuiu para que se tornassem professores está relacionado à vontade de manter os estudos atualizados. Os participantes ainda indicaram o incentivo e apoio de seus orientadores como motivo para escolher a docência universitária.
No que diz respeito ao modo como o docente se vê como professor universitário, os participantes demonstraram satisfação e realização em ser professor. O convívio com os estudantes é visto pelo professor universitário como possibilidade de renovação e atualização dos conhecimentos necessários para atuação da profissão em formação. Assim, os participantes revelara a preocupação em acolher os estudantes e oferecer-lhe ajuda para que ele sinta segurança no processo que envolve a construção do novo conhecimento.
No que se refere à percepção do professor universitário a respeito do olhar que seus alunos possuem sobre ele, identificamos que os professores acreditam que os estudantes os veem como exigentes/acessíveis, e essa qualidade é motivo de orgulho para os professores que participaram da nossa amostra, pois eles acreditam que, agindo dessa maneira, reafirmam o compromisso e a seriedade com que conduzem o trabalho docente na universidade. Eles se consideram acessíveis pois acreditam que se colocam à disposição dos estudantes a fim de ajudá-los nas possíveis necessidades.
Inferimos, assim, que o “bom professor” universitário direciona as tarefas educacionais de forma a contribuir para a construção do curso de graduação mais exigente, que desafie e estimule os estudantes na construção de novos conhecimentos. Também procuram manter um bom relacionamento com os estudantes, sabendo ouvir as necessidades deles e mantendo uma postura próxima a eles.
Os dados nos mostraram ainda que a maioria dos participantes não se reconhece como “bom professor universitário”. Assim, percebemos que eles foram cautelosos e tímidos para se elegerem como um “bom professor”. Em contrapartida, os participantes afirmaram que procuram cumprir seu trabalho na universidade da melhor maneira possível e realizam-no com afinco e esforço, visando contribuir para a aprendizagem significativa dos estudantes.
A investigação apresentou um destaque acentuado na fala tanto dos estudantes como dos professores sobre o interesse nos saberes práticos da profissão em formação, ou seja, os participantes valorizam que, no momento da aula, as experiências práticas vivenciadas no mercado de trabalho possam ser compartilhadas pelo docente universitário. Desse modo, compreendemos que os professores e estudantes universitários esperam dar sentido à aprendizagem a partir de exemplos práticos da profissão.
Outro aspecto revelado na fala dos estudantes e professores universitários corresponde à importância dada ao momento do ensino e aprendizagem. Os estudantes esperam que o “bom professor” universitário apresente posturas mais solícitas e abertas, sabendo ouvir as dificuldades deles (dos estudantes) e realizando avaliações mais justas. Os professores, por sua vez, também procuram manter o bom relacionamento com seus alunos e têm consciência de sua responsabilidade em formar essas pessoas tanto para as questões mais existenciais do conteúdo como também para atuarem de maneira significativa no mercado de trabalho.