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A psicodinâmica do trabalho partilha, com a ergonomia da actividade (Volkoff, 2002)14, um interesse pelo conhecimento das situações concretas de trabalho.

Aliás é a dinâmica do diálogo estabelecido entre o Dejours e os seus colegas ergónomos que sustentam a progressiva definição da psicodinâmica do traba- lho, mais atenta ao estudo das relações que se podem estabelecer entre a or- ganização do trabalho e o sofrimento.

O fruto deste diálogo científico inicial é bem patente na seguinte argumentação:

O trabalho do pedido tem constituído um passo tradicional das investigações-acção que privilegiam uma interven- ção de cariz psicossocial a nível de uma organização de produção (de bens ou de serviços) (Lacomblez, 1983b). Também tem sido definido como etapa incontornável por certos ergónomos (Guérin et ai., 2001).

Jobert (1992), considera que a intervenção pode ser abordada: 1) do ponto de vista da sua génese e interessa-se então pelo pedido, a sua história, a identidade dos que a exprimem; 2) do ponto de vista dos seus efeitos e prende-se com a questão da mudança, dos seus objectivos e avaliação; 3) do ponto de vista do seu processo e trata das ques- tões de métodos, conduta da acção interveniente e condições de eficácia.

Volkoff, (2002) denomina de ergonomia da actividade a tradição científica da ergonomia iniciada com pesquisas essencialmente desenvolvidas na Bélgica e na França a partir da obra fundadora de Ombredane e Faverge (1955): intervindo nas situações reais de trabalho, privilegia uma compreensão da actividade e das formas de regulação usa- das pelos trabalhadores no seu decurso.

Capítulo I 53 O Sofrimento no cruzamento das relações complexas entre o Homem e a Organização do Trabalho

entre o homem e a organização do trabalho prescrito, existe por vezes um es- paço de liberdade que autoriza uma negociação, invenções e acções de modu- lação do modo operatório, quer dizer uma intervenção do operador sobre a or- ganização do trabalho para a adaptar às suas necessidades, até mesmo para a tornar mais congruente com o seu desejo. Logo que esta negociação é esten- dida ao seu último limite, e que a relação homem - organização do trabalho é bloqueada, começa o domínio do sofrimento e da luta contra o sofrimento. (Dejours, cit. In Molinier, 1995:18, tradução livre).

O sofrimento é então visto como emergindo quando o trabalhador usa de todos os seus recursos, de saber e de poder na organização, utilizando o máximo das suas faculdades intelectuais, psico-afectivas, de aprendizagem e de adap- tação e não consegue mudar a tarefa.

Dejours (1987) define então o campo da psicodinâmica do trabalho, como aquele do conteúdo, da significação e das formas desse sofrimento e situa a sua investigação ao nível do infrapatológico ou do pré-patológico. Nesta pers- pectiva, não se trata de observar, pesquisar ou descrever doenças mentais ori- ginárias do trabalho nem de frisar que os trabalhadores se tornam doentes mentais pelo trabalho. Como já o dissemos o que se considera em psicodinâ- mica do trabalho é a "normalidade" compatível com o sofrimento da pessoa: não significa ausência de sofrimento, mas a procura de uma salvaguarda do seu equilíbrio psíquico, levando a pessoa a desenvolver procedimentos de re- gulação. A normalidade é, portanto, interpretada como o resultado dum com- promisso entre o sofrimento e a luta individual e colectiva contra o sofrimento no trabalho (Dejours, 2000a). Neste sentido, o sofrimento é o espaço onde se desenvolve a luta entre o funcionamento psíquico e os mecanismos de defesa, por um lado e os constrangimentos organizacionais desestabilizantes por outro, com o objectivo de conjurar a descompensação e conservar, apesar de tudo, um equilíbrio possível, mesmo se ele ocorre ao preço de um sofrimento (De- jours, 1987).

Para Dejours (1993), o sofrimento aparece como uma resposta inevitável ao afastamento vivido pelo sujeito entre a situação real de trabalho e as expectati- vas ou os desejos que foi construindo ao longo da vida. Dito de forma sintética o postulado é que quando a relação do trabalhador com a organização do tra-

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balho fica bloqueada, o sofrimento aparece. Dejours recorre ainda ao conceito de "carga psíquica do trabalho" (Dejours, 1994b)15 que assume proporções par-

ticularmente preocupantes nos casos em que prevalece uma organização do trabalho autoritária, que não oferece uma saída à energia pulsional. Por isso, "para transformar um trabalho fatigante num trabalho équilibrante é preciso fle- xibilizar a organização do trabalho, de modo a deixar maior liberdade ao traba- lhador para (re)arranjar o seu modo operatório e para encontrar os seus gestos que são capazes de lhe fornecer prazer, isto é, uma expansão ou uma diminui- ção da sua carga psíquica do trabalho" (Dejours, 1994b:31-32).

Mas Dejours acrescenta: a carga psíquica é traduzida em fadiga, testemunha não especifica da sobrecarga que pesa sobre um ou outro dos sectores do or- ganismo, quer psíquico, quer somático. Trata-se, então, de um principio de di- fusão que é válido nos dois sentidos, podendo, portanto, a carga psíquica ter traduções viscerais ou musculares mas o inverso também ser verdadeiro. E o trabalho pode, por isso, tomar-se perigoso para o aparelho psíquico.

Sustentada por esta grelha de análise, a psicodinâmica do trabalho tem estado, ultimamente particularmente atenta às evoluções dos sinais que contribuem para a produção de sofrimento moral nos trabalhadores e do aparecimento e desenvolvimento crescente nas empresas de um sistema de organização baseado profundamente no cinismo (Dejours, 1998). Esta deterioração que assume proporções preocupantes resulta de uma conjuntura caracterizada nomeadamente: por um aumento de desemprego, uma deterioração da quali- dade dos produtos, um aumento dos acidentes, e infracções maciças ao código de trabalho. Mas o que preocupa ainda mais a psicodinâmica do trabalho é o facto da consciência largamente partilhada desta deterioração pelos dirigentes das empresas associada à defesa da doutrina do neoliberalismo, com o fim de organizar deliberadamente a mentira (Dodier, 1999).

Dejours chega a afirmar que, hoje, são raros os casos em que todos na empre- sa estão conscientes de participar numa organização do «mal».

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Texto original de 1980 "La charge psychique de travail"

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