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Para compreender a autoria do professor, consideramos adequado a apro- priação de abordagens de pesquisa que tenham, em seu cerne, concepção e prática baseadas na implicação do pesquisador com o campo da pesquisa, onde seja possível construir junto com as praticantes, sujeitos da pesquisa, o conhecimento e a própria proposta metodológica. Daí resulta a nossa opção pela pesquisa-formação, inspirada nos estudos de Roberto Sidnei Macedo (2006, 2010). A pesquisa-formação, com base etnográfica, é entendida

[...] como o conjunto de condições e mediações para que certas aprendi- zagens socialmente legitimadas se realizem, [...] como um fenômeno que se configura numa experiência profunda e ampliada do Ser humano, que aprende interativamente, de forma significativa, imerso numa cultura, numa sociedade, através das suas diversas e intencionadas mediações. (MACEDO, 2010, p. 21)

Dessa forma, no papel de pesquisadores ativos e implicados com o pro- cesso formativo e de aprendizagens, vamos junto com os professores for- mando-os e nos formando. Edméa Santos (2005), ao se referir à pesquisa- -formação, afirma que a pesquisa não é um espaço para olhar o fenômeno de fora. Ao contrário, como corrobora Maria Tereza Freitas (2006, p. 153), “[...] é um espaço de formação e auto-formação, um espaço de implicação, onde o risco, a incerteza, a desordem serão contemplados sem perder o rigor de fazer ciência”.

Tomando como base a abordagem da pesquisa-formação, vivenciamos uma experiência em uma escola. A nossa intenção, no papel de mediadores,

foi, junto com os professores, criar/experimentar atos de currículo no coti- diano da escola, a partir dos usos dos laptops e demais tecnologias presentes na escola e fora dela. Assim, as atividades formativas realizadas nos ambien- tes de aprendizagem presencial e on-line partiram de uma proposta inicial e depois foram modificadas no processo das ações de formação, a partir das demandas e desejos dos participantes.

A pesquisa foi desenvolvida numa escola estadual da Bahia. A escolha dessa escola deveu-se ao fato de que foi uma das 10 escolas baianas a receber os laptops do Projeto Um Computador por Aluno (Prouca), ter laboratório de informática conectado à internet, alunos circulando pelos espaços da es- cola portando celulares, Projeto Mais Educação, TV Pendrive,4 uma Rádio Pátio, projetor educacional e professores com formação em um Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE), desenvolvendo algumas práticas pedagógi- cas com usos de tecnologias nos trabalhos com os alunos.

Três praticantes professoras5 nos acompanharam na pesquisa-formação. Inês leciona Língua Inglesa e Artes, além de coordenar as atividades da Rá- dio Pátio. Gardenia leciona Língua Portuguesa e a Paula leciona as discipli- nas História, Geografia e Artes. Para compreender o movimento de criação das professoras no cotidiano da escola, além dos atos do currículo materia- lizados nas suas práticas pedagógicas, contou-se com diversos dispositivos de pesquisa, a saber: encontros de formação, conversas, diários de pesquisa e documentos de processo.

O objetivo da formação não era somente contribuir para que os professo- res utilizassem o laboratório de informática ou os netbooks. Para além desses usos, as experimentações e as discussões tinham como objetivo possibilitar uma vivência coletiva para sentir os limites que impossibilitavam essa inser- ção em suas práticas: as limitações pessoais de uso das máquinas (dos pro- gramas instalados ou outros que precisavam instalar); os problemas relacio- nados à infraestrutura (máquinas com defeito, conexão lenta da internet). Assim, foram sendo experimentadas as mídias digitais e as redes sociais que rodavam com mais facilidade na (lenta) conexão que existe na escola. Nesse processo, com a contribuição do outro, as aprendizagens foram acontecen- do. Além de acompanhar os professores nas atividades de sala de aula, foram

4 TVs que foram distribuídas pela Secretaria de Educação da Bahia para todas as escolas públicas de ensino médio.

organizados alguns encontros de formação que aconteciam em horários das atividades coletivas, geralmente um dia por semana, quando havia um maior número de professores presentes na escola.

Ao longo do período de nossa imersão no contexto da pesquisa, observa- mos que vários acontecimentos foram emergindo no seu cotidiano, a partir das ações da nossa pesquisa-formação, os quais iam contribuindo para a ino- vação das práticas na escola, consequentemente para a autoria do professor. Além da própria formação dos professores, podemos citar as expectativas dos pais em relação aos usos das tecnologias para a aprendizagem de seus filhos, a formação de alunos monitores e/ou membros da rádio, a circulação dos alunos em diferentes espaços da escola com seus netbooks, navegando nos diferentes ambientes da rede e a mudança de percepção dos professores em relação à inserção das tecnologias em suas práticas.

Como os professores, sozinhos, ainda não conseguiam realizar atividades com inserção das tecnologias, foram escolhidos, pela coordenadora pedagó- gica da escola em conjunto com os professores, alguns alunos que demons- travam mais habilidade com o manuseio dos dispositivos digitais, para serem monitores. A formação desses alunos acontecia juntamente com os demais que formavam a equipe da rádio, a partir de oficinas de blog, de produção de áudio e de conteúdo para a rádio, técnicas de fotografia, de produção de vídeo e de animação.

A referida formação dos alunos teve ressonância no processo de criação das práticas pedagógicas no cotidiano da escola. Passaram a gravar áudios para serem veiculados nos programas da Rádio Pátio, na sala de aula come- çaram a auxiliar os professores e seus colegas nas dificuldades encontradas com manuseio das tecnologias, além de contribuírem para proposição de novas atividades no fazer docente.

Ao perceber que a maioria os professores ainda não apresentava fami- liaridade com as tecnologias digitais, de forma que tivessem condição de re- pensar suas práticas e realizar novas proposições, organizamos encontros de formação, junto com a coordenadora pedagógica da escola e com as forma- doras do Prouca. Nos encontros aconteceram estudos sobre autoria, debates, planejamento e execução de ações dentro e fora da sala de aula, que levaram à participação mais direta de professores na pesquisa em pauta, além de pro- por novas dinâmicas no seu trabalho pedagógico. A partir de projetos que a escola já estava desenvolvendo, construímos possibilidades de práticas auto- rais, por exemplo, a criação de material para transmissão na rádio da escola.

Percebemos que o movimento desencadeado na escola, com as ações do cur- so formação no âmbito do Prouca, contribuíram para a criação de novos atos de currículo, alguns mais inovadores, outros que apontam como indícios de autoria do professor no contexto da cibercultura.

a criação de atos de currículo no cotidiano da

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