A proposta desta dissertação foi de, através das sociabilidades identificadas entre os componentes da Fanáutico, Inferno Coral e Jovem do Sport, as três maiores Torcidas Organizadas de Pernambuco, apresentar a viabilidade e o início de uma aproximação real e etnográfica de compreender estes grupos sociais através de outras práticas
distintas da violência, ultrapassando-a, proposta que foi denominada de “outro olhar”.
Essa pesquisa não pretendeu exaurir o objeto, antes, criar novas possibilidades de abordagem sobre a temática que se apresenta como campo fértil aos estudos antropológicos.
A violência existente no futebol brasileiro é conseqüência de vários fatores complexos e interdependentes. A desestruturação das relações sociais existentes na sociedade maior, sobretudo, provocada pelo comprometimento das relações primárias, afetivas e familiares, e pela desigualdade nas condições sócio-econômicas da população, como moradia, distribuição de renda, acesso à saúde e a educação de qualidade, são
identificadas pela literatura como condições que potencializam a violência e a
agressividade, principalmente nos grandes centros urbanos do país.
Enquanto fato social, o futebol apresenta-se como “metáfora ou teatralização” deste contexto social (DaMatta, 2006), como espaço propício para a repercussão das condições geradoras da agressividade e da violência presentes na sociedade, seja pelo caráter competitivo do esporte, ou mesmo, pela capacidade de reunir num único espaço físico, o estádio, personagens oriundos de variados segmentos sociais com suas respectivas características e valores. Assim, a manifestação da agressividade e da violência registrada nos estádios do Brasil não é exclusividade dos grupos de torcedores
organizados, está presente também nos dirigentes, jogadores de futebol e torcedores comuns.
Enquanto os episódios de violência registrados nos estádios brasileiros continuarem a ser tratados de forma imediatista e isolados, como “casos de polícia”, as mesmas ações que foram utilizadas para reprimir a violência urbana através de políticas de segurança pública serão aplicadas aos problemas do futebol brasileiro, ignorando as origens sociais desses fatos. Desta forma, conceber que a violência nos estádio de
futebol está vinculada predominantemente às Torcidas Organizadas é repetir o mesmo equívoco histórico que por anos afirmou que pobreza é sinônimo de violência.
O futebol assumiu grande importância na cultura popular brasileira principalmente a partir da década de 1930, momento em que o poder público utilizou-se de estratégias populistas e nacionalistas para obtenção do apoio social. Assim, percebe- se que os estádios passam a ser os locais propícios para a manifestação de atos reivindicatórios ou ufanistas, a exemplo das campanhas contra a ditadura militar ao longo das décadas de 1970 e 1980. Ao lado disso, o anonimato que a multidão proporciona, o sentimento de impunidade provocado pela ausência de medidas de controle dos órgãos públicos, as precárias condições de organização dos estádios - falta de conforto e higiene nas instalações dos clubes, grandes filas em dias de jogos e horários tardios das partidas -, são considerados fatores que estimulam a agressividade e a violência nos estádios de futebol.
As Torcidas Organizadas brasileiras assumiram um modelo de gestão e organização burocratizadas, principalmente a partir do período ditatorial militar (1964- 1985), o que possibilitou a formação de grupos cada vez maiores e adaptados as demandas do futebol profissionalizado e midiático. Possuem administrações próprias, mantendo-se através da venda de produtos, cobrança de mensalidades e, em certos aspectos, da ajuda dos clubes. Seus integrantes são basicamente jovens entre 13 e 30 anos de idade, estão em busca da construção de suas identidades sociais e de sociabilidades que muitos não vivenciam em suas vidas cotidianas.
O aumento vertiginoso de jovens associando-se às Torcidas Organizadas pode ser explicado, segundo Pimenta (1997), pelo fascínio e pela idéia de segurança que o grupo pode proporcionar, diante de uma sociedade de sobrevivência, de concorrência, de luta de todos contra todos, ou melhor, de um contra todos. A experiência de campo possibilitou compreender que esses jovens são atraídos, inicialmente, pelas performances e pela estética dos grupos, mas, principalmente, pelas relações de alianças, cooperação, solidariedade grupal, fidelidade, inclusão social, identidades coletivas, amizades, acolhimento, afetividade, companheirismo, pertencimento. A
sociabilidades destacam-se as relações de alianças, estabelecidas entre as Torcidas Organizadas do Recife com torcidas de outros Estados do país.
Estas alianças contribuíram para modificar a forma de torcer nos estádios da capital pernambucana bem como desses outros locais. Estruturadas inicialmente para proporcionar apoio logístico e segurança, durante as viagens de torcedores pelo Brasil, as Relações de aliança foram estabelecidas a partir da década de 1990, intensificando-se no início dos anos 2000, modificando profundamente as características de organização destes grupos sociais, suas formas de representações, e a forma de torcer nos estádios. As influências são percebidas também entre os “torcedores comuns”, que assimilaram os gestos de cumprimento, gritos de guerra e performances das Organizadas. A gestão administrativa das maiores T.O recifenses também foi alterada, sobretudo, pelo aumento de componentes e pela abertura de novas possibilidades comerciais. Entretanto, os maiores impactos das alianças são percebidos nas arquibancadas, onde representações identitárias, como as cores dos uniformes e mascotes dos clubes, antes fundamentais na configuração das rivalidades, têm sucumbido diante dos novos valores incorporados pelas alianças, as quais possuem uma lógica própria.
As bibliografias consultadas possibilitaram compreender que, tanto os estudiosos que se dedicam ao estudo específico do fenômeno das Torcidas Organizadas, quanto os que estudam a possível relação entre violência/esporte, a priori, defendem que não se pode associar a imagem desses grupos, “exclusivamente”, aos atos de violência registrados nos estádios de futebol, ou mesmo, como os únicos responsáveis.
Na mesma direção, os registros documentais disponibilizados pelas instituições públicas responsáveis pela segurança nos estádios do Recife, após analisados, apresentam resultados que podem ser utilizados para questionar e problematizar os argumentos que responsabilizam os torcedores organizados pelo afastamento dos “bons
torcedores” dos estádios e pelos atos de violência nas praças desportivas. Devemos
considerar que o logos do discurso acadêmico, então, tem que ser diferente do midiático. Esse seduz pelo imediatismo/sensacionalismo, e por isso domina a informação, não pode dominar, também, a formação (Murad, 2006: p.22).
Diante disto e considerando a relevância dos estudos já produzidos para a compreensão do significado e da importância das Torcidas Organizadas, no contexto do
futebol e da sociedade, compreendemos ser possível também “relativizar” o olhar sobre este objeto, numa atitude semelhante a que é defendida por Cardoso de Oliveira,
“(...) uma atitude epistêmica, eminentemente antropológica, graças à qual o pesquisador logra escapar da ameaça do etnocentrismo – essa forma habitual de ver o mundo que circunda o leigo, cuja maneira de olhar e de ouvir não foram disciplinadas pela antropologia” (Oliveira, 2006: p.33).
Por conseguinte, a partir de tudo que foi possível analisar e compreender, a partir das práticas de sociabilidades entre os torcedores organizados dos clubes de futebol do Recife, a principal contribuição que se oferece através desta pesquisa é demonstrar a viabilidade e possibilidade de lançar, sobre as Torcidas Organizadas de futebol, um
“outro olhar”, outra compreensão sobre o fenômeno que não esteja restrita ou
relacionada ao estudo da violência, constituindo-se, assim, campo fértil e laboratório