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Conclusion

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II. Literature Review

II.6. Conclusion

Kierkegaard

O filósofo é, por excelência, um homo viator. Doravante, as voltas que realiza, os passos que faz prosseguir são em atenção à sua dimensão interna de experimentação do mundo, o que sinaliza uma partida estipuladamente reflexiva com seu entorno, e, por força desta mesma reflexão, tangencia à experiência o significado que a vida, por si só, não seria capaz de conceder-lhe. Toda volta do filósofo ao mundo é, antes, o retorno à sua idéia experimentada de significação da situação, com passos que se prendem à natureza de novidade que as circunstâncias atinentes à existências sempre possam despertar. Cabe, pois, ao filósofo, como existente, verificar que a circunstância mesma que se lhe ocorre é aquela que ordena-lhe pensar o mundo, em uma porção existencial contida na sua própria experiência por realizar-se. Não há, no caso do filósofo, como separar sua humanidade pensante de sua dignidade existencial; sua existência é a matriz segundo a qual seu pensamento se unifica e se personaliza. Assim sendo, o filósofo está entre o mundo e si mesmo como distribuidor de uma verdade que se diz a partir de seu espírito; mais ainda, seu espírito remanesce-se na idéia de que ele próprio está consubstanciado ao seu pensamento. Doravante, se o pensamento do filósofo indica sua aposta no significado que pessoalmente concebeu, a partir da experiência, sua vida elucida propriamente a circunstância com a qual tal pensamento sinalize-se como próprio e particular.

O filósofo é um caso de acontecimento subjetivo de uma reflexão por meio da própria experiência existencial que empreende. É nesse sentido que sua migração de circunstância em circunstância povoa-lhe o sentido de múltiplas expressões face às quais sua existência se dê como a propriedade de irrupção de sua subjetividade. Mas isto, de certa forma, não se realiza ou deveria realizar-se com todos os seres humanos, dada que qualquer experiência de vida sinaliza para a designação de experiência para com o mundo? O que separa o homem comum do filósofo?

Para Kierkegaard, o filósofo nada mais é que o homem experiente em sua existência. Esta experiência brota do esforço em protagonizar a tarefa da existência como marco reflexivo. Pela concessão de sentido à existência, o existente assume o grau de filósofo,

ainda que, para isto, esteja inconsciente. Pela intensificação da tarefa em existir e fazê-lo com a afirmação de sua subjetividade, o filósofo atende por sua „existencialidade‟; ele não se despojou de sua essência humana, mas quer procurar, enquanto homem como os outros, a tarefa que se lhe designa naturalmente.

Descobrir a tarefa existencial e, nela, permanecer para, com ela, trabalhar, é o ideal que se dimensiona formidavelmente ao filósofo. Deste modo, seu ritmo de vida não é o de andar conforme os passos do quotidiano tão somente, mas o de proceder ao infinito dos significados que, pela tarefa de sopesar a existência, o torna um sujeito do mundo.

A descoberta de uma subjetividade do acontecimento na qual a própria é designadora de sentido é o que, por vezes, tem distinguido, mas nunca separado, o filósofo do homem comum, enquanto se considera a ambos como existentes. Amiúde, quem se atreveria a resignar-se dos sentidos prontos que a experiência imediata do mundo fornece para, nesta mesma experiência, descobrir-se como portador desta tarefa e, assim por diante, persegui-la?

Aquele que, de certa forma, encontrou-se encontrando-se em sua subjetividade. É o que pressupôs Johannes Climacus ao admitir que

Comumente se acredita que o ser subjetivo não constitui nenhuma arte. Ora, é calor que todo e qualquer ser humano também é, afinal, de algum modo, um sujeito avulso. Mas agora, tornar-se naquilo que já se é, sem mais nem menos: quem, afinal, desperdiçaria seu tempo com isso? Seria, de fato, a mais respeitada de todas as tarefas da vida. Com toda certeza! Mas por essa razão ela é, desde logo, extremamente difícil, de fato, a mais difícil de todas, porque todo ser humano tem um forte prazer e uma forte pulsão por se tornar algo de diferente e de maior do que ele é. É assim que se passa com todas as tarefas aparentemente insignificantes: exatamente essa aparente insignificância as torna difíceis, pois a tarefa não acena diretamente, dando assim, suporte ao que aspira realizá-la, mas a tarefa trabalha contra ele, de modo que este terá de fazer um esforço infinito já apenas para descobrir a tarefa, ou seja, que é esta a tarefa, uma fadiga da qual,

não fosse assim, se estaria dispensado. Pensar sobre o simples, sobre o que a gente simples também sabe, é algo extremamente desanimador, pois, mesmo através do esforço mais extremo, a diferença como tal não se torna de nenhum modo óbvia para o homem dos sentidos. Não, o que é grandioso é glorioso de um modo bem diferente (PS: 135).

Por meio destas palavras, Climacus está por revelar o que justamente não lhe faltou na descoberta de sua tarefa: que, ao mesmo tempo, determinasse-a no exercício profundo de tornar-se cristão, remetendo, em forma de reflexão, a idéia central que vigora na constituição histórica do cristianismo, a fim de que a mesma deixasse-se reproduzir em consonância com as tendências subjetivas e existenciais de sua verdade. Desse modo, Climacus toma sua tarefa como difícil, mas sabe, por conseguinte, que administrá-la o alçaria ao grau de filósofo, cuja meta reflexiva deve pactuar-se em correspondência ao espírito de autenticidade de sua existência. Quando aponta que “a tarefa não acena diretamente” (PS:135) está a colocar-se na escuta do paradoxo, que serve-lhe como ponto intelectual entre a percepção do mundo enquanto realidade dada sensivelmente e do devir que se justifica, em imediato, pela dimensão suprassensível da vida. Neste sentido, o filósofo traz a vocação em superar o “homem dos sentidos”, isto é, o homem que se verifica pautando sua existência no mundo sinestésico, ora do quotidiano, ora das impressões primeiras, mas se esquece que sua existência deve postular-se a partir da dimensão de devir segundo a qual sua própria subjetividade permanece como item de constituição.

Na história da filosofia, o devir existencial, por meio do qual o homem torna-se, até por uma espécie de imperativo da consciência de si, ligado à experiência fundamental que o constitui como um ser determinado face ao pensamento que o faz, em absoluto, um si-mesmo, encontra uma insistente correspondência importante em Karl Jaspers. Esta experiência é aquela que se adquire por meio do usufruto filosófico da existência, e que, por revelar a tarefa do homem, propõe-lhe abarcar o mundo no sentido em que se oferece transparentemente, mais ainda, almeja, sobremaneira, anunciar-se à realidade como a palavra que a engendra, tonifica e a circunscreve.

É o próprio Jaspers (1968, p. 44) quem expressará, de modo mais desvelado, a constatável recorrência da existência como

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