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TRAVAUX HORS TENSION EN BTA

Os treze componentes que freqüentaram o grupo durante o período de um ano de trabalho, representando quase cinqüenta por cento dos vinte e três funcionários que formavam o total do quadro de colaboradores, ocupavam as seguintes posições na estrutura organizacional da empresa pesquisada: dois participantes do departamento financeiro, gerente e tesoureiro; quatro, do desenvolvimento de produto; dois diretores - que eram também sócios majoritários; três, do suporte de atendimento ao cliente; um, da implantação e treinamento e serviços e um, do comercial.

A empresa está sediada em Blumenau, no estado de Santa Catarina, região conhecida no Brasil e exterior por reunir duzentas e quarenta e quatro empresas desenvolvedoras de software. Neste universo a Totall.com destaca-se como uma das mais bem sucedidas, com participação ativa no Blumenau Pólo de Software - Blusoft (antiga Comissão de Desenvolvimento de Software de Blumenau), órgão com personalidade jurídica, responsável pelo fomento de novos empreendimentos e suporte à consolidação de novas empresas de software.

3.7 Os encontros e os estágios

Convencionou-se chamar “encontro” as reuniões mensais de pesquisa, nas quais estavam presentes todos os componentes da Totall.com, o pesquisador e a observadora, e onde eram desenvolvidas todas as atividades pertinentes à pesquisa, conforme o plano de trabalho, observadas as normas contratadas, desde o inicio, com todos os participantes.

Além dessa dimensão explícita, o encontro teve outras dimensões explicadas pelo seu processo, pelo seu funcionamento, fases e climas de grupo, quando foram experimentados a comunicação aberta e o acolhimento de toda tentativa de expressão e objetivação de si, assim como o questionamento das imagens estereotipadas sobre o outro, com um movimento do impessoal para o pessoal, em que o outro era plural, igual a tantos outros e passa a ser singular, único. Isto resultou numa gradativa mudança de atitudes em todos os participantes, com relação à transparência e aceitação do outro, porém em intensidades e velocidades muito diferentes.

Quando o grupo começou a funcionar, os participantes manifestaram a premente necessidade de incluírem-se, confirmando assim que faziam parte daquele grupo, ou que os demais os aceitariam. Repetidas vezes foi expresso, verbalmente ou não, o medo de não serem aceitos. Especialmente em cinco dos componentes, a mínima ameaça de exclusão produzia claramente atitudes de introversão, recato, silêncio; esforçavam-se para não agir e não falar.

Nas fases subseqüentes foi declarado pelos introvertidos subsociais que o que os levava a calarem-se era o temor de não apresentarem atrativos para que o grupo os estimasse. Enquanto isso, em três outros participantes foram gerados comportamentos de extrema exposição; agiam e falavam muito, assumiam compromissos e tarefas junto ao grupo ou a pessoas influentes no grupo, às vezes superiores às suas capacidades ou possibilidades. Esses dois comportamentos polarizados foram mais ou menos intensos durante os quatro primeiros meses, e tiveram como protagonistas as mesmas pessoas. Esses supersociais caracterizavam-se por uma extrema agitação e movimento, falavam muito, contavam histórias longas e detalhadas, consumindo tempo, energia e atenção dos demais.

Além disso, esta fase caracterizou-se por girar em torno de assuntos quase sempre banais, onde a maioria não falava aprofundadamente de si. Todos se vestiam com boas roupas, faziam movimentos corporais calculados e exibiam aspectos agradáveis ao se apresentarem ao outro ou ao grupo. Neste período ocorreu uma busca por semelhantes e diferentes, formando pares e pequenos subgrupos, com objetivo de reconhecer território, às vezes demarcá-lo, e confirmar enquadramento e inclusão.

Entre o quarto e o quinto meses instalou-se lentamente um outro clima. O grupo começou a exprimir um tipo diferente de movimentação e comunicação, em que não só o conteúdo mudou, mas, principalmente, a forma. Isto foi possível de se constatar nas trocas realizadas, tanto entre os componentes como também entre os pequenos subgrupos que já despontavam e se delineavam nesta nova fase. Dentro do grande grupo, estes pequenos grupos variavam quanto ao tamanho. Eram formados com duas até cinco pessoas e movimentavam-se motivados por fatores como a mobilização para recontratar o tempo de duração de uma atividade ou do encontro, para influenciar o coordenador ou a observadora, ou ainda, outra figura de autoridade entre os participantes. Tal influência era direcionada sobre questões como objetivos das tarefas, ou mais gerais e abrangentes como: objetivos do grupo, sobre avaliação da competência de ação e comunicação de um participante ou de um subgrupo, que também lutava por poder e espaço e poderia potencialmente representar uma ameaça às intenções do primeiro. A principal característica que define este momento é a identificação de: quem nesse grupo influencia e quem é influenciado, quem trabalha para quem, quem comanda e quem se subordina.

Foi possível verificar que os papéis escolhidos tiveram conexão com aqueles vividos na primeira fase do convívio no grupo, ou seja, os introvertidos,

aqueles que se esforçavam para não falar, procuraram aliar-se, com pactos de certo modo explícitos, àqueles que exerciam ou demonstravam forte inclinação a influenciarem outros indivíduos ou o grupo, incluindo-se aqui os líderes que se movimentavam em simples tentativa de influenciar e os que realmente tinham potencial de influência. Estes últimos, por sua vez, vinham de papéis extrovertidos, supersociais e demonstraram sinais de autoritarismo e liderança autocrática, se bem que a intensidade e a cristalização destes papéis não foram profundas nem contínuas.

O grupo que vinha até esse período usando um estilo de decisão por consenso, construído com base na postura de declinar sem muito embate e discussão, mudou no quinto, sexto e sétimo meses (respectivamente cada mês corresponde a um encontro). As decisões passaram a ser guiadas por outras bases de poder, como convencimento com argumentos detalhadamente elaborados do tipo especialista e esforços bem costurados, somado a uma certa força coercitiva do tipo “a desobediência poderá acarretar punições”, como a exposição do opositor à avaliação pública das suas competências, para a tarefa ou para o relacionamento, ou a execução de tarefas desagradáveis.

Houve a sinalização de recompensa como reconhecimento, como promessa aberta ou velada de não contrariar e importunar o aliado no seu desejo de ser controlado e não assumir responsabilidade. Com o objetivo de influenciar decisões, também foi usada por alguns líderes, em algumas oportunidades e com certo sucesso, a força do respeito conquistada pela experiência e habilidade já reconhecidas pelos demais.

O acesso a informações (consideradas importantes pelos outros) e a sua posse gerou influência e caracterizou pontualmente o estilo decisório do grupo. A

essa altura estavam presentes o conflito e o controle intra e interpessoais. Os intrapessoais foram assinalados pela contradição, pela troca repentina de papéis e movimentos paradoxais, porém mais difíceis de serem identificados. Os interpessoais, bem mais explícitos, foram identificados pelos confrontos e incansáveis discussões e modificações das regras e normas de funcionamento do grupo e das atividades. Outra evidência, neste ponto em particular, foi a concorrência com a autoridade e o poder do coordenador, questionado quanto ao que podia e não podia ser dito, feito, avaliado, quanto ao tempo de duração e profundidade da tarefa e do encontro, os convites para o coordenador ou a observadora atuarem como juízes, ou então a exigência para que eles fixassem e enquadrassem os limites no funcionamento e na estrutura do grupo.

Desse “jogo” brotaram papéis diversificados, mostrando de forma particular que a configuração de um papel envolve duas partes, o que na verdade gera dois papéis. À medida que aparecia uma vítima, este papel estava vinculado à articulação de um outro elemento do grupo que atuava como perseguidor. Essa função complementar ficou evidente por causa da repetição e também pela troca desses papéis entre as mesmas pessoas, caso contrário não indicaria desenvolvimento e jogo de papéis.

Os papéis também foram acionados como uma maneira de evitar conflitos, respostas desagradáveis, porque, à medida que a autenticidade, a comunicação aberta, a reformulação empática, o feedback foram estabelecendo a confiança e permitindo um certo controle do medo, deixaram de ser superlativos e passaram a dizer respeito a outros aspectos de funcionalidade do grupo. Esta foi a fase mais rica e intensa vivida pelo grupo, onde todos estavam incluídos, integrados por meio de laços de afinidade e afeição, demonstrados abertamente e oposição às

vezes radicalizada. Isto, identificado e comprovado pelo coordenador e pela observadora, permitiu o uso mais aprofundado e constante dos vários exercícios que objetivavam a autenticidade, contrapondo o exorcismo aos conflitos e às tensões em grupo, assim como sutis mecanismos de intelectualização e outros tantos de fuga.

Os dois últimos encontros foram marcados por um clima de despedida, com promessas de continuidade, de reencontro e de um contato estreito e próximo entre as pessoas, comprovados pelo abraço, pelo contato físico e também por confrontos abertos, porém diferentes no seu aparecimento, no desenvolvimento e finalidade, e especialmente na sua intensidade e duração. Era clara a intenção de resgatar, de retomar aquelas situações que não foram bem resolvidas no estágio intermediário de vida do grupo. Os poucos comportamentos extremos apresentados eram, de um lado a procura por aquele com quem o outro se confrontou e tal confronto resvalou para um desentendimento, uma ofensa, que não foi possível solucionar, na época, e, do outro lado, uma quase evitação, um adiamento, mas que não impediram, em todos os casos observados no grupo, um desfecho.

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