4 - IDENTIFICATION DES TRAVAUX PROJETES ET MESURES DE MITIGATION
4.1 TRAVAUX PROJETES ET MESURES DE MITIGATION
Terry Shinn, em seu artigo Regimes de produção e difusão de ciência79, talvez nos dê uma chave de análise para compreender um pouco mais profundamente o sentido do conflito entre uma identidade científica e uma identidade politécnica no contexto das escolas de engenharia do início do século XX no Brasil. Shinn propõe que a ciência é constituída de
múltiplos regimes, que:
79 Já na primeira linha o autor declara sua filiação à sociologia da ciência de Bourdieu: "Este artigo é uma
contribuição à perspectiva crítica da sociologia da ciência, introduzida e desenvolvida por Pierre Bourdieu" (SHINN, 2008, p. 11)
demarcam as especificidades das formas particulares de treinamento e certificação, de designação de tarefas, de modos de trabalho, de critérios de validação, de sistemas de premiação, de trajetórias de carreira, de modalidades de produtos, da forma e da extensão dos mercados, e do vínculo entre a produção e a distribuição. (SHINN, 2008, p. 13).
E mais:
A gênese de cada regime corresponde ao ambiente cognitivo, político e econômico de uma época histórica, às dimensões culturais de um dado tempo. Cada regime possui também sua divisão específica de trabalho, sistema organizacional, regras e hierarquia internas, universo de emprego, formas de produzir resultados, clientela e seu sistema particular de circulação entre produção e mercado. É esse conjunto complexo de fatores que estabelece as diferenças entre os regimes e sobre o qual suas respectivas fronteiras são baseadas. Mistura pode ocorrer e ocorre, obviamente. Contudo, isso não viola a persistência e a estabilidade dos regimes (SHINN, 2008, p. 13-4).
Para nossa análise, o regime disciplinar e o regime utilitário são os mais importantes, pois são os que estão em antagonismo no contexto científico do início do século XX brasileiro.
Em sua proposta de tipologia para os múltiplos regimes científicos, Shinn defende que as escolas de engenharia, com sua forma específica de produção de conhecimento e mercado para essas produções, seriam a base institucional do regime utilitário (SHINN, 2008, p. 21). Segundo Shinn, a produção de conhecimento dos praticantes do regime utilitário não tem como mercado os demais produtores de conhecimento pertencentes ao próprio regime:
[...] os praticantes do regime utilitário não estão dirigidos para si próprios – esta não é uma comunidade auto-referente. Seus membros não constituem o mercado do regime. Ao contrário, o escopo profissional do regime utilitário é vasto. Em geral, eles trabalham como técnicos e engenheiros. Entretanto, eles podem também frequentemente localizar-se em posições administrativas. Eles ocupam uma multiplicidade de nichos profissionais. O regime utilitário serve à indústria, ao setor de serviços da economia: está frequentemente associado com o trabalho técnico no serviço público. Aqui os praticantes empreendem tarefas estritamente técnicas, coordenam os esforços dos outros, ou administram. São típicos o envolvimento em hospitais e outras esferas do serviço de saúde e nas agências de monitoramento ambiental. O regime utilitário está igualmente presente na
atividade militar. (SHINN, 2008, p. 23)
O mercado do regime utilitário acaba por determinar a forma específica de produção de conhecimento e sua epistemologia:
A epistemologia do regime utilitário de produção e difusão de ciência e tecnologia mostra-se específica. [...] O objetivo é a produção de um artefato tecnicamente válido, útil, prático e vendável. As considerações giram, assim, em torno de
sistemas técnicos que exibem uma solidez técnico-física. Os artefatos exibem, portanto, um caráter fenomenológico/físico. A realização pode requerer experimentação; entretanto, esta não é necessariamente a experimentação do regime disciplinar. O trabalho experimental do praticante utilitário é guiado pela capacidade performativa de seu artefato em realizar precisamente e sem erro a tarefa pretendida. A simulação figura de modo crescente nessa atividade. Entretanto, novamente, a orientação não é a aquisição do modo como um sistema funciona, mas antes a designação dos componentes apropriados e de sua combinação apropriada para assegurar a performance. Além disso, a performance não é atingida com referência à precisão. O guia é, mais uma vez, o cliente e o mercado potenciais.
Cliente e mercado são da maior importância na epistemologia do regime utilitário. A própria seleção do objeto de trabalho não é uma entidade auto-referente, mas, ao contrário, um artefato para o qual existe um suposto cliente e onde as condições de
mercado permitirão ao cliente adquirir o produto. (SHINN, 2008, p. 24)
Trabalhos como Dissertação sobre o modo de indagar novos astros sem auxílio das
observações diretas, de Gomes de Souza, Lições sobre a teoria da Lua, de Otto de Alencar e Sobre a formação das estrela duplas, de Amoroso Costa certamente não têm o mesmo
"cliente e mercado" que estão presentes para a produções científicas do regime utilitário. Não se propõem a servir aos interesses da indústria ou do setor de serviços e não se propõem à construção de nenhum artefato útil. São trabalhos cujo sentido pleno só se atinge dentro de um regime disciplinar, que, segundo Shinn, surge no século XIX (na Europa), com as seguintes características:
O regime disciplinar de produção e difusão da ciência está assim baseado em departamentos disciplinares de universidades, cujo objetivo é: (1) reproduzir o conhecimento disciplinar-padrão para os estudantes e (2) conduzir pesquisa original no interior da disciplina. O regime disciplinar é fortemente definido por sua orientação auto-referente. Com relação aos tópicos de pesquisa, eles são retirados do interior da disciplina e relacionam-se tanto com a história e a inércia disciplinares, como com a direção para a qual o futuro da disciplina aponta, segundo a percepção dos praticantes disciplinares. A disciplina também estabelece seus critérios internos para a avaliação de seus resultados de pesquisa. Segundo as mesmas linhas, ela decide o que deve ser aprendido pelos estudantes, e em que extensão, para o estabelecimento da certificação da realização, na forma de diplomas. O regime disciplinar constitui seu próprio mercado. Os praticantes são os consumidores de suas próprias produções. O resultado da pesquisa está dirigido aos pares disciplinares, que avaliam, portanto, a qualidade do resultado e consomem os produtos cognitivos gerados por outros colegas disciplinares. O regime é, em muitos aspectos, circular na lógica. Ele se retroalimenta – tanto gerando quanto absorvendo suas produções. A distribuição da produção e a eventual assimilação subsequente da produção são realizadas por meio de revistas, cujo conteúdo é controlado pela disciplina. Desse modo, a circulação do conhecimento também ocorre no interior dos confins da disciplina. A passagem da função de produção para a função de consumo é direta, sem qualquer mediação de forças exógenas (SHINN, 2008, p. 17)
Em contraposição ao regime utilitário, um dos aspectos mais notáveis do regime disciplinar é ser auto-referente, ou seja, os tópicos da pesquisa surgem a partir de dentro das
disciplinas, os critérios de avaliação da pesquisa também são constituídos internamente à disciplina e o mercado da produção disciplinar são os próprios praticantes das disciplinas80.
Ora, é este regime de produção científica que não existe no início do século XX brasileiro. De certo modo, as reuniões e revistas da SBC e da ABC, em que os membros apresentavam uns para os outros seus trabalhos, procura simular a orientação da produção científica e o mercado do regime disciplinar.
Os professores das disciplinas mais teóricas das escolas de engenharia – mais preocupados em "reproduzir o conhecimento disciplinar-padrão para o estudantes", mais desvinculados dos objetivos de formação do futuro profissional de engenharia e, ao mesmo tempo, sem condições de "conduzir pesquisa original no interior da disciplina" – são, deste modo, os criadores de uma demanda pela formação de um regime disciplinar, demanda esta que se materializa nas lutas da SBC e da ABC pela criação das universidades no Brasil81.
O conflito entre a identidade politécnica e a identidade científica pode ser compreendido, portanto, como expressão de um conflito entre um regime utilitário já estabelecido e legitimado socialmente e um regime disciplinar quase inexistente e à procura de legitimação. Na República Velha, a política para a ciência estava muito mais vinculada à solução de problemas práticos, como a necessidade de urbanização das cidades, o combate a epidemias, à infraestrutura e aos conhecimentos necessários à produção e comercialização do café (SANCHEZ JÚNIOR, 2012). Sua legitimidade estava atrelada a um certo ideal de modernização. Dada a escassez de recursos para investimento no ensino superior, é possível compreender que, na luta pela subversão da hierarquia de valores científicos na República Velha, os discursos dos engenheiros com identidade científica tentem legitimar a luta pela ciência pura defendendo a ideia de que ela é a base da ciência aplicada e da técnica, e, adicionalmente, defenderem que ela tem um valor educativo superior ao da ciência aplicada. Ou seja, a defesa da ciência pura passa, de algum modo, pela utilidade da ciência pura para a modernização do país, ainda que essa utilidade não seja imediatista.
80 Acreditamos ser possível dizer que a auto-referência de um regime disciplinar faz com que este regime tenha
as propriedades de um campo científico, tal como entendido por Bourdieu, enquanto um regime utilitário, por ter seu agentes orientados para uma clientela externa, diz respeito a uma forma de produção de conhecimento científico diferente da forma como se produz conhecimento em um campo científico.
81 Aliás, segundo Shinn, a lógica de funcionamento do regime disciplinar depende de uma relação de
autonomia e dependência em relação ao estado que é típica das universidades: "Cada disciplina, com seu departamento intendente, insiste em sua porção de autonomia. O ponto aqui é que o regime disciplinar de produção e difusão científica está sólida e historicamente baseado na universidade. Isso começa por volta do início do século XIX, quando os Estados nacionais orientaram a produção e reprodução do conhecimento para uma nova forma de organização, ao mesmo tempo unida ao Estado e lutando por independência da intervenção política e estatal, e lutando sistematicamente para evitar a vinculação às demandas práticas de curto prazo
economicamente orientadas". (SHINN, 2008, p. 17)
Como o conhecimento da engenharia é cada vez mais formalizado e matematizado – características do aprendizado e da prática disciplinar –, é possível compreender por que foi no interior de uma escola politécnica que as tensões entre regime disciplinar e regime utilitário tenham aparecido de forma clara e se traduzido em duas identidades conflitantes. Nesse contexto de luta, nos parece compreensível que os politécnicos com identidade científica procurassem "uma certa tradição", já no século XIX, que pudesse se colocar no lugar da existência efetiva de um regime disciplinar. Apesar das grandes diferenças de contexto e da ausência de relação mais consistente entre os trabalhos de Gomes de Souza, Otto de Alencar e Amoroso Costa, é compreensível, pela natureza de seus trabalhos, o esforço em se fazer dessas figuras os precursores de uma certa tradição de físicos matemáticos brasileiros, é compreensível que tenham sido vistos como representantes disciplinares dentro de um regime utilitário. Em suma, parece compreensível a tentativa de uma parte da historiografia de encontrar em "indivíduos excepcionais", que ultrapassavam as instituições às quais pertenciam, propondo simulacro de funcionamento de um regime disciplinar praticamente inexistente no Brasil.