Esta pesquisa foi realizada no Instituto Federal de Pernambuco, campus Recife. Essa instituição participa do PIBIC-EM, com cotas de bolsas, enquadrando- se no disposto pelo CNPQ:
O PIBIC-EM será operacionalizado pelas Instituições de Ensino e Pesquisa (Universidades), Institutos de Pesquisa e Institutos Tecnológicos (CEFETs e IFs) que tiverem PIBIC e/ou PIBITI para desenvolverem um PROGRAMA de
educação científica que integre os estudantes das escolas de nível médio, públicas do ensino regular, escolas militares, escolas técnicas, ou escolas privadas de aplicação” (PORTAL CNPq). O objetivo do programa, segundo disposto no Portal do CNPq, são os seguintes: “fortalecer o processo de disseminação das informações e conhecimentos científicos e tecnológicos básicos, e desenvolver atitudes, habilidades e valores necessários à educação científica e tecnológica dos estudantes.
O período previsto para elaboração e execução de projetos aprovados no Edital PIBIC-EM e PIBIC-TEC para o ano de 2017- 2018, foi de 01 de Agosto de 2017 a 31 de Julho de 2018, de acordo com a observação de calendários divulgados nos editais da PROPESQ nas páginas eletrônicas da UFPE e do IFPE.
O trabalho contou com a participação de sete voluntários que tiveram seus projetos aprovados: dois orientadores, cinco orientandas estudantes do IFPE e uma participante externa que esteve presente em um dos encontros. Em princípio, foram convidados a participar voluntários que tiveram projetos de pesquisa vinculados à área de Ciências Humanas, aprovados no Edital 03/2017 PROPESQ. O primeiro contato foi feito com os orientadores através de e-mail ou mensagem no Facebook para explicar a intenção da minha pesquisa e saber se havia interesse em participar. Por motivos éticos, o contato com as orientandas só foi feito após o contato inicial com os orientadores, para assinatura dos termos de assentimento e consentimento de responsáveis, uma vez que todas as orientandas envolvidas são menores.
Alguns contatos foram estabelecidos em junho de 2017 com professores que estavam pleiteando orientação de projetos na área das Ciências Humanas, sobretudo nas disciplinas de línguas e História. Dois professores de História se prontificaram, desde o primeiro contato, a participar da pesquisa como voluntários, caso seus projetos fossem aprovados e suas orientandas estivessem de acordo. Esses dois professores acabaram tendo suas pesquisas aprovadas e suas orientandas consentiram que suas participações fossem registradas. Na sequência, recebemos ainda resposta de outros docentes demonstrando abertura para colaborar com o trabalho, porém, optamos por continuar o acompanhamento com os dois grupos com os quais tivemos contato desde o início de suas pesquisas.
Essa escolha não excluiu a importância de projetos científicos em outras áreas, para os seus fins metodológicos determinados. Porém, o nosso foco consistiu em refletir sobre os caminhos abertos, via linguagem, para compreensão do ser na
relação de pesquisa que envolve sempre outro ser. Vale ressaltar que, ao mesmo tempo que nossa intenção era manter uma certa abertura em relação ao método, foi a sistematização dos encontros em reuniões de orientações de um programa institucional, com horários, prazos e espaços determinados que permitiu que pudéssemos estar presente e organizar as ferramentas que possibilitaram nosso acesso aos textos.
Nesse sentido, selecionamos alguns momentos vivenciados pelos grupos de pesquisa em seus projetos de PIBIC EM no IFPE que são representativos dos modos de acontecimento da pesquisa em Ciências Humanas, em seu processo de construção. Os grupos foram acompanhados, em suas atividades de pesquisa, até o mês de Julho de 2018, quando o relatório final de suas atividades estava sendo finalizado.
Em princípio, fazia parte dos nossos objetivos avaliar os relatórios, o que foi descartado a partir de novas compreensões acerca do fenômeno, que explicarei mais adiante, no decorrer da pesquisa. Também planejamos uma entrevista, que chegou a ser realizada no primeiro contato com os participantes, mas como o roteiro havia sido preparado antes do início da pesquisa, consideramos, depois, que as perguntas e respostas não se relacionavam diretamente com os fenômenos que foram emergindo dos diálogos entre os participantes nos encontros no Instituto e por
Whatsapp.
Os momentos selecionados são fragmentos de transformações recortados de um tempo em seu vigor. Tratam-se de fragmentos nos quais os seres-aí envolvidos no ato de pesquisa ocupam-se não apenas de resultados, de historiografia, mas buscam a própria historicidade na compreensão do passado de sua comunidade, uma vez que o nascimento de cada ser também “entremeia-se com o acontecimento do ser-aí passado” (INWOOD, 2002, p. 84).
Nesse sentido, encontrar voluntários dispostos a participar desta pesquisa com propostas temáticas na área da História acabou sinalizando-nos um caminho que consideramos desafiador e significativo, por dialogar com aquilo que constitui o próprio ser-aí na sua relação com o fazer científico: o movimento e as transformações internas da história do ser, tendo em vista que o que é essencial, em uma ciência, “é o crescimento interno da história em uma determinada geração” (HEIDEGGER, 2009a, p. 42).
Os grupos de trabalho que acompanhamos nesse percurso estiveram envolvidos com as seguintes temáticas:
Grupo 1 (G1): composto por um orientador, mestre e professor de História do Instituto, cujo nome fictício daqui para frente aparecerá como Caio, e uma orientanda bolsista, cujo nome aparecerá como Eva. Esse grupo ocupa-se em mapear e analisar o aparecimento de notícias relacionadas a greves em Pernambuco no período de 1951 a 1955, com projeto de pesquisa intitulado “As lutas dos trabalhadores em Pernambuco no pós-Estado Novo”. As fontes utilizadas na pesquisa são as notícias da época, publicadas no jornal Diário de Pernambuco (com acervo disponível online) e no Jornal do Comércio. Grupo 2 (G2): composto por um orientador, doutor e professor de
História do Instituto, cujo nome fictício aparecerá como Rubens, e três orientandas bolsistas, cujos nomes aparecerão como Sofia, Babi e Fabiana. Esse grupo também trabalha com mapeamento e análise de notícias de jornal, mas apenas no Diário de Pernambuco. Cada orientanda trabalha com um projeto diferente, mas todos eles estão relacionados à temática da abolição da escravatura na imprensa pernambucana. Os títulos dos projetos são os seguintes: a) Sofia – A Lei do Ventre Livre e os debates emancipacionistas na imprensa pernambucana, 1873-1875; b) Babi – Os últimos anos da escravidão em Pernambuco, 1885-1888; Fabiana – O Movimento Abolicionista em Pernambuco: debates, conflitos e polêmicas, 1882-1884. Apesar de cada uma desenvolver um projeto diferente, todas trabalham em grupo nas reuniões presenciais e no desenvolvimento da pesquisa como um todo, trocando e construindo compreensões dentro de uma dinâmica conjunta e nas intersecções que daí resultam.
É importante ressaltar, para o entendimento dos fragmentos selecionados, que tanto a orientanda do Grupo 1 quanto as do Grupo 2 possuem experiência prévia de pesquisa, sob orientação dos mesmos professores. Todas elas participaram do PIBIC no ano anterior (2016-2017), com pesquisas que trabalharam temáticas semelhantes às do ano corrente (2017-2018), mas referentes a períodos diferentes.
Saber disso, de antemão, é essencial para a compreensão das relações que se dão em campo, pois aponta para uma posição prévia dos participantes com relação ao próprio ato de pesquisa, à temática e às relações interpessoais vivenciadas no decorrer do projeto. De fato, esse pertencimento a uma experiência prévia acaba por colocar os participantes em um lugar totalmente diferente do que seria um primeiro contato com o ato de pesquisar. Um exemplo disso é que ocorrem, em diversos momentos, reflexões acerca do trabalho já realizado no ano anterior e comparações em relação ao caminho que está sendo trilhado no projeto atual.
Antes de iniciar o diálogo com os fenômenos é importante esclarecer, ainda, que optamos por não entrar em contato prévio com o projeto escrito que foi submetido ao edital para concessão de bolsas. Essa opção deu-se em virtude de um cuidado para não cair em comparações ou avaliações prévias de enquadramento teórico-metodológico no decorrer do processo. Nossa intenção é de permanecer o mais aberta possível para escutar o que se mostra na prática e no percurso, tendo em vista que busco interpretar como a própria história do pesquisar desenvolve-se na dinâmica de sua temporalização.
Dito isto, criamos o cronotopo do campo tentando revisar, a cada momento, os princípios de interpretação do fenômeno que elaboramos mais adiante. Os textos que aparecerão na sequência são resultado das reuniões presenciais para orientação e das interações via aplicativo whatsapp, cujo uso constante foi referido pelos próprios participantes para resolver questões relativas à pesquisa.
O aplicativo é geralmente utilizado para agendamento de encontros (reuniões ou assinatura de frequência), divulgação de assuntos relacionados a trâmites burocráticos e prazos, dúvidas acerca do método e escrita do relatório e projetos futuros como desdobramento da pesquisa.
Nas reuniões, os diálogos versavam muito mais em torno de discussões relacionadas ao tema, para uma ampliação da compreensão do contexto histórico do período estudado, e de reflexões acerca do método, embora, com menor frequência, apareçam também questões relacionadas aos mesmos assuntos tratados via
whatsapp. Elas ocorrem sempre no Instituto, em uma sala de estudos específica
disponibilidades dos participantes. No decorrer da pesquisa ocorreram ocorreram oito encontros presenciais do Grupo 1, e cinco do Grupo 2.
A sala na qual os participantes se reuniam era ampla, bastante clara e possuía estrutura de computadores e ar condicionado. Os voluntários conversavam sempre em uma mesa redonda, com cadeiras ao redor, que está disposta no centro da sala. Esta pesquisadora se posicionava perto deles com a filmadora, mas sempre de fora da roda. Eles se organizaram sempre em formato de meia lua, de maneira que fica um espaço aberto em direção à pesquisadora em campo. Essa disposição ocorreu sempre assim sem que tenha havido uma solicitação prévia, o que interpretamos como abertura e acolhimento para a minha presença da pesquisadora.