Na análise da função enunciativa, o autor não é simplesmente um elemento de um discurso, mas exerce certo papel com respeito aos discursos, que “assegura uma função de classificação, permite agrupar certo número de textos ou delimitá-lo, excluir alguns e opô-los a outros” (FOUCAULT, 1996, p. 47).
Trata-se de um sujeito que possui um status de dizer que compreende critérios de competência e de saber, ou seja, sujeito institucional designado pelo lugar de enunciação para articular verdades e saberes de âmbito social, cultural, político e educacional.
Na presente análise, a Fundação Victor Civita (FVC) configura-se como lugar de enunciação, que se propõe a contribuir para a melhoria da educação nacional e anuncia como missão: “Construir e disseminar conhecimentos e valorizar práticas da Educação Básica que auxiliem educadores a enfrentar os desafios de seu tempo” (www.fvc.org.br).
Nesse lugar, encontram-se evidenciados diferentes sujeitos da sua função autor: Presidente, Conselheiros, Diretor editorial, Diretora executiva, Editores, Repórteres, Diagramadores, Publicitários, Analista de marketing e Colaboradores – professores/as
especialistas, professores/as, coordenadores/as e gestores/as das redes de ensino fundamental leitores/assinantes. São sujeitos que exercem certo papel no tecido discursivo relativo ao modo de existência, circulação e funcionamento do discurso educacional da mídia.
A FVC, através de diferentes ambientes e produtos – livros, revista impressa, revista on-line, canais interativos, sites, eventos, afirma um discurso em defesa da educação brasileira, alicerçado na convicção de que “um povo educado é um povo rico e um povo forte, pois, sabe produzir e prosperar” (www.fvc.org.br).
Sua pedagogia cultural, através de diversos produtos, elabora um discurso em defesa da educação básica brasileira, “onde não faltem escolas, bons professores, incentivo ao trabalho docente e materiais de apoio às práticas pedagógicas. Um discurso pela educação que defende a produção de pesquisas que ajudam a compreender a realidade da escola brasileira e oferecem informações atualizadas para os formuladores de políticas públicas” (www.fvc.org.br).
Tal discurso se materializa com a propagação de um “conteúdo com linguagem acessível e tratamento gráfico diferenciado por meio de cento e vinte mil exemplares que já foram distribuídos gratuitamente a gestores públicos, formadores de professores e de opinião de norte a sul do país” (www.fvc.org.br).
Nessa perspectiva que a FVC, com o apoio da Fundação Lemann24, criou e mantém a Associação NOVA ESCOLA25, com a pretensão de “transformar a Educação brasileira por meio de conteúdos e serviços de alta qualidade para professores e gestores do Brasil”, se posicionando como uma organização sem fins lucrativos que tem como missão: “apoiar e valorizar o trabalho de professores, gestores escolares e formuladores de políticas públicas da Educação Básica Brasileira” (www.fvc.org.br).
Para a Associação NOVA ESCOLA, as políticas educacionais, a gestão escolar e a prática pedagógica, assuntos de fundamental importância para professores e professoras que atuam na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, representam o foco da atenção nas publicações da FVC através da revista Gestão Escolar, que trata de questões relativas a: “direção, coordenação, orientação, secretaria e funcionários” (https://gestaoescolar.org.br/).
24 Fundada em 2002 pelo empresário Jorge Paulo Lemann, a Fundação Lemann é uma organização familiar sem
fins lucrativos, e tem como missão: colaborar com pessoas e instituições em iniciativas de grande impacto que garantam a aprendizagem de todos os alunos e formar líderes que resolvam os problemas sociais do país, levando o Brasil a um salto de desenvolvimento com equidade.
25 Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, criada pela FVC em 2015, com o apoio de sua mantenedora,
a Fundação Lemann. Instituição responsável pela publicação das revistas NOVA ESCOLA e GESTÃO ESCOLAR, periódicos para o segmento ocupacional específico. Desde esta data, a publicação dessas revistas se faz sob sua responsabilidade.
No conjunto dos produtos, está a revista Nova Escola, idealizada e estruturada com o objetivo de “fornecer à professora informações necessárias a um melhor desempenho de seu trabalho; valorizá-la; resgatar seu prestígio e liderança junto à comunidade; integrá-la ao processo de mudança que ora se verifica no país; e propiciar uma troca de experiências e conhecimentos entre todas as professoras brasileiras de 1º grau” (https://fvc.org.br/).
Apresenta-se como umapublicação que disponibiliza em seu formato on-line “navegar sobre todos os assuntos” (https://novaescola.org.br/): práticas inspiradoras, cursos, etapas de ensino e disciplinas, planejamento, prática pedagógica, projeto didático, literatura, pesquisas, vagas e oportunidades e notícias consideradas relevantes para o campo educacional.
O discurso da pedagogia cultural da FVC se sustenta em enunciados que evidenciam o anseio desse lugar em se consolidar como uma instituição que está preparada para“colaborar com a atuação dos gestores públicos em Educação”.
Nessa direção, a FVC conta com “a promoção de pesquisas que ajudam a compreender a realidade da escola brasileira e oferecem informações atualizadas para os formuladores de políticas públicas” (www.fvc.org.br). Para atingir tal objetivo, “o site Estudos e Pesquisas Educacionais disponibiliza estudos organizados e publicados por essa área e por universidades e instituições reconhecidas no âmbito da Educação e dá acesso a outras fontes confiáveis de pesquisa” (www.fvc.org.br).
Entendemos, assim, que informar e orientar se organizam como elementos fundamentais do discurso educacional da revista Nova Escola, pois, “fornecer à professora informações necessárias a um melhor desempenho de seu trabalho; valorizá-la; resgatar seu prestígio [...]” (https://fvc.org.br/) constituem a sua missão.
Essa missão se materializa na estrutura das edições atuais da revista impressa e conta com um formato editorial que se atualiza, passando por mudanças ao longo dos anos, com seções organizadas da seguinte forma: “Em dia”, com as seções: Caro Educador, Notícias, Imperdível; “Sala de aula” – dispõe uma série de temas sobre ensino onde são apresentadas as chamadas boas práticas em sala de aula, por etapa e disciplina escolar, e exemplos de como foram ministradas; a reportagem de capa e a coluna “Especialistas”, que conta com as seções: “Entre colegas” e “Mudança de hábito”, apresentando artigos com aconselhamentos sobre questões do âmbito da subjetividade na prática pedagógica. Há também a seção “Fala Mestre!”, que passou a compor o escopo das publicações nas edições dos anos 2000. Nesta, a revista Nova Escola dispunha artigos de entrevista com especialistas de diversas áreas de conhecimento pertencentes ao contexto acadêmico, falando sobre variados temas do campo da educação.
CENA 2: O CONSELHO DOS MESTRES.
Figura 1 - Revista Nova Escola, Seção “Fala Mestre!”
Fonte: Revista NOVA ESCOLA. Seção “Fala Mestre”, edição 157, nov/2002; edição 306, set/2017; edição 136, out/2000; edição 156, out/2002; edição 186, out/ 2005.
A cena em análise reúne um conjunto de reportagens veiculadas na revista Nova Escola na seção “Fala Mestre!”, que, como fora mencionado, dispõe artigos de entrevista com professores/as de diversas áreas de conhecimento, pertencentes ao contexto acadêmico, falando sobre variados temas do campo da educação, a exemplo de autores/as como: Bernard Schneuwly, Juan Carlos Tedesco, Cipriano Carlos Luckesi, Vicky Colbert, Claudio Moura Castro, Gary Wilson, Charles Hadji dentre outros.
Ao observar elementos do visível e enunciável nesses enunciados e considerando o engendramento de práticas discursivas investidas na produção da professora ideal com a articulação de elementos conceituais e práticos relativos a modos de sujeição e de subjetivação, surge a necessidade de examinar a posição dos sujeitos do discurso. O que significa analisar as “posições que o sujeito pode ocupar na rede de informações. Um feixe de relações está permanentemente em jogo no qual está implicada a produção do questionador, soberano e direto, que observa, que toca, que decifra” (FOUCAULT, 2004, p. 59), e que ao mesmo tempo inventaria uma gama de elementos distintos que fazem referência ao status de saber atribuído, ao lugar institucional de onde fala ou à posição social como sujeitos que “percebem, observam, descrevem, ensinam etc.” (FOUCAULT, 2004, p. 59).
Nessa perspectiva, o exame dos enunciados da revista Nova Escola revela sujeitos que contam com status de dizer que compreendem critérios de competência de quem está autorizado a falar, a aconselhar.
Na seção “Fala Mestre”, aparece uma relação entre o sujeito que orienta (o mestre) e o sujeito a ser orientado (a professora), onde ao primeiro é atribuída a competência de falar assumindo uma ação diretiva, enquanto o segundo possui uma função passiva. O mestre, portanto, faz funcionar uma espécie de tutela personificada ao incorporar o discurso da falta, da insuficiência de conhecimento por parte de quem recebe o conselho – a professora. Na seção “Fala Mestre!”, o mestre aparece investido de autoridade como um sujeito de referência que está autorizado por este lugar enunciativo para oferecer reflexões e análises técnicas sobre determinado assunto:
“A escola rural pode ser tão boa a ponto de inspirar a urbana” (NOVA ESCOLA, 2005).
“Disciplina é um conteúdo como qualquer outro” (NOVA ESCOLA, 2004). “É preciso apostar na inteligência dos alunos” (NOVA ESCOLA, 2006). “O objetivo da avaliação é intervir para melhorar” (NOVA ESCOLA, 2008). “Nenhuma criança pode ser deixada para trás” (NOVA ESCOLA, 2007). “Abaixo a matemática do papagaio” (NOVA ESCOLA, 2000).
Esta performatividade26 do mestre se modifica quando examinadas as seções: “Caro Educador”, “Entre colegas” e “Mudança de hábito”.
Nessas enunciações, o aconselhamento se distancia de um caráter técnico, acadêmico sob a forma de uma entrevista e se aproxima de uma conversa na forma de um artigo com enunciados como: “Não deixe os mais rápidos para trás”; “Coragem substantivo coletivo”; “A importância do nome de cada um”; “Precisamos sentir mais raiva”.
Dessa forma, o Aconselhamento parece produzir uma espécie de jogo enunciativo que supõe a existência de parceria entre os sujeitos com enunciados que apresentam um estilo menos assertivo, mas que constituem uma multiplicação de enunciados que evocam um permanente acompanhamento ou uma espécie de tutela continuada.
Nessa esteira, ao examinar a seção: “Obrigado, Professora”, presente nas edições dos anos de 1990, situada nas páginas finais da revista, vê-se que apresenta relatos de experiências com as lembranças do tempo da escola, se percebe que a professora aparece posicionada no discurso ocupando a memória afetiva de um aluno/a:
“Vontade de aconchego” (NOVA ESCOLA, edição 87, set.1995).
“Todos éramos apaixonados por ela” (NOVA ESCOLA, edição 103, jun. 1997).
“Ela punha o coração na mesa quando dava aula” (NOVA ESCOLA, edição 125, set.1999).
“A dama que dava aulas de francês e aventura” (NOVA ESCOLA, edição 91, mar.1996).
“Elas eram exigentíssimas, mas justas e generosas” (NOVA ESCOLA, edição 116, out. 1998).
“A história com cara de cinema” (NOVA ESCOLA, edição 97, out.1996).
A análise da função autor nos enunciados da revista Nova Escola permite afirmar que professores e professoras na sua função autor são sujeitos que contam com status de dizer que compreendem critérios de competência diferenciados pela forma como cada sujeito aparece posicionado no discurso. Essa constatação se evidencia na prática discursiva da Nova Escola quando coloca em evidência na seção “Fala Mestre” o status social dos “mestres” – como
26 Formulado por Austin (1990), no conceito de performatividade a linguagem não se limita a proposições que
simplesmente descrevem uma ação, uma situação ou um estado de coisas. Essas proposições fazem com que algo se efetive, se realize.
sujeitos que “percebem, observam, descrevem, ensinam e etc.”, conceito que aparece conferido ao professor masculino, tendo em vista o conjunto de textos analisados onde o elenco de especialistas é do sexo masculino.
Em contrapartida, a seção: “Obrigado, Professora” coloca em relevo a professora sob o status de “mãe” – como um sujeito provido de capacidade para de cuidar, vigiar, orientar, perceber, amar com termos como: aconchego, coração, dama, justa, generosa, reafirmando um binarismo de gênero no sujeito professor pela manutenção do crivo da sensibilidade para o feminino e da racionalidade para o masculino, operando uma tecnologia de gênero que normaliza a atribuição do cuidado infantil ao feminino, ao passo que sequestra da atividade do magistério seu sentido político-pedagógico, atribuindo-lhe nuances maternais. Elementos que ganham complexidade na próxima seção, através do exame do espaço de diferenciação dos enunciados da Nova Escola.
CENA 3: A PROFESSORA E A CRIANÇA
Figura 2 - Revista Nova Escola online