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1.4.1 Treinamento

Se é por meio do estabelecimento de condições favoráveis de estudos que melhores repertórios de estudo podem ser promovidos, é de extrema importância proporcionar aos responsáveis pelo estabelecimento das condições o treinamento e orientação adequados para que possam atuar de modo a promover tais aprendizagens.

McMahon (2002) define treinamento de pais como “enfoque para tratamentos que utilizam procedimentos por meio dos quais pais são treinados a modificar o comportamento de seus filhos em casa” (p. 400 ). No treinamento os pais reúnem-se com

um terapeuta ou treinador que lhes ensina uma série de procedimentos específicos para modificar sua interação com os filhos para auxiliar em algum comportamento.

Vários estudos examinaram a eficácia do treinamento de pais e seus efeitos no comportamento de pais como orientadores da realização da tarefa de casa. Anesko e O’Leary (1982) avaliaram a eficácia de um programa de treinamento de pais que incluía o desenvolvimento de uma boa rotina para a tarefa de casa, estratégias para superação dos problemas e contrato comportamental, apresentando como resultado mudanças desejáveis nos comportamentos da mãe e da criança, que pode ser observado ainda por pelo menos seis meses, tempo em que ocorreram sessões de seguimento.

Pattal et al. (2008) sugerem que o envolvimento parental na tarefa de casa pode afetar positivamente o sucesso das criança na escola, evidenciando o impacto positivo da realização da tarefa no resultado do aluno e na diminuição dos problemas escolares; no entanto, os autores ressaltam que a habilidade dos pais em auxiliar a realização da tarefa pode ser um importante mediador no resultado do aluno, daí a importância de desenvolvimento de programas adequados de treinamento para monitoramento. Os autores analisaram ainda 14 estudos que realizaram treinamento de pais para envolvimento na tarefa de casa e revelaram que treinar este tipo de envolvimento parental resulta em melhores resultado em relação ao cumprimento da tarefa de casa; menores problemas relacionados a tarefa de casa; e melhora acadêmica entre alunos do ensino fundamental.

Para a realização do treinamento dos pais é fundamental compreender as condições em que ocorre a realização das tarefas em casa, e as contingências a que estão sujeitos pais, como agentes educativos, de modo que estes possam ser preparados e apoiados para promover arranjos ambientais favorecedores da ocorrência e manutenção de comportamentos de estudo (Cortegoso, Assunção & Souza, 2001; Cortegoso & Tavares, 2003).

Segundo Soares et al. (2004), ainda que os pais compreendam a importância de se envolver nas questões da vida escolar dos filhos, estes muitas vezes encontram dificuldades. Estas estão relacionadas a fatores como mudanças na prática de ensino em comparação ao mesmo em sua época, desconhecimento em relação aos assuntos abordados atualmente na escola, falta de tempo livre, nível de dificuldade apresentado pelos filhos e principalmente desconhecimento de como proceder em relação à vida acadêmica dos filhos.

A dificuldade em acompanhar a vida acadêmica dos filhos aparece principalmente no momento de orientação de estudo. Por não saber como proceder durante a orientação, muitas vezes os pais acabam utilizando-se, por exemplo, de procedimentos coercitivos para acompanhar a execução da tarefa, o que não leva a resultados positivos no processo de aprendizagem dos alunos, ao menos em médio e longo prazos.

Sidman (1995) define coerção como “o uso da punição e da ameaça de punição para conseguir que outros ajam como nós gostaríamos, ou a prática de recompensar pessoas deixando-as escapar de nossas punições/ameaças” (p. 17). A coerção tem como um dos seus principais subprodutos a predisposição emocional negativa, além da contestação aos estudos por parte dos alunos, resultado das práticas coercitivas utilizadas pelos pais, constituindo situações de fuga-esquiva, contra-ataque ou inatividade (Skinner 1972). Utilizar métodos coercitivos para acompanhamento do estudo estabelece condições para aparecimento e manutenção de respostas de fuga ou de esquiva por parte do aluno em relação à situação de estudo, dificultando o estabelecimento de um repertório de estudos apropriado mantido por relações positivas, gratificantes e eficazes do estudante com este tipo de atividade.

Segundo Cortegoso (1995), é possível que os pais consigam conciliar o trabalho fora de casa com a supervisão de comportamentos de estudo de seus filhos. Também é

possível que estes, durante esta supervisão, emitam comportamentos mais adequados ao estabelecimento do comportamento de estudo do filho, à medida que tomem conhecimento dos efeitos colaterais da coerção e passem a optar, entre outras coisas, pelo reforço positivo, aumentando a freqüência de comportamentos de estudo.

É nesta medida que trabalhos voltados para treinamentos de pais ganham sua particular importância. Souza (2001), em estudo sobre administração de conseqüências atrasadas para comportamento de estudos, por pais que trabalham fora de casa, verificou que grande parte das dificuldades apresentadas pelas famílias nas interações escolares e na supervisão de tarefas de casa pode ocorrer principalmente pelas próprias contingências de vida do agente supervisor do estudo. As dificuldades apresentadas pelos familiares estavam relacionadas a problemas pessoais de cada um, o que limitava a interação dentro da própria família.

Scarpelli, Costa e Souza (2006), também em estudo sobre treinamento de mães que envolvia o fornecimento de recompensas para o comportamento adequado, verificou a eficácia do treinamento para alterações no comportamento das mães, atingindo melhora na qualidade das intruções, e no reforçamento das crianças; no entanto, as autoras sugerem a necessidade de implementar outros tipos de ações para atingir mudanças mais efetivas. Como parte dessas ações as autoras sugerem, entre outras coisas, fazer uso da modelação e programa de reforço intermitente, sugerindo a relevância do programa de treinamento associado a outro tipo de intervenção.

Souza, Sudo e Batistela (2008), em estudo que buscou investigar os efeitos de procedimentos de treino de mães que utilizam intruções ou instruções e fichas sobre as categorias comportamentais “elogiar o comportamento da criança”, “instruir a criança” e “fazer o exercício pela criança”, encontraram resultados sugestivos de que a forma de treinamento empregada não produz diferenças significativas nos resultados obtidos, e

também que treinamentos individuais são mais eficientes, pois possibilitam o atendimento de necessidades mais específicas das mães do que em um trabalho em grupo.

Gurgueira (2005) avaliou um programa de ensino para capacitar pais como agentes favorecedores do estudar. Em seu estudo realizou inicialmente um levantamento do repertório de três mães no que diz respeito à promoção de condições favoráveis ao estudar de seus filhos. Para avaliar o programa de ensino, o autor treinou estas mães em encontros individuais, nos quais expôs e discutiu aspectos relevantes à promoção de comportamentos de estudo em seus filhos. Após realizar discussões pertinentes com as mães sobre o assunto, o autor concluiu por um resultado positivo do treinamento dos participantes do programa, já que estes apresentaram algumas mudanças no desempenho, ao menos em termos de relatos verbais, em uma direção mais adequada para o acompanhamento de estudo dos filhos.

Coser (2009), realizando um estudo de avaliação de programa de ensino para capacitação de pais como promotores de comportamentos de estudo adequados, aplicado em população de baixa renda, pôde confirmar a importância do treinamento ao obter alterações na resposta verbal dos pais. A autora destaca, contudo, a necessidade de criar condições de apoio eficazes para cada tipo de população, uma vez que algumas famílias estão mais sujeitas a condições de risco que podem gerar problemas de aprendizagem, necessitando que sejam encontradas formas de alterar algumas situações de interação familiar.

Outra ferramenta que se mostra útil na instalação de hábitos adequados e favoráveis de estudos é a utilização do auto-monitoramento como ferramenta para modificação do comportamento.

Bandura (1977) define auto-monitoramento como comportamento de observar e registrar sistematicamente a ocorrência de algum comportamento emitido pela própria pessoa e eventos ambientais associados. Vários autores desenvolveram estudos sobre a eficácia do auto-monitoramento durante a realização da tarefa de casa e identificaram que após o uso da técnica, houve melhora significativa nos comportamentos disfuncionais apresentados inicialmente (Trammel et al 1994; Carrington, Lehrer & Wittenstrom 1997 e Miller & Kelley 1994).

Cortez (2003), ao realizar um estudo sobre os efeitos de instruções de auto- monitoramento na caracterização do próprio repertório de estudos, em alunos de graduação, concluiu que a auto-observação pode ser importante, pois pode melhorar a observação dos indivíduos sobre seus próprios comportamentos de estudo. A autora ainda aponta que a auto-observação faz com que aumente a probabilidade dos indivíduos serem capazes de mudar os meios em que vivem no sentido de criarem novas condições a partir da identificação daquilo que controla seu comportamento, possibilitando o arranjo de melhores condições de realização do seu próprio comportamento.

Callahan et al. (1998), ao realizar investigação sobre um programa de auto- monitoramento em casa para melhorar o desempenho da tarefa de casa e resultados na escola, identificaram que o auto-monitoramento trouxe melhorias aos que participaram da investigação. O estudo também mostrou que a tarefa de casa pode constituir um importante elemento do programa acadêmico para estudantes principalmente com dificuldades.

Outro estudo realizado por Olympia et al. (1994), para examinar a efetividade do auto-monitoramento individual e contingências de grupo para melhorar a realização e os

resultados em tarefas de matemática enviadas diariamente para casa mostra que os alunos que participaram do treinamento de auto-monitoramento tiveram ganhos significativos nos resultados acadêmicos e na performance em sala de aula, e os pais também relataram diminuição considerável dos problemas associados à tarefa de casa.

1.4.3 Vídeo Feedback

Outro instrumento que tem recebido atenção em trabalhos para modificação de comportamentos inadequados de pais em suas interações com os filhos é o uso de vídeo feedback. Kemenoff, Worchel, Pulsatt e Wilson (1995) definem vídeo feedback como a técnica em que é feita a gravação de determinada sessão, inteira ou em partes, em um laboratório ou em ambiente natural, a qual é posteriormente mostrada ao participante com o propósito de ser discutida. Nesta técnica cabe ao terapeuta escolher os trechos e enfatizar os comportamentos para discussão; ao cliente por sua vez, cabe assistir a si mesmo em trechos de acertos e erros para facilitar o treino discriminativo.

Segundo Moura (2007), os primeiros trabalhos sobre a aplicação de vídeo na área da saúde mental datam da década de 50, sendo utilizados com inúmeros propósitos: terapêuticos, pesquisa e treinamento. Reivich e Geertsma, em 1968 (citado por Moura 2007) foram os primeiros autores a utilizar a técnica em um experimento muito sofisticado para a época. Os autores aplicaram a técnica a 64 pacientes e os impactos da aplicação foram positivos para grande parte dos pacientes. A partir deste estudo a técnica ganhou reconhecimento, o que fez com que fosse ainda mais utilizada nas décadas de 60 e 70.

Em 1970, Berger organizou um livro sistematizando as técnicas de uso e contribuições para utilização do instrumento. Nas décadas de 80 e 90, estudos compararam diferentes técnicas empregando o vídeo, que teve maior difusão em virtude do avanço

tecnológico, elevando o número de estudos utilizando esta técnica. Nesta época os estudos utilizando a técnica como recurso de intervenção e modificação de pais começaram a ser realizados (Moura 2007).

Desde então a técnica vem se aprimorando e, mesmo que muitos dos estudos que utilizam a técnica apresentem imperfeições em seu método, muitos estudos apontam melhora no comportamento em questão, e os objetivos das intervenções são alcançados. Zalenko e Benham (2000) ressaltam a validade da técnica uma vez que a gravação permite acessar dados não apenas do comportamento dos participantes, permitindo que o terapeuta veja outros elementos do comportamento que não só o oral. Além disso, para os autores, a técnica permite que pais vejam o efeito direto do seu comportamento sobre o comportamento dos seus filhos, o que facilita aos pais em relação à explicação verbal do terapeuta sobre as consequências do comportamento dos pais em dada situação.

Phaneuf e McIntyre (2007) realizaram estudo para testar a ação do vídeo feedback associado ao treinamento de pais, e como resultado identificaram que a utilização combinada dos dois elementos é mais eficaz na redução de comportamentos inadequados das mães do que apenas o treinamento.

Ray e Saxon (1992) definem o vídeo feedback como um ferramenta prática e econômica, que pode levar pais a compreenderem como manejar o comportamento dos filhos por meio de sua visualização e dos efeitos no comportamento da criança, reforçado pelos feedbacks do terapeuta que dá conseqüências e inclui informações, para os treinandos.

Corbett e Abudullah (2005) afirmam que, em geral, o uso desta técnica resulta numa aquisição mais rápida do comportamento, generalização e manutenção dos ganhos, otimizando o tempo e a relação custo benefício, além de reduzir comportamentos de esquiva provenientes de abordagens verbais diretas.

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