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A abordagem geoarqueológica que esteve subjacente ao nosso estudo, permitiu desde logo, recolher novos dados sobre as grutas 3 e 4 da Quinta do Anjo (Palmela) que de outra forma não teria sido possível. A partir deles, tornou-se viável recuperar informação, que parecia perdida, e chegar a novas interpretações sobre este sítio arqueológico.

A descoberta de carbonatações secundárias formadas ainda na Pré- história e a respectiva análise petrográfica, foram determinantes na aferição de novos resultados.

No passado, as concreções calcárias da gruta QA3 foram interpretadas como sendo uma argamassa artificial feita pelos construtores da gruta, com o intuito de dividir o espaço interno da câmara. Porém, a sua génese é natural e ocorreu por precipitação de carbonatos, a partir da circulação ascendente de fluidos carbonatados ao longo das diaclases. Este facto deu-se num ambiente fisicamente estável e após a deposição de inumações como a análise da amostra V-B demonstrou. Assim, os construtores nunca chegaram a conhecer estas concreções calcárias para que as pudessem aproveitar como divisórias do espaço da câmara.

As carbonatações no interior da gruta QA4 ocorreram igualmente em ambiente estável mas com algumas diferenças. Após a construção a abertura desta gruta pelos seus construtores, as areias, siltes, minerais de argila e bioclastos foram-se desagregando das paredes e tecto da câmara, misturando- se com as inumações e espólio aqui depositados dando início primeiro a um processo de sedimentação. Posteriormente, os fluidos (água) circularam essencialmente na base da câmara e antecâmara da QA4 e não tanto nas paredes. Os depósitos ficaram gradualmente impregnados destas substâncias. O aumento da temperatura, que poderá estar ligado à sazonalidade climática, levou à diminuição do teor de CO2 presente nos fluidos e fez aumentar a evaporação. A crescente saturação da água em carbonatos e sais levou à sua consequente precipitação. Esta foi ocorrendo da base para o topo dos sedimentos, por vezes em folhetos sub horizontais mais maciços e compactos, outras vezes em crostas descontínuas ou mais polvorolentas. Este processo terá como consequência a cimentação dos detritos e dos artefactos e vestígios osteológicos que passam a ser parte constituinte destas crostas e carbonatações calcárias. Foi neste contexto que foram exumados dois ossos humanos (tíbia e metatársico) e um machado de pedra polida tipologicamente associável a fases mais antigas do Neolítico. Apesar de ser uma datação relativa é pelo menos um indicador que este depósito carbonatado poderá pertencer ao primeiro momento de utilização da gruta QA4.

Outro aspecto abordado é a existência de uma cavidade de dissolução de superfície (algarocho) que intercepta parcialmente a parede Oeste da câmara. Inicialmente terão sido três todavia, posteriormente coalesceram e formaram uma só. O estudo do diaclasamento deste afloramento da Quinta do Anjo indicia que provavelmente houve controlo estrutural no processo de formação destas pequenas cavidades naturais. Estas formas de dissolução na QA4 foram vistas como um espaço que foi parcialmente alargado pelos construtores sendo um prolongamento interior da câmara. Todavia, este está relativamente exposto e é externo à gruta 4. Neste sentido, está desprovido da “intimidade” necessária à deposição de corpos. Paralelamente, uma estrutura composta por duas lajes partidas e um bloco de rocha alóctone ao afloramento, até aqui, foram interpretados como um abatimento natural da cavidade, ou como uma bancada/altar. Porém, esta é uma estrutura de separação entre os dois espaços – câmara e algarocho. Relativamente a esta, concluiu-se:

i) O facto de os elementos pétreos estarem cobertos por concreções de natureza calcária, mostra que a sua estruturação no interior da gruta não é recente.

ii) As características litológicas daqueles elementos, patenteiam uma proveniência alóctone relativamente ao substrato biocalcarenítico onde se escavou a gruta. A sua presença resultou de um acto deliberado por parte dos seus construtores.

iii) O modo como se encontram organizados no espaço revelam que esta estrutura não foi originada por queda ou colapso recente da gruta.

Assim representa não só, uma rotura física entre o algarocho e a câmara, mas também uma rotura do espaço simbólico. Pelo contrário, a antecâmara representa um prolongamento da câmara enquanto espaço sagrado comprovado pelos vestígios de inumações aí encontradas em 1876- 78.

As análises feitas às carbonatações secundárias do Algarocho não revelaram quaisquer vestígios osteológicos ou de artefactos arqueológicos que confirmassem que ali existiram inumações.

A propósito disto, problematiza-se sobre as grutas artificiais e as características estruturais da rocha. Neste sentido, o plano de construção das grutas artificiais teria de se adequar ao meio e não o contrário. Esta seria uma

contingência natural para os construtores de grutas artificiais. O plano de construção existia mas não seria inflexível, dando origem por vezes, a alterações estruturantes do plano inicial. A QA4 faz prova desta evidência na medida em que a existência de cavidades naturais de dissolução que interceptam a câmara, e que não estavam previstas no referido “projecto” inicial, não inviabilizou a continuidade de construção e/ou ocupação do monumento.

Desconhecem-se exactamente os preceitos rituais e simbólicos que estiveram subjacentes a estas construções. Porém, podem-se enunciar algumas das motivações práticas que levaram à escolha desta litologia como matéria-prima ou a escolha de um determinado ponto do afloramento em detrimento de outros.

O estudo do afloramento rochoso, e em particular da camada 4, onde estão implantadas as grutas QA3 e QA4, revelou que o estrato onde se inserem reúne características estruturais, texturais e composicionais específicas, nomeadamente: a litologia branda, mas fortemente coesa, a maior porosidade secundária, a existência de poucas descontinuidades internas e elevada espessura. No seu conjunto, estas propriedades da rocha facilitam o trabalho de escavação e por isso terá sido um dos motivos práticos para a escolha deste local.

Por outro lado, no que concerne à gruta QA3, a fracturação (sistemas de diaclases) poderá ter desempenhado um papel preponderante.

Independentemente de ter havido ou não intencionalidade dos seus construtores no aproveitamento desta descontinuidade, como forma de facilitar o trabalho, a sua existência terá agilizado o processo de escavação da rocha.

Outra questão debatida neste trabalho, diz respeito à orientação das grutas artificiais. Esta problemática, assume contornos distintos e específicos da dos monumentos megalíticos.

Constata-se uma grande disparidade de orientações para as estruturas hipogeicas da Estremadura portuguesa que é recorrente para necrópoles no mediterrâneo ocidental. Verifica-se que os construtores de hipogeus, em momentos distintos, parecem não obedecer a um padrão definido de orientação dos monumentos.

Conclui-se que talvez não seja correcto, procurar as mesmas prescrições mágico-religiosas, que estão subjacentes à construção das antas, nos hipogeus. O facto de por vezes existirem semelhanças, entre as suas morfologias internas e nos seus contextos arqueológicos, não autoriza que se faça uma extrapolação do significado simbólico de um para o outro.

Aceitando que o Mediterrâneo Central foi um dos focos de origem do hipogeismo, observa-se que os hipogeus com cronologia mais antiga, na Sardenha, na Sicília e Malta correspondem a monumentos de acesso vertical. Aqui, as entradas não determinam nenhuma orientação, visto não estarem direccionadas para nenhum quadrante. Isto significa que a simbologia da arquitectura destes monumentos não contemplava o aspecto da orientação.

A questão da orientação só se pode colocar a partir do momento que as grutas artificiais se horizontalizam, a partir dos fins do 4º milénio A.C. A pouca ou nenhuma importância da orientação das grutas artificias do 3º milénio A.C. poderá estar relacionada com a continuidade do hábito dos primeiros hipogeus não atribuírem significado especial à orientação. De qualquer modo, só numa segunda fase do hipogeismo mediterrâneo é que a orientação destas estruturas poderia ter adquirido relevância.

Independentemente disto, a localização e a orientação das grutas artificias estão pelo menos condicionadas pela existência de um afloramento rochoso, que possua características estruturais, texturais e composicionais que viabilizem a sua escavação de acordo com a técnica e tecnologia disponível de cada comunidade.

Uma outra contribuição deste trabalho foi a actualização do registo destas duas estruturas funerárias. Os levantamentos feitos às grutas ao longo de 135 anos foram manifestamente insuficientes e deixando informação por registar. Neste processo a observação cuidada das superfícies rochosas destas grutas artificiais permitiu descobrir:

A existência de uma estrutura semi-circular para a qual colocámos a hipótese de ser os vestígios de um espaço ante corredor.

A identificação de um conjunto de caleiras recentes entalhadas no afloramento com a função de captar águas pluviais.

As marcas da frente da pedreira artesanal (pistolos) que mostram dois momentos de extracção de pedra; antes de 1876 e posteriormente a 1907. E

ainda, que a abóbada da QA3 foi destruída devido à pedreira, ao contrário da QA4 onde há indícios de ter colapsado por si.

Que o aspecto imperfeito das paredes e chão da gruta QA4, são irregularidades feitas sobre as carbonatações calcárias e não sobre a superfície original da gruta artificial pelo que esta seria tão perfeita quanto as restantes.

Que os sulcos e picadelas nas paredes e nas carbonatações secundárias na gruta QA4, até aqui interpretadas como pré-históricas, na realidade são vestígios dos primeiros trabalhos arqueológicos. Assim, foram feitas no século XIX por António Mendes, primeiro escavador da QA4, e que teve dificuldade em definir a superfície antrópica da gruta confundindo-a com a crosta calcária secundária.

Desta forma, a confusão entre o que é fruto da acção humana e o que corresponde a fenómeno geológico natural teve consequências nas interpretações feitas àqueles espaços funerários. No entanto, a análise geo- arqueológica permitiu corrigir algumas destas leituras, ao determinar de forma objectiva os elementos que eram de origem natural e aqueles que o não são. Apesar do mau estado de conservação, e de já não ser possível fazer ali escavações arqueológicas, esta nova perspectiva viabilizou como se constatou, importantes conclusões acerca da arquitectura original destes monumentos.

A perspectiva geoarqueológica aplicada à Necrópole da Quinta do Anjo proporcionou inequivocamente, a aferição de novos factos que permitiram corrigir algumas das leituras anteriores e traçar novas perspectivas para o estudo deste sítio e outros congéneres.

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