destacam a teoria da sociedade de risco elaborada pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, em contraste com as perspectivas que adotam a noção de desenvolvimento sustentável. Se nestas cabe a certeza nos sistemas institucionais, na obra de Beck sobressai o desencanto, num mundo onde cada aspecto da vida está imbuído da dúvida e incerteza. A verdade da ciência e a fé no progresso foram desafiadas na medida que não conseguiram cumprir suas promessas: bem-estar generalizado, segurança e autonomia da natureza. A análise de Beck (1992) sugere que as instituições centrais da modernidade (o Estado, a indústria) são fundamentalmente incapazes de responder às questões contemporâneas de risco ambiental. Seu argumento é que
os desafios que estamos vivendo dificilmente poderão ser resolvidos com uma simples reorientação das atuais tendências políticas e padrões de desenvolvimento tecnológico, “o problema não pode ser contornado através de um incremento da produção, redistribuição ou expansão da proteção social - como no século XIX - porém, requer tanto uma política massiva de ‘contra-interpretação’, como um repensar e reprogramação fundamental do paradigma prevalecente da modernidade” (BECK, 1992, 52). Para Hannigan (1995) as teses que estruturam a teoria da sociedade de risco se colocam a meio caminho dos enfoques pós- modernos e dos que se inclinam pela reforma ambiental. Certamente, em alguns casos o pessimismo de Beck parece coincidir com as teses pós-modernas que enfatizam a fragmentação do social, a atomização e a deriva existencial a que o indivíduo é submetido na saturação de informações (Lyotard, Baudrillard), embora na questão que se refere explicitamente ao meio ambiente, a teoria da sociedade de risco se opõe radicalmente ao pensamento ambiental dos pós-modernos (BLÜDORHN, 1997). Segundo estes autores, a queda das Grandes Narrativas (ordem, progresso, etc.) atinge à própria Natureza, que conseqüentemente perde sua capacidade de continuar sendo o Outro do social. Segundo a leitura de Murphy (2001) o que se destaca na sociedade de risco é precisamente o retorno dos poderes autônomos da natureza: a imprevisibilidade e incerteza não implicam a dissolução da natureza, senão o contrário; na forma de desastres naturais de grandes conseqüências a Natureza volta ao centro do debate da teoria social (GOLDBLATT, 1997).
Uma das características centrais da sociedade de risco, para Beck, é que a centralidade da divisão em classes sociais é substituída pela democratização dos riscos de graves conseqüências que, além de serem irreversíveis, globais e invisíveis, podem afetar sem significativas modificações, as diferentes classes sociais. A sociedade de risco, por isto, passa a ser parte de uma outra fase da modernização, a da modernização reflexiva. A reflexividade,
para Beck, envolve dois aspectos. Por um lado, significa que todos passamos a conviver com a incerteza científica e a necessidade de tomar decisões entre opções nem sempre claras em termos de suas conseqüências para a vida no planeta. Por outro lado, significa que estamos objetivamente sofrendo as conseqüências, na forma de um bumerangue, da fé no progresso e na ciência como resposta geral que caracterizaram a modernidade simples. Mas estas duas formas de reflexividade colocam, para Beck, um paradoxo, a partir do qual suas teses tomam rumo diferente das teses dos pós-modernos: “a ciência é cada vez mais e mais necessária, ao mesmo tempo em que é menos e menos suficiente para fornecer uma definição suficiente de verdade” (BECK, 1992, 156).
A modernização reflexiva, de acordo com o primeiro sentido, é caracterizada por Beck através de transformações no âmbito familiar e no mercado de trabalho, que estariam produzindo uma nova sociabilidade, levando até suas últimas conseqüências o processo de individuação.
Beck (1996, 64) estabelece uma imbricação complexa entre a crescente cientifização e a possibilidade de uma produção mais ecológica. Mas esta direção não conseguiria superar o caráter discursivo atrás do qual se oculta a nova moralidade dos negócios: “A ecologia torna- se um sucesso, um vendedor de si mesmo - pelo menos sob a forma de cosmético ou embalagem ecológica (...) Longe de intensificar e confirmar a insipidez da modernidade, as ameaças ecológicas criam um horizonte semântico de impedimento, prevenção e ajuda. Este é um clima e um ambiente moral que se intensifica com o tamanho da ameaça, em que os papeis dramáticos dos heróis e dos vilões adquirem um novo significado quotidiano” (BECK, 1996, 66).
1.1.2 Críticas à sociedade de risco Autores como Golblatt (1997) e Irving (2001) coincidem ao reconhecer a dificuldade em fazer generalizações e sintetizar o pensamento de Beck, devido a seu estilo de escrever em que se combina análise abstrata com exemplos específicos de estudos de caso, o amplo uso de metáforas e aforismos irônicos, e seu senso de humor. Embora, apontada esta dificuldade, suas teses não têm sido poupadas de críticas.
Antes de situar as críticas negativas convém salientar os aspectos positivos de sua contribuição. A teoria da sociedade de risco envolve uma metáfora instigante e bastante sugestiva para interpretar o ambiente pós-industrial europeu, caracterizado pela ocorrência de catástrofes ambientais num contexto social de superabundância que se associava com imagens de progresso e segurança plenos. Nesse sentido, a sociedade de risco teoriza profetizando um cenário em potência para todas as sociedades industriais. É como se a teoria estivesse dizendo que o mais provável que aconteça, como resultado de nossas intervenções na natureza, será o desastre ou sua proximidade na forma de diversos riscos ambientais. O valor dessa afirmação consiste em inserir a dúvida como elemento catalisador da modernidade, ao colocar na agenda da política ambiental a desconfiança frente às armadilhas da razão instrumental.
Mas também a teoria da sociedade de risco implica uma visão pessimista que resulta contraditória com a capacidade reflexiva que atinge instituições, indivíduos e novos coletivos que se formaram ao fragor do reclamo e protesto ambientalista. Sua noção do processo de individuação também me parece ambígua, pois, por um lado, sua análise propõe uma identidade sitiada pela iminência do perigo, e pelo outro, é essa mesma dimensão a que permite a redefinição de identidades no surgimento de novos coletivos sociais que passam a conviver pela afinidade nos estilos de vida.
Outras críticas à teoria de sociedade de risco enfatizam a fraqueza e debilidade de suas premissas mais gerais, como a referente à democratização do risco e a dissolução ou perda de significado do conceito de classe social. Como adverte Buttel (2000) e Mol (1995), Beck baseia seu argumento em casos como o desastre de Chernobyl, a chuva ácida ou o efeito estufa, cujos efeitos, efetivamente, se disseminam sem importar divisões sociais (GUIVANT, 1998). Contudo Beck não se deteve em outros tipos de problemas como poluição hídrica, envenenamento por agrotóxicos, desastres naturais, etc. nos quais normalmente os mais afetados são os setores marginalizados da sociedade, que além de serem afetados, não contam com os meios suficientes para reparar os danos, dependendo em maior grau dos sistemas de assistência social. E se esta crítica é pertinente no contexto dos países altamente industrializados, então ela se torna hiperbólica quando se pensa nos países de industrialização tardia e que enfrentam grandes desigualdades sociais.3