2. L’azote et la fermentation alcoolique
2.2. Transport et régulation de l’azote assimilable
O surgimento das universidades privadas no Brasil se desenvolveu enquanto uma exigência do capital, que demandava força de trabalho especializada a fim de atender as alterações produtivas em nível mundial. Esse processo se deu com base em orientações de organismos internacionais, conforme já exposto, que preconizam a educação enquanto um serviço a fim de atender interesses da população que tinham por objetivo entrar no ensino superior.
Se configurando como alternativa ao ensino público, a universidade privada foi se legitimando no âmbito da Educação, com respaldo do Estado e das políticas educacionais, considerando que “[...] em relação ao financiamento da política de educação superior ocorre o estimulo a privatização interna das instituições públicas e o aumento, tanto da isenção fiscal para os empresários da educação superior, como o número de IES privadas” (PEREIRA, DAHMER, 2012, p. 36).
Esse crescimento possibilitou, no Rio Grande do Norte, a instalação da primeira instituição privada: a Universidade Potiguar (UNP). Fundada no ano de 1981, recebeu o nome de Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (UNIPEC) e apenas em 1996, conseguiu se transformar em universidade, se consolidando em cidades do interior do RN, com cursos presenciais, semipresenciais e a distância. Atualmente é a maior universidade privada do estado e integra a Laureate International Universities113, uma rede global de instituições de ensino superior.
113
A Laureate International Universities é a maior rede global de instituições de ensino superior, com mais de um milhão de estudantes matriculados em 70 instituições presenciais e online, em 25 países. A Laureate oferece programas de graduação e pós-graduação (lato e strict sensu) de qualidade e focados na empregabilidade dos seus estudantes, em uma ampla gama de áreas de conhecimento. A Laureate acredita que quando seus alunos obtêm sucesso, países prosperam e a sociedade se
A UNP também possui certificação do B Lab®114 “[...] uma organização independente, sem fins lucrativos, que serve como um movimento global de pessoas que utilizam os negócios como uma força para o bem” (UNP, 2017). Essa certificação tem relação direta com as reformas universitárias ocorridas desde o governo FHC que atingiram diretamente a educação superior brasileira, de tal maneira, que significam “[...] o fortalecimento do empresariamento da educação superior, que direciona o interesse do empresariado na abertura por cursos na área de Humanas e Ciências Sociais Aplicadas, devido aos baixos custos e alta lucratividade” (LIMA; PEREIRA, 2012, p.41). O "bem aqui" destacado corresponde ao interesse do empresariado na privatização da educação brasileira. E a criação de cursos na área das Ciências Sociais incide sobre o Serviço Social.
O curso presencial de Serviço Social da UNP115 é ofertado em Natal, através da Escola de Saúde, em duas unidades localizadas na Zona Norte e na Zona Sul da cidade do Natal e também na cidade de Mossoró, no oeste potiguar. Além da modalidade presencial, o curso também é ofertado na modalidade a distância. A direção do curso de Serviço Social é embasada em documentos tais como o Projeto Pedagógico da Instituição (PPI) e no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), documentos internos que avaliam e implementam o Projeto Pedagógico do curso de acordo com as políticas definidas nestes.
No que concerne a análise do projeto pedagógico, nota-se que o curso está embasado em quatro núcleos de fundamentação: Fundamentos teórico- metodológicos da vida social, Fundamentos da formação sócio histórica da sociedade brasileira, Fundamentos do trabalho profissional e Fundamentos da proteção e promoção da saúde. Este último foi criado a partir da inserção do curso na Escola da Saúde e tem por finalidade qualificar a/o discente para atuar na área supracitada, articulando condições de vida, trabalho e saúde.
No que tange a análise curricular do curso, é preciso destacar alguns limites que tivemos na coleta de dados na pesquisa na UNP. Apesar da anuência da instituição para a realização desta pesquisa, tanto o projeto pedagógico do curso e a beneficia. Essa crença é expressa na sua filosofia de Estar Aqui para o Bem e Para Sempre (Here For Good). Ver mais em: UNP. Rede Laureate. Disponível em: <https://unp.br/rede-laureate/>. Acesso em: 03 ago. 2017.
114
Ver mais em: UNP. Institucional. Disponível em: < https://unp.br/institucional/>. Acesso em: 03 ago. 2017.
115
O Departamento de Serviço Social da UNP é localizado no campus Roberto Freire, na Av. Eng. Roberto Freire, 2184, Capim Macio, Natal/RN.
grade curricular solicitados à instituição, foram negados, justificando se tratar de documentos internos. Todavia, em pesquisa sobre a instituição realizada na internet, é possível encontrar o projeto pedagógico do curso116 publicado online e visível a todas/os.
Desta maneira, questionamos: por que a instituição nega o acesso aos documentos solicitados, argumentando se tratar de documentos internos, se um destes se encontra disponível na internet? Quais as razões em não conceder o acesso a grade curricular do curso de Serviço Social se são conteúdos de interesse público de estudantes, docentes e profissionais da área? Em quais circunstâncias a grade curricular atualizada pode ser adquirida?
Com essa limitação, nossa pesquisa na UNP limitou-se a análise do projeto pedagógico e as entrevistas com as docentes e discentes do curso. No que se refere ao conteúdo do projeto pedagógico e as disciplinas, salienta-se que as mesmas estão desatualizadas (a grade curricular data de 2006), o que impede nossa análise no conteúdo curricular obrigatório e optativo. Ademais, a UNP incorporou ao ensino presencial, a orientação do MEC117 que permite que as disciplinas optativas sejam cursadas na modalidade a distância.
Na entrevista com as estudantes do curso de Serviço Social desta instituição, surgiram alguns elementos importantes que ilustram algumas situações no ensino e provocam a reflexões sobre a formação profissional na universidade. Questionamos se as estudantes já haviam cursado a disciplina sobre gênero e feminismo na graduação e ambas as respostas foram negativas. Uma delas destacou:
Não tem no nosso cronograma de matéria obrigatória. Os nossos professores é quem falam informalmente sobre o assunto. (ELIZANDRA SOUZA, DISCENTE UNP)118
Esta fala permitiu constatar que o conteúdo voltado para a discussão de gênero e feminismo não existe de forma exclusiva no âmbito da graduação
116
Disponível em: UNP. Arquivos. Disponível em: < https://unp.br/arquivos/pdf/cursos/graduacao/escolagestaoenegocios/ppc-servico-social.pdf>. Acesso em: 19 jul. 2017
117
A oferta de disciplinas na modalidade semipresencial, no âmbito de um curso autorizado na modalidade presencial, é possível legalmente de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9.394, de 20/12/1996, em seu artigo 81, que foi regulamentado pela Portaria MEC nº 4.059, de 10 de dezembro de 2004. Ver mais em: MEC. Perguntas Frequentes. Disponível em:<http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=14384:perguntas-frequentes-sobre-
educacao-superior>. Acesso em: 25 jul. 2017
118
presencial, em formato de disciplinas obrigatórias. Questionadas se achavam que se achavam importante ter uma disciplina sobre gênero e feminismo na grade curricular, a mesma estudante respondeu:
Sim (...). Porque daí a gente ia ler Simone de Beauvoir, ia ler Anais NIN, então a gente ia ler um monte de feminista que a gente não lê. Se fosse uma disciplina voltada só para isso, então a gente teria um feminismo sem radicalismo. (ELIZANDRA SOUZA, DISCENTE UNP)119
O relato acima permite apreender que a estudante sente a necessidade de trabalhar o conteúdo referendado, todavia, ainda apresenta uma certa limitação de compreender o que é feminismo, visto que mistura a prática feminista com o radicalismo em suas análises, reforçando os ideais estereotipados e conservadores sobre o feminismo. Quando entrevistamos uma docente desta universidade, a respeito da sua compreensão sobre a importância de uma disciplina sobre gênero e feminismo, constatamos um posicionamento mais conservador, expresso no seguinte relato:
Eu acho que o curso deve formar com a visão do ser humano, independentemente de ser homem, mulher, criança, adolescente, idoso, independente…direitos humanos são direitos humanos! De homens, de mulheres, do que você quiser! Então pra mim o curso tem que formar numa perspectiva de respeito a diferença em todos os aspectos, desde sempre. Pra mim, essa discussão deve atravessar o curso sem precisar ter uma disciplina, todas as disciplinas devem trabalhar essa temática. (JUDITH BUTLER, DOCENTE)120
A fala da docente generaliza os direitos humanos em um só conteúdo, desconsiderando a particularidade das expressões da questão social que reforçam o machismo, o racismo, a homofobia, a misoginia, entre outros elementos. O relato também parte de uma análise liberal do direito que apresenta muitos limites na sociabilidade burguesa, marcadamente desigual. Dessa forma, não é possível trabalhar com este conteúdo transversalmente em todas as disciplinas, tampouco na perspectiva do direito burguês, sem considerar a totalidade, o papel do estado, a luta de classes e o sistema de dominação exploração vigente. Para tanto, corroboramos com Lima (2014, p. 58), 119 Informação verbal. 120 Informação verbal.
A todas essas inquietações, de caráter mais geral, soma-se ainda a preocupação com a forma como tem se dado, nos cursos presenciais em Serviço Social no Brasil, as discussões e estudos relativos às temáticas de gênero, raça/etnia e orientação sexual. Temas que, a nosso ver, são considerados menos importantes no processo de formação profissional, uma vez que tem se dado nos últimos períodos dos cursos e, quase sempre de forma eletiva. Desta forma, os discentes de Serviço Social, em sua maioria e em regra geral, deixam de conhecer uma mediação importante na compreensão e explicação da questão social.
Assim, as/os estudantes têm se formado sem compreender e aprofundar as questões pertencentes ao gênero e ao feminismo para a prática profissional. Os espaços oferecidos para trabalhar estas temáticas ficam limitados em parte a extensão, garantidos em rodas de conversa, fóruns de saúde coletiva, eventos entre outros na respectiva universidade. No que se refere a pesquisa, o curso tem ofertado três projetos que trabalham a com a temática da violência doméstica, com a ressocialização e integração social de apenadas de um presídio feminino no estado e como o artesanato e a cultura podem contribuir para a melhoria de vida das apenadas.
Esses projetos são de demasiada importância para a pesquisa, todavia são iniciativas de dois docentes que coordenam e algumas discentes que participam através da iniciação científica. A limitação das vagas para participação no projeto, comparadas ao contingente do total de alunas/os é muito alto e infelizmente não garante a atuação de todas/os as/os interessadas/os. Com isso, a discussão de gênero e feminismo na formação profissional fica muito delimitada.
Além destes fatores, o curso de Serviço Social da UNP não é filiado a ABEPSS, apesar de ser embasado pelas Diretrizes Curriculares na estruturação do projeto pedagógico. O caráter político da filiação aponta a relevância da formação profissional na direção das lutas sociais e o comprometimento com o projeto ético- político do Serviço Social. A ABEPSS não se configura como um órgão fiscalizador da formação profissional e, ainda assim, não tem filiações de instituições privadas no âmbito do RN. Se o curso de Serviço Social da UNP é referência na formação profissional em uma universidade privada, indaga-se: por que não é filiado nesta importante entidade?
Por fim, é possível constatar que a universidade privada, inserida no tensionamento dos interesses do mercado, é permeada por profundas contradições que aparecem na formação profissional, seja no ensino, na pesquisa e na extensão.
A recusa e não socialização de informações sobre os conteúdos dos cursos também faz parte da lógica privatista que invade as instituições e transformam a educação em um serviço pago.
Além disso, a preocupação com a formação profissional de qualidade se destaca na medida em que se constata a ausência parcial da discussão de gênero e feminismo na graduação, que pode vir a prejudicar a prática profissional, no sentido em que reitera posicionamentos conservadores que legitimam e reforçam a estrutura capitalista.
4.1.4 Considerações sobre o curso de Serviço Social do Centro Universitário