O ato de narrar parece ser recorrente na história dos homens (Brockmeier & Harré, 2003). Segundo Roland Barthes “não há em parte alguma povo algum sem narrativa; todas as classes,
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Procedemos a uma “triangulação metodológica” (entre duas ou mais perspectivas metodológicas), cuja importância, segundo Uwe Flick, repousa no fato de “enriquecer e completar ainda mais o conhecimento e de transpor os potenciais epistemológicos (sempre limitados) do método individual” (Flick, 2004: 238). Tal triangulação, em nossa perspectiva, é construída sempre em diálogo com o objeto de pesquisa quando da sua construção, se afastando, portanto, das visões mais empiricistas que tentam se apropriar com mais precisão da “realidade”.
todos os grupos humanos têm suas narrativas” (Barthes, 1976: 19). É através das lógicas estruturais narrativas, que se pode apreender (e julgar, no bojo da luta por hegemonia) os acontecimentos, personagens, objetivos, moralidade e relações constitutivas da história (Jovchelovitch e Bauer, 2002: 92). No que concerne às narrativas políticas, é interessante notar que há uma profunda ligação entre o ato narrativo e a orientação concreta para a ação que se destina a determinados fins ou “interesses”. Isso pode ser notado nos programas políticos
antagonísticos, que normalmente projetam suas estratégias a partir de situações conjunturais.
Nestes programas, os acontecimentos do início e do meio de uma história ganham sentido retroativo e são postos em episódios (Gallie, 2001: 45), que – protagonizados por determinados atores encarnados em representantes/representados políticos – obedecem a uma lógica temporal naturalizada de sucessão (ou interseção). Teríamos, então, uma coerência ou unidade narrativa,
que é, fundamentalmente, um efeito de verdade provocado por um recurso à temporalidade.
A possibilidade de produzir efeitos coesivos de verdade através da temporalidade se faz notar, no entanto, mediante situações sociais de crise, em que a presença de um ambiente
narrativo ganha importância metodológica. Tais crises, com efeito, passam a ser sentidas (e
combatidas) por narrativas antagonísticas emergentes, quando alguns acontecimentos já não são facilmente integrados ou postos em episódios num determinado sistema hegemônico de significação. As estruturas narrativas, assim, trabalham no sentido de fundamentar “os poderes persuasivos do discurso” (Brockmeier & Harré, 2003: 526). Esse vínculo entre narrativa e discurso orientado para a ação favorece, nessas situações de crise, uma questão que é fundamental para o desenvolvimento de nossa metodologia: qual o grau de “contaminação” que a história, enquanto ciência, deveria se permitir em relação aos esquemas narrativos?
Na tentativa de superar abordagens mais positivistas que, defendendo o caráter científico- investigatório da história, negam qualquer narratividade à mesma (a história seria, assim, uma “narrativa plana”, pois diria exatamente o que aconteceu), autores como W. H. Dray (2001) e W.
B. Gallie (2001) defendem a narrativa como um instrumento explicativo de investigação. Isso os afasta – na medida em que, mesmo não reconhecendo um caráter teleológico ou imanente à história, a consideram uma história “única” – das intuições metodológicas que temos perseguido, as quais ressaltam a importância metodológica de politizar o conceito de cultura. Dray (2001), assim, apoiando-se no “modelo inteligível da contingência” de Gallie, nega a causalidade na interconexão entre fatos históricos. Desenvolve, considerando o atributo explicativo da narrativa como instrumento analítico, uma noção de “continuidade retrospectiva”, cujo objetivo expresso é (utilizando critérios externos) imprimir uma lógica global à narrativa histórica (única). Os autores em questão parecem não se colocar, a exemplo do que faz Margaret Somers (1995a; 1995b), a questão da articulação entre epistemologia (ciência histórica) e ontologia (quando a leitura do “processo” histórico – frisamos – está voltada para as ações políticas) – o que abre espaço teórico, conforme defende a autora, para a politização do conceito de cultura.
A narratividade, nessa esteira, tem duas dimensões: uma epistemológica18 e uma
ontológica (Somers, 2001). Levando em consideração esta última é que Somers intenta romper
com a visão “representacionista” das narrativas – característica do iluminismo – e postula, na sua
abordagem da identidade, que as “histórias guiam a ação” e as pessoas constroem suas
identidades “posicionando-se ou sendo posicionadas dentro de um repertório de histórias” disponíveis em determinados contextos históricos (Somers e Gibson, 1995: 38). É interessante notar que, através dessa compreensão, Somers (cuja preocupação central é a formação histórica dos conceitos sociológicos) nos permite perceber com certa nitidez a dimensão histórico-narrativa
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Somers e Gibson (1995: 49) consideram que na teoria sociológica clássica (Marx, Durkheim e Weber), de forma abstrata e a-histórica, a “ação social estava teoricamente embebida na ficção histórica (metanarrativa) da individuação do ator social cujo estado natural se movia em direção ‘à liberdade em relação ao passado e separação de uma associação simbólica, da tradição, e, acima de tudo, das limitações advindas dos ‘Outros’”.
das epistemologias. Há, pois, uma profícua relação metodológica indicada pela autora entre narrativas ontológicas e epistemologia19 que pretendemos explorar nesse capítulo.
Antes, contudo, cumpre tecermos alguns comentários acerca da abordagem narrativa somersiana, indicando o que dela interessa-nos reter. O grande mérito de Somers, conforme percebemos, é a historicização da epistemologia, o que significa entender, com Laclau (2005) e Greimas (1976), que os discursos não devem ser analisados por seus conteúdos específicos. Conceber conceitos que não são estáveis e, portanto, preditores da agência política, só é realmente possível mediante o reconhecimento da narratividade das lógicas sistêmicas do social. Ou seja, é na particularidade do objeto – numa perspectiva empírica – que se devem pautar as estratégias metodológicas de análise. Deve-se, nessa esteira, ter um olhar atento para o local, pois é nesta dimensão que se articulam as identidades particulares excluídas das lógicas narrativas hegemônicas. A questão metodológica que nos interessa é saber por meio de que instrumentos “acessar” identidades antagonísticas particulares nas suas relações com a institucionalidade democrática hegemônica (lógica sistêmica) vis-à-vis o processo de representação política.
Somers (2001), interessada na formação histórica dos conceitos sociológicos, entende a necessidade de fugir da codificação (cultura de conhecimento) conceitual das metanarrativas modernas e propõe a construção de um novo vocabulário analítico. Mencionaremos, nesse contexto, seus conceitos de “identidade narrativa” e “contexto relacional”. O conceito de
identidade narrativa remete àquela idéia de que as identidades são constituídas desde um
esquema narrativo. Se assim o é, o desafio do pesquisador, segundo Somers (2001: 364), é – baseado numa narrativa conceitual – captar exatamente a narratividade pela qual a identidade do
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Os discursos estariam, assim, enraizados em determinadas “culturas de conhecimento” constituídas por um “específico escopo de pensamento, racionalização e práticas institucionais possíveis em um dado tempo e espaço histórico” (Somers, 1995a: 54-5). Ou seja, a narrativa não se forja externamente (dicotomicamente) ao objeto narrado. Tais culturas, “ao invés de quaisquer verdades específicas... Delimitam o que pode ser concebido como ‘verdadeiro-ou-falso’” (ibidem: 55). Tomamos como um desafio, nesse capítulo, através do desenvolvimento do conceito de ambiente narrativo, perceber os mecanismos pelos quais é possível a emergência de atores políticos antagônicos que rompam, parcialmente, com essas culturas de conhecimento.
seu objeto é constituída. O método da identidade concebe, assim, que as ações são envidadas desde uma perspectiva relacional e contingente e não a partir de interesses dados inscritos no social. Eis porque Somers vê-se compelida a formular o conceito de contexto relacional.
Seu vocabulário conceitual destina-se claramente a relacionar as identidades ao conjunto de fatores a que chama de “forças sociais” (Somers, 2001: 365). O desafio da sua narrativa
conceitual é, a partir da narrativa ontológica dos atores sociais, enredá-lo numa “configuração”
temporal e espacial de relacionamentos e práticas. É a partir desse entendimento que fala em desenvolver “uma narratividade causal – uma necessária noção de causalidade baseada na seqüência e contingência da narratividade e não na universalidade e leis preditivas” (Somers, 1995a: 68) (grifo nosso). Isto feito, o pesquisador poderia tornar inteligíveis as ações dos atores em questão. Para Somers, através da construção de um contexto relacional, poder-se-ia romper com as metáforas totalizadoras e substituí-las por metáforas relacionais. Tal proposta, ao que
parece, procura incorporar a dimensão extralingüística do discurso à análise social.
Entretanto, apesar do refino de sua abordagem, consideramos que Somers recai sub- repticiamente numa armadilha estruturalista, aprisionando a particularidade do objeto na totalidade que constrói (contexto relacional). Mesmo considerando a relacionalidade do contexto construído analiticamente a partir de uma perspectiva empírica, Somers termina não sendo capaz de explicar o momento do sujeito. Momento de quebra da inteligibilidade da narrativa ou ainda, numa perspectiva laclauniana, o momento em que o social é visto como um terreno indecidível (conceito derridiano que, como veremos, partindo do entendimento da inexistência de correspondência entre signo e objeto, problematiza, nos nossos termos, a integração orgânica entre as estruturas narrativas mais profundas e as narrativas ontológicas). A meio caminho no seu intento de politizar o conceito de cultura, comete a aporia de perceber o contexto relacional como uma “matriz geométrica de instituições” (Somers, 2001: 367). A contradição reside em tomar arranjos institucionais contingentes (hegemônicos) como centro/base da análise sociológica. Isto
porque os atores estariam embebidos nessa rede de relacionamentos que se lhes impõem como condição de possibilidade para suas práticas de significação. Estabelece, portanto, uma distinção entre um nível “discursivo” e um outro composto por “relações estruturais” materiais (ibid: 368) – força social –, o que a afasta do conceito laclauniano de discurso, que engloba, além do lingüístico, o extralingüístico. Termina por recair, dessa forma, no dualismo sujeito/objeto, desde que não capta o processo pelo qual os sujeitos deslocam as fronteiras dos espaços sociais.
A relacionalidade/historicidade das identidades e instituições, presente numa tipologia das narrativas, proposta por Somers, é, contudo, uma intuição metodológica importante na tentativa de inter-relacionar as dimensões lingüística e extralingüística do discurso. Tendo em mente os limites já apontados da abordagem em questão é que passamos a explorar, informados – conforme irá sendo progressivamente explicitado ao longo das seções do capítulo – pela teoria do discurso laclauniana e por alguns aspectos da semiótica de Greimas, a referida tipologia. Cumpre, inicialmente, anunciarmos a contribuição de fundo que pretendemos buscar na semiótica greimasiana. Nosso principal foco metodológico é, tendo em vista, por um lado, a particularidade dos objetos e, por outro, sua necessária relacionalidade – que os remetem a sistemas narrativos de significação hegemônicos –, refletir sobre como articular as dimensões lingüística e extralingüística do discurso. Greimas nos oferece contribuições importantes para lidarmos com tal questão.
Sendo nosso objeto de estudo uma narrativa antagonística particular, Greimas nos ajudará a pensar a realização/enunciação do discurso petista dentro de certas condições de produção. Isso porque, “segundo Greimas, enunciação é a instância de mediação que produz o discurso, ou seja, que realiza a passagem das estruturas semióticas narrativas às estruturas discursivas” (grifo nosso) (Barros, 1988: 3). O sentido do discurso, assim entendido, emergiria da relação entre a estabilidade do sistema (narrativo) de significação e a variedade do social (ibid: 4). Trabalha-se, portanto, com o pressuposto de que o discurso é sustentado e organizado a partir de “estruturas
sintático-semânticas narrativas” (ibid: 7). Essa é, na medida em que, para além de uma análise exclusiva do texto, propõe um modelo que leve em conta o contexto sócio-cultural, um passo importante para a aproximação metodológica que almejamos entre o lingüístico e o extralingüístico. A análise estrutural de Greimas, por outro lado, ao procurar uma imanência no texto (ibid: 14), não supera a polaridade entre estruturas narrativas profundas e superfície discursiva, o que – à maneira, como veremos, do conceito foucaultiano de formação discursiva – revela as marcas de certo idealismo lingüístico (típico das abordagens estruturalistas).
Para Greimas, a construção do sentido do discurso ou “percurso gerativo” vai das estruturas mais simples/abstratas (fundamentais), passando pelas estruturas intermediárias (narrativas), até chegar nas estruturas mais complexas/concretas (discursivas). Segundo Barros (ibid: 14-5), trata-se de um processo de “complementação” e “enriquecimento” que vai da imanência à aparência. A sintaxe narrativa, em contraste com as operações lógicas das estruturas fundamentais, é antropomorfizada, ou seja, traz as marcas da cultura humana. O problema metodológico que colocamos é o de como lidar com tais narrativas entendidas como modelos de
análise sociológica, pois entendemos que, na prática, os atores sociais não as tomam como um
sistema “puro” ou mais definido de regras. Ao contrário, tomam como referência narratividades que, mais embebidas na dimensão cultural, são parte integrante de instituições e práticas sociais (extralingüístico). Assim, como não encontramos modelos puramente lingüísticos (idealismo), somos compelidos a construir um instrumental metodológico que nos permita aproximar de maneira mais articulada o lingüístico do extralingüístico.
Levando em consideração o entendimento de que as narrativas já se nos apresentam com um grau considerável de institucionalização (antropomorfização), podemos imprimir uma interpretação particular ao conceito de “enunciado elementar” da sintaxe narrativa na semiótica. Para Barros (ibid: 28), esse conceito se define pela relação-função entre “pelo menos dois actantes” – sujeito e objeto – de forma que tais actantes só existem mediante a consideração da
relação transitiva que se estabelece. Sendo forjada historicamente, a transitividade dessa relação indica que não há uma lógica narrativa ancorada preferencialmente seja no nível lingüístico ou extralingüístico. Qualquer sistema de regras que venha a orientar, seja a análise ou a prática política, teria, em nossa opinião, que incorporar à lógica de seu funcionamento, a referida antropomorfização.
O sentido narrativo emerge da interação constituinte entre sujeito e objeto. Gerar sentido implicaria em intervir num enunciado elementar prévio, ou seja, num sentido – comunhão entre sujeito e objeto – previamente existente. Esse era, segundo a leitura que fazemos de Rector (1978: 16), o centro das preocupações de Greimas, que teria ultrapassado os limites da semântica estruturalista para adentrar nos domínios da semiótica. A lingüística, como ramo “mais importante” da semiótica, fornece a esta os “modelos teórico-práticos” (ibidem) de análise. A
incorporação dessa discussão à sociologia, na perspectiva de articulação entre narrativa e cultura, sugere um tensionamento com esses modelos advindos da lingüística estruturalista. Tais
modelos, para explicar a realidade, considera o próprio “objeto” a ser explicado como um conjunto de elementos relacionados (Pinto, 1976: 8). Acontece que, para tanto, sempre se utilizam de alguns elementos (noção de pertinência) e se deixam outros de fora (ibidem) – que podem ser utilizados nas análises e práticas políticas antagonísticas. Há, desde uma lógica estruturalista, dois riscos, apontados por Pinto (ibid: 12-3), que queremos evitar: a atenção exagerada, à guisa de “profundidade” analítica, a elementos particulares, pois isso fragmenta excessivamente o todo; e a restrição àqueles elementos escolhidos do modelo que geram, a exemplo da estatística, uma superficialidade descritiva. Essa precaução deve nos prevenir de essencializar as culturas políticas antagonísticas por um lado e, por outro, sufocar essas mesmas culturas com o peso estrutural. Tendo essa discussão em mente é que consideramos haver um espaço formal-metodológico que aponta para a construção de um conceito que articula o lingüístico e o extralingüístico. Retomaremos a essa discussão mais adiante.
Dito isto, nos interessa considerar a divisão das narrativas em quatro tipos básicos (Somers, 2001), aqui tomados como “instrumentos analíticos” para compreender a relação entre representação política e constituição identitária. Ao expor tal tipologia, já estaremos “corrigindo” a abordagem da identidade somersiana pelos elementos da semiótica acima apontados. A primeira delas é a narrativa ontológica, através da qual os agentes sociais fazem sentido de suas vidas. Ou seja, constituem suas identidades e, portanto, seus interesses, localizando-se (a si e aos outros), criativamente, em narrativas públicas (nacionalismo, desenvolvimentismo, internacionalismo, anarquismo etc) disponíveis em determinados contextos históricos. O desenvolvimento de nossa estratégia analítica ao longo desse capítulo terá como desafio pensar o tipo de relação que se estabelece entre esses dois tipos de narrativa vis-à-vis o processo de representação política e o estabelecimento de fronteiras político-culturais na sociedade. Cumpre frisar que, na nossa terminologia, as narrativas ontológicas são discursos que se forjam a partir da articulação de narrativas públicas mais ou menos disponíveis no espaço público, de maneira que estão estreitamente vinculadas à materialidade das configurações sociais. Isso traz, como veremos adiante, conseqüências para o grau possível de “autonomia” dos atores antagonísticos.
O terceiro tipo é a narrativa conceitual (analítica/sociológica), que pertence ao universo dos conceitos e explicações propostas pelos pesquisadores e remetem a certas representações do
social. Consciente do caráter histórico deste tipo de narrativa, Somers (2001: 363), como vimos,
lança como desafio metodológico para a sociologia construir um vocabulário conceitual capaz de enredar no tempo e no espaço, as narrativas ontológicas de atores sociais específicos e as narrativas públicas então disponíveis. Finalmente, temos as metanarrativas, que fornecem os parâmetros no interior do qual se trabalham os conceitos nas ciências sociais (dicotomia estado- sociedade, progresso, desejo/possibilidade de estabelecimento de uma comunidade política, racionalidade emancipadora, totalidade social fechada etc).
Esses quatro tipos (ou dimensões) de narrativas, obviamente, não se apresentam de forma estanque, cada qual correndo em faixa própria. Muito menos devem ser entendidas como meros instrumentos analíticos, que se restringem ao saber sociológico. Ao contrário, ao imbricarem-se e condicionarem-se entre si, são constitutivas das relações políticas e sociais. As metanarrativas contêm os valores que, via de regra, conformam todas as outras narrativas. Assim, com Greimas (1976), considerar analiticamente as metanarrativas significa dispensar atenção à sintaxe de estruturas narrativas mais profundas – ou seja, mais formais e menos “contaminadas” pelos aspectos culturais – do que as narrativas públicas, disponíveis em certos contextos históricos e mais próximas às vicissitudes do jogo político. A influência das metanarrativas nem sempre é percebida por atores políticos e cientistas sociais. Segundo Laclau (1996a), nessa esteira, a crença moderna na transformação radical do social, se respalda numa noção/valor metanarrativo de
totalidade. Essa última, ao imprimir à história uma inteligibilidade, dá suporte à crença na plena representabilidade do social – segundo seu próprio sistema de significação. Isso porque suas
partes (identidades), ainda que concebidas relacionalmente, como nas teorias estruturalistas, são tomadas em coerência a uma lógica totalizante de fechamento do social. Assim, influenciada pelo hegelianismo, a narrativa conceitual marxiana – apostando na absorção do Estado pela sociedade – pressupunha a possibilidade de anular a distância entre o racional e o real, o ser e o conhecer, numa operação política cuja utopia era promover a conciliação sujeito-objeto.
Esses valores metanarrativos trabalham no sentido de esconder o caráter indecidível do social e, assim, rechaçar outras alternativas político-narrativas cujos sistemas de significação por ventura fujam à inteligibilidade hegemônica. Essas narrativas alternativas deveriam, de acordo com o imaginário iluminista de ciência (narrativa conceitual), ser entendidas como secundárias ou expressões de mera aparência e não como algo imanente ao social, sendo este último o que realmente importaria, política e teoricamente. Em termos de representação política, as classes sociais, numa perspectiva marxista-leninista, são quem realmente definiriam as coisas em matéria
de política20. Assim, para Lênin (Harnecker, 2003), numa análise de conjuntura importava menos falar de classes sociais do que de “posições de classe” e “forças sociais”. Isso porque esses dois últimos conceitos não remetem a atores políticos concretos e sim a “interesses” objetivos. Para promover uma aproximação do racional com o real – do ser com o conhecer –, Lênin era obrigado a recorrer ao artifício “teórico” (narrativa ontológica) de diferenciar “forças motrizes potenciais” (definidas como classes sociais fundamentais) das “forças motrizes reais” (aqueles setores da população que assumem ou não, efetivamente, uma política classista).
Ao definir os interesses num nível narrativo-conceitual se estabelece, num processo de representação política, uma unidade (identidade a ser representada) a partir de um quadro que é contingente e heterogêneo. Não é por outro motivo que o marxismo clássico secundarizou as questões de gênero, étnico-raciais e ambientais (Eley, 2005). Ao reprimir essas demandas, estabelecia-se uma relação de representação política a qual Hanna F. Pitkin (1972) define como uma ação substantiva por outros. A autora expressa a idéia de que o representante, em contraste com a noção de delegação, exerce a ação da representação política de forma ativa. Pitkin (2006), assim, problematizando, numa espécie de genealogia do conceito de representação, a correspondência entre “palavra” e “mundo”, defende que este é um conceito cultural, que se vincula à emergência das instituições democráticas da modernidade. Há, nos nossos termos, uma relação entre conceituação e espacialidade – que problematiza noções sedimentadas nas ciências sociais como espaço público, esfera pública e vida pública (Lavalle, 2005) –, de maneira que à crise de representação epistemológica no final do século XX, soma-se uma crise de representação política dos partidos e instituições democráticas, que já não são vistos como “ordenadores