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Pourquoi transmettre ?

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Les Théories et Recherches sur la Transmission des Entreprises

1.2 La planification de la succession

1.2.1 Pourquoi transmettre ?

Imagem V: Os bebês com o diário de campo Fonte: Acervo da pesquisadora – Nov/2010

Nesse conjunto de cenas observam-se as formas como as crianças se organizam para alcançar e ou conquistar algo desejado - neste caso, o diário de campo. Alvo de grandes disputas ao longo de toda a minha permanência a campo, sempre permiti que os bebês utilizassem meu bloco de anotações, inclusive substitui a caneta por um lápis, a fim de evitar maiores danos à sala, pois, em alguns momentos, os rabiscos se estendiam ao tapete, paredes etc.

Entretanto, o que chama a atenção nesse episódio é a maneira como Ricardo tenta se apossar do material. Ele, em muitos momentos, se mostrou liderando situações e impondo seus desejos a partir de dadas ações que inibiam a reação de outros bebês. Nessa situação, porém, Felipe fez o enfrentamento ao colega, agiu defendendo o que havia sido combinado, talvez se sentindo mais seguro por minha presença e provável intervenção, ou por já se sentir hábil em intervir, utilizando as mesmas estratégias que, por vezes, Ricardo utilizava, como a força física, por exemplo.

Ao longo da pesquisa, observei o quanto as crianças pequeninas se apropriam das ações uma das outras e não somente das ações dos adultos. As regras de conduta que se instituem no espaço coletivo da educação infantil e, principalmente, na sala dos bebês estão permeadas por horários fixos: de alimentação, de chegada, de sono e de saída, que determinam certa rotina no cotidiano dos bebês. Outro aspecto que chama a atenção se refere ao desafio das profissionais de conseguirem atender quinze bebês ao mesmo tempo, fazendo com que muitos não são atendidos imediatamente, pois seria humanamente impossível. Assim, as crianças, rapidamente, percebem as fragilidades da estrutura organizativa desse espaço; elas, então, agem sobre a realidade social e modificam individual e coletivamente o funcionamento da rotina.

No caso das cenas apresentadas no último excerto, observa-se Ricardo tentando ser “mais forte” e se apossar de imediato do material, ao mesmo tempo em que fica nítido seu incômodo em ter que esperar, na expressão de levar a mão à cabeça, com ares de impaciência. Em outros momentos, esse mesmo menino e outros bebês usam do choro ou da habilidade de se locomover em relação aos que ainda não caminham para chegar à frente e ser atendido antes dos demais. No próximo episódio, apresentado mais adiante, nesta dissertação, será observada uma ação que traduz essas estratégias, das quais os bebês se apropriam no próprio cotidiano, alterando a suposta ordem dos acontecimentos.

Contudo, é importante se observar que nas estratégias de comunicação e ação dos bebês o corpo ganha uma importante dimensão. O ato de empurrar o colega, como fez Felipe a Ricardo é resultado das situações que os bebês observam, vivenciam e se apropriam dialogicamente desses processos. Enquanto a linguagem verbal está em constituição, o corpo, as expressões de olhares, e os gestos vão “dizendo” na interação entre os bebês o que pode e como deve se proceder em dadas situações.

Talvez possamos pensar que em alguns momentos, a constituição da linguagem e as estratégias de comunicação dos e entre os bebês

ocorrem de modo silencioso, mas não estático e regular. A cada ação deles, observamos a riqueza de elaborações que embora às vezes, pareça ser imitativo a outras ações, o contexto sendo outro ou o mesmo, ocorre um outro acontecimento, onde os bebês desenvolvem novos sentidos e gradualmente vão descobrindo novas possibilidades de comunicação.

Deste modo, é preciso nos atentar ao silêncio e ao barulho das estratégias de comunicação dos e entre os bebês, mas acima de tudo, perceber e traduzir os movimentos do corpo, que mais que ações físicas são manifestações constitutivas da linguagem.

Assim, além da linguagem em efervescente constituição, o cotidiano dos bebês na educação infantil, ganha novos sentidos e se modifica subliminarmente pelas interações dos pequeninos. Essas modificações são permeadas pelas ações dos bebês em que o corpo é determinante no que pretendem atingir. Nesse sentido, começo a compreender o corpo e os movimentos como uma dimensão da linguagem ou até mesmo uma precedência na constituição do pensamento e da fala.

Nesta mesma direção Coutinho (2010) assevera:

Ao considerar o lugar que o corpo ocupa nas situações observadas na creche podemos indicar que essa “consciência” em relação ao corpo é um elemento central na ação social das crianças bem pequenas, o que nos leva a busca da compreensão do desenvolvimento dessa consciência. A compreensão da ação social como dotada de sentido e significada pelo outro nos ajuda a entender essa ideia de modo articulado às

manifestações corporais das crianças

(COUTINHO, 2010, p. 126)

A autora compreende que a manifestação corporal dos bebês está diretamente relacionada a outros elementos estruturais como “o gênero, as classes sociais, os afetos” e estes elementos constituidores das ações dos bebês compõem a formação da consciência. Nesse sentido, os movimentos e ações dos bebês pelo corpo não podem ser compreendidos como fortuitos, são carregados de sentidos sociais e culturais que fazem parte dos diferentes contextos sociais dos quais participam.

Guimarães (2008), na perspectiva foulcautiana de análise do disciplinamento dos corpos, e a partir da reflexão filosófica de Bakhtin,

identifica nas rotinas que se estabelecem no cotidiano da creche, a atuação dos bebês por meio do corpo e chama a atenção que essas rotinas podem aprisionar os sujeitos que dela participam se não houver uma constante leitura crítica do que se institui e uma percepção aguçada dos movimentos das crianças no sentido de romper com algumas lógicas. Para a autora, os bebês em meio a uma rotina costumeira acenam a necessidade de situações novas, por meio dos movimentos que eles realizam, assim como rompem os “ritmos homogêneos” que estão presentes no cotidiano da creche. É importante que os adultos reconheçam na alteridade das crianças e na identificação de cada movimento, novas dimensões de relacionamento (GUIMARÃES, 2008, p.137).

Os dois estudos supracitados ressaltam o papel do corpo e dos movimentos corporais entre os bebês, como meio de ação na estrutura socialmente organizada. Mesmo as crianças de pouca idade, na medida em que passam a se apropriar do funcionamento do cotidiano que estão inseridas forjam ações individuais e compartilhadas que alteram, mesmo que sutilmente a institucionalização das regras de conduta. Passamos a seguir, a outro episódio que endossa a discussão acerca da apropriação dos bebês sobre os códigos sociais e suas atuações que modificam a rotina estabelecida.

Chegou a hora do jantar, algumas crianças foram acomodadas em bebês-confortos e outras ficaram sentadas em almofadas e foram alimentadas ali mesmo. A professora organizou três bebês- conforto em frente ao banco e chamou Felipe para lhe oferecer a canja. Enquanto isso, Luiz sentou- se no bebê-conforto, ao lado de Felipe e Ricardo senta-se ao lado de Luiz. Enquanto a professora oferecia o alimento a Felipe, Ricardo levantou-se e pegou na mão de Luiz que, sorrindo, levantou-se também. Ricardo arrastou o bebê-conforto onde Luiz estava sentado para o outro lado da sala, enquanto o colega o observava. Em seguida, puxou a cadeira que utilizava para o lado de Felipe e sentou-se nela aguardando ser atendido. A professora, sem nada perceber, continuou envolvida com a criança que estava atendendo. Ao terminar de atender Felipe, passou a oferecer canja ao próximo que estava sentado, neste caso, Ricardo que havia “tomado” o lugar onde o colega Luiz estava (Diário de Campo, 21/10/2010).

Episódio V: Quem vai jantar primeiro? As estratégias dos bebês no momento

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