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Diante da crise imposta pela Modernidade ao cristianismo pré-moderno, a ciência passa a questionar uma Igreja fechada na autoridade da Tradição e da Escritura literalmente entendida. Introduzindo novos métodos e afirmações contraditórias à tradição religiosa praticada até então. Antes do advento do Concilio Vaticano II a idéia de revelação que parecia dominante na Igreja era a de algum fator misterioso funcionando de maneira incompreensível e unilateral, divorciado dos pensamentos e dos seres humanos, como se o céu se abrisse de repente e pela fenda aberta nas nuvens Deus falasse num megafone de ouro a seus registradores escolhidos. Pronto! A revelação caiu dos céus. Os escribas designados escrevem-nas folhas de um livro sagrado. As nuvens se unem novamente e Deus retira seu poderoso megafone até que resolva fazer nova proclamação.

A religião cristã tende-se a fazer da Bíblia um manual para o mundo, do qual este foi concebido como está relatado em suas páginas, sem influências ou derivações, não como fruto de fenômenos históricos. Até bem pouco tempo,

23 Cf. QUEIRUGA, Andrés Torres.

a compreensão da aventura humana na terra se embasava quase que exclusivamente nos dados “inquestionáveis” da Escritura. A religião bíblica sempre se apresentou historicamente com tremenda força e excepcional riqueza, tanto que se erigiu como um dos eixos centrais da cultura ocidental.

O cristão comum acolhia, enriquecia e transmitia a visão ingênua e mítica do espaço e do tempo bíblico. Diante dessa visão, os homens da Bíblia viviam envoltos e cercados pela luz da revelação. Mesmo que estes não soubessem bem o que significava ou como se concretizou historicamente. Esta compreensão entrou para o patrimônio do imaginário religioso comum. Não havia questionamentos. Tudo estava ali, escrito e descrito, como um mundo dado na autoridade da “Palavra de Deus”. Com essa espécie de áurea divina, ficava difícil assimilar a necessidade, nascida hegemonicamente do Iluminismo, de transformar criticamente essa visão. Mais difícil ainda foi percebê-la como fruto da atitude passiva e piedosa, produzida pela leitura literalista, positivista e infantil da Escritura.

É no Iluminismo que surge à clara luz da razão crítica as instituições e os desajustes que vinham trabalhando a compreensão teológica da experiência reveladora. Foi difícil ser acolhida na teologia a problematização do complexo processo de consignação escrita seja da experiência religiosa de Israel – o longo processo histórico de elaboração da “lei e os profetas” –, seja dos primeiros cristãos, na formação do Novo Testamento, e depois, a elaboração do cânon bíblico. O processo revelador de Deus especialmente a forma de captação e consignação da parte do homem, é questão muito recente na

história da teologia24. Somente com a entrada da Modernidade e o advento das ciências, que as evidências se problematizaram.

A reação apologética assumirá em confronto direto com a Modernidade, uma concepção abstrata ao converter a revelação em verdadeira lista de verdades sobrenaturais manifestadas ou entregues de modo sobrenatural ao ser humano, cuja credibilidade estava garantida e sustentada unicamente pela autoridade divina. A revelação como conjunto de verdade leva à concepção de um grande depósito estático. Compreende-se, desse modo, o processo da revelação sem qualquer dinamismo atual. Aos crentes caberia apenas a obrigação de guardar esse tesouro eterno, com a missão de repetir tais verdades, anunciando-as a todos os homens.

As mudanças culturais possibilitaram a crítica. O Iluminismo, ao questionar os pressupostos da fé, obrigou a explicitar o caráter irredutivelmente especifico da revelação bíblica. Esse fato colocou pela primeira vez no horizonte da história do cristianismo, a revelação na pauta dos grandes problemas teológicos.

A revelação representava ameaça às conquistas do novo tempo: a autonomia das realidades e do próprio homem. Era inaceitável acolher a revelação concebida como intervenção vinda “de fora”, palavra direta e imediata “ditada” pelo Espírito de Deus ou “verdade pronta” que cai do alto, interferindo na dinâmica dos acontecimentos históricos. Significava ruptura na imanência e ameaça ao legitimo princípio da autonomia humana. Ao apoiar-se numa “palavra inspirada”, compreendida como “ditado” vindo de fora, da parte

24 Cf. LIBANIO, João Batista.

Teologia da revelação a partir da modernidade. São Paulo,

de Deus, entregue ao homem de uma vez por todas e para sempre, parecia adicionar sentido, arbitrário e autoritariamente, aos fatos históricos. Soa como violação e desrespeito divino à seriedade da história. Essa ficaria reduzida a marionete dos desígnios divinos. Analisaremos essas questões mais adiante a luz do trabalho de Andrés Torres Queiruga quando desenvolve a categoria “maiêutica histórica” para analisar a revelação de Deus na realização humana, afirmando que “Deus entra na história e transforma o mundo não a base de milagres e intervencionismos, e sim através de sua presença reveladora na liberdade do homem”25.

O surgimento da crítica bíblica no final do século XVII, ao explicitar o caráter profundamente humano do processo bíblico, provocou concomitantemente o nascimento de questões que são impossíveis esquivarem-se delas, pode uma palavra humana ser simultaneamente palavra divina? Será preciso fechar os olhos à crítica para continuar mantendo a fé? Teremos de negar a revelação para sermos fiéis às exigências da razão? Ou caberá encontrar o caminho da síntese, mantendo sem contradição a honestidade da crítica e a autenticidade da fé? Segundo Libanio, enfrentá-las constitui caminho de chegar a uma clareza.

Constata-se cada vez mais o fracasso da visão tradicional da revelação diante da mentalidade moderna, por causa de seu acento no aspecto mais racional, objetivo, reificante e extrínseco da fé enquanto a Modernidade acentua a dimensão subjetiva, a abertura ao novo, a tudo o que se apresente como ‘humano’. A justificativa da fé não se pode fazer a partir de provas extrínsecas, de

25 QUEIRUGA, Andrés Torres.

conceitos a priori, mas através de uma elucidação da existência do fiel no seio da Igreja e do mundo. Há uma exigência de uma perspectiva mais antropológica26.

A teologia tem diante de si o trabalho de ir estruturando as inquietudes difusas e unindo as questões dispersas. A revelação, com sua profundidade misteriosa e nunca de uma forma objetivável, pede uma aproximação mais sintética e que responda a uma nova sensibilidade cultural, enfim é no homem com sua liberdade e autonomia que ela tem de se expressar. A fé deve conservar-se aberta às mudanças que afetam, sobretudo, as ciências do homem, buscando criar um discurso acessível para este ser histórico em construção dentro das coordenadas concretas do tempo e do espaço, condicionado pelo ambiente cultural, social, religioso em que vive.