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Chapter IV. Healing and reconciliation of memories

4.2 Transgenerational transmission of trauma

Em meio a toda essa efervescência teórica para se analisar a América Latina e as políticas de desenvolvimento adotadas pelos Estado latino-americanos, surge, em 1961, nos Estados Unidos, durante o governo de John F. Kennedy a United States Agency of Internatinonal Development (USAID), uma agência do governo estadunidense com objetivo de

promover “ajuda” às nações subdesenvolvidas e/ou em processo de desenvolvimento. Assim, os EUA possuiriam mais um instrumento de dominação em relação aos países subdesenvolvidos e expandiriam suas políticas capitalistas nos mesmos, em especial na América Latina, já que o mundo passava por um processo de disputa ideológica entre capitalismo e socialismo, a Guerra Fria (1945 – 1989/91) (CHIAVANETO, 2004).

No entanto, a ideia de formar um bloco de cooperação entre os países das Américas, já havia sido proposto, em 1958, pelo então presidente brasileiro Juscelino Kubiteschek com o lançamento da proposta da Operação Pan-Americana (OPA). Tal iniciativa do governo brasileiro, juntamente com a vitória da revolução cubana, em 1959, fez com que o governo estadunidense mudasse sua postura sobre as políticas para o desenvolvimento para a América Latina.

Em 1960, na Conferência Econômica Interamericana, reunida em Bogotá, Colômbia, os Estados Unidos mostraram-se dispostos a abandonar sua política tradicional baseada na convicção de que o capital privado, por si só, possibilitaria o crescimento econômico da América Latina, passando a reconhecer a necessidade de planos nacionais de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, propuseram a criação de um Fundo Especial Interamericano para o Desenvolvimento Social com recursos iniciais da ordem de quinhentos milhões de dólares, a serem aplicados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em projetos de reforma agrária, habitação, educação e saneamento básico. Inspirada nesse esboço de programa norte- americano, a chamada Ata de Bogotá sistematizou as diretrizes para uma revitalização do sistema regional (PASSOS, 2009).

Em meio ao cenário político da Guerra Fria, onde a rivalidade entre os dois grandes blocos ideológicos se agrava com a Revolução Cubana, em 1959, e com os grandes avanços que o governo revolucionário de Fidel Castro logrou em pouco tempo na ilha, o “perigo” comunista, para os Estados Unidos, se vê cada vez mais real e próximo na América Latina e se apresentando como alternativa para a solução dos problemas sociais e econômicos dos países latino-americanos.

As grandes conquistas, em especial, na área educativa pelo governo cubano, o qual conseguiu, em pouco tempo, erradicar o analfabetismo e estender o ensino fundamental à 90% da população, além de um significativo desenvolvimento da educação profissional, vinculada ao setor produtivo, constituem, juntamente com os progressos obtidos pela educação e pela ciência na União Soviética, um desafio político e ideológico relevante para os Estados Unidos, pelo exemplo que poderiam representar para os países de sua esfera de influência e, mais ainda,

pela possibilidade de que as reformas educativas na América Latina, seguissem o modelo socialista cubano ou soviético (CARNOY & WERTHEIN, 1984 APUD GENTILINI, 1999).

Assim, nesse período, os governos latino-americanos fecham diversos acordos de cooperação com a USAID, inclusive no campo educativo, a qual essa parceria comprovava a subserviência das políticas desses governos aos interesses políticos e econômicos estadunidenses, abrindo caminho à política neoliberal, onde, segundo a autora:

O modelo proposto pelo USAID se beneficiou de uma situação concreta: a ascensão das multinacionais criou os seus próprios “intelectuais orgânicos”, que amoldam ou cooptam as elites culturais, e estas, por serem ou sentirem- se ‘elites’, chamam a si a responsabilidade (e o poder) de ditar as regras da cultura... Não é um modelo nascido do nada ou imposto gratuitamente: corresponde a uma necessidade do sistema e a uma conveniência de classe. (p. 46- 47).

Na Conferência de Punta Del Este21, em 1961, cujas decisões foram ratificadas em Santiago do Chile, em 1962, foram aprovados quatro projetos, entre eles, o de desenvolvimento de metodologias de planejamento centradas na ideia do “valor econômico da educação” e na “preparação dos recursos econômicos”, necessários ao processo de modernização. Predominou a visão de que se deveria considerar a educação como um investimento, formadora de mão-de- obra qualificada para a indústria, dentro de uma concepção de capital humano (GENTILINI, 1999).

No Brasil, especificamente no campo educativo, a parceria entre o Ministério da Educação (MEC) e a USAID intencionava para o país uma instrução baseada nos moldes da educação norte-americana. Pregavam um sistema educacional tecnicista, excludente e sem nenhuma atenção à educação básica pública, em suma, não visava desenvolver o senso crítico dos educandos, menos ainda um entendimento real do seu quadro social22. Ao contrário, fazia

brotar em cada educando o sentimento involuntário de individualismo, manifestado através da competitividade gerada pelo sistema, uma vez que, as teorias reprodutivistas propagavam a ideia de uma “escola reflexo” da sociedade capitalista (CHIAVANETO, 2004).

Para Leite (2002), os acordos entre o Brasil e os EUA, através da USAID vão perpassar o campo educativo buscando:

[...] a eficiência e eficácia educacional, a ampliação curricular da escola brasileira com vistas ao desenvolvimento econômico produtivo (em particular à profissionalização da juventude brasileira), à modernização dos canais

21 De acordo com o documento assinado na Conferência de Punta Del Este, os países latino-americanos deveriam traçar planos de desenvolvimento e garantir a maior parte dos custos dos programas, cabendo aos EUA o restante. A administração dos fundos norte-americanos competia em sua maior parte à USAID.

educacionais extraclasse – como forma de ampliação das informações a serem veiculadas –, e à reestruturação do ensino superior nacional, tendo por modelos as universidades norte-americanas (p. 46).

Já em 1964, segundo Chiavenato (2004), o MEC havia entrado em acordo com a USAID e sua influência vai abranger todos os setores da educação brasileira, inclusive o rural, onde essas escolas teriam apenas um caráter de formação técnica para o fornecimento de mão-de- obra para as empresas capitalistas rurais. Desenvolve-se então, segundo Matos (2008), uma reforma educacional atrelada ao modelo econômico dependente, instituído pela política norte- americana para a América Latina, em três pontos: educação e desenvolvimento; educação e segurança; educação e comunidade.

Os objetivos de organizar uma educação de caráter economicista nos países da América Latina nos moldes proposto pela USAID, segundo Shiroma (2007) eram:

O primeiro era o de assegurar a ampliação da oferta do ensino fundamental para garantir a formação e qualificação mínimas a inserção e amplos setores das classes trabalhadoras em um processo produtivo ainda pouco exigente. O segundo, o de criar as condições para a formação de uma mão de obra qualificada para os escalões mais altos da administração pública e da indústria e que viesse a favorecer o processo de importação tecnológica e de modernização que se pretendia para o país (p.35).

O modelo educacional proposto pela USAID e implementada pelos governos latino- americanos tinha um caráter eminentemente tecnicista, voltada para atender as demandas do mercado, vista como então necessidade para se alcançar o crescimento econômico a partir da intensificação do processo de industrialização e de urbanização.

Nesse sentido, a educação dentro do planejamento da Aliança para o Progresso se tornaria o investimento mais produtivo do que qualquer outro, como afirma Gordon (1962 Apud PASSOS, 2009):

De todas as condições determinantes que fazem, hoje, os padrões de vida latino-americanos situaram-se tão abaixo dos níveis que os recursos humanos e materiais deste continente tornam possíveis, nenhuma é mais importante do que as deficiências em suas estruturas educacionais. Essas deficiências são universalmente reconhecidas. São tanto quantitativas quanto qualitativas. Nenhuma reforma de base poderia fazer mais para acelerar os desejados processos de progresso econômico e social do que a ampliação e a modernização dessas estruturas educacionais (p. 08).

Na busca da formulação de uma educação mais voltada para a reprodução do capital, os autores neoclássicos, especialmente os vinculados a Escola de Chicago, desenvolveram a ideia

da teoria do capital humano, atribuindo, assim, uma posição de destaque da educação em um possível ganho adicional para o capital (LEHER, 2014).

A formação de um capital humano, de acordo com o planejamento da Aliança para o Progresso, seria fundamental para alcançar as metas de desenvolvimento, a partir da criação de uma mão-de-obra capaz de adequar-se as novas realidades produtivas nos países latino- americanos. A educação, na América Latina, passou a ser tratada como mais uma ferramenta para o desenvolvimento industrial.

Os planos da USAID para a América Latina, para além da educação, voltava-se também para os sistemas agrários e fundiários. Mesmo o objetivo principal sendo a industrialização dos países latino-americanos, a reforma agrária teve uma atenção espacial na elaboração dos planos de desenvolvimento da região, a partir, segundo Passos (2009), de dois aspectos, acelerar a produção e evitar a dependência da exportação de produtos primários.

Assim como a educação, a questão agrária passa, necessariamente, pelos os mais diversos planejamentos de desenvolvimento para América Latina, desde as questões técnicas envolvidas nos processos produtivos dos bens primários, seja no problema da concentração fundiária, logo, pensar em desenvolvimento regional é pensar na reestruturação do modelo educativo e agrário latino-americano.

1.4 A questão agrária, o “problema da terra” e as políticas neoliberais na América Latina