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Transformations de modèles dans MDA

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Soares (2000) e Da Matta (1986), importantes pensadores brasileiros, apontam para a existência de elementos ou características culturais que atuam como fatores ou matrizes geradoras de situações de violência tão danosas ao convívio social civilizado, quanto à formação de uma sociedade democrática, menos desigual. Apontam a importância das relações pessoais, a dificuldade de vigência de princípios universais, racionais no funcionamento de instituições sociais republicanas, como forma de mediação entre grupos/ indivíduos e estas instituições. Tornou-se comum ao longo da pesquisa, parte significativa dos pesquisados assumirem sem maiores constrangimentos, a “naturalização” de princípios ou regras típicas da forma peculiar de estruturação do vínculo social no Brasil. Tal forma, conhecida pelo senso comum como “jeitinho brasileiro”, já foi usado como expediente pelos jovens entrevistados ou por indivíduos muito próximos dos mesmos, como se verifica a seguir:

“Olha, a gente sabe como é no sistema público... Eu sei que é errado, mas eu tinha um

conhecido da minha mãe que conseguiu uns remédio (sic) para mim na farmácia do hospital XXX... Meu parto também foi marcado com um pouco de facilidade... Acho que passei na frente de um monte de gente...” (entrevistada, 19 anos).

Ou também,

“...Eu sou corrupto ! Acho que o brasileiro é corrupto... Uma vez precisei dar um

‘cafezinho’ pra um patrulheiro que queria apreender meu carro... Eu disse: --- Peraí seu guarda, vamos conversar... Eu sei que a situação está difícil, mas eu só tenho esse carro para trabalhar, ter um sustento... Alivia aí, por favor, dá uma chance! Paguei R$ 60 e ficou resolvido...Quer dizer, acho errado, sabe, mas todo mundo faz... É só olhar esses políticos safados, robam e robam e não acontece nada...” (homem, 28 anos).

Significa dizer, “reprovo” a corrupção nas instâncias superiores do poder estatal, porém “ajo” com valores morais ambíguos, dúbios. É por isso também, que os jovens pesquisados possuem uma representação social bem negativa do Poder Judiciário brasileiro. Tido como “injusto”, inoperante, leniente com a “bandidagem”, o Judiciário e seus

operadores, juízes, promotores são percebidos como aqueles que, após o trabalho policial de captura e aprisionamento, soltam os “marginais”. Tal posicionamento simbólico dos jovens pesquisados, penso confirmar a constatação feita por Adorno & Cardia (1999) que nosso Sistema de Justiça Criminal não atingiu ainda a legitimidade que contribui para a institucionalização de tensões e conflitos e a percepção de tal sistema como principal administrador de litígios, conflitos.

Caldeira (2000) defende que um dos principais elementos que diferencia ou singulariza a vida urbana, o “morar na cidade”, é a (rica) possibilidade de se cruzar e até conhecer indivíduos, sujeitos diferentes. A heterogeneidade urbana, o anonimato que os espaços, as relações impessoais mediadas pelo dinheiro proporcionam, conforme bem ilustrou Simmel, ainda no século XIX, possibilita essa maior número de contatos e interações sociais. Todavia, o que se observa é um crescimento no contexto atual, de formas de “viver e morar” na cidade que até inviabilizam o contato com a alteridade (Caldeira, 2000; Zaluar, 1998).

“Enclaves fortificados” (conforme Caldeira), condomínios horizontais, “emergência de uma espécie de “comunidade de iguais” (conforme Zaluar, 1998) pautada na proximidade de posições e status sociais, se apresenta como uma das características marcantes da vida urbana contemporânea. Tal tendência ou como anunciam as peças publicitárias, “uma nova concepção de morar, de lazer, conforto e segurança”, parece atingir também as cidades de médio porte.

Em várias ocasiões, durante o período de pesquisa empírica, freqüentei condomínios horizontais e verticais, com guardas, monitoramento eletrônico por câmeras, residências com muros e grades a perder de vista, assemelhadas a mini-fortalezas, que expressavam de modo concreto o receio e o medo de ser surpreendido por um outro, um estranho, que possa infringir algum dano ou violar a tranqüilidade do “lar”. Nos bairros mais afastados, geralmente um cachorro, a vigilância solidária do vizinho e até portões e muros altos que inviabilizam qualquer olhada curiosa no interior da residência. “...Deus e

os vizinhos...” foi a resposta que encontrei ao perguntar informalmente, a um dos moradores da casa de um dos entrevistados, como se defendem ou se previnem com relação à violência.

Em termos de renda, essa pesquisa trabalhou com jovens cujos pais tinham renda mensal aproximada de R$ 15 mil até jovens com renda de R$ 400. Com relação à idade, a base empírica variou de 15 a 28 anos. Se pudesse traçar um breve perfil com as principais características definidoras dos jovens investigados me depararia com extremos. Nessa pesquisa, entrevistei desde jovens com a família aparentemente estruturada até jovens cujo pai ou mãe tentaram suicídio. Investiguei jovens que vivenciaram a situação de se inserirem precocemente no mercado de trabalho até jovens cujos pais querem adiar ou evitar o momento de inserção laboral ou busca de um emprego. Em comum guardam um certo desconforto ou receio em relação ao seu futuro (profissional, familiar) e também um certo pessimismo em relação ao futuro da sociedade brasileira. A descrença (e até revolta !) nas instituições políticas e religiosas por exemplo, podem revelar uma certa inadaptação com relação aos valores e práticas herdados das gerações mais velhas.

A partir do exposto acima, torna-se questionável também, a percepção e argumento muitas vezes levantado por cientistas sociais e profissionais dos meios de comunicação, que superestimam o papel e poder de influência de veículos como a televisão, o cinema, a publicidade na construção das representações sociais dos jovens brasileiros. É como se estes fossem seres passivos, verdadeiros autômatos, destituídos da menor capacidade de questionamento ou discordância com o que lhes é apresentado no dia a dia. Há um processo de reelaboração, de ressignificação constante, permanente, dos conteúdos, valores, formas de comportamento apresentados por exemplo, em filmes, novelas, propagandas.

Ao analisar as trajetórias individuais dos jovens pesquisados a partir de suas representações sociais, emergiram narrativas em que a violência enquanto prática ou fenômeno social fazia parte das experiências desses jovens. Independente de sua inserção ou posição na estrutura das relações sociais. Não era algo que estava presente apenas nos programas televisivos sensacionalistas, portanto distante da realidade desses jovens. Roubos, ofensas, brigas em família ou no bairro, a observação de homicídios se constituíam em experiências que fizeram parte da trajetória desses jovens. Entre os jovens moradores dos bairros centrais e com condições sócio-culturais melhores, várias foram as ocasiões em que foram alvo de roubo e com freqüência seus pais se mudaram de bairros que residiam motivados pelo sentimento de medo da violência.

Outra forma de violência bastante presente em suas representações é aquela classificada como violência simbólica, contida nas manifestações de preconceito, ofensas, busca de distinção social através da desvalorização de características do outro. A escola, nesse sentido, como espaço social e simbólico, se constitui em local privilegiado para tais ocorrências. Justamente pelo fato de estes passarem boa parte de sua curta trajetória existencial em tal instituição. Na fala de diversos jovens torna-se comum a lembrança de situações em que a segregação de determinados estudantes se dava ou pelo status social, econômico ou pela cor da pele:

“...na escola particular tem dessas coisas, alguns acham que são donos do mundo...Já

presenciei na sala que eu tava, grupinhos em que só entrava quem era de família que tinha nome, dinheiro...” (homem, 20anos)

“...eu quando estudava eu tinha uma amiga que era negra, e assim ela tinha uma

inteligência extraordinária...era uma pessoa super divertida, eu perdi colegas por causa de eu ter amizade com ela, por que eu tinha amigas que falavam que não ia com essa neguinha... então era ridículo esse tipo de preconceito, acho assim, que a gente não tem distinção de raça, todos nós temos os mesmos direitos e os mesmos deveres, porque se negro fosse inferior não existiria bandido branco... Eu tenho um amigo meu que foi preso por causa de preconceito, ele chamou um motorista de ônibus de macaco... Ele ficou lá uma noite só porque o cara tirou a queixa, eu acho que isso serviu de lição para ele...”

(mulher, 21 anos).

E também fora da escola, espaços como o shopping center da cidade aparecem, nas narrativas, como um local de ocorrência de preconceito:

“...quando você entra no shopping, naaa... [não lembra o nome da loja] quer dizer eu

não lembro o nome da loja, mas é a quarta loja, que vende vestido, a mulher ficou me olhando e não foi me atender...Aí entrou minha amiga XXX logo atrás de mim...aí elas foram atender a XXX...ela falou, não, não é eu que quero (sic) comprar, é ela... Aí ela

falou: Ah! Pois não, posso ajudá-la ? Eu falei: Não, não pode mais e saí...”

(mulher, 17 anos)

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