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La transformation des représentations et des usages sous l’effet des politiques

Dans le document RAPPORT D´INFORMATION (Page 65-87)

B. FORMALISER LES DROITS FONCIERS SANS TRAHIR LES PRATIQUES

1. La transformation des représentations et des usages sous l’effet des politiques

O discurso da mídia esteve presente nas análises que já fizemos e pudemos ver como interfere na construção do imaginário e de uma formação discursiva que vai estabilizando alguns sentidos sobre Cidade de Deus. Porém, para além do livro e do filme que são textos produzidos há alguns anos, esse imaginário é constantemente revisitado por novos textos e produções que atualizam essa memória discursiva retornando com os já-ditos sobre Cidade de Deus. O discurso da mídia apresenta-se como um dos principais meios de circulação e manutenção da memória de certos discursos, impedindo que os mesmos caiam no esquecimento. Dela-Silva, ao analisar o discurso da imprensa sobre o aparecimento da televisão faz a seguinte observação:

[…] ser mídia equivale a possuir uma ampla circulação e um ritmo de produção industrial, que permite o alcance junto ao público. O caráter industrial nas comunicações apresenta-se em conseqüência da busca por novos públicos e da ampliação das empresas de comunicação, inicialmente da imprensa, por meio da inserção de publicidades e de elementos voltados ao entretenimento nos jornais, como os folhetins. (2008, p. 9)

Essa característica, de produção industrial dos textos, coloca em circulação novos sentidos que reformulam a memória discursiva ressignificando os discursos. A circulação da nomeação Cidade de Deus nos veículos de comunicação segue nesse ritmo com notícias, produções culturais e reportagens que trazem textos e sentidos em condições de produção variadas retomando a memória discursiva de formação do bairro, agora atravessada pelos sentidos do ficcional trazido pelo discurso literário e posteriormente intensificado pelo discurso fílmico. Dentro desse discurso da mídia, os dois principais no que se refere a intensificar a circulação e a sedimentação dos sentidos que formam o imaginário a respeito de Cidade de Deus, são o discurso jornalístico e o televisivo. Ambos discursos que circulam através da mídia são uma forma de discurso sobre, ou seja, um discurso intermediário que se coloca entre o discurso de origem e o interlocutor e que veremos separadamente mais à frente. Para completar esse processo de circulação em diferentes espaços e materialidades, temos o espaço digital como um importante lugar de atualização da memória e da circulação, tanto dos discursos jornalístico e televisivo, quanto de

discursos produzidos no próprio ambiente digital. Vamos compreender melhor cada um desses discursos ao analisar os recortes selecionados de cada materialidade.

3.1 – Cidade de Deus no discurso jornalístico

Como já introduzimos, o discurso jornalístico é uma espécie de discurso sobre (conceito que pode ser identificado em muitos outros discursos) trazendo sentidos e relatos de um discurso de origem e os reorganizando em um novo discurso, intermediado por um novo enunciador que, à uma certa distância dos acontecimentos, irá transmitir esses fatos a interlocutores que por motivos diversos não têm acesso aos sentidos do discurso de origem inserido neste discurso intermediário. A autora Bethania Mariani ao refletir sobre essa questão diz que os discursos sobre “de modo geral, representam lugares de autoridade em que se efetua alguma transmissão de conhecimento” (p. 64, 1996) e nos esclarece melhor seu funcionamento:

[…] um efeito imediato do falar sobre é tornar objeto aquilo sobre o que se fala. Por esse viés, o sujeito enunciador produz um efeito de distanciamento – o jornalista projeta a imagem de um observador imparcial – e marca uma diferença com relação ao que é falado, podendo, desta forma, formular juízos de valor, emitir opiniões etc, justamente porque não se envolveu com a questão. (Ibid., p. 60)

No caso do discurso sobre jornalístico, neste lugar de autoridade e de observador o jornalista é o sujeito-enunciador que interpreta, ordena os fatos cotidianos e reproduz os sentidos e relatos reorganizando os acontecimentos em um novo discurso que é ressignificado pela posição que ocupa. É um discurso que tem o objetivo de noticiar e manter-se imparcial, porém esta intencionalidade não se realiza – por todas as questões discursivas que já abordamos como a incompletude da língua, os sentidos que a todo momento podem tornar-se outros, as diferentes posições que interferem nos efeitos de sentido, etc., e “mascara-se um apagamento da interpretação em nome dos fatos que falam por si” (Ibid., p. 62). A imparcialidade no discurso jornalístico é uma ilusão, um efeito de sentido presente no imaginário dos sujeitos leitores e até mesmo do jornalista que afirma produzir discursos isentos e objetivos quando isto é uma impossibilidade:

[…] o discurso jornalístico atribui-se a objetividade, a imparcialidade e a veracidade da informação, produzindo (não exclusivamente apenas por este viés) a impresssão de que o acontecimento narrado/descrito de fato ocorreu daquele único modo. O efeito de real é obtido através de diferentes mecanismos discursivos, estratégias estas que conduzem o público leitor a se reconhecer no imaginário engendrado pelo jornal. (Ibid., p. 154)

O discurso relatado é outra forma discursiva que também encontramos na constituição do discurso jornalístico revelando a presença do outro no discurso. Nas palavras de Authier-Revuz (1998, p. 133) o discurso relatado é um “modo de representação no discurso de um discurso outro” e sua função é reproduzir um ato de enunciação no interior de um novo discurso. No caso do discurso jornalístico, temos o discurso relatado quando o ato de enunciação de um outro sujeito, muitas vezes denominado entrevistado, tem espaço no discurso produzido pelo jornalista. Tanto o conceito de discurso sobre quanto o de discurso relatado são importantes para compreendermos o funcionamento do discurso jornalístico que se apresenta no material que iremos analisar, não somente nos recortes de jornais impressos como também nas outras formas materiais.

Há outros discursos que se constituem assim, como um discurso intermediário que se sobrepõe aos discursos de origem, porém o jornalístico considera que é possível haver uma posição de neutralidade, que é capaz de retratar a verdade sobre os fatos, num jogo contínuo entre verdade e objetividade que não encontramos no discurso literário, por exemplo, que também poderia ser observado desse ponto de vista. A constituição do regime discursivo de um não é o mesmo do outro e enquanto o ficcional é uma característica aceita no literário, no discurso jornalístico, ainda que em algumas circunstâncias ele seja atravessado por esse sentido, ele é negado e silenciado.

Nos discursos jornalísticos trazidos para a pesquisa, específicos sobre Cidade de Deus, temos o relato de moradores, de policiais, a posição do próprio jornalista, o atravessamento do sentido ficcional, cada voz trazendo sentidos dessa nomeação a partir do lugar sócio-histórico que ocupam. São textos mediados por inúmeros sujeitos como a fonte ou entrevistados, o próprio jornalista, o editor, entre outras posições. E, embora os jornalistas responsáveis pelo dizer sejam distintos, muitas vezes os discursos assemelham-se entre si porque textos jornalísticos filiam- se à mesma formação discursiva e ao formularem os discursos os sujeitos o fazem

ocupando a posição-jornalista, que é a mesma para todos. Ou seja, independente do veículo ao qual estejam vinculados, a filiação discursiva dos jornalistas é a mesma e portanto os sentidos tendem a apresentar as mesmas regularidades, sem muita tensão entre o mesmo e o diferente. Ao selecionar as matérias para a análise, priorizamos matérias que ressoavam sentidos dos discursos literário e fílmico e também que nos permitissem observar como os sentidos foram se movimentando ao longo dos anos, ou seja, selecionamos 2 textos produzidos menos de um ano após o lançamento do filme (TJ1 e TJ2), um texto produzido quase uma década depois (TJ3) e, por último, uma reportagem bem recente, de 2016 (TJ4). Vejamos como se dá o funcionamento da nomeação Cidade de Deus nestes discursos.

Nosso primeiro recorte de textos jornalísticos, o Texto 123 (TJ1), tem o título “CIDADE DE DEUS – Moradores de local retratado pela obra afirmam que preconceito se manifesta na hora de buscar emprego e crédito – Filme gera discriminação, dizem favelados” 24. A matéria foi publicada na Folha de São Paulo

em 13 de janeiro de 2003, aproximadamente 5 meses após o lançamento do filme. Pelo título, interpretamos que o texto tem a intenção de relatar como o filme afetou negativamente o imaginário dos sujeitos a respeito de quem vive no bairro, porém a análise vai mostrando alguns equívocos.

No título percebemos como a discriminação referida fica materializada na língua, o jornalista marca uma diferença entre sua posição e a dos moradores ao enunciar a primeira frase com um distanciamento. Através do verbo “dizem” na segunda frase, sua formulação evidencia que a afirmação “filme gera discriminação” é de outros enunciadores, enquanto no final da frase a sua posição-jornalista aparece e ele denomina esses enunciadores de “favelados”. No início do título ele refere-se aos sujeitos de Cidade de Deus como “moradores de local” marcando seu distanciamento usando palavras como “retratado”, “afirmam” e “se manifesta”, porém após introduzir o discurso de outro enunciador a sua objetividade desliza e ele refere-se a esse morador como favelado, uma palavra marcada por sentidos que marginalizam o sujeito, que o colocam em uma posição à parte da sociedade, usada

23

Seguindo o padrão estabelecido na abreviação dos recortes, nos textos jornalísticos usei o TJ maiúsculo antes dos números para facilitar a identificação dos trechos de recortes dispersos ao longo do capítulo.

24

CIDADE DE DEUS – Moradores de local retratado pela obra afirmam que preconceito se manifesta na hora de buscar emprego e crédito - Filme gera discriminação, dizem favelados. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1301200315.htm Acessado em 21/04/2016.

justamente no título de uma matéria que aponta querer denunciar esse sentido negativo. Esse equívoco mostra como o sentido deriva rapidamente de morador para favelado – demonstrando na constituição do discurso como esses sentidos estão relacionados e significam a mesma coisa quando se fala de alguém que reside em Cidade de Deus. O equívoco materializa no discurso uma discriminação que os sujeitos que vivem em Cidade de Deus são obrigados a conviver no dia a dia, à margem do Estado e da mídia que se interessa por suas questões quando deseja relatar fatos relacionados à violência e à marginalização. Na sequência, o texto25 (TJ1) traz as razões da discriminação:

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