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Neste estudo foi avaliada a influência do horário de trabalho, do gênero e de um programa de educação sobre o sono no CSV de professores do ensino fundamental e médio. Dentre as variáveis avaliadas, o horário de início do trabalho pela manhã é o principal fator que influencia o componente circadiano de regulação do sono, determinando a hora de acordar dos professores durante a semana, semelhante ao observado em professores do ensino médio (Souza et al. 2012), e para adolescentes (Wolfson & Carskadon 1998; Carskadon, Acebo & Jenni 2004).

Entretanto, este estudo ampliou este resultado para os professores do ensino fundamental e encontrou que esta influência independe do cronotipo, do gênero, ou da participação em um programa de educação sobre o sono. Os professores que não sofrem a influência do horário de início do trabalho sobre o componente circadiano de regulação do sono são os que lecionam à tarde, o que garante uma vantagem, pois apresentam horários de acordar mais tardios, e uma minoria deste grupo é classificada com sonolência diurna excessiva e má qualidade de sono em relação aos outros professores. Entretanto, este grupo apresenta algumas características peculiares de trabalho citadas no estudo 1, que podem ter influenciado este resultado.

Neste estudo, observamos que o desafio temporal enfrentado pelos professores em função de diferenças entre o horário de acordar cedo para o trabalho e o horário biológico preferencial varia de intensidade de acordo com o cronotipo. Como esperado os professores intermediários e com tendência à vespertinidade apresentam maior irregularidade nos horários de acordar entre semana e fim de semana, e maior duração de sono no fim de semana em relação aos matutinos e aos professores de todos os cronotipos que iniciam o trabalho à tarde. A irregularidade no horário de acordar foi semelhante para os gêneros e não mudou após a intervenção educacional sobre o sono.

Esta irregularidade aliada ao aumento na duração do sono no fim de semana que ocorre devido à regulação homeostática do sono, aponta que os professores sofrem de privação parcial de sono durante a semana, o que é característico dos dias de trabalho. A privação parcial na semana foi observada nos professores com cronotipos intermediários e com tendência a vespertinidade que iniciam o trabalho pela manhã, em ambos os gêneros, e não mudou após participação no programa educacional. Entretanto, o aumento na duração do sono no fim de semana é maior nas mulheres em relação aos homens, quando o horário de início e fim do trabalho, e idade são semelhantes entre eles, o que pode ser devido a uma maior necessidade de sono relatada por mulheres (Tonetti et al. 2008), somada ao não cumprimento da necessidade biológica de sono durante a semana.

Outro resultado que corrobora com a ideia de que os componentes homeostático e circadiano de regulação do sono estão sendo influenciados durante a semana, é que a maioria dos professores que lecionam pela manhã de ambos os gêneros, relatam fazer uso do despertador para acordar devido ao horário trabalho, enquanto, no fim de semana acordam espontaneamente. Desta forma, a necessidade fisiológica quanto à duração de sono e o horário preferencial do CSV não estão sendo cumpridos pelos professores. Este perfil não ocorre para os professores que iniciam o trabalho à tarde, e não muda após o programa de educação. No fim de semana, os relatos de acordar espontaneamente aumentam para todos os professores de ambos os gêneros, porém as mulheres aumentam o relato de acordar porque alguém chama ou devido aos afazeres domésticos, enquanto os homens aumentam o relato de acordar por não sentir sono. Estas características apontam que as diferenças existentes entre os gêneros seriam decorrentes de fatores sócio-culturais (Wilson et al. 1990; Park et al. 1997), como a dupla jornada feminina.

A dupla jornada de trabalho feminina pode ter acarretado em maior porcentagem de professoras com relato de sinais de sonolência ao acordar tanto na semana quanto no fim de semana, classificadas com má qualidade de sono, e com mais cochilos no fim de semana em relação aos homens. Além disso, estas consequências podem ocorrer devido as mulheres apresentarem maior necessidade de sono em relação aos homens (Tonetti et al. 2008), o que acarretaria numa maior privação de sono na semana.

Vale ressaltar que algumas consequências observadas nas mulheres foram atenuadas pelo programa de educação, pois a porcentagem de mulheres com má qualidade de sono e relato de sinais de sonolência ao acordar diminuiu no grupo experimental após o programa. Além disso, o programa de educação sobre o sono também aumentou o conhecimento e diminuiu a prática de alguns hábitos inadequados de sono próximo ao horário de dormir. Isto pode ter sido decorrente da metodologia adotada no programa que contribuiu para manter as professoras motivadas ao longo do curso e acarretou em resultados favoráveis à saúde como a melhora da qualidade do sono. Contudo não foi suficiente para mudanças no padrão do CSV, ou estas mudanças não ocorreram devido as diferentes pressões sofridas pelos docentes no âmbito pessoal e profissional.

Com relação ao horário de dormir, este parece ser determinado pelo cronotipo, pois não difere em relação aos diferentes horários de finalizar o trabalho, entretanto os professores com tendência a matutinidade e as mulheres na amostra total dormem mais cedo que os professores dos outros cronotipos e os homens, respectivamente. Porém, apesar deste resultado nas mulheres estar de acordo com a literatura, pode estar sendo influenciado pelas características de trabalho que são diferentes entre os gêneros e foram discutidas anteriormente no estudo 2. Outro resultado que provavelmente foi influenciado pelas características de trabalho foi à sonolência diurna excessiva que está

presente na maioria dos professores que lecionam pela manhã e nas mulheres da amostra total, sem diferenças com relação ao cronotipo, porém este resultado com relação ao gênero desaparece quando o horário de trabalho e a idade são semelhantes.

Portanto, apesar dos resultados da amostra total estarem de acordo com o esperado pela literatura, é necessário aumentar a amostra pareada para confirmar os resultados observados neste estudo, pois a amostra total de acordo com o gênero apresenta uma proporção de 46% de mulheres a mais que os homens, refletindo a grande maioria de mulheres na docência.

A função docente é caracterizada por uma intensificação no trabalho com caráter quantitativo e qualitativo, o primeiro relacionado ao aumento do volume de tarefas da profissão e o segundo pela busca e cobrança por uma educação de qualidade, porém sem o necessário suporte estrutural e social (Assunção e Oliveira 2009). Além disso, a jornada de trabalho feminina em casa pode contribuir ainda mais para a sobrecarga destes indivíduos. Desta forma, é importante ressaltar que a avaliação do ciclo sono e vigília de professores considerando as características quantitativas e qualitativas relacionadas à função docente e abrangendo as diferenças pessoais com relação à família, idade e gênero é um grande desafio a ser enfrentado, porém necessário no contexto atual, onde os problemas de sono são frequentes e são considerados problemas de saúde pública.

Entre os desafios enfrentados nesta pesquisa, vale ressaltar algumas limitações na coleta de dados, que foram observadas mesmo com o grande interesse das direções e da equipe pedagógica das escolas em participar da pesquisa. Por exemplo, algumas escolas disponibilizaram apenas o curto tempo do intervalo (± 15 minutos) para o contato com os professores, momento usado para a socialização e para a alimentação dos professores. Outras limitações são relacionadas às características da profissão

docente, tais como, muitos afazeres e pouco tempo disponível para o preenchimento dos questionários foram justificativas relatadas por 27 % dos professores abordados que não aceitaram participar da pesquisa. Entre os professores que aceitaram participar, alguns desistiram alegando o elevado número de questionários e outros não devolveram em razão de esquecimento.

Apesar das dificuldades encontradas na realização desta pesquisa, deve-se considerar que este profissional apresenta problemas relacionados ao sono que podem ser decorrentes das características da profissão, que seriam acentuados com a prática de hábitos inadequados de sono. Portanto, faz-se necessário dar continuidade às pesquisas com professores para aumentar o conhecimento sobre o efeito das variáveis aqui analisadas, e incluir outras, tais como: o tempo gasto com preparação de aulas e estudo, e com a formação continuada; o envolvimento em outra profissão, além da docência; e a carga horária com afazeres domésticos. Ao mesmo tempo é importante avaliar as consequências da redução do sono na semana e da irregularidade nos horários de sono sobre a saúde e desempenho cognitivo do professor, e consequentemente na função docente.

Por fim, é importante ressaltar que o Ministério da Saúde do Brasil apresentou em 2001 um manual que contém uma relação de doenças relacionadas ao trabalho, que aponta os distúrbios do ciclo sono e vigília como uma doença ocupacional (Servilha et al. 2010). Considerando o contexto de vida do professor e os resultados observados neste trabalho que podem levar a problemas de sono e saúde do professor, além da possibilidade de estar afetando o desempenho na sala de aula e consequentemente a educação dos estudantes, faz-se necessário discutir sobre mudanças na legislação em relação às condições de trabalho do professor. Além disso, é importante continuar o desenvolvimento de programas de educação sobre o sono para os professores, visto que,

a educação sobre o sono pode contribuir para a saúde do professor e para que o mesmo possa divulgar e disseminar seu conhecimento no âmbito escolar para os alunos e familiares, usando como base materiais didáticos, tais como o produzido e distribuído para as professoras que participaram do programa de educação.

9 - CONCLUSÃO

O horário de início da escola pela manhã é o principal fator na determinação dos horários de acordar dos professores na semana, principalmente para os de cronotipo intermediário e os com tendência à vespertinidade, independente do gênero e da participação em um programa de educação. Além disso, estes professores apresentam redução do sono na semana em relação ao fim de semana, o que não é observado para aqueles que iniciam o trabalho à tarde. Portanto, trabalhar apenas neste turno confere melhores condições de sono e vigília em relação àqueles que iniciam o trabalho pela manhã.

A má qualidade do sono é uma característica presente na maioria dos professores, sendo mais frequente nas mulheres. Ainda nas mulheres é encontrado maior relato de sinais de sonolência ao acordar em relação aos homens, provavelmente decorrente da maior necessidade de sono deste gênero aliado ao não cumprimento desta necessidade.

O programa de educação sobre o sono foi eficaz no aumento do conhecimento, diminuição de alguns hábitos inadequados de sono próximo ao horário de dormir e na melhora da qualidade de sono. Embora, não tenha sido suficiente para mudar o padrão de sono das professoras. No entanto, considerando os resultados positivos, este tipo de estratégia deve continuar sendo utilizada no âmbito escolar, para contribuir com a melhora nos hábitos de sono e consequentemente na saúde e qualidade de vida dos professores.

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