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Transferts d’´energie cin´etique `a travers les ´echelles de temps . 24

1.4 La g´en´eration spontan´ee de variabilit´e intrins`eque dans l’oc´ean et ses

1.4.2 Transferts d’´energie cin´etique `a travers les ´echelles de temps . 24

Como já referimos anteriormente, os estudos de caso implicam uma grande envolvência por parte do investigador sobre o fenómeno em estudo. Do mesmo modo, a interpretação dos resultados também implica essa mesma envolvência, passando por um processo cognitivo e indutivo através dos vários instrumentos utilizados na investigação (Simons, 2011).

Assim, numa macro-análise dos resultados obtidos permite-nos afirmar que existem três grandes dimensões na construção família recomposta: a construção da relação conjugal, a construção do papel do padrasto e a construção da relação entre padrasto e enteado. Contudo, numa micro-análise verificamos que outros temas e outras dimensões emergem dando rosto a uma visão mais completa e mais complexa da família recomposta. Os resultados obtidos através dos diferentes instrumentos mostrou- nos uma complexidade relacional, marcada pela influência de várias dimensões que se cruzam como a história relacional anterior, corte emocional, reconhecimento, idealizações, inter-relação entre subsistema conjugal e filiar, idealizações, diferenças no ciclo vital da família, a centralidade da figura materna, ausências, conflitos de lealdade e de pertença onde o tempo é um factor essencial no processo de recomposição familiar.

7.1. A construção da relação conjugal

A construção da relação conjugal nesta família recomposta aparece intimamente relacionada com a presença do filho da anterior relação. Esta relação observa-se no quotidiano através do apoio do instrumental que é prestado ao enteado, através dos medos presentes na união, que se manifestam pelo receio de uma interferência do filho na relação conjugal, bem como, no processo de definição do papel do padrasto que interfere com o laço conjugal. Do mesmo modo, após a união familiar o casal necessita de se adaptar às

Figura 3. Mútua influência entre subsistema

visitas do filho aos familiares paternos, bem como, construir o laço conjugal e a parentalidade, afectiva e biológica.

Ora, este encontro entre subsistema conjugal e filial implica que o casal tenha flexibilidade e abertura, por um lado, em acolher as demandas do subsistema filial e por outro lado, em investir na construção do laço conjugal. Estes dados vão ao encontro do que é referido na literatura, que indica que a formação do casal é indissociável da parentalidade (Visher & Visher, 1993; Alarcão, 2002). Deste modo, tal como nos indica Greco e Roncari (2006) a capacidade de transformar a ambiguidade dos limites numa permeabilidade é uma competência que as famílias reconstituídas devem alcançar. A ausência de flexibilidade do casal pode tornar-se numa dificuldade tanto ao nível do casal como do subsistema filial, podendo comprometer toda a recomposição familiar. Ou seja, esta ausência de flexibilidade pode criar fronteiras familiares muito rígidas na relação entre o casal e o subsistema filial, dificultando subsequentemente a construção das relações familiares podendo aumentar os conflitos entre os membros da família.

Neste processo, verificamos que no casal, a comunicação apresenta-se como uma ferramenta fundamental para monitorizar e gerir a interferência entre subsistema filial e conjugal. Designadamente, o casal constrói estratégias de comunicação sobre as dificuldades da integração do padrasto e as dificuldades de integração do filho. Por outro lado, são criadas estratégias comunicacionais com o filho de forma a introduzir o padrasto na família, bem como, transmitir-lhe a mensagem da construção de um projecto comum de família. A dimensão da comunicação é um factor importante nas famílias recompostas, tal como nos mostra Hetherington e Climgempeel (1992), os casais de famílias recompostas quando comparados com os casais de primeiros casamentos apresentam uma comunicação negativa e baixos níveis de satisfação conjugal.

Quanto à construção do laço conjugal, denota-se a presença da dimensão afectiva da relação que se observa através dos gostos em comum, da empatia mas também da dimensão relacional, que se expressa a necessidade de abertura ao cônjuge. Do mesmo modo, está presente a dimensão ética da relação que se traduz no reconhecimento, no respeito e na confiança. Contudo, verificam-se algumas dificuldades associadas na abertura ao Outro, na presença de recordações da primeira família.

Denota-se na relação conjugal a existência de idealizações e expectativas na nova relação vividas de forma diferente pelos membros do casal. Assim, apesar de

existirem idealizações normais inerentes à construção de uma relação conjugal, nomeadamente o morar juntos e uma imagem de um projecto de família. Contudo, encontramos alguns indicadores que podem dificultar este processo, indicando-nos que o membro do casal que recasa, existe o desejo de que o novo companheiro seja melhor que o anterior enquanto que para o padrasto existe o desejo de ser reconhecido pela sua unicidade, enquadrando-o numa nova etapa da vida da companheira. Tal como nos mostra Hetherington e Kelly (2002; cit. in Higginbotham, 2005), é comum nos casais recasados existir crenças de que o novo companheiro não terá as qualidades negativas que o ex-cônjuge. Segundo os autores estamos perante o mito da compensação, baseado na crença de que o novo cônjuge será melhor do que o anterior, de que irá preencher algum vazio emocional deixado pelo anterior marido.

Esta dissonância entre os membros do casal pode levar á construção de um pseudo-laço conjugal ou até impedir a sua construção plena. Ou seja, a existência de crenças irrealistas sobre o Outro e sobre a nova relação poderão levar à construção de uma relação conjugal baseada na ilusão, podendo afectar o comprometimento de cada um dos membros do casal onde ao mínimo conflito poderá desencadear a ruptura da relação. Esta interpretação pode ser analisada pela figura 4 que apresentamos seguidamente, baseada no modelo relacional simbólico.

Uma leitura dos dados a partir da abordagem relacional-simbólica, na sua concepção do pacto conjugal, os resultados parecem indicar-nos que o pacto secreto tem raízes diferentes nos membros do casal. Com nos mostra Scabini e Cigoli (2000) o pacto secreto é composto, na sua base inconsciente, de sonhos, medos, de expectativas, de valores, de ideais que cada membro do casal transporta para relação pela sua história pessoal e familiar, aspirando à sua satisfação no laço conjugal. Se num percurso normativo estas dimensões do pacto secreto ocorrem ao mesmo nível para ambos os cônjuges, nas famílias recompostas os membros do casal tem matrizes com diferentes origens. Na família em estudo, para a mãe existe expectativas e idealizações ligadas à anterior união, de que o novo companheiro e a nova relação seja diferente do que a anterior. Para o padrasto, para além de existir as idealizações normais existem medos, relacionados com o subsistema filiar, que se traduzem no receio constante de ser preterido em relação ao filho seja o padrasto existe medos inflacionados pelo subsistema filial e as idealizações e expectativas inerentes à construção de uma união. Nesta perspectiva, como nos ilustra a figura a construção da relação conjugal pode fundar-se num pacto de ilusão entre o pólo afectivo (crenças e medos) e o pólo ético (menor

comprometimento na relação). Este pólo afectivo encontra-se com o pacto secreto e o pólo ético com o pacto declarado. Ora, se o pacto secreto é composto por medos e idealizações compensatórias pode dificultar a construção da confiança do pólo afectivo. Para além disso, pode provocar nos membros do casal um menor comprometimento e uma ausência de reciprocidade no pólo ético e consequentemente um desequilíbrio na dialéctica entre pólo afectivo-pólo ético, a dialéctica dar e receber presente nas relações.

Estas diferenças entre os membros do casal podem também demonstrar as diferentes etapas do ciclo de vida que os membros do casal atravessam. Tal como nos mostra a figura 5. Se para a mãe existe a necessidade de assegurar o bem-estar do filho no novo sistema familiar, existe o desejo de pessoal de recriar a sua própria história, que simultaneamente se cruza com a história passada, existe a necessidade de redefinir as fronteiras familiares com o filho, com a família de origem e com a família do padrasto, redefinir a sua relação com o ex-marido e construir o laço conjugal. No caso do padrasto, existe o desejo de construir o laço conjugal não se deparando com uma história relacional passada marcada pelo divórcio, legitimar a sua presença na nova

Qualidade simbólica da relação conjugal

PACTO IlUSÃO Pólo Afectivo Pólo Ético Crenças Medo Menor comprometimento

Laço que se manifesta pela ausência do “Dom”

Pacto Secreto

Pacto Declaro

Figura 4. Esquema ilustrativo do possível pacto conjugal na

Redefinir relação com o contexto social Construir laço conjugal Redefinir relação com ex-marido Redefinir fronteiras (pais padrasto) Redefinir fronteiras (pais) Redefinir Fronteiras (filho) Nova história Vs Passado Bem-estar do filho MÃE Redefinir relação com contexto social Construir relação com a família da companheira Redefinir relação com família origem Construir parentalidade Adaptação ex-marido/ história passada Legitimar a sua presença Construir laço conjugal PADRASTO

família, adaptar-se à presença do ex-marido e a uma história passada, construir uma parentalidade afectiva e biológica, redefinir as relações familiares com as famílias de origem, construir a relação com a família de origem da companheira e com o meio social. O casal é chamada a atender a todas estas tarefas desenvolvimentais ao mesmo tempo que tem que ser permeável para a construção da relação conjugal. Podemos dizer que na família recomposta existe um encontro entre vários ciclos de vida, individual e familiar. Para além disso, nesta família várias fases do ciclo de vida familiar ocorrem em simultâneo, nomeadamente a construção da relação conjugal, a construção da parentalidade, a construção das relações entre casal e famílias de origem, a redefinição da relação com o ex-marido e a redefinição da relação com o meio social.

Falar de recomposição familiar e da relação conjugal implica também falar com os membros ausentes, designadamente da relação com o ex-marido. Esta relação passada manifesta-se de forma diferente no subsistema conjugal e no subsistema filial, que abordaremos posteriormente. No casal, no caso da esposa não existe uma proximidade entre o ex-casal denotando-se uma dificuldade em perceber qual a atitude a tomar em relação ao ex-marido sobre a nova união, o padrasto enquadra a anterior relação numa outra etapa da vida passada com a qual pretende um corte. Como Bowen (1998) nos indica, o corte emocional pode ser indicador de uma falta de pertença

familiar, no padrasto esta tentativa de corte emocional ou negação da relação passada pode ser compreendida como uma tentativa de legitimação do padrasto na nova família. Trata-se de um mecanismo que consiste num anulamento do Outro como forma de auto- legitimização e reconhecimento de si.

Esta relação com a história relacional passada tem a sua manifestação simbólica na relação do casal com os objectos ligados à união anterior. Apesar de num momento a mãe referir alguma dificuldade em desfazer-se destes bens para o padrasto é necessário um corte imediato. Porém, esta relação simbólica com os bens da primeira família manifesta-se completamente diferente para o filho, que para si se traduz num património familiar.

Esta diferença entre mãe e filho e a sua relação com o passado sugere-nos diferentes etapas do luto em relação à primeira união. Se para a mãe, parece-nos que a ruptura conjugal aconteceu antes do divórcio e a nova união poderá significar um novo recomeço para o filho, o luto da primeira relação aparece como um elemento constante. Como podemos verificar, a dor a um divórcio e o fim a uma família se não é igual para os membros do casal também é diferente para o subsistema filial. Ora, estas diferenças entre mãe e filho podem indicar-nos a aceitação/recusa à nova união por parte do filho. Verificamos que a união familiar nesta família recomposta se pautou pela recusa inicial do filho, inflacionada pela tentativa indirecta da mãe de impor a nova relação, que se manifestou através da venda dos bens do filho relacionadas com a primeira família sem o seu conhecimento. Estes dados indicam-nos que na aceitação da nova união o processo de luto da primeira união tem um impacto importante na adaptação do filho à nova realidade familiar. Contudo, o conhecimento prévio entre padrasto e enteado, a conquista do enteado e a convivência entre ambos é responsável pela passagem da recusa inicial para uma aceitação posterior. Esta facto, encontra robustez empírica sublinha por alguns autores já abordados na fundamentação teórica desta investigação.

Quanto ao encontro entre o novo casal e as famílias de origem, verifica-se a existência de expectativas e medos por parte do casal na aceitação/recusa da nova união. Deste modo, o novo casal apresenta-se lentamente onde o padrasto é apresentado como amigo. Verifica-se que aceitação da nova relação por parte dos avós maternos está relacionada determinadas características do padrasto que se traduz na construção de uma imagem positiva de si e da nova união. Assim, a disponibilidade, o respeito pela filha e pelo neto são factores importantes na aceitação do padrasto. Contudo, não existe

Introdução do padrasto Relação Padrasto Enteado Papel educativo do padrasto MÃE

um desejo imediato de conhecer nem de aproximação entre os avós maternos e os pais do padrasto, motivado pelo medo de uma nova desilusão caso a nova união não resulte.

7.2. A construção do papel do padrasto e a construção da relação

entre padrasto e enteado

Uma das questões de investigação que norteava o nosso estudo era perceber como é construído o papel do padrasto na família recomposta. Os dados obtidos, aponta-nos vários factores que intervêm na sua construção. O primeiro factor de destaque é a relevância da figura materna. Nesta família, verificamos que a mãe assume um papel central nas relações familiares quer na introdução do padrasto na nova família, na construção da relação do padrasto e na construção do papel padrasto. Por ela passam todas as relações, todas as dinâmicas familiares. A mãe assume então uma centralidade nesta família reconstituída. Esta centralidade da figura materna foi sublinhada por parte de alguns autores da Sociologia (Blöss, 1996; Cadolle, 2000 cit in. Lobo, 2009) mas que nos parece pertinente para a compreensão deste fenómeno.

Aliás, um dos autores anteriormente citados aborda mais sinteticamente esta centralidade da figura materna, considerando-a como uma

matricentralidade. As suas considerações mostram-nos outros aspectos que nos parecem relevantes. Argumenta que esta matricentralidade não é um atributo das famílias recompostas, sendo também uma característica da maioria das famílias monoparentais. Para

além disso, revela que o destaque que lhe é dado não é coincidente com a recomposição familiar, mas um padrão já existente na família de origem antes da separação dos pais motivada pela força da divisão de papéis de género, atenuada com a entrada da mulher no mercado de trabalho (Cadolle, 2000 cit in. Lobo, 2009).

Figura 6. Esquema representativo da centralidade

Apesar de no nosso estudo esta questão de ordem social, das mudanças de género não ser o ponto central, a sua explicação mostra-nos um aspecto que consideramos muito importante e que ocorre nas famílias recompostas, o período monoparental. Este período monoparental que a família atravessa após o divórcio e antes da reconstrução familiar questiona-nos sobre que tipo de relação se estabelece entre Pai e filho, as dinâmicas relacionais construídas, como o novo núcleo familiar estabelece relações de dependência e que papel assume o filho numa família monoparental. No nosso estudo, a centralidade da figura materna é uma dimensão importante revelada pelas entrevistas, que se manifesta na comunicação entre mãe e filho, com o objectivo de o ajudar a perceber a relação passada, de o ajudar a perceber a nova relação, o novo projecto de vida mas também a fazê-lo compreender o papel do padrasto na nova família.

Para além disso, como o próprio padrasto relatou, a forte relação entre mãe e filho é um factor que dificulta a sua introdução no novo sistema familiar e a construção das relações. Esta situação observa-se através da dificuldade integrar o padrasto numa função educativa em relação ao filho/ enteado, sendo preferencialmente visto como “companheiro” e não como uma figura “parental”. Esta situação, causa desconforto para o padrasto que se auto-percepciona como uma figura sem reconhecimento na nova família, dificultando a legitimação e o desempenho do seu papel. A mudança neste processo poderá naturalmente ocorrer, para o que será fundamental a legitimação da companheira quanto ao seu lugar na nova família, possibilitando uma verdadeira mudança das fronteiras nos subsistemas familiares que parece ainda não ter acontecido.

Por outro lado, um dado importante na construção do papel do padrasto parece estar relacionado com o reconhecimento do pai. Os resultados obtidos pelas entrevistas indicam-nos que apesar do padrasto desejar ser uma referência para o enteado, desejar participar na sua educação e de ser considerado um auxílio não um substituto do pai biológico. Este reconhecimento do pai parece-nos um elemento crucial na construção do papel do padrasto, bem como, na recomposição familiar. Este reconhecimento permite que o filho não sinta a presença do padrasto como um “ataque” à sua estirpe paterna, uma substituição de uma linhagem e um património familiar pelo outro mas acima de tudo enquadrando-o numa nova história familiar.

Como abordamos anteriormente, apesar de na relação conjugal existir um desejo de cortar com a história relacional anterior não existe este corte ou substituição quando ao papel parental. Podemos dizer que este reconhecimento do pai significa também um

reconhecimento de uma história comum, de um passado familiar de uma herança paterna, também ela trigeracional. Este reconhecimento expressa-se pela inexistência de corte emocional com a estirpe paterna e pela frequência de contactos entre avós paternos e o neto, o que nos permite dizer que para o neto a existência de um eixo intergeracional paterno vivo. Partindo da concepção relacional simbólica, o reconhecimento é um aspecto fundamental das relações familiares. Para os autores, as relações familiares assentam numa tripla diferença, para além das diferenças entre género e geração assentam também numa diferença e no reconhecimento das estirpes (Cigoli & Scabini, 2007), que se traduz numa generatividade, que não deve ser entendida apenas no sentido biológico mas antes de tudo numa perspectiva simbólica e cultural e sobretudo numa continuidade da história familiar e social (Scabini & Cigoli, 2000). Este património familiar paterno expressa-se na integração dos valores a transmitir à geração futura que integra as famílias de origem paterna, materna e também a família de origem do padrasto.

Contudo, a construção do papel do padrasto apresenta duas dimensões: por um lado, por parte do padrasto existem medos, tensões e dificuldades em perceber o seu papel educativo na família, por outro lado, existe um desejo de ser uma referência e de assumir uma função educativa. Na parentalidade biológica, os papéis estão previamente estabelecidos por normas sociais, culturais, jurídicas ao contrário da parentalidade afectiva, onde o seu desempenho se constrói no tempo e numa constante aprendizagem. Alguns autores têm sublinhado a dimensão temporal nas famílias recompostas, referindo que a dimensão temporal permite aos membros da nova família a construção de uma pertença e a reconstrução das relações no novo sistema familiar (Scabini & Iafrate, 2003). Assim, é nesta dimensão temporal que o padrasto tem que construir a sua relação na família recomposta numa família onde outras relações já existiam. Tal como afirma Greco e Roncari (2006), o padrasto insere-se numa relação mãe-filho já consolidada no tempo e como tal deverá construir a sua própria posição, o seu próprio papel sem ameaçar ninguém.