7.3 Th´eories du second ordre monadique
7.3.2 Transferts de d´ecidabilit´e
A afirmação do gato Cheshire, na obra de Lewis Carrol, Alice País das Maravilhas, “O caminho a seguir depende do lugar onde se quer chegar”, leva-nos a retomar a relação entre o processo de criação e simbologia em arte.
Tomaremos este gato por lebre citando o cabalista Steffan Michel Spacher que assim descreve o lugar e o caminho da procura:
“Para penetrar en la montaña y alcanzar la vision de tan deseado conjunto el adepto deberá seguir a la liebre, animal que segun Harapolo simboliza el conocimiento de los secretos. El profano, en los ojos vendados, permanece ignorante de lo que sucede dentro de la montaña.112”
Caminhar estas realidades distintas, realidade interior e realidade exterior, encontra-se metamorfoseado na obra em função figurativa* como conjunctio.
A união das energias divinas e espirituais com as energias da terra, a união dos opostos que está presente no Universo, a coincidência dos opostos é um sinónimo de conjunctio e, segundo Gerhard Dorn, o grau mais alto de conjunctio alquímico consiste na união do homem total com o Unus Mundus.
111 Idem
112 MichelSpacher, Steffan – Cabala, Espejo del Arte e de la Naturaleza em Alquimia, 1617. www.arsgravis.com
* Função figurativa, modo propriamente criador que se dá em argumentos, nos quais a história declara o seu sentido e se
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A união sagrada, ou conjunctio, é referido por Antoine-Joseph-Pernety (1716-1796), abordando três níveis:
“O primeiro, o duplo conjunctio dá-se entre o macho e a fêmea, a forma e a substância. O segundo unifica três coisas: o corpo, a alma e o espírito; reduzindo a trindade à unidade. O terceiro, quadruplica porque unifica os quatro elementos em um, incluindo os outros três.”
Sobre esse caminhar, entre a realidade interior e exterior, subtilmente referida na asserção de Michelspacher dir-se-á do conjunctio:
“O casamento sagrado refere-se à união do espírito divino com a alma, e finalmente com o corpo. Poder-se-ia dizer que o espírito humano, a alma, e o corpo estão separados embora estejam a trabalhar em conjunto. Mas quando a obra está completa o espirito divino brilha através da alma e do corpo unindo-se com eles, formando um só corpo.113”
Esta procura de unidade é também uma inquietação artística; a obra faz-se em si mesma enquanto visibilidade dos estados de evolução do artista. Podemos exemplificar a procura desta unidade utilizando uma obra de Joseph Benoît Suvée, “A Invenção do Desenho” (1971).
Este quadro refere-se à obra de Plínio, acerca da origem do desenho, dizendo o seguinte:
“Trabalhando com a terra, Butades de Sícion, um oleiro, foi o primeiro a inventar, em Corinto, a arte de modelar retratos em argila, graças à sua filha. Ela apaixonada por um jovem que partia para o estrangeiro traçou na parede o contorno da sombra da sua face à luz de uma lamparina.”114
114 Idem
Fig.14 - de Joseph Benoît Suvée, “A Invenção do Desenho” (1971).
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O filósofo José Gil comenta esta descrição de Plínio no sentido de definir os limites do desenho dizendo:
“Aparentemente, a narrativa não conta senão a origem do desenho e da cerâmica. Que a tradição tenha retido da descrição de Plínio que o princípio da pintura nasce o desenho e a fixação espácio-temporal do contorno é o suporte para traços e cores que vão completar a figura da cabeça desenhada.115”
O que definiríamos como génese do desenho enquanto individuação* está
aqui circunscrita ao desejo de permanência de uma "presença".
Nesta origem, a dualidade espaço-tempo, altera-se e o registo de contorno pertence já a outro momento, o da génese como ponto de energia que gera a matéria primordial*.
A pergunta: “O que acaba quando o desenho começa?”, assim enunciada por Bernardo Pinto de Almeida a propósito da obra do pintor Júlio (1962), define essa ausência espaço-temporal, do risco do desenho, como identificadora da sua génese afirmando:
“É uma dessas forças – porque é de forças mais do que de forma que aqui se trata – essa do perpétuo devir, de fixação de um movimento de extrema suspensão em que, como num ciclo de respiração, o que acaba de acontecer exactamente no momento em que o próprio movimento interno do desenho, enquanto campo de manifestação de forças se dá por terminado.116”
* Principio de Individuation, es defenido desde Carl Gustav Jung como “aquele processo que engendra un individuo
psicológico, es decidir una unidade a parte, indivisible, un todo. Significa llegar a ser un individuo y, enquanto por individualidade entendemos nuestra peculiaridade más interna, ultima e incomparable, llegar a ser uno mismo. (…) solo la consciência de unidad estrecha limitación en la persona me une a la infinitude del inconsciente. En esta consciência uno se siente a la vez limitado y eterno.”
http://es.wikipedia.org/wiki/individuacion%c3%B3n
C.G.Jung - Recuerdon, sueno, pensamentos, p.381. Los três mundos: Barcelona, 2005.
* A matéria primeira na representação de algo que “preenche” a linha de contorno como o barro e a cor, manifesta sua
matriz fundadora no processo de individuação na arte. A cor, como símbolo desse caminho enunciado pelo Gato Chershire, na transmutação pessoal e espiritual, emerge em quatro estados: nigredo (morte espiritual leva à dissolução da matéria-
prima para gerar outra superior (ouro cabalístico), albedo – designa o segundo estado da alquimia: a purificação.
Asgravis.com
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A procura da unidade do gesto do desenho que aqui pressupõe a persistência de uma "presença", define ainda mais a ideia de génese como ponto de energia invisível que gera a matéria primordial; Bernardo de Almeida Pinto refere-a como uma “manifestação de forças, num movimento interior a si mesmo que o determina e que o comanda.”
O ponto de energia invisível que gera a matéria primordial e a antecipa em desenho é descrito por Eugen Herrigel na obra “Zen e a Arte de Tiro ao Arco”, a propósito do movimento em que arco, atirador e alvo são uma só coisa, deste modo:
“Mergulhado sem propósito naquilo que está a fazer, ele vai enfrentar aquele momento em que o trabalho, passando à sua frente em linhas ideais se realiza espontaneamente a si próprio (…) só o espírito se encontra presente, uma espécie de consciência que não revela quaisquer indícios de ego, e que por esse motivo abarca ilimitadamente todas as distâncias e todas as profundezas com “olhos que ouvem e ouvidos que vêem.117”
Este estado é também problematizado por Antonin Artaud, a propósito do “Teatro Alquímico", sobre o processo da génese como drama, teatro da crueldade, que Artaud diz ser possível analisar com base no que é comunicativo e “magnético” nos princípios de todas as artes:
"(...) e chegaram à conclusão de que este drama essencial existe sob o aspecto de algo mais subtil do que a própria Criação, algo que tem de se conceber como produto de uma vontade Una – Vontade sem conflito. (…) o drama essencial, o drama que está na raiz de todos os grandes mistérios e se associa à segunda fase da criação, a fase da dificuldade e do Duplo, da matéria e do espessamento da ideia.118”
Desta segunda fase enunciada por Antonin Artaud como a fase da
dificuldade do duplo, que ele refere como correspondendo à segunda fase da criação, anteriormente referida por nós a partir do conceito do conjunctio,
Antoine-Joseph-Pernety afirma: “ (...) o segundo nível unifica três coisas, o corpo, a alma e o espírito, reduzindo a trindade à unidade (...)”119
117 Artaud, Antonin - O Teatro e seu Duplo,p.56
118 Idem
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Para Artaud, “o teatro é o lugar privilegiado de uma germinação de forças que refazem o acto criador, formas capazes de dirigir ou derivar forças.120”
Artaud propõe um teatro alquímico capaz de causar uma grande transformação tanto no actor como na plateia. Para que este teatro aconteça é preciso que o actor seja um actor alquímico, "atleta afectivo".
A unidade em que o todo se manifesta encontra-se na singularidade do “Teatro da Crueldade”*, em que a raiz de Todos os Grandes mistérios se manifesta
na segunda fase da criação, enunciada por Artaud como a fase da dificuldade do duplo.
Artaud denomina por duplo o que é definido como sombra:
“Toda a verdadeira esfinge tem a sua sombra que a duplica; e a arte instala-se a partir do momento em que o escultor que modela acredita libertar uma espécie de sombra que dilacerará o seu repouso.121”
+
120 Artaud e a Utopia do Teatro – http://www.revistaponyodoc.com/3_andreac.pdf
* Artaud propõe defender o Teatro como “uma germinação de forças que refazem o acto criador, formas capazes de dirigir
ou derivar forças (...) um teatro alquímico capaz de causar uma grande transformação tanto no actor como na plateia, (...) é preciso que o actor seja um actor alquímico, atleta afectivo.” http://www.revistaponyodoc.com/3_andreac.pdf
121 Artaud, A. – O Teatro e o seu Duplo, p.32.
Desenho 1 - Angela C.
SMALL MAGNIFICAT. Little Shadows 4-100
Desenho 2 - Angela C.
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Na revelação da forma aparece o que está oculto, a sombra, e o que é cruel entre uma e outra mostra a tensão da sua génese, num processo em que o afastamento da memória dessa Unidade é multiplicador de formas que devêm crepúsculos de sensação, pontualidades evocativas, corpo gestual, em forma de desenho.*
Mantemos sob a intenção deste capítulo uma abordagem do conceito da génese, concluindo que “O que acaba quando o desenho começa” reside no afastamento da Origem; e o pulsar do traço, como potencial feixe de forças, encontra no desenho a sua mais imediata formulação. A formulação “da sombra, que por ser velada, é inexplicável e fundamental para que ocorra arte.122”
A segunda fase da criação enunciada por Artaud como a fase da dificuldade do duplo, que relacionarmos com o conceito de conjunctio, anteriormente citado: “ (...) o segundo nível unifica três coisas, o corpo, a alma e o espirito, reduzindo a trindade à unidade (...) ”, seria susceptível de encontrar no Teatro Alquímico de Antonin Artaud um universo paralelo no que toca ao “preâmbulo” da sensação. Afirmaríamos que encontramos no desenho
enquanto desígnio, a manifestação pura da matriz original de cada artista em que o duplo cohabita com a obra enunciando a última fase do conjunctio em que a Arte se manifesta.
Tal como escreve Bernardo Pinto de Almeida, “O que acaba acontece exactamente no momento em que o próprio movimento interno do desenho, enquanto campo de forças, se dá por terminado.123” Este “quando”, momento
dentro de movimento de campo de forças, define o desenho que termina na ligação à sua génese, à sua mãe principal que duplicada no terceiro elemento do conjunctio, encontra a temporalidade em que as sombras rompem com as suas limitações e dilaceram o repouso.
Quando o gesto do desenho acaba vive o seu duplo, a sombra
iniciática do terceiro nível do conjunctio, “...reduzindo a trindade à unidade.
* Em referência a esta ideia, achamos por bem acrescentar os meus desenhos da série Little Shadows, cujo principal
aspecto formal é o da relação da projecção de sombra com a forma.
122 http://www.revistaponyodoc.com/3_andreac.pdf
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O terceiro quadruplica porque unifica os quatro elementos em um, incluindo os outros três.” De novo o corpo, linha condutora destes argumentos, neste capítulo referido como “ubiquidades”, é entendido por Artaud como um atleta afectivo:
“O actor é como um verdadeiro atleta físico, mas com a seguinte correcção surpreendente, que ao organismo do atleta corresponde um organismo afectivo análogo, que é como o duplo do outro, embora não actue no mesmo plano.124”
O trabalho físico do artista, que é absolutamente indissociável da sua génese como identidade de essência entre o que revela e o que manifesta, encontra no desenho a tradução do enunciado mágico de sensação* a que Artaud
se refere do seguinte modo:
“Quando tudo nos leva a dormir, olhando esses olhos atentos e conscientes, é duro acordar e olhar as coisas como num sonho, com os olhos que não sabem para que servem e cujo olhar está voltado para dentro. É assim que aparece a ideia estranha de acções desinteressadas, mas é a acção de todo modo mais violenta por ladear a tentação do repouso.125”
124 Artaud, Antonin – O Teatro e o seu Duplo, p.162
* A propósito deste conceito não podemos deixar de citar Gilles Deleuze em “Francis Bacon, Lógica da Sensação”, em
reflexão anunciada a partir das referências sobre “Teatro da Crueldade” de Artaud: “Mas o corpo vivido ainda é pouco em comparação com uma Potência mais profunda e quase invisível. Com efeito, a unidade do ritmo só pode procurar-se no ponto em que o próprio mergulha no caos, na noite, em que as diferenças de nível perpetuamente se misturam com violência.” Deleuze, Gil- Lógica da Sensação, p.93.
Da violência que renasce como grito canibal definido no “corpo” de Artaud, o filósofo acresce: “ A sensação é o encontro da onda em forças que agem sobre o corpo, um “atletismo afectivo”, um grito-sopro; a sensação quando é assim posta em relação com o corpo deixa de ser representacional, torna-se real; e a crueldade estará cada vez menos ligada à representação de algo horrível, para passar a ser unicamente a acção das forças sobre o corpo ou a sensação.” Deleuze, Gil- Lógica da Sensação, p.95.
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6. DA SENSAÇÃO
“Dificilmente o que habita perto da origem
abandona o lugar.”
F. Hölderlin
Quando o gesto do desenho acaba, vive o seu duplo.
A sombra iniciática da “obra” no corpo do “atleta afectivo” procura dizer a sua origem. Essa ubiquidade multiplica-se em sensação.
A tradução dessa miragem em sensação-forma, sensação-matéria, conduz-nos a uma problemática orientada para a relação entre sensação e génese como potências geradoras de forma.
Antecipatória desse estado de vigília da acção desinteressada*, a
sensação do devir-presença é de suma importância na análise que Giles Delleuze faz sobre a génese da imagem. Indissociável desse continuum que dará visibilidade à sua matriz fundadora, a obra caminhará não para um terminus mas para um organismo identitário, uma identidade, em que a “obra” (numa alusão à OPUS MAGNUM), esse devir em si mesmo, ou como magistralmente é afirmado por Giles Delleuze: “O artista cria blocos de afecto, percepto e concepto, mas a única lei da criação é que o composto tem de se sustentar inteiramente por si.”126
A sensação permanece muito para além do corpo físico e do corpo do “atleta afectivo”, incitando outros “devir” à permanência autónoma do “composto”; mas o que é que dá poder à sensação, para que ela permaneça intocável na sua potência mais profunda em que o “encontro da onda com Forças que agem sobre o corpo”127 se manifesta?
* Artaud afirma o propósito do “atletismo afectivo”: “(…) é assim que aparece a ideia estranha de uma acção
desinteressada, mas é a acção de todo mais violenta por ladear a tentação do repouso.” Artaud, p.20
126 Delleuze, Gilles – Lógica da Sensação, p.14.
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Sobre esta auto-sustentação, que não é a do material da obra, Giles Delleuze deduz:
“O que se conserva em si é o percepto ou o afecto. Mesmo que o material não durasse mais do que alguns segundos, daria à sensação o poder de existir e de se conservar em si, na eternidade que coexiste com essa relação. (…) A sensação não se realiza no material sem que o material passe inteiramente para dentro da sensação, para dentro do percepto e do afecto. As “imagens no seu aparecer”, é isso que me interessa não são as imagens.”*128
Para o filósofo, o “atleta afectivo”, encontra na lógica da sensação um sujeito que “deve aceitar as múltiplas formas de transformação que a sensação desencadeia.*”129
O desígnio desse sujeito incorpora uma realidade acoplada a um corpo-sensação, também definido por Delleuze como corpo-sem-orgãos.
Nesse corpo, segundo Delleuze, “a sensação não é qualitativa e qualificada; a sensação tem somente uma realidade intensiva que já não determina nela dados representacionais, mas sim variações alotrópicas. A sensação é vibração.130”