Chapitre 4 : Activité de transfert de connaissances
4.1 Transfert en milieu pratique
Como abordado na Seção 5.4, a representação de conhecimento por conceitos pode facilitar a rastreabilidade entre os artefatos produzidos durante o desenvolvimento ágil, além de suprir a necessidade das metodologias ágeis referente a uma modelagem do domínio mais formal. Entretanto, considerando que as metodologias ágeis introduzem artefatos novos, alguns utilizados apenas por determinada metodologia em específico, torna-se necessário uma análise mais detalhada acerca do tipo de conhecimento ao qual cada artefato se refere. Tal análise poderá facilitar a equipe a identificar em quais artefatos pode estar certo conhecimento a ser consultado, bem como quais artefatos ágeis utilizar quando se deseja representar determinado tipo de conhecimento, no caso de se adaptar uma metodologia ágil de acordo com as características de um projeto.
Contudo, torna-se necessário primeiramente identificar os principais tipos de conhecimento presentes no desenvolvimento de sistemas. Desse modo, foi realizado um levantamento conforme relatado adiante.
5.5.1 Levantamento de tipos de conhecimento
Tendo como objetivo encontrar os tipos de conhecimento envolvidos no desenvolvimento e manutenção de software, foi realizado um levantamento em trabalhos relacionados ao assunto. A exemplo do levantamento sobre artefatos apresentado na Seção 5.4.1, o levantamento sobre os tipos de conhecimento também teve como embasamento teórico os conceitos de Revisão Sistemática, apresentados por [KIT04] e [BIO05].
A seguinte questão básica de pesquisa foi definida para o levantamento: “Quais os tipos de conhecimento associados ao desenvolvimento e manutenção de sistemas?”. A string padrão utilizada nas buscas foi: ("type of knowledge" OR "kind of knowledge") AND ("software development" OR "software engineering"). A string padrão precisou de alguns ajustes a fim de refinar os resultados de acordo com o mecanismo de busca, porém atentou-se para que esta não perdesse o foco do levantamento.
O levantamento considerou como fontes de pesquisa os trabalhos disponibilizados nas seguintes bibliotecas digitais: IEEE Xplore; ACM Digital Library; ScienceDirect; SpringerLink; SBC. Outros detalhes do levantamento foram suprimidos para não estender o relato, mas podem ser conferidos no protocolo apresentado no Apêndice D. No Quadro 5.2 são apresentados os trabalhos incluídos no levantamento sobre os tipos de conhecimento.
Quadro 5.2: Trabalhos considerados no levantamento de tipos de conhecimento
Autor Fonte Pesquisa
Estudo 1 Villela, Travassos e Rocha [VIL04] Paper SBC Survey Estudo 2 Santos et al [SAN05] Paper Springer Survey Estudo 3 Sousa, Anquetil e Oliveira [SOU04] Paper SBC Experimento Estudo 4 Anquetil et al [ANQ07] Paper Elsevier Experimento
Estudo 5 Kobayashi [KOB04] Paper IEEE Proposta
Estudo 6 Ramal, Meneses e Anquetil [RAM02] Paper IEEE Experimento
Estudo 7 Boh [BOH08] Paper Elsevier Survey
Estudo 8 Rodríguez-Elias et al [ROD08] Paper Elsevier Estudo de Caso
Por meio da leitura dos trabalhos selecionados identificou-se um total de 82 tipos de conhecimentos presentes no desenvolvimento de software. Entre os tipos de conhecimento mais encontrados nos trabalhos observados estão: Domínio da Aplicação; Codificação; Testes; Documentação de Software; Análise e Especificação de Requisitos de Software; Ferramentas
usadas; Linguagens e técnicas de programação; Distribuição de Competências entre os Profissionais da Organização; Processos Organizacionais e Estrutura Organizacional de Clientes; Projeto (design) de Software; Processo de Software da Organização; Estrutura Organizacional. Estes foram listados em pelo menos quatro dos oito trabalhos considerados.
A relação completa dos tipos de conhecimento é apresentada no Apêndice E, organizada de acordo com o grupo de conhecimento ao qual pertencem, conforme [SAN05] e [ANQ07], sendo eles: Conhecimento sobre Clientes; Conhecimento sobre Dados Históricos da Organização; Conhecimento sobre o Domínio; Conhecimento sobre Parceiros Técnicos; Conhecimento sobre a Organização; Conhecimento sobre Melhores Práticas no Desenvolvimento; Conhecimento sobre Manutenção; e Outros Conhecimentos.
5.5.2 Associação de artefatos aos tipos de conhecimento
Após a realização do levantamento dos tipos de conhecimento, procurou-se estabelecer uma associação entre os artefatos e os tipos de conhecimento a que se referem. Para essa tarefa, foi realizada uma revisão dos trabalhos utilizados no levantamento dos artefatos das metodologias ágeis, descrito na Seção 5.4.1. Para cada artefato, associou-se o tipo de conhecimento expressado, de acordo com as informações contidas sobre o artefato nos trabalhos que o abordava. Essa associação foi realizada para os artefatos das metodologias XP e Scrum, por serem essas as metodologias abordadas neste trabalho. Por meio da revisão realizada foi possível identificar, por exemplo, os tipos de conhecimento presentes nos artefatos de XP listados a seguir (a associação completa dos artefatos aos tipos de conhecimento encontra-se no Apêndice F):
- Estórias: Gerência de Projeto: as estórias contribuem para a gerência e são decompostas em tarefas a serem desenvolvidas para implementação dos requisitos [SMI03]; por meio de atributos como tempo estimado, prioridade e outros, as estórias possuem relação com o tempo de desenvolvimento, favorecendo a gerência de projeto [ABR04]; as estórias rastreiam o progresso do projeto e das iterações [KOK08]; Domínio da Aplicação: as estórias por meio de suas descrições, bem como prioridades estabelecidas pelo cliente, favorecem a compreensão do domínio para o qual o sistema será desenvolvido [HED03]; Análise e Especificação de Requisitos: para [HED03], [SMI03], [ABR04], [DUL04] e [TEL05], as estórias representam os requisitos capturados para o sistema; Planos de Projeto: além de favorecer o planejamento [SMI03], as estórias proveem um processo no qual estratégias de release incremental são desenvolvidas para evoluir o produto ao
longo do prazo; Estimativa de Custos: conforme [SMI03] e [ABR04], por meio do tempo estimado pela equipe e da prioridade definida pelo cliente, as estórias possibilitam a estimativa de custos no projeto; Negociação entre área do setor de tecnologia: possibilitam a negociação com o cliente com relação as funcionalidades do sistema [SMI03].
- Tarefas: Distribuição de Competências entre os Profissionais da Organização: as tarefas são distribuídas entre os membros da equipe [ABR04], assim uma consulta as tarefas de um projeto pode fornecer um quadro sobre a distribuição do trabalho na equipe; Gerência de Projeto: assim como as estórias, as tarefas permitem que o progresso do projeto e das iterações seja rastreado [KOK08]; Análise e Especificação de Requisitos: para [ABR04] e [DUL04], as tarefas são requisitos decompostos em nível gerencial; Implementação da Aplicação: as tarefas representam as atividades desenvolvidas para implementação dos requisitos estabelecidos para a aplicação [ABR04]; Projeto (design) de Software: as tarefas representam o projeto em essência [SMI03], pois expressam a maneira como os requisitos serão atendidos.
- Plano de Release: Gerência de Projeto: de acordo com [SMI03] e [DUL04], o plano de release consiste em um artefato clássico da gerência de projeto; Processo de Fornecimento de Produto: prevê para cada release a disponibilidade de valor ao negócio do cliente, por meio de funcionalidades a serem desenvolvidas [HED03]; Gerência de Configuração: o plano de release favorece a gerência de configuração e projeto [DUL04], incorporando aspectos como a duração de um release; Planos de Projeto: fornece um plano para o desenvolvimento do software [SMI03].
- Metáfora: Processos Organizacionais de Clientes: uma metáfora pode descrever processos organizacionais do cliente, visando ampliar a compreensão sobre os requisitos obtidos [KOK08]; Domínio da Aplicação: permite ampliar o conhecimento sobre o domínio por fornecer uma visão compartilhada sobre determinada situação [HED03]; Arquitetura do Sistema: conforme [HED03], [SMI03] e [DUL04], uma metáfora amplia a compreensão da arquitetura, explicando a essência de como o sistema funciona; Projeto (design) de Software: para [SMI03] e [DUL04], a metáfora relaciona-se com o projeto do sistema, demonstrando como determinada funcionalidade pode ser implementada.
- Descrição Arquitetural: Codificação: uma descrição arquitetural bem formulada pode fornecer uma visão em alto nível sobre a codificação do sistema [HED03]; Documentação de Software: segundo [HED03] e [ABR04], a descrição arquitetural é fundamental na documentação do software, incluindo detalhes técnicos; Arquitetura do Sistema: a descrição arquitetural provê
uma descrição sobre a arquitetura do sistema [ABR04]; Projeto (design) de software: pode demonstrar quais soluções foram empregadas no projeto do software [ABR04].
- Código / Comentários no Código: Codificação: de acordo com [HED03], [SMI03] e [ABR04], o código fonte refere-se a codificação/programação do sistema; Documentação de Software: um código bem estruturado, aliado comentários coerentes, é uma documentação fundamental sobre o sistema em metodologias ágeis [SMI03]; Implementação da aplicação: o código é a representação explícita de como a aplicação foi implementada [SMI03].
Essas associações são transformadas em uma ontologia, que contém os tipos de conhecimento presentes no desenvolvimento e manutenção de sistema associados aos artefatos produzidos nas metodologias XP e Scrum. Por meio dessa ontologia, os elementos dos artefatos produzidos, como as estórias US01 – Manter Cadastro de Pacientes e US03 – Agendar Consultas, também estarão previamente relacionados aos tipos de conhecimento, como ilustra o cenário da Figura 5.10.
Figura 5.10: Cenário de associação de estórias com tipos de conhecimento
Para o cenário da Figura 5.10, é possível realizar consultas e recuperar relacionamentos entre os artefatos associados aos tipos de conhecimento. A seguir será apresentada a estrutura ontológica que contém a associação entre artefatos e tipos de conhecimento e também possibilita a associação entre artefatos e conceitos do domínio.